terça-feira, 29 de setembro de 2020

Ser é a única Realidade

Como este encontro se desenvolve? Como ele acontece? Só há uma forma de isso acontecer, e é pela aceitação. Estamos lidando e tratando com o Desconhecido. Aquilo que é dito aqui é algo que precisa ser verificado pela Autoinvestigação, mas, até se chegar a esse ponto, é essencial a aceitação do ensino, da fala, do direcionamento, daquilo que é proposto aqui.
O aspirante à Autorrealização precisa confiar, e a aceitação é o primeiro passo. A confiança torna possível a Autoinvestigação, e ela é essencial, porque estamos tratando com o Desconhecido. Você precisa verificar isso por si mesmo, mas não tem nenhuma certeza de nada. A fala, em si, não trata da Realidade. Tudo o que ela coloca ainda é parte da ilusão.
O que estou dizendo é que você precisa confiar, embora essa proposta colocada em palavras não esteja tratando direto com a Realidade. Na verdade, estamos lidando com a ilusão. É necessária essa fase de atravessar esse ensinamento que não trata da Realidade. Ele A sinaliza, mas não trata diretamente Dela. Repare que é delicado o assunto... É necessário aceitar, confiar e, assim, torna-se possível a Autoinvestigação e a verificação direta.
Aqui, não tratamos de palavras, estamos sinalizando algo fora delas. A fala é necessária, o apontar é necessário e a aceitação pode trazer a confiança que abre a porta para a Autoinvestigação. Então, a qualificação necessária é receber com aceitação aquilo que é proposto. Essa visão precisa atingir profundamente cada um; ela não pode ficar na superfície, precisa adquirir profundidade.
No ego, nessa identificação com o sentido do “eu”, a sua vida é muito superficial, não há profundidade; é uma vida muito pobre, não há riqueza interna. Você pode apenas ficar nessa periferia, que está à parte, fora da Realidade. Esse sentido de autoria, de alguém no controle, é o sentido do ego, é a superficialidade.
As pessoas estão correndo na direção do destino, que é a vida superficial, conflituosa, no sofrimento e no medo. Essa é a alienação do seu Ser, da sua Natureza Divina. Uma das características do ego é essa “corrida” dentro do medo. Isso faz o mundo ter a interpretação que a mente produz. O mundo, nele mesmo, não tem nenhum significado, mas a mente consegue dar um significado a ele, consegue dar uma interpretação à vida.
Então, uma das características do ego, da mente egoica, é a crença em seu mundo. Todas as multiplicidades de experiências aparentes emergem desse “senso do eu”, e é dele que surge esse mundo, com o destino traçado por essa “corrida” dentro do medo, do conflito, do sofrimento, da confusão. Desvencilhar-se disso tudo é estar livre do ego, livre do mundo, é ver o mundo como ele é, a vida como ela é, ou seja, sem significado, porque você não vai projetar mais, não estará aí mais para projetar uma ideia, uma crença, um conjunto de planos sobre a vida ou sobre o mundo.
A vida tem que fazer sentido para a mente, ela tem que encontrar um significado e, quando encontra, ela encontra a “corrida”, ela volta para a “pista da corrida” do destino.
Nosso trabalho, aqui, é descobrir a beleza disso. Na Índia, eles chamam de “poder de Maya” o que faz esse mundo aparecer. Esse poder de Maya é a ilusão da ignorância. Não há nenhuma ignorância, como não há nenhum conhecimento. A Realidade transcende o conhecimento e a ignorância, mas o poder de Maya criou essa ilusão – a ilusão da ignorância.
Então, o que podemos chamar de “Maya” é ilusão e o que podemos chamar de “ignorância” é Maya. Tudo isso está acontecendo na mente. Ela é o cenário disso tudo, que é uma aparente criação. Apenas a Autoinvestigação, a Meditação, a Entrega, pode remover essa ilusão, a ilusão de Maya, a ilusão da ignorância e, naturalmente, a ilusão dessa existência como uma entidade separada.
A mente sobrepõe o seu mundo à Realidade, fazendo parecer que as coisas estão fora do lugar ou erradas, que está tudo fora de uma ordem. A mente tem essa noção de ordem, de controle, de certo e errado, e ela sobrepõe isso à Realidade presente, à Vida como Ela é.
Ser é a única Realidade, é a Fonte de tudo que aparece, é onde tudo se apresenta. Esse mundo não está separado do Ser, então está tudo no lugar, tudo em ordem.
Não é possível a mente compreender Isso, porque ela está baseada no tempo e no espaço, nesse processo do pensamento, dentro da ilusão, de Maya, dessa ilusão da ignorância. Por isso você não pode capturar Isso com o intelecto. Tudo o que a mente deseja é ter mais esse conhecimento. Ela já sabe tudo, mas o conhecimento e a ignorância não são testes de Realidade, porque a ignorância e conhecimento estão dentro da ilusão. Tudo isso é construção do tempo, uma fantasia.
Então, o que fazemos juntos em Satsang? Olhamos para isso tudo! É necessário se despir dessa estrutura falsa pela Autoinvestigação, pela Entrega, pela Meditação. O maior de todos os milagres é saber que você não está aí como acredita estar. O corpo está respirando, o som está sendo ouvido, mas isso é só a Vida acontecendo! Esse aparente indivíduo aí sentado, com toda sua história, é uma imaginação do pensamento sobre quem você é!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 29 de Maio de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sábado, 26 de setembro de 2020

Minha recomendação é a arte da Meditação!

Você precisa ir além da mente e, então, estará livre da ilusão da dualidade, que sustenta essa divisão conflituosa dentro de você, essa luta constante para encontrar algo, para se livrar da dor encontrando o prazer, se livrar do mal encontrando o bem, se livrar do erro encontrando o não erro, se livrar da morte encontrando a vida.
Essa dualidade, essa divisão, essa separação, é uma ficção, algo produzido pelo pensamento. A mente, aí dentro, está produzindo isso. Não é a Verdade sobre Você, é a “verdade” sobre a mente. Enquanto você estiver se confundindo com a mente, isso será a sua “verdade”, embora não seja a sua Verdade. Você terá isso como verdade porque é só o que você conhece.
Minha recomendação é a arte da Meditação. A Meditação começa quando há uma desidentificação desse modelo, uma quebra desse padrão, desse psicológico padrão de continuidade. Poucos estão dispostos a Isso! Isso significa absoluta e incondicional Liberdade, mas a “pessoa” não tem interesse Nisso. O “sentido de pessoa”, em você, está interessado em conquistas, em adquirir, em alcançar uma nova coisa. Então, esse movimento para o momento seguinte está sempre acontecendo – um movimento falso, ilusório, de pura imaginação psicológica. Mas, se você tem interesse na Liberdade, Ela precisa ser real, e Ela só é real se for incondicional. É necessário que tudo isso desapareça! Toda essa valorização da história do personagem que você acredita ser precisa desaparecer!
Quando um ator representa, em uma peça teatral, ele precisa se livrar do personagem depois. Ali, dentro daquele papel, daquela representação cênica, ele é um personagem muito útil. Mas o ator não é esse personagem! Após aquela cena, ele precisa se livrar do personagem, ou, então, ele estará com sérios problemas! Se ele continuar se confundindo com o personagem que acabou de representar no palco, se “levá-lo para casa”, ele vai ter problemas, porque não vai conseguir ajustar o personagem à sua chamada “vida real”. Isso é muito simples de se compreender!
Na verdade, você não compreende isso bem ainda, embora pareça que esteja entendendo o que estou colocando. A verdade é que você também é só um personagem, você o carrega para todo lugar. Você está se confundindo com ele quando diz que é um professor, uma mãe, um pai, um advogado, um empresário, um militar, um médico. Você está sempre se confundindo com esse personagem e esquecendo a Verdade de quem Você é.
Então, o que nós chamamos de “egoidentidade” é a história desse personagem que você acredita ser. Por exemplo, esses pensamentos que passam na sua cabeça dizem respeito a esse personagem, não tem nada a ver com o que Você é. Você não tem pensamentos, Você é pura Consciência! Você não tem história para contar, nem lembranças para recordar, nem imaginações para criar um psicológico futuro para você, porque você é Consciência!
A Consciência é o “ator” e o personagem é essa falsa identidade que tem amigos, inimigos, que está feliz, infeliz, que tem desejos para realizar e medo de perder. Então, a vida do personagem é um drama. Às vezes tem terror, às vezes comédia, outras vezes romantismo (essa coisa que chamamos de “amor” nas relações), e tudo isso é tão insatisfatório, tão incompleto, tão conflituoso, porque a mente está dentro desse projeto, sempre idealizando algo melhor do que aquilo que está acontecendo agora, aqui, nesta experiência, nestas relações. Então, o drama, o conflito, está presente sempre.
Então, por mais que você se esforce, o que quer que faça ainda estará dentro desse drama, será parte dele, desse projeto engendrado por essa falsa identidade que você acredita ser. Na verdade, você não sabe dizer quem Você é porque está se confundindo com todo esse drama, com todo esse projeto da “pessoa”, do personagem.
Você tem um trabalho pela frente. Não se preocupe, você tem uma vida para realizar Isso! Alguns, aqui, terão mais cinco, cinquenta ou setenta anos... Esse é o tempo que você tem e o seu trabalho é realizar Isso, constatar Isso, tomar ciência Disso! Você nasceu apenas para Isso! Você não nasceu para desempenhar e se envolver nesse drama. Esse drama é parte da história do personagem e o seu propósito real é descobrir a Verdade fora dele.
A maioria das pessoas morre como “pessoas”. Elas nascem como “pessoas” e morrem como “pessoas”. Elas nascem dentro de um drama, porque, na realidade, o nascimento é um grande drama, é o primeiro drama de todos – não é nada fácil nascer! Todos já nascem em confusão, com algum tipo de situação e, depois, a vida segue nesse drama. Você está aqui para descobrir algo fora desse nascimento!
O detalhe é que o que nasce no drama, nessa confusão, é esse personagem. Sua Natureza Divina, sua Natureza Essencial, não conhece esse nascimento. Isso é uma história que a mente está contando sobre quem você é, e você começa a acreditar nisso logo que esse drama começa. Nos primeiros meses, você já começa a acreditar nisso tudo e alguns passam a vida inteira apenas identificados com essa história, com esse personagem, vivendo esse drama. Então, a grande maioria nasce, cresce, se torna adulta e, depois, morre... mas a ilusão continua!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 05 de Agosto de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

14º - A Consciência de Deus

Há um Espaço, um pequeno intervalo entre dois pensamentos, do qual a maioria das pessoas não percebe a importância. Esse é o Espaço da Consciência Divina, de nossa Natureza Real, mas não crescemos Nele. Isso porque somos condicionados, desde pequenos, a vivermos identificados com os pensamentos, os quais têm produzido a sensação ilusória de que nós somos eles. É muito comum acreditarmos que somos os pensamentos, que estamos pensando, que somos os autores deles, que somos esse “eu”.
O pensamento tem esse grande poder de assumir uma identidade chamada “eu”, e nós vivemos assim durante toda a nossa vida. Esse “eu” surge nos primeiros anos de vida, com o ilusório sentimento de separação – “eu e o não eu”, “eu e o outro”, “eu e o mundo”, “eu e Deus” – e, assim, ficamos alienados de Deus, por estarmos inconscientes de nós mesmos.
Então, começamos a “dormir” nos primeiros anos de nossas vidas e esse “sono” vai ficando cada vez mais profundo, pois todos à nossa volta também estão nesse mesmo “sono”, têm os mesmos sentimentos, pensamentos, emoções e respostas às situações. Somos criados em uma sociedade inconsciente, adormecida. Acreditamos ser o corpo, os sentimentos, as emoções e os pensamentos, temos uma profunda convicção de que há um “eu” que é o autor de tudo isso, o que tem nos dado essa sensação separatista e, com ela, o desejo de permanecer como essa entidade e protegê-la.
Mas, realmente, quem sou eu? Existe, de fato, esse “eu”, essa entidade chamada “eu”, esse “eu” que se identifica com o corpo, os pensamentos, as emoções e os sentimentos? O que estamos dizendo é que, na verdade, há Algo em nós que não é esse “eu”, que é muito maior que “ele”! No entanto, Isso também não é o autor dos pensamentos, sentimentos, emoções, etc. Pode parecer um pouco estranho e confuso a princípio, mas precisamos investigar isso.
Tudo isso são coisas em Mim, que podem ser vistas por Mim, mas quem é esse “Mim”? Sou capaz de ver este corpo, portanto este corpo não sou Eu. Sou capaz de ver estes sentimentos, portanto estes sentimentos não sou Eu. Sou capaz de ver estes pensamentos em minha cabeça, portanto estes pensamentos não sou Eu. É o mesmo com as emoções: posso vê-las acontecendo a Mim. O corpo está mudando, mas continuo vendo essas mudanças acontecendo, portanto não sou o corpo, os sentimentos, as emoções e os pensamentos. Tudo isso está o tempo todo mudando! A pergunta se mantém: se posso ver isso acontecendo em Mim, o que é esse “Mim” ou esse “Eu” que vê isso?
Sim, temos um Ser ou, melhor dizendo, há um Ser que não é pessoal, que não podemos chamar de “meu eu” ou “eu dele”, “eu do outro”. Isso não existe! O que realmente existe não é individual, pessoal. Toda a nossa dificuldade é que fazemos uso do intelecto nesses assuntos, e o intelecto divide, separa e analisa. Não podemos alcançar isso pelo intelecto!
Não existe nenhuma separação ou divisão na Consciência, nenhum “eu”, portanto. O nosso Verdadeiro Eu, que não é meu, seu ou do outro, é a Consciência Divina, a Consciência de Deus, esse Espaço em nós que está além da mente. Estar Desperto, Acordado, é viver Livre, nessa Consciência Divina, nessa Consciência de Deus!
*Este texto, escrito pelo Mestre Marcos Gualberto, compartilhando a visão do Sábio sobre a vida, foi veiculado pela primeira vez em 16 de outubro de 2010. Trata-se da décima quarta publicação deste blog, fazendo parte do acervo relativo aos primeiros anos deste trabalho, cujos textos, após terem sido mantidos offline nos últimos anos, serão republicados em série, de forma comemorativa pelos dez anos de criação deste blog, este que foi o primeiro canal da internet através do qual este trabalho tornou-se público. Para mais informações, acesse o nosso site clicando aqui.

terça-feira, 22 de setembro de 2020

13º - É só um personagem

Estamos inconscientes de quem realmente somos, mas, na razão em que olhamos para dentro de nós mesmos, somos capazes de sair desse sono, dessa hipnose comum. Quando dizemos “olhar para dentro”, não estamos falando de uma introspecção com o seu isolacionismo separatista, com toda a sua fuga do mundo. “Olhar para dentro” é algo que ocorre naturalmente quando, pela autoinvestigação, descobrimos nossas reações de pensamentos, sentimentos, emoções, gestos e comportamentos. Esse é o nosso Real Despertar! Isso significa tomar consciência de quem somos, tanto interiormente como exteriormente.
O que tem parecido mais difícil é entender que essa mudança, essa transformação, não nasce da disciplina, não nasce da repressão, do esforço e, portanto, não é o pensamento que a determina, com os seus padrões de certo ou errado, de “faça isso” ou “não faça aquilo”. Esse é o caminho que temos seguido durante toda a nossa vida, ouvindo as pessoas dizerem o que é certo e o que é errado, mas, apesar de alguns ajustes de comportamento, algumas mudanças superficiais, algumas “melhoras”, continuamos os mesmos, com os mesmos medos, desejos e insatisfações, carregando conosco essa mente inquieta com todos os seus problemas.
Não estamos sendo pessimistas ou negativistas aqui, fazendo essas colocações. Na verdade, nós estamos prontos depois que reconhecemos que essa vida estreita, mesquinha, arrogante, confusa e desorientada pode chegar a um fim. Não estamos falando de chegar no túmulo, de quando o médico constata que o coração parou e não pode mais ser reanimado, mas do final disso que temos conhecido como “vida”, o que, na realidade, é somente nossa história de vida, cheia de conflito e confusão. Sim, essa “vida” pode ter um fim, pois ela não é nossa Vida Real, não é o nosso Ser real.
Essa “vida” que estamos vivendo é, na verdade, o que poderíamos chamar de “história de vida”. Toda nossa forma de agir, de falar, de pensar, de nos relacionarmos com pessoas, situações e desafios representam a história desse famoso personagem, desse “eu” que acreditamos ser. Nessas postagens, falaremos muito sobre “ele”, sempre sobre “ele”, pois “ele” é o único problema.
Todos aqueles que hoje estão livres sabem, sem a menor dúvida, que esse inimigo é irreal, apenas um personagem, como o de uma peça teatral, uma simples ficção. Porém, esse personagem tem assumido completamente o lugar do nosso Eu Verdadeiro. É exatamente como se um ator, convidado para viver um personagem, se identificasse com ele e se esquecesse de quem realmente é. Foi isso o que nos aconteceu! Fomos colocados no palco da existência e, aqui, alguns já despertaram, descobrindo que tudo isso é apenas uma peça teatral. Embora eles continuem no cenário, sabem que essa chamada “vida”, essa história de vida, é um papel escrito por mãos invisíveis e, assim, estão completamente desidentificados do personagem que representam, ou seja, já estão livres, enquanto os outros ainda não sabem, estão vivendo na ignorância, confundindo sua história de vida com a sua Verdadeira Vida, a vida do ego com a Vida do Ser, na identificação do pensamento como Consciência.
*Este texto, escrito pelo Mestre Marcos Gualberto, compartilhando a visão do Sábio sobre a vida, foi veiculado pela primeira vez em 15 de outubro de 2010. Trata-se da décima terceira publicação deste blog, fazendo parte do acervo relativo aos primeiros anos deste trabalho, cujos textos, após terem sido mantidos offline nos últimos anos, serão republicados em série, de forma comemorativa pelos dez anos de criação deste blog, este que foi o primeiro canal da internet através do qual este trabalho tornou-se público. Para mais informações, acesse o nosso site clicando aqui.

sábado, 19 de setembro de 2020

Não Dualidade é a Constatação da Realidade

Todos estão sempre buscando alguma coisa, e é isso que termina trazendo você a encontros como este. É algo bem interessante, porque, ao mesmo tempo que você tem fortes ideias sobre quem você é, acredita que alguma coisa especial vai lhe dar felicidade, vai lhe trazer paz, a resposta para essa busca.
Se eu fizer a pergunta para qualquer pessoa sobre quem ela é, ela responderá a partir de uma história sobre quem ela pensa que é. Essa pessoa terminará descrevendo o que viveu no passado ou o que sonha em realizar no futuro. Ela poderá, também, encontrar uma história sobre o papel que está desempenhando na vida, como o de pai, mãe, alguém que acabou de abrir um negócio, que está trabalhando duro para obter algum resultado... Ela contará, literalmente, uma história sobre o passado ou o futuro.
Você, como qualquer pessoa, não tem interesse no que está presente agora; seu interesse é sempre no que aconteceu ou no que vai acontecer. Você não pode me falar nada sobre si agora. Você faz isso com base em uma ideia de passado ou de um projeto para o futuro.
O que eu estou dizendo é que toda pessoa vive uma história criada pela memória, pela imaginação, ou seja, pelo pensamento. A pessoa diz: “Eu sou um comerciante”, “Sou médico”, “Sou advogado” ou “Sou um buscador espiritual”. Algumas pessoas têm interesse nas coisas deste mundo, outras têm interesse nas coisas de fora dele, e eu continuo perguntando: “Quem é você?”. Não o que você foi ou o que pretende ser, mas quem é você agora! Não a história que você pode contar sobre quem acredita ser ou quem deseja ser. Continuo perguntando: “Quem é você, agora?”.
Parece que todos estão vivendo assim, apenas com uma crença, com uma ideia. Eu tenho chamado isso de “imagem”, a imagem sobre quem você acredita ser. É essa “imagem” que está em conflito, com problemas, infeliz, assumindo diferentes formas de busca. Então, você pode perguntar a qualquer pessoa na rua, a qualquer pessoa que encontrar, o que elas estão buscando, o que estão procurando. Elas dirão que estão procurando popularidade, poder, amor, aceitação, compreensão, felicidade no relacionamento, no casamento... As pessoas casam-se para serem felizes, mas descobrem que ainda não o são, então passam a esperar que o marido ou a esposa mude. Elas têm quase certeza que, quando o marido ou a esposa mudar, quando ele ou ela parar com “aquelas coisas”, então serão felizes.
Existe sempre essa esperança, a procura por alguma coisa, por aquilo que as pessoas chamam de “realização da paz” ou “realização da felicidade”. Essa ideia de felicidade e de paz está baseada em alguma conquista, em alguma realização externa. Não é isso? “Eu tenho pouco dinheiro, mas, quando tiver mais, serei ‘feliz’”, “Nesse casamento a coisa não aconteceu, mas quem sabe no próximo...”.
Você acompanha isso? Não é uma coisa simples? Essa busca tem base na ideia de quem você acredita ser, na ideia de como o outro e o mundo à sua volta são, do que precisa ser mudado, acertado, ajustado ou conquistado.
Alguém que se identifica como uma pessoa espiritual está procurando outra coisa, algo fora do mundo, talvez um estado alterado de consciência, algum tipo de transformação ou experiência de Iluminação. Todos estão procurando algo, mas repare que essa busca assume diversas formas. Parece que as pessoas estão buscando coisas diferentes, mas, na verdade, o que procuram, basicamente, é viver sem medo, sem sofrimento, sem conflito, ou seja, em Felicidade, Amor, Paz.
Elas podem até ignorar o que estão buscando, mas é algo que está dentro delas e não fora. Porém, a mente diz que Isso está fora, e é aí que tudo começa, é aí que a confusão começa, porque começa a ideia de futuro, de tempo, de realização externa.
Então, repare que você foi condicionado, programado. Você vive copiando seus pais, que copiaram seus avós, que copiaram os seus bisavós... Todos vivem esse modelo, essa loucura! Eu chamo isso de “loucura”, porque é, na verdade, um afastamento do próprio propósito. Se seu propósito é a Felicidade e você está trabalhando sob a direção da mente, com seus interesses, projetos, anelos, e sonhos, os quais estão sempre ligados ao que está do lado de fora, você está em um movimento de loucura, porque está esquecendo O que é, ou quem Você é agora, criando um ideal de futuro.
Você quer encontrar a Felicidade amanhã, mas esse “amanhã” nunca chega. Se não sabe a Verdade sobre si mesmo agora, aqui, e segue esse movimento louco da mente de procura por algo externo, você está em um verdadeiro afastamento da real possibilidade de Realizar a Verdade Divina, a Verdade que Você é, a Verdade que Você traz aí dentro, Aquilo que é inato, o seu próprio Ser.
Então, quando você procura um próximo momento, acreditando que ele trará algo melhor ou maior, está apenas perpetuando a continuidade da mente egoica em seu velho movimento de desejos e medos. Alguns estão em uma chamada “procura espiritual” e podem achar que estão em uma condição melhor que outros, porque estão em busca da Não Dualidade, da Verdade não dual. No entanto, a própria expressão “não dual” aponta para Aquilo que já está presente, aqui e agora, dentro desta experiência, deste instante, deste momento.
Então, mesmo essa procura pela Não Dualidade ainda é uma grande ilusão, porque Isso não é uma meta, um objetivo, algo a se alcançar. Não Dualidade é a Constatação da Realidade, a Vida como Ela é, como Ela se mostra neste instante, aqui e agora. Não se trata de algo externo ou algo para o momento seguinte; a Realidade Divina é algo presente! Não se trata de uma realização externa, mas sim de uma Constatação Daquilo que está presente aqui e agora.
Apenas Isso pode terminar com essa busca, quebrar toda essa fantasia de que você será feliz quando alguém ou algo mudar ou quando algo externo for alcançado. Se a Realidade está presente, se a Verdade é não dual, se não existe essa separação entre Você e a Realidade, então a Vida é perfeita como Ela é, está tudo no lugar, não existe nada faltando.
Aí, surge a questão: “Mas e esse conflito, toda essa confusão, sofrimento, desejo, medo e busca que eu sinto que existem dentro de mim?”. O ponto é que você está falando do movimento da mente, não está falando de Você. Em Você, não existe nenhuma busca, mas, na mente, existem milhares! São milhares de coisas ainda para serem resolvidas! Em Você, não há nenhum problema, mas a mente está cheia de problema! Em Você, não existe ansiedade, medo, sofrimento, conflito de nenhum tipo, mas, na mente, não para de existir isso, o tempo todo!
A mente está bombardeando-o de noções equivocadas, de crenças, fazendo-o acreditar em coisas, acreditar nessa divisão entre o bem e o mal, entre a verdade e a ilusão, entre a tristeza e a alegria, entre a paz e a guerra. A mente está produzindo esse conflito, essa dualidade, e é com ela que você tem vivido, é nela que você tem confiado. Isso se tornou o seu modelo de vida. O que você chama de “vida” é contar uma história sobre quem acredita ser, dentro desse modelo.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 05 de Agosto de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

O coração do meu ensinamento

O coração do meu ensinamento é a Visão da Realidade de que não existem “pessoas” aqui. A minha abordagem é de que não há nenhuma “pessoa” presente. A “pessoa” que você acredita ser é uma imaginária “entidade”, apenas um conceito mental. Há pensamentos, sentimentos, emoções, sensações, mas não há “pessoa”; esses fenômenos não são uma “pessoa”.
Esse imaginário conceito, essa crença, particulariza o que acontece e transforma fenômenos simples, como pensamentos, sensações e percepções, em problemas. No entanto, eles não são problemas! Eles apenas aparecem ou se erguem, se levantam, para depois desaparecerem nessa Verdade, nessa Consciência, nessa Presença, que é Você.
Então, não existe esse “você”. Essa personalidade é apenas um antigo conjunto de imaginações, pensamentos, representações mentais, conceitos. O seu sofrimento surge porque você pensa sobre o que acontece. A sua dor emocional está presente nessa imaginação de ser uma entidade particular na experiência, para quem as perdas e as situações difíceis não podem acontecer. Tudo isso é imaginação!
As pessoas querem uma prática para vencerem o sofrimento, mas o “sentido de pessoa” é o sofrimento! Não há nenhuma prática capaz de remover isso! O sofrimento é a rejeição da vida, é a tentativa de ajustar o que acontece ao modelo imaginário do “eu”, à ficção desse personagem; é a resistência dessa ilusória identidade ao misterioso movimento da vida.
A vida é algo que está sempre mudando, sempre encontrando uma nova representação. É algo vivo! Aquilo que está vivo, está em um movimento desconhecido, sempre imprevisível. Você não é real como acredita ser, mas existe. A questão é: você tem consciência de quem você é? Colocando de lado toda essa imaginação sobre o que você acredita ser, quem é você?
Desde a minha infância, tenho procurado Isso, eu só não sabia. Você está aqui para encontrar a Verdade sobre a sua Natureza Real, sobre a sua Natureza Verdadeira. Isso não pode acontecer lendo livros, refletindo, tendo ideias, criando teorias, hipóteses, estudando filósofos ou abordagens teológicas. Você tem que estar face a face com a Claridade! Na escuridão, Isso não é possível, e tudo o que a mente conhece é escuridão. Então, você pode ler todos os livros do mundo, se envolver com todas as formas de práticas espirituais, trocar de religião, mas nada disso resolverá.
Estar face a face com a Claridade é olhar para Si mesmo, e não para o que os outros dizem, para o que o pensamento diz, para aquilo que o sentimento diz sobre quem você é. “Ainda não sou bom o suficiente”, “Ainda não sou feliz o suficiente”, “Ainda não tenho a paz que desejo ter”, “Ainda não encontrei a liberdade que procuro”… Esses são pensamentos acontecendo dentro dessa escuridão da mente. Quando você está face a face com essa Claridade, com essa Clareza, você está além dos fenômenos temporários, além daquilo que a mente pode produzir.
Todos os pensamentos, percepções, sensações e emoções aparecem na mente, fazem parte dela, e ela está nessa escuridão. Tudo isso se move dentro daquilo que é passageiro, temporário, mas nada disso é Você. Portanto, Você existe, mas não é real como acredita ser. Você é Real como é, e não como o pensamento, o sentimento e a sensação dizem que você é. Aquilo que chamamos de “mente”, que está na escuridão, é simplesmente sensação, pensamento, percepção, emoção, algo dentro dessa história de “alguém”.
Portanto, o coração da minha fala, aquilo que torna viva a minha abordagem, é o fato simples de que só há Consciência. Deparar-se com Isso é deparar-se com essa Claridade, é estar com a face voltada para a Claridade. Compreendam isso! Os pensamentos estão passando, assim como os sentimentos e toda forma de percepção, por mais bonita e agradável que seja, enquanto Você, como Pura Consciência, não passa, não muda.
Esses dias, alguém me disse que estava preocupado com a questão da velhice. A velhice, a doença e a morte são problemas para todos. Na realidade, são os problemas mais sérios da existência, mas da existência do corpo, da mente. São coisas que atingem a mente e o corpo, mas não podem tocar Naquilo que Você é. A Realidade de sua Natureza Essencial é sem velhice, doença, morte, tempo e espaço. É apenas para a mente, na ideia “eu sou o corpo”, na sensação “eu sou o corpo”, no sentimento “eu estou aqui” e “eu sou alguém”, que os problemas se encontram.
Quando um representante comercial visita uma empresa para oferecer os seus produtos, ele precisa ser fiel à empresa para a qual trabalha. Se ele não representar bem a sua empresa e os produtos que ela tem para oferecer, ele não conseguirá fechar um bom negócio. No mundo dos negócios, essa é a base correta. Aqui, o que a mente procura fazer é criar uma representação Daquilo que Você é, nessa misteriosa relação com a Existência, com a Vida. No entanto, a mente é uma péssima representante, não representa corretamente a companhia.
O que eu estou dizendo é que você tem comprado um produto falso. Você é a Existência, é a Vida, e a mente está procurando criar uma representação do que Você é, fazendo a sua oferta. Você tem acreditado ser aquilo que não é, está fazendo uso de um produto falso, oferecido por uma companhia que não existe. Eu tenho dito que a “pessoa” é uma fraude, e a companhia que essa pessoa representa não existe! Os produtos que ela tem para oferecer são tão falsos quanto ela! É por isso que você sofre.
São sete bilhões no planeta, mas quem tem interesse em saber a Verdade sobre Si mesmo em meio a toda essa confusão? O que é Paz Real? O que é Amor Real? O que é Felicidade Real? O que é Liberdade Real? O que é Inteligência, Sabedoria, Compaixão? Como você pode ser um representante legal e real, uma bênção da Vida para a Vida, quando a mente está presente procurando tomar o lugar da Realidade, tentando parecer ser aquilo que ela não é?
Você é a Vida! Você é a Consciência! Você é Deus! Não há sofrimento no que Você é! Não há conflito, ignorância, medo ou problema no que Você é! Isso está presente apenas nessa falsa representação, nessa falsificação.
Você nasceu para ser Feliz, não para ser “alguém”. Você aprendeu, neste mundo, que você nasceu para ser “alguém”. Toda sociedade e cultura o incentivam nessa direção: quanto mais reconhecido, mais valioso e importante você é, para si mesmo e para os outros. A sociedade não se importa se você, internamente, continua sendo miserável e infeliz, se você está em depressão, se você se sente frustrado existencialmente, se você não tem paz internamente. Todo interesse da cultura e da sociedade em você está na sua produção.
No ego, você aprende a ter inveja dos bem-sucedidos, dos que se destacam externamente. Para a sociedade, não importa como essas pessoas se sentem, como elas estão internamente. A sociedade quer ouvir a música que elas têm para tocar ou cantar; quer ver a dança que podem apresentar ou o quadro que podem pintar, a peça de escultura que podem exibir... Isso as torna famosas, bem-sucedidas. São todas representantes dessa falsa companhia, apresentando produtos da ilusão, vendendo o falso como verdadeiro.
Você aprendeu, neste mundo, a ter interesse em uma felicidade de fachada, em um amor de aparência, em uma liberdade reativa, na perseguição de princípios ideológicos. Então, você vem parar em Satsang e descobre que tudo isso é falso, que nada disso é real, e que mudando só o aparente e o externo, todos continuam na mesma condição de sofrimento, de conflito e de dor. O medo, o sofrimento, o conflito são comuns a todos!
Ninguém se pergunta “quem sou eu?”, mas todos dizem “eu vou vencer, serei famoso, rico, bem-sucedido, terei uma pessoa bonita do meu lado, mais alguns filhos (pelo menos três, quatro ou cinco), estarei em breve cercado de muitos netos e logo serei também bisavô”. Talvez, antes disso tudo, a morte aconteça; talvez, não. O ponto é que todos morrem sem saber quem são, sem conhecer a Verdade sobre si mesmos, sem conhecer Deus, sem conhecer o Amor, a Felicidade, sem saber por que nasceram.
O Estado Natural não tem nada a ver com fama, nome, prestígio, reconhecimento público, poder, dinheiro, sucesso. O Estado Natural é nossa Natureza Verdadeira, que é sem esforço, cheia de Alegria espontânea, de Liberdade! Para mim, “natural” implica alguma coisa fora das influências do mundo da mente, algo sem esforço, espontâneo, feliz, presente, plena Consciência! Isso é algo original, não é uma cópia, uma imitação, uma repetição.
Então, quando eu uso a expressão “Estado Natural”, estou me referindo a algo como Deus. Não é nada especial, nada diferenciado, nada com uma particularização, uma projeção, uma representação. Você não pode vender o Estado Natural, não pode ser um representante Dele para esse mundo caótico, em desordem e confusão. Na mente, você só pode ser um representante da mente, você só pode representar uma companhia fake, com produtos manufaturados por ideias, crenças, imaginações. O Estado Natural é Inteligência!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro intensivo online, na manhã do dia 27 de Junho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

Estar em Satsang é a chave!

Dentro da Visão da Realidade, não existe nada separado ou à parte do próprio Ser, da própria Consciência. Estamos apenas diante de um espetáculo, de um show.
Quando vai a uma joalheria, você vê muitas peças feitas do mesmo material. Cada uma pode até ter um valor diferente, mas você vê que foram feitas do mesmo material. Você encontra anéis, brincos, colares, pulseiras, todos feitos de ouro. Essas peças têm aparência e formas diferentes, mas são confeccionadas do mesmo tipo de material.
Na visão de um Ser Realizado, tudo é “ouro”! Esta é a beleza do Despertar, da Realização Divina: não há diferenciação. O homem comum está olhando as “peças”, mas está esquecido do “ouro”. O Sábio está vendo o “ouro” e, mesmo assim, ele não deixa de apreciar as peças. Para ele, o valor está no “ouro” e não no formato que ele assume, até porque o formato é temporário, mas o “ouro” permanece.
Se uma peça de ouro for derretida, ela voltará para a sua natureza, da qual nunca se separou. Simples isso, não é? Quando falamos do Despertar da Sabedoria, que é a Realização da Verdade sobre si mesmo, estamos falando da natureza desses ornamentos, dessas peças. Todos esses ornamentos não são nada além de ouro. Cem gramas de ouro em uma pulseira são os mesmos cem gramas de ouro em um relógio. O peso e a natureza são os mesmos; o formato é diferente.
Na mente egoica, você aprende a valorizar a forma. Na Consciência, em seu Natural Ser, sua apreciação está na não forma. Essa é a visão da Realidade! Quando isso fica Real – não como uma teoria ou uma crença –, o medo e o sofrimento desaparecem. Aliás, não se separa o sofrimento do medo. Onde há medo, há sofrimento.
Quando olha para o mundo, você vê as coisas acontecendo, aparecendo e desaparecendo. Esses acontecimentos são mudanças e isso causa medo. Para a mente, tudo tem que ser do jeito que ela quer que seja. Se for algo prazeroso, não pode mudar; se traz algum nível de satisfação, não pode desaparecer, tem que continuar lá. No entanto, a vida não é assim. Nessa caminhada, nesse trabalho de Autorrealização, você passará por muitas situações, e isso é natural. O medo é uma das coisas, atrelado à imaginação, ao desejo, e tudo isso precisará ser visto.
Enquanto você estiver acreditando na aparência e esquecendo a natureza da “joia”, enquanto estiver acreditando que é o corpo, que é a mente, a dúvida e o medo o seguirão como uma sombra, e o sofrimento como um guarda-sol. Você estará muito bem protegido com um guarda-sol desse tipo, só não sei de quê.
Assim, você tem uma proteção falsa. Enquanto for um aspirante a essa Realização, estiver dentro desse processo, desse trabalho, será natural que o medo se levante e que o sofrimento o acompanhe, exatamente porque existe essa identificação com a mente e o corpo.
Na razão em que vai se desidentificando do que o pensamento diz sobre quem você é, sobre o que a vida é, você começa a perceber que não há razão para a resistência, para essa luta contra a vida, como ela se expressa. Então, o sofrimento vai perdendo o lugar e o medo também.
O medo-sofrimento (não separamos uma coisa da outra) é uma companhia da mente egoica, dessa ilusão acerca da verdade sobre si mesmo. Isso significa que a natureza da “joia” foi esquecida e o formato dela vem sendo apreciado como algo real. Você não sabe quem é, mas acredita ser o corpo e ter uma mente. Você está em estado de esquecimento sobre a Verdade de si mesmo.
Jesus dizia que o corpo não é mais que uma vestimenta e o que você chama de “vida”, não é mais que uma provisão, um mantimento. Na verdade, se você observar, o corpo é constituído de alimento. Quando você come, o corpo cresce. Então, comida é o corpo. Sem alguma forma de comida, o corpo vai desaparecer, porque sua natureza é comida. Ele come e também é comida... Quando volta para a terra, ele se torna comida também. Na natureza é assim, tudo come tudo, tudo se alimenta de tudo, e toda aparência é como a aparência da “joia”, não é sua Natureza Essencial.
O principal problema é não acolher a vida como ela se apresenta. Essa resistência é a causa do medo, que tem como companhia o sofrimento. Quando tenta encontrar solução para esse problema criado e imaginado pelo pensamento, você busca felicidade em coisas externas. Dessa forma, você está só colecionando “joias”, colecionando formas, juntando aparências.
Repare que sua mente está sempre fixada em aparências: objetos, pessoas, situações... Então, buscar a solução para esse problema do viver – que é uma imaginação do pensamento – em coisas externas, no mundo externo, é um grande erro.
Outra coisa que acho importante dizer para você é que essas falas, como nascem do Silêncio, que é essa Consciência, como a Fonte delas é a própria Natureza da “joia”, elas têm um grande poder de recordação. Repare que, quando me escuta, você tem uma espécie de “recordação” Disso. Fica claro dentro de você que Isso não é algo estranho, que é algo que você já sabe, do qual só está sendo lembrado. Você está tão absorvido pela aparência, que esqueceu a Natureza da “joia”. Está tão absorvido pela aparência do “colar”, do “brinco”, do “anel”, que esqueceu o “ouro”. Então, vem uma voz e diz: "Aqui está o ‘ouro’! Isso não é só um ‘anel’, um ‘brinco’ ou uma ‘pulseira’”.
O propósito dessas colocações é que elas encontrem um espaço em você e criem uma correção no seu modo de ver a si mesmo, o mundo, o outro, o que está acontecendo à sua volta e dentro de você. Claro que isso acontece somado a um trabalho de Presença, de Graça, de Poder Divino, algo que só é possível dentro de Satsang. Quanto maior sua aproximação de Satsang, maior é esse Poder. Quanto maior o seu investimento nessa aproximação, maior é o retorno de resultado. É algo cumulativo. A princípio, você não vê muita coisa, mas algo vai acontecendo apesar de você.
Então, esteja em Satsang! Só estando dentro desse encontro você vai saber o que Isso significa. De longe, você pode só imaginar; dentro, você vai saber! Estar em Satsang é a chave! Apenas dessa forma, esse fundamental problema de autoesquecimento, de confundir a aparência com a Realidade, de confundir o que é externo com Aquilo que é inato e interno, se dissolve. Esse problema de autoignorância, que é autoesquecimento e, ao mesmo tempo, autolimitação, é sustentado pela ausência da Meditação, que é algo que acontece com muita naturalidade, sem qualquer esforço, dentro de Satsang.
Você tem muitas formas de fazer uma viagem, pode pegar vários meios de transporte. Dependendo do meio de transporte em que embarque, você pode chegar de forma mais rápida ou não ao destino. Não há pressa nessa Consciência. Deus não tem pressa! Você pode Realizar Isso agora ou pode deixar para daqui um bom tempo; e, quando eu falo "um bom tempo", estou dizendo um bom tempo mesmo!
Satsang é um “meio de transporte”. Não é como viajar trezentos quilômetros de bicicleta, de carro de passeio ou de avião. Qual desses três meios de transporte resolveria mais rapidamente esse seu problema? Uma bicicleta, um carro de passeio ou um avião? Pois é, Satsang não é nenhum desses três... Satsang é um foguete!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 24 de Junho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sábado, 12 de setembro de 2020

O princípio da Sabedoria

Estarmos juntos mais uma vez, neste encontro on-line, é uma linda oportunidade. É importante você estar aqui com uma clara disposição, com um desejo real de investigação, de averiguação, de observação. Satsang é um encontro desafiador, e sem essa interna disposição, que requer Inteligência, não é possível você descobrir o que estamos tratando aqui. Minha intenção aqui não é tentar convencê-lo da necessidade dessa Autorrealização, pois se você está aqui, aberto a esse tipo de assunto, é porque isso já ficou claro.
Assim, dizer para você que a sua vida é complicada, difícil ou infeliz não faz o menor sentido, uma vez que você já descobriu que há algo aí faltando, que há um vazio. Não estou aqui tentando convencer você de alguma coisa. O real devoto é discípulo da Verdade! Quando ele pergunta “qual é a realidade da minha vida?” ou “o que isso significa?”, isso já está nessa Inteligência que acabei de falar.
Então, não preciso lhe provar nada, até por que qual é o significado disso tudo? Qual é o significado disso que você chama de “vida”? O que é a vida? Você vive trinta, quarenta, cinquenta ou sessenta anos... Os mais afortunados (não sei se mais afortunados), ou os mais audaciosos, chegam aos oitenta, mas qual é o significado de tudo isso? Por que uma vida tão longa se ela é tão confusa, com tanta desordem, desespero e sofrimento, com apenas alguns poucos momentos de alegria, e você carregando um sentido de insatisfação profunda aí dentro?
Algumas pessoas vêm a esse encontro e têm a impressão de que eu tenho que convencê-las de que a vida delas tem algum sentido. Então, por que estamos aqui? O que é a vida? Por que esses quarenta, sessenta, oitenta anos, se você não sabe a Verdade sobre Si mesmo? O propósito aqui não é convencê-lo de que você é infeliz, até porque a mente tem fortes defesas. Se você é um discípulo da Verdade, não precisa ser convencido de que existe algo além dessa condição de “vida humana”. A única coisa que importa realmente, para você, é descobrir O que Você é.
Eu não estou dizendo para você descobrir o significado da Vida, pois Ela não carrega nenhum significado, mas carrega uma Beleza indescritível quando você descobre a Verdade sobre Si mesmo. Então, escute com atenção: você não vai descobrir o significado da Vida, porque Ela permanecerá sempre um extraordinário e belo Mistério. Se você sabe a Verdade sobre Si mesmo, sabe o que estou dizendo, mas, se você não sabe, a “sua vida” é somente confusão, com poucos momentos de satisfação e algum nível preenchimento, e, internamente, você carrega um enorme vazio. Acontece que você deixa de ser criança, torna-se adulto, casa-se, tem meia dúzia de filhos, e eles crescem sem saberem nada sobre si mesmos também. Assim, como você, eles não conseguem ver a Beleza que é a Vida e, ainda, há todo esse apego, esse medo de perdê-los, toda essa confusão.
Agora há pouco eu falei da Inteligência para investigar isso... Eu me referi à Real Inteligência, Àquela que torna possível o Despertar. A “inteligência” que você conhece − que facilita o “ganhar o pão”, fazer dinheiro ou ter sucesso no mundo − é bastante limitada. Nela, você continua, internamente, sem saber a Verdade sobre Si mesmo, portanto, sem desfrutar dessa Beleza que é a Vida. Então, não é dessa inteligência limitada que estou falando aqui. Estou apontando para a Inteligência do Sábio, daquele que descobriu a Verdade sobre Si mesmo e a Beleza de que a Vida não carrega nenhum significado, embora continue extraordinária, misteriosa, uma obra da Graça, uma obra Divina, de Deus. Essa Visão sobre Si mesmo nasce da Meditação, da ausência desse movimento caótico, complexo, em desordem, que é o movimento da mente. Quando há ausência dessa desordem, desse movimento da mente egoica, Algo se revela.
Então, quando usamos a expressão “autoconhecimento”, estamos dizendo algo completamente diferente do usual. Autoconhecimento é a Realização de que não há um “eu”. Vocês entendem? Isso é necessário ser compreendido. Repito: o Real Autoconhecimento é a Compreensão de que não existe esse “eu”, algo completamente diferente de entender a si mesmo. Eu falo em conhecer a Verdade sobre O que Você é, não em “conhecer a si mesmo”, no sentido de saber lidar com a “pessoa”, com a personalidade. O que você tem em psicologia, em terapia, é aprender a lidar com a “pessoa” que você acredita ser.
Aqui, estamos falando de outra coisa, da Verdade sobre O que Você é, não sobre o jeito de lidar com a “pessoa” que você acredita ser. Essa investigação da Verdade sobre Si mesmo é o princípio da Sabedoria, e é Isso que chamo de Real Inteligência. Sem Isso, você pode ser muito bem-sucedido no mundo, mas é infeliz, vive internamente em confusão, consigo mesmo e com o mundo, preso, cheio de desejos e medos, cheio de apegos. Quando você olha para o mundo (falo desse mundo próximo, das suas relações com esposa, filhos, parentes...), vê que as pessoas estão em desordem psicológica, em confusão interna, presas às suas crenças, aos seus conflitos, aos seus medos, e acredita que isso seja natural.
Eu tenho dito que isso é normal, mas nunca disse que é natural. Essa crença está aí porque você não tem nenhum parâmetro, nenhuma referência, pois todas as pessoas com quem convivemos estão em desordem interna, em conflito interno, não são Inteligentes, no sentido em que foi colocado aqui. Elas podem ser realizadoras, mas não são Inteligentes; conseguem até realizar alguma coisa externamente, porém isso se torna, também, uma base para alguma forma de conflito, de medo. Não há Liberdade, porque não existe Autoconhecimento. Então, essa investigação da Verdade sobre Si mesmo é o princípio da Sabedoria, dessa Inteligência. Isso está presente quando esse falso “eu”, essa ilusão sobre si mesmo, termina.
Satsang significa encontro com a Verdade. Então, você se depara aqui com esse modelo de crenças, com essa autolimitação, à qual você está se sujeitando constantemente. Você está vivendo nessa condição, dentro desse modelo, mas, quando há um raio de Inteligência, fica claro que essa não é uma condição natural, embora seja comum a todos. Então, o nosso interesse aqui não é estudar Filosofia, Religião, Psicologia ou qualquer ciência relativa a comportamentos humanos. Estamos aqui apenas para investigar a Verdade sobre nós mesmos.
O que tem mantido você nessa condição? Que espécie de limitação é essa? Que conjunto de crenças são essas? O meu Mestre sempre colocava para as pessoas a importância da pergunta: “Quem sou eu?”. Nesse momento, por exemplo, você não está ouvindo alguém que conhece coisas. Então, eu não tenho coisas para lhe ensinar. Não trato de Psicologia, Filosofia nem de Teologia. A única coisa que eu posso lhe perguntar, também, é isso: “Quem é você?”. Eu quero lhe mostrar a possibilidade de viver livre dessa autolimitação que a mente tem produzido. Então, Meditação é a arte de viver sem esse conteúdo de limitação, de crenças; sem esse fundo de condicionamento, de programação.
Vocês compreendem isso, que não existe nada para se aprender aqui? Você não aprende Meditação, não aprende Autoconhecimento... Você não aprende o Despertar; você Desperta!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 17 de Junho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 10 de setembro de 2020

Inteligência é o Florescer da Consciência

Satsang significa estar em boa companhia, na companhia do Divino, do Sagrado. Isso é uma oportunidade para o mergulho na Compreensão de Si mesmo. A desordem interna, psicológica, de conflito, medo e sofrimento é o comum. Já a Clareza, a Inteligência, a Sabedoria, não é algo tão comum. Nesses encontros, estamos interessados em ver Isso de perto, em conhecer diretamente Isso, em reconhecer a Verdade que somos.
No entanto, esse tipo de encontro não faz muito sentido para aqueles que não estão prontos, ainda, para esse momento. Aqui, qualquer tipo de avaliação, julgamento ou comparação soa muito estranho, pois não se trata de um assunto para se ouvir com um fundo de conhecimento. Esse conhecimento é algo que apenas distorce aquilo que está sendo colocado.
Outra coisa importante é que aqui o nosso interesse não está nas palavras, em ouvir e conhecer palavras, porque a Verdade não se revela através delas, mas sim pela vivência direta. Você vive Isso quando sente diretamente o que está sendo colocado aqui; não se trata de um entendimento verbal, analítico, filosófico, intelectual. Então, tenha um pouco de paciência e descubra o significado desse ouvir sem uma base de conhecimento. Você não precisa do conhecimento aqui.
A Verdade não se trata de algo que você possa cultivar, como uma planta que você tem no jardim. A Verdade não é algo assim, não é cultivável. Em outras palavras, não existem degraus ou escalas para se alcançar Isso, não é Algo que se adquire passo a passo. Então, Isso soa completamente estranho a tudo que a mente conhece, até porque não se trata de um conhecimento da mente.
Geralmente, você vive na desatenção, e Satsang é um convite para a Vida Consciente, Inteligente, para a Liberdade de toda a confusão que a mente conhece. Você sabe que tudo que a mente conhece é a experiência da confusão. Na mente, a vida é confusão, você está em confusão, que é não clareza, não silêncio, não paz.
Os pensamentos produzem confusão. Dentro de você, as imagens, as suas crenças, valores, motivos e razões estão produzindo confusão. Ver o mundo, ver a si mesmo e a vida através da ótica do pensamento é pura confusão. Então, isso se tornou o estado comum de vida da “pessoa”, que está em confusão de toda ordem − psicológica, financeira, emocional, familiar, política, social, e por aí vai. Confusão é a maneira de se viver quando não há Inteligência. Quando não há Liberdade, o que você chama de “sua vida” está em desordem, em diversos aspectos e áreas, produzindo cada dia mais sofrimento, conflito e, naturalmente, mais desordem.
Já a Inteligência é o Florescer da Consciência, que é quando você sai do circuito da mente, que está em desordem, confusa, em conflito, no medo. Consciência é a Fonte de toda manifestação! Há um imenso e extraordinário poder Nela! Ela é a Fonte de tudo, é inexplicável e extraordinária Inteligência!
Você não pode desfrutar dessa Inteligência se está vivendo dentro da limitação da mente. Os cientistas dizem que o cérebro tem um grande potencial, que boa parte dele não vem sendo utilizada. Não sei exatamente o que eles querem dizer com isso, mas sei o que estou dizendo para você aqui: há um grande potencial de Inteligência nessa Consciência, e isso está além do próprio cérebro, dessa capacidade cerebral.
Despertar, Iluminação ou Realização de Deus é o florescer dessa Consciência, que é essa suprema e poderosa Inteligência. Você não pode aprender Isso com seus pais, com a sociedade ou seguindo os políticos, pois não existe “inteligência política”. Ciência política não é inteligente. Política é ausência de Inteligência, pois é a mente fazendo acordos. Quando há Inteligência, não existem acordos, mas sim uma clara Visão − “o que é” e “o que não é”. É simples assim.
Portanto, você não pode aprender Isso na política, com seus pais, parentes ou sociedade. Se você ama esse movimento da cultura, da sociedade, da política, se ama militar nisso, opinar, analisar, estudar acordos, ou seja, se ama a mente e o movimento dela, tudo que você tem é limitação. Você não pode conhecer a Realidade estando preso na ilusão; não pode descobrir a Verdade Divina estando preso a esses padrões de mediocridade.
Nesse espaço, chamado Satsang − o encontro com a Verdade −, é possível a descoberta dessa clara Visão da Vida, quando tudo o que a mente constrói (toda essa cultura, essa visão humanística, social, política, religiosa, filosófica, etc.) não tem mais importância. Quando descobre sua Natureza Real, sua Natureza Divina, você se vê em seu Ser, fora desse “jogo da mente”, além dessa história imaginária, desse conceito imaginário de ser “alguém” no mundo, vivendo essa chamada “história humana”, então toda a confusão, desordem e sofrimento terminam.
Satsang significa estar vulnerável a esse Florescer, a essa Inteligência. É isso que tenho chamado de Meditação. Meditação não é reflexão, nem é um silêncio imposto por uma técnica ou um método. Não é dessa técnica de meditação, que tem princípio e fim, que estou falando. Estou falando da ausência da mente e de todo movimento que ela possa fazer, incluindo-se o movimento para silenciar-se, aquietar-se, acalmar-se.
A Meditação pode revelar Isso, e o “fim do jogo” está Nisso. Quando falo “fim do jogo”, não estou dizendo que ele termina, mas que Você está além dele. Portanto, o “jogo” continua, mas agora, como está além dele, Você desfruta dele também, sem mais se confundir com ele. Na realidade, quando se vê em sua Natureza Essencial, Você é o próprio “jogo”, não está mais capturado nele.
É como se você olhasse um tabuleiro de xadrez, no qual você não é mais o peão, não é mais o rei, não é mais uma peça desse jogo. Você é o próprio jogo, mas está além dele. Em Satsang, quando nos aprofundamos, quando mergulhamos Nisso, conhecendo essa não identificação com o “jogo”, com o “eu”, com esse psicológico senso de ser “alguém”, fica claro que esse “alguém” é meramente uma fantasia, uma crença, uma aparição, apenas uma imagem.
O que é Iluminação, então? É conhecer o “jogo”, estar além dele e ser ele próprio. Em outras palavras, é descansar ou desfrutar da Vida como Ela é, sem luta, conflito, resistência, confusão e desordem. Quanto vale isso? Se você se envolver profundamente Nisso, descobrirá o preço, que será insignificante diante do valor Disso. No entanto, você não pode saber qual o valor Disso sem primeiro se aproximar e olhar de perto o que Isso representa.
Você continua identificado com essas histórias, com a história do personagem que acredita ser, com um nome, enfim, com essa presunção de ser “alguém”, uma “entidade”. Você vê o corpo no espelho e diz “eu”, mas é apenas um corpo. Quando alguém sofre um acidente e vê um dos seus membros amputado, como um dedo, uma mão ou uma parte do braço, ele nunca mais vai dizer que aquele membro é seu. Muito menos, o acidentado vai dizer: “Eu sou essa mão”, “Eu sou esse braço” ou “Eu sou esse dedo”.
Então, essa ideia de você estar dentro do corpo é completamente ilusória, pois Você é Aquilo que vê o corpo e esses objetos que estão na sua frente. Essa mão e esse corpo não são Você, assim como essa cadeira, na qual esse corpo está sentado. Tudo isso é somente uma aparição! Quando está acordado, você vê tudo isso, mas, em sono profundo, não sabe nada desse corpo nem desse mundo.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 10 de Junho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 8 de setembro de 2020

O Coração é a Consciência, a Presença, a Realidade!

Este é um momento de Entrega, de Autoinvestigação, de Meditação, de encontro com a Verdade Divina, com a Verdade que trazemos. Todo o seu anseio é pela Liberdade. Não importa a forma, mas todos procuram a Liberdade, a Felicidade.
A vida, nessa falsa identidade, é dramática, aborrecida e conflituosa. Quando o ser humano começa a reconhecer isso, começa a perceber como é estúpido viver na mente, então ele se volta para a busca de si mesmo e, nesse momento, por uma ação da Graça, é conduzido dentro de uma nova direção. Essa procura pelo fim dessa vida dramática, confusa, desorientada e conflituosa é a busca real, o grande objetivo.
Todo esse processo tem início quando se percebe como é estúpido continuar vivendo no antigo modelo da mente, com todo drama que o pensamento produz. Quando esse reconhecimento começa a acontecer, ocorre um chamado para a Compreensão, para o Despertar. Isso é algo que tem sido chamado, na história da humanidade, como “Liberação”, “Reino dos Céus”, “Nirvana”, “União com Deus”. É, na realidade, um reconhecimento de sua Natureza Divina, de sua Natureza Essencial, algo que se revela no Silêncio, no Silêncio da Meditação, quando acontece um completo esvaziamento do sentido do “eu”. Quando o sentido do “eu” desaparece, com ele desaparece todo o drama, toda a confusão.
Normalmente, o homem não percebe o que se passa com ele mesmo. Ele apenas vive o drama da separação, mas não percebe o peso disso, porque vem vivendo assim há muito tempo, é algo que é muito comum para ele. Ele não percebe qual é a sua real condição, como é miserável viver assim, porque está sempre distraído com novos preenchimentos externos.
Esses preenchimentos externos causam uma distração acerca da própria miséria que ele carrega, dessa condição, desse drama, e, assim, ele vai “levando” a vida – uma vida tediosa, conflituosa, aborrecida, com pequenos momentos de prazer e preenchimento, puramente egoicos, e uma enorme quantidade de momentos de ansiedade, de conflito, de medo e de diversas formas de sofrimento, os quais já está até acostumado a viver.
Então, ele não se torna consciente dessa condição, desse sentido de separação, do peso que é viver assim. Na verdade, ele até desfruta dessa condição miserável de vida, que é só o que ele conhece. Completa inconsciência! Ele não consegue observar essa condição, porque a mente está sempre ocupada com a realização de novos desejos, sempre buscando, sem parar, mais realização egoica, pessoal, para preencher esse sentido de personalidade, para completar esse sentido de separação.
Assim, o que nós vemos é que esse constante desejo, com suas diversas formas de manifestação, está baseado no próprio sentido de separação tentando curar o sentido de separação. O que eu estou dizendo é que a vida do desejo está sempre baseada no conflito da separação. A separação já aconteceu (essa é a condição do homem comum), então o desejo vem para tentar curar esse sentido de inadequação, de conflito, que surge como consequência. Contudo, não é possível ter sucesso aí. O desejo é parte do conflito, portanto, ele não pode curar o conflito. O desejo é parte do sofrimento. Ele não está fora do sofrimento como um antídoto, como uma cura, um remédio. Na realidade, ele é o próprio veneno, está circulando como tal.
Então, não há sucesso final por meio do desejo. Mesmo as chamadas “realizações espirituais” são apenas novos desejos sendo realizados, algo completamente inútil. O que as pessoas experimentam em alguns trabalhos terapêuticos ou espirituais é apenas uma temporária sensação de liberação de um determinado tipo de dor, conflito, sofrimento. Mas, no fundo, não há como escapar radicalmente desse drama, desse dilema, porque o sentido de separação, o sentido do “eu”, continua presente. O ego é a doença! Uma doença para a qual não há tratamento. O problema com a busca é que ela sempre produzirá mais busca, seja por objetos materiais ou espirituais, grosseiros ou sutis, e, por detrás de tudo isso, está esse falso “eu”, essa falsa entidade.
Você não é um “pedaço” divino, um “pedaço” de Deus sentado dentro do corpo. Não existe tal entidade aí dentro do corpo; essa aparente entidade não é real. Há somente essa Presença, essa Consciência. Essa aparente entidade está dentro da Consciência, como uma aparição imaginária, e a mente está produzindo essa aparição. Tudo que existe é Consciência! Essa é a simples e direta Compreensão da Verdade. A Liberação da ilusão é o fim do drama, o fim do conflito, o fim do sofrimento, dessa imaginação de uma entidade na Consciência.
O homem comum está inconsciente de tudo isso. Todo o seu relacionamento é com a imaginação de ser “alguém”, e isso é medo. Já aquele que está em sua Natureza Essencial, vivendo a Verdade sobre si mesmo, carrega uma Radical Compreensão. Ele está vivendo no Coração... O Coração é a Consciência, a Presença, a Realidade!
Você precisa deixar tudo ir embora para poder ser O que é! Isso é o que eu acabei de chamar de “Radical Compreensão”. Nela, sua vida é pura Inteligência! Então, esse Poder flui sem obstruções, sem obstáculos, porque não há desejos, não há medo.
Eu não estou aqui para entreter você, não sou um palestrante, um orador, um professor. Estou aqui apenas para investigar com você a confusão que é viver com todo esse drama, ou como é dramático viver em toda essa confusão.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 05 de Junho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 4 de setembro de 2020

Não estamos prontos para encarar a dor

Participante: Ontem, o senhor nos disse que não estamos prontos para encarar a dor. O que isso significa?
Mestre Gualberto: Nós somos protegidos da dor desde pequenos. Nossos pais sempre tiveram uma amorosidade ignorante, nos protegeram demais. Eles não queriam nos ver sofrer. Eles sempre nos protegeram da dor, tanto física quanto emocional. Não sei se vocês conseguem compreender onde eu quero chegar.
Se você é protegido da frustração, você não a vê como algo natural. Se você é protegido da dor, você cresce com a ideia de que nunca deve sentir dor e, para tanto, você segue se protegendo. Então, você entra em um jogo de condicionamento psicológico. Quando recebe um “não”, isso lhe dá uma profunda dor de rejeição. O que você faz para não sentir isso? Essa dor não vai matá-lo, mas, para não sentir isso, você se torna uma criança tímida, afasta-se de pessoas que podem magoá-lo, feri-lo, ofendê-lo, rejeitá-lo.
Assim, desde criança, você carrega esse movimento interno, querendo sempre se proteger da dor. O detalhe é que, quanto mais você se protege da dor, mais sensível à dor você fica. O resultado é que você se torna um jovem e depois um adulto que se comporta como uma criança quando é rejeitado, quando é magoado, quando ninguém olha para você. Quando ninguém diz “e aí, tudo bem?”, você olha com suspeita: “Ela não olhou para mim, não gosta de mim”.
Se você observar bem, o ego é um feixe, um conjunto de manias, medos, escolhas, fantasias, imaginações. Esse é o sentido do “eu”. Toda nossa cultura é montada dentro dessa estrutura. Você não fica sozinho para observar essa dor, tem sempre um jeitinho para escapar disso, para não olhar para isso. No entanto, esse ego é uma estrutura falsa, uma mentira.
Essa dor psicológica, emocional, não é como a dor física, que é neural; ela é imaginária! E quanto mais você foge disso, mais sensível você fica a esse tipo de dor. Então, o que acontece com o ego? Ele sente dor à toa. Tudo lhe provoca dor! Se alguém fala alto com você, isso causa uma dor, então, para se proteger dessa dor, você reage, você responde ao outro. Você responde agressivamente com palavras ou com ações, tudo para não sentir dor, porque é proibido sentir dor.
Em nossa cultura, na cultura do ego, dessa egoidentidade, é proibido ficar com a dor e resolver isso sozinho aí. Você tem que descarregar, tem que jogar a dor de volta, para não senti-la. Mas agora você é uma pessoa agressiva, violenta, cheia de medo e dor. A dor continua, mas está com um outro formato: o formato da agressão, da reatividade, da violência. Aí, você não fica curado do ego, porque não o vê. Você só teria a chance de vê-lo se pudesse sentir a dor sozinho. Quando você não olha para o que sente, automaticamente, mecanicamente, inconscientemente, você já despeja isso.
Sabem o que eu tenho dito às pessoas? Descubram o que é Real Meditação! Eu vejo pessoas praticando meditação, mas sabe o que elas fazem para praticar meditação? Elas procuram por um espaço silencioso, colocam uma música suave, respiram de uma certa forma, ficam ali por 10 minutos, meia hora, 1 hora. Até aí, tudo bem. Mas, quando se levantam, vão para casa, para o trabalho ou para a faculdade, e lá o ego delas é provocado... Ali é hora da Meditação! Ali está a Meditação, e não na hora em que se está respirando fundo. Assim é fácil! A meditação, como prática, é uma coisa fácil! E na vida, no dia a dia? Esse é o exercício! É simples, mas não é fácil.
Olhar para a dor quando surge e não reagir: isso é Meditação, é trazer Consciência para este momento presente, para aquilo que está aqui e agora. Este momento é um chamado divino para você se conhecer, encontrar aquela criança que foi condicionada a não sentir dor.
Participante: Parece-me que são duas coisas: uma é sentir a dor, outra é não confiar na história que o pensamento está contando sobre ela.
Mestre Gualberto: Isso! Exatamente isso! Vocês acreditam na história que o pensamento cria sobre a dor. A dor não é o problema! A dor é como um fantasma ferido, que recebeu uma pancada. Não existe fantasma! Se a dor está ali, ok! Mas, por que criar uma história sobre isso? Para se proteger. Para aliviar essa “dor-fantasma”, seu ego reage.
Se nossos pais tivessem sido bons mestres para nós, eles teriam nos ensinado isso: a ficarmos sozinhos com a dor, a não reagirmos como crianças mimadas. Mas eles não nos ensinaram isso, não eram Seres Realizados. Agora, você é adulto e me encontrou, então teremos que corrigir isso! O que a sociedade não deu para você, um Mestre vivo pode dar! Mas você precisa ter paciência e acolher isso com profunda confiança. Por isso um Mestre vivo é importante: ele nos inspira! Sua Presença nos inspira a confiar! Então, qual é o meu trabalho com vocês? Corrigir!
O ponto aqui é: não reaja! Esteja atento a essa dor. Não reaja! Sua mulher está nervosa? Não tem problema! Seu namorado está estressado? Deixe-o sozinho, dê espaço para ele e olhe para si mesma, mas não reaja! Vocês estão aqui para aprender isso, mas é um “aprender desaprendendo”. Aqui, você vai desaprender a ser uma “pessoa”. É assim que o Sábio nasce! Quando uma pessoa desaprende a ser uma “pessoa”, descobre o seu Ser!
É como tirar a roupa. Você não é essa roupa, assim como Você não é essa programação que se ofende, se magoa, se entristece, tem raiva de tudo, tem medo de tudo. Isso não é Você! Então, isso se desaprende. É como a sua roupa, que você tira. Ninguém toma banho de roupa! Para se banhar nas águas da Sabedoria, da Consciência, da Verdade, você precisa se despir desse falso “eu”. Então, o Divino, seu Ser, se mostra em toda a sua nudez, e Ele é bonito! Ele não faz inimigos!
Então, o problema não é a dor; o problema é “alguém” com dor. “Alguém” com dor reage. A dor, em si, apenas mostra alguma coisa. Se você trabalhar isso, eu lhe prometo uma coisa: em pouco tempo, as pessoas vão parar de ofendê-lo, de irritá-lo, entristecê-lo... Isso porque não são elas que o irritam, entristecem ou aborrecem, e sim o seu ego reagindo. O seu ego faz inimigos!
Reparem no que eu disse: o seu ego faz inimigos! Quando você diz, aí dentro, “eu não gosto dele. Que chefe chato! Que trabalho horrível!”, isso não está lá; está tudo aí! Compreendem? Não é o mundo que é o seu problema, mas o seu ego, sua mente, sua interpretação, sua relação mal resolvida consigo mesmo. Resolva isso aí dentro!
O que eu digo para você aqui não é um conceito, uma crença ou uma teoria. Eu sou Isso! Eu vivo Isso! Sabe o que isso quer dizer? Que Isso é a sua Verdade! Eu não estou dizendo para você aprender a fazer isso. Estou dizendo para você assumir Isso! Desaprenda! Desaprenda o que você não é e fique com o que Você é! Desaprenda essa autoimagem, essas crenças que você tem sobre si. Fique nu, tire suas roupas, vá para o chuveiro, tome um banho de Compreensão, de Inteligência, de Verdade, de Amor Divino! Isso é Meditação!
*Transcrição de uma fala realizada em um encontro presencial na cidade de Graz, na Áustria, em 25 de Novembro de 2019 – – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

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