Aqui existe algo que pode parecer muito desafiador para cada um de nós. Talvez até nós subestimemos isso, mas escute com atenção: o nosso grande desafio na vida é, como seres humanos, permanecermos internamente, psicologicamente com saúde mental.
A nossa psicológica formação, o que nós recebemos de formação desse contexto de vida, do berço ao túmulo, é o aprendizado da continuidade, da permanência da ilusão de uma identidade presente aqui na vida, nesse instante, na experiência do viver. Reparem, só em ouvir isso já soa muito estranho para a maioria de nós, porque temos certeza, absoluta certeza, de que nós existimos como alguém na vida.
Aquilo que temos por pessoa, por esse "mim", por esse "eu", sendo a pessoa que somos, que acreditamos ser, que demonstramos ser, para nós isso é muito real e, no entanto, nós estamos apenas em uma movimentação imaginária do pensamento - e nós não nos damos conta disso. A pessoa presente, esse sentido de alguém que eu sou, que veio do passado e está indo para o futuro, psicologicamente não existe, não é real.
O que temos aqui como sendo você é a imagem, é a autoimagem dessa consciência, dessa autoconsciência, algo estabelecido em nós pelo pensamento: esta é a pessoa; e a presença desta pessoa - é estranho ouvir isso - é imaginária. Esse sentido do "eu" é uma movimentação de autoimagem. Portanto, você é a autoimagem.
Não tem você separado da autoimagem. Você e a autoimagem são um único elemento; um elemento abstrato, um elemento imaginário e, no entanto, muito atuante, que está se movimentando na vida a partir de critérios abalizados por essa estrutura psicológica, que é a estrutura do pensamento, do sentimento, da emoção e da sensação.
Essa é a vida do ego, essa é a vida da pessoa. Uma vida, por sinal, particular; ela está à parte, ela está separada da própria Vida como ela acontece e, no entanto, ela interage com a vida a partir da memória, que é o pensamento.
Um encontro com a Realidade da Vida é o fim para a autoimagem. O fim da autoimagem é o encontro com a Vida. Esse é o real encontro com Deus, esse é o real encontro com a Verdade, com a Liberdade, com a Felicidade, com o Amor. Nós temos a verdade sobre quem nós somos, na ideia de ser, e temos a Verdade sobre nós em linha com a Vida como ela acontece. Estamos diante de duas situações bem distintas.
O nosso trabalho juntos, o nosso empenho aqui é investigar isso, é ter plena ciência disso, de como estamos acontecendo na vida; e nós estamos acontecendo no pensamento, como pessoas. "Eu amo você, mas também eu posso odiar você". "Eu sou seu amigo, mas eu posso me tornar, a qualquer momento, um inimigo - e um dos mais perigosos". "Eu me sinto feliz nesse instante, e no instante seguinte eu posso estar triste, deprimido, angustiado, preocupado, ou com raiva, ou enciumado, ou com medo".
Esses diversos estados ou condições psíquicas em nós estão presentes em razão da presença da pessoa, em razão da presença dessa entidade que se vê à parte, que se vê separada da experiência quando a experiência está presente. É parte da vida como nós conhecemos a angústia, a tristeza, a preocupação, o medo, a raiva, o ciúme, a inveja, mas é parte da vida nessa estrutura, que é a estrutura do "eu", que é a vida da autoimagem. A presença de tudo isso é a ausência de sanidade, de saúde mental.
Precisamos de uma mente livre, sã, clara, lúcida, real, que sabe lidar com pensamentos, e isso requer a presença da compreensão do pensamento. A resposta que temos para as pessoas quando elas nos fazem perguntas são respostas que nascem do pensamento. A forma como interagimos com elas, interagimos a partir do pensamento. O que sentimos sobre elas é a partir do pensamento.
É notória a presença do pensamento em tudo: na vida, na relação, na experiência. A relação, a vida e a experiência como nós conhecemos, como nós reconhecemos, ali está a presença do pensamento. Então, o que é o pensamento? O pensamento é algo que vem do passado, é algo que nasce e é o resultado do conhecimento adquirido, da experiência vivida.
A experiência e o conhecimento dão formação ao pensamento, que é a memória, a imagem, a lembrança. Ao adquirir conhecimento, você adquire memória, lembrança. Ao adquirir conhecimento, você adquire experiência, know-how, ciência sobre aquilo: essa é a presença do pensamento.
O nosso contato com pessoas, com nós mesmos, com emoções em nós, assim como sentimentos e sensações, tem a explicação, a justificação, a representação da memória, que é pensamento. E nós estamos vivendo no pensamento. O pensamento assumiu todo esse lugar em nossas vidas, e aqui estamos questionando isso, estamos perguntando se podemos, na vida, conhecer essa sanidade, essa saúde psicológica, o que representa, nesse instante, lidar com o momento presente livre do pensamento.
Sim, porque o pensamento se faz necessário em alguns momentos; na realidade, em poucos momentos, porque a maior parte do tempo, durante o dia, durante as nossas horas, na relação com a vida como ela acontece, a presença do pensamento é o problema, a presença do pensamento é o elemento da separação, porque ele entra com opiniões, com julgamentos, com avaliações, ele entra a partir de imagens que ele está produzindo na sua imaginação, dentro destas relações. E quando isso está presente, o sofrimento, a desordem emocional, o conflito que o pensamento produz dentro das relações estão presentes. É o pensamento que nos mostra os amigos, é ele que nos mostra os inimigos; mas não existe uma separação entre ele e esse "mim", e esse "eu".
A pessoa que você é é o pensamento. A ideia de alguém presente na relação com ele ou ela é a imagem que o pensamento estabeleceu nesse cérebro. Então, esse cérebro aí carrega a imagem sobre quem você é; essa imagem é uma imaginação, é uma ação de imagem que está dentro dessas relações.
Aqui, por exemplo, nas relações humanas, nós não precisamos da presença dessa qualidade de pensamento, que é o pensamento psicológico, que é o pensamento imaginário, que é o pensamento que distorce, que julga, avalia, opina, acredita, desacredita de si mesmo, do outro. Uma avaliação da vida a partir de crenças, de opiniões, de ideias, isso está dentro desse modelo de mente condicionada, de mente egoica.
Podemos descobrir a vida acontecendo nesse instante a partir do pensar? O pensar, assim como o agir e o sentir, dispensa a presença da autoimagem, uma vez que essa autoimagem é uma estrutura imaginária de uma identidade que está presente. Esta entidade imaginária presente é o "eu". É o "eu" que está pensando, é o "eu" que está sentindo, é o "eu" que está agindo, e toda essa atividade a partir desse "eu" é geradora de problemas, produz confusão, produz desordem, alimenta sofrimento - sofrimento para si mesmo e sofrimento para o outro.
É assim que o pensamento está funcionando, psicologicamente, em nossos cérebros. Essa é a condição da ausência da saúde. Podemos descobrir a vida nesse instante, livre do pensamento? Nós precisamos do pensamento técnico, objetivo e prático para lidar com assuntos bem simples, como a lembrança de buscar um copo de água na geladeira - isso requer a presença do pensamento. Se você não sabe o endereço da água na sua casa, para beber, há algo de errado com o seu cérebro. É a presença do pensamento funcionando de uma forma precisa, técnica, prática.
Se você não sabe o endereço da sua casa, não tem a lembrança, a memória de onde mora, o cérebro não está funcionando bem. Nesse nível o pensamento é necessário, mas nós não precisamos do pensamento para gostar das pessoas ou para não gostar delas. Esse gostar ou não gostar tem por princípio um modelo presente em nós de desordem mental, de ausência de liberdade e saúde interna - esta é a presença do ego, é a presença do "eu".
É o "eu" que separa, é ele que divide, é ele que ama ou odeia, é ele que gosta ou não gosta, é ele que se prende, se apega, se agarra e diz amar, controla, possui e tem ciúme daquilo, daquele objeto ou daquela pessoa. É exatamente ele o modelo do pensamento psicológico nessa autoimagem. E este é o ego, que também desse "amor" - porque é assim que nós chamamos esse apego, essa posse, controle, dependência, essa carência do outro -, quando se sente traído, rejeitado, muda o estado muda e não é mais amor. Agora é raiva, ressentimento, rancor, ele se torna agressivo, violento.
Na realidade, essa é a condição psicológica do ego: ele vive no pensamento e no modelo do prazer e da dor. O prazer ele chama de amor e a dor tem vários nomes para ela: ele chama de raiva, ódio, rejeição. Nós estamos sempre, psicologicamente, presos a classificações, a nomeações, e a base é o modelo da sensação - da sensação de prazer ou de dor. Aqui estamos juntos tomando ciência do fim para essa psicológica condição de egoidentidade. Então se revela Algo além desse "mim", desse modelo de pensamento, dessa condição psicológica, que é a condição do "eu".
Assim, nós precisamos descobrir a Vida livre do ego, livre dessa autoimagem, livre dessa psicológica condição de desordem. Então, um cérebro novo, uma mente nova, uma nova visão desse instante, uma nova visão desse corpo e dessa mente, e, também, do outro e da vida como ela acontece, isso é o Despertar da Consciência. E, assim, nos deparamos com a Liberdade, com o Amor, com a Felicidade, quando o "eu" não está, quando essa autoimagem não está mais presente.
Esses encontros que nós temos aqui nos finais de semana, sábado e domingo, têm esse propósito: descobrir a Vida como ela acontece, nesta Real Ciência que Revela a Verdade Divina, que é Meditação. São dois dias juntos: sábado e domingo. Além desses encontros, temos encontros presenciais e, também, retiros. Eu quero deixar aqui esse convite para você.