terça-feira, 15 de dezembro de 2020

Saia do banco do motorista!

O seu desejo básico é que o mundo não seja pesado e hostil com você. Você quer um mundo que o entenda, viver cercado de pessoas que o compreendam, e parece que o trabalho delas é serem legais com você, deixá-lo feliz. Você se comporta como um motorista no volante, tendo que guiar um carro; você aplica isso na vida e não dá certo. O motorista tem que guiar o carro, senão ele não chega ao seu destino. Você se sente assim na existência − assentado diante do “volante”, tendo que usar o seu conhecimento para “dirigir o carro”. Será dessa forma?
Então, você vem a Satsang, e eu digo: “Saia do banco do motorista! Ocupe qualquer banco do carro, mas saia do banco do motorista!”. Para você, o carro não vai sair do lugar dessa forma, ou, se sair, vai sofrer um acidente, porque, afinal de contas, não será você quem estará dirigindo. Contudo, quando você vem a mim, a primeira coisa que tento lhe mostrar é a importância de não confiar em si mesmo, e isso é o oposto de tudo que você aprendeu e aprende aí fora, pois todos o estimulam, lhe dão autoestima. Eu não dou autoestima a você, minha fala não tem esse propósito, não lhe dá confiança, certeza, segurança, nem diz que você está no controle. Então, o que você está fazendo aí diante do “volante”?
Aqui, se você sai do banco do motorista, sai da frente do volante, você deixa de ser o “guia” de suas experiências, de sua existência, aquele que dirige e sabe para onde está indo. Fora do “banco do motorista”, você descobre o que tenho chamado de Meditação. Meditação é não mais guiar, conduzir, não mais dar direção ao seu “veículo”, às suas experiências, aos seus cômodos e incômodos, projetos, sonhos e, também, não mais tentar se afastar do infortúnio, das vicissitudes, adversidades. Enquanto você acreditar que está conduzindo esse “veículo”, essa vida, essa existência, tudo que você experimentará será decepção, porque as coisas não acontecerão, jamais, como você espera, deseja, projeta, anseia.
Você não vai chegar ao destino, porque ele é uma projeção ideológica, ou seja, há uma ciência de ideias por detrás desse “seu destino”. Somente quando sai desse “banco do motorista”, você descobre que a Vida não precisa de você. É um absurdo, eu sei... Você vem a Satsang e descobre em minhas falas a oportunidade do destemor, que significa se confrontar, sem medo, com o que surge, mesmo vendo toda essa insegurança à sua volta. Vem uma voz e diz: “Saia do ‘banco do motorista’, você não pode guiar esse ‘seu carro’”.
Sei que isso parece loucura, porque é contrário a tudo que você ouviu até hoje, mas quando você sai do “banco do motorista”, descobre que a Vida pode dirigir a Si mesma. Na Realidade, a Vida sempre esteve na direção, Ela nunca deixou a direção em suas mãos. Suas mãos nunca estiveram, de fato, no volante. Você nunca esteve assentado nesse lugar que acredita estar, guiando, conduzindo e controlando.
Bem-vindos a Satsang! Isso aqui é o encontro com o Amor! Sim, é o encontro com o Amor, e o Amor não tem agenda, não sabe se é setembro, outubro, novembro... O Amor não tem outra coisa a fazer a não ser “queimar” tudo! Você sabe que o fogo queima tudo, mas ele não queima a si mesmo – é o Amor. Você tem medo de assumir esse Estado Natural de Sabedoria que representa não estar no controle, não estar procurando conduzir as experiências. Você se assusta só de ouvir a possibilidade de não controlar absolutamente mais nada. Contudo, esse medo é apenas falta de investigação, porque, no fundo, você nunca controlou absolutamente nada! Então, essa coisa de estar “trocando marchas, fazendo curvas, olhando para o retrovisor e para frente” nunca existiu de fato. Você nunca esteve aí! Assim, você não deveria se assustar com o acolhimento da Verdade, da Sabedoria; não deveria se assustar quando alguém lhe diz: “Afaste-se desse volante imaginário”.
Para mim, o que tem real importância não é você ouvir sobre Isso, mas viver Isso! A Vida é esse acontecimento que se dá sozinho, ninguém está na direção Disso. A Vida é compreendida nesse Amor que queima tudo, mas que não queima a Si próprio, como o fogo. Quando você está disponível ao Amor, disposto a não mais se confundir com esse absurdo que é acreditar no controle, na sua capacidade de guiar e conduzir, então a Vida se torna Mágica.
Mas essa não é como a mágica que faz o elefante sumir do palco ou a carta escondida ser revelada no final da apresentação do mágico. Eu falo de uma Mágica que não é nascida de uma estratégia de ilusão, não é um truque de ilusionismo. A Vida se torna Mágica nesse Amor Extraordinário, que é esse Fogo da Consciência Divina. A Vida se torna Mágica de uma maneira que a mente jamais seria capaz de sonhar e o maior dos mágicos ilusionistas seria capaz de produzir. A Vida não é um truque, é um Mistério, onde há uma Mágica presente. A Vida está fluindo e você não sabe, jamais saberá, para onde Ela o levará, porque é Ela que conduz a Si Própria.
Você é a Vida, não um motorista de uniforme, conduzindo a si mesmo ou a outros para algum lugar. O fato é que nós colocamos tanta atenção nessas crenças mundanas, como essa, tão comum a todos, de poder guiar, conduzir, controlar, que, no lugar de encontrarmos a Beleza desse Mistério, a Beleza desse Fogo que queima tudo menos a Si Próprio, a Magia da Vida, estamos sobrecarregados de medo e de muitos cuidados. Assim, não há Sabedoria, porque não há Verdade, e não há Verdade porque você não solta essa crença de poder controlar.
Não estar nessa direção, nesse controle, nessa condição de ilusão de condução, é o que tenho chamado de Real Meditação. Meditação é não estar controlando, guiando, conduzindo suas experiências. Essa falsa interpretação que se dá pode parecer um mal-entendido, até inocente, mas tem uma gravíssima consequência aí. Todo seu peso de existência, toda essa falta de leveza, está nessa tentativa impossível de guiar, conduzir e controlar. A medida segura para isso é o final da tentativa fútil, inútil e desnecessária de que as coisas precisam dar certo. Isso é a causa do medo, é a não confiança, a não entrega, é a não Meditação. A medida certa para isso é viver sem pensar, viver sem passado e futuro – que é o que o pensamento produz – e sem essas figuras que você tem à sua volta, as quais sempre tenta agradar.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 19 de Outubro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A Verdade do seu próprio Ser

Você está sempre procurando o Amor, a Paz, a Felicidade e a Liberdade em um objeto ou em uma situação futura. Não há nenhum lugar e não há nada para se encontrar! Na razão em que você vê isso, de uma forma atenta, vai descobrindo a beleza de se desinteressar por aquilo que o pensamento imagina, que o sentimento provoca. Você começa a ver a beleza de se desinteressar por essas atrações melosas, sentimentalistas, dessa falsa identidade.
No ego, nós somos sentimentais, românticos, presos ao futuro que o pensamento cria, colocando-nos em situação de prazer e também de dor. Quando você já consegue vislumbrar um pouco do que eu estou dizendo, da beleza de se desinteressar por tudo isso, começa a descobrir que não há para onde ir.
Para onde você vai? Para onde você pode ir? Que necessidade você tem de ir para algum lugar? Alguns falam em Realizar Deus, em Iluminação, em Despertar… Você pode passar a vida inteira falando sobre isso, como um evento que acontecerá no futuro, um objetivo a ser alcançado. Se não compreender que Isso está presente agora, você vai passar uma vida inteira viajando nessa falsa identidade, indo para um futuro imaginário, criando uma expectativa imaginária, uma iluminação imaginária, acreditando encontrar um Deus no futuro e, portanto, imaginário. No entanto, nada estará de fato acontecendo, porque nada pode acontecer fora deste instante. Aliás, não existe nada acontecendo neste instante!
A Paz está aqui, a Consciência está aqui, o Despertar está aqui, a Iluminação está aqui, Deus está aqui, O que Você é está aqui. É só a mente que viaja! É só essa identidade aparente, separada, que cria um lar e um céu para viver no futuro. Pare de adicionar pensamentos além desses que já estão surgindo agora aí.
Você não percebe como é a mente egoica. Repare: ela não é uma entidade real, não é uma entidade separada. Eu não falo de um “eu” dentro Daquilo que Você é, porque aí você seria essa Consciência mais essa entidade, esse “eu”; haveria dois aí. Não existem dois aí! Tudo que essa mente egoica – que nada mais é que uma fantasia, um cultivo de desatenção de pensamentos – faz é procurar se manter num ciclo infinito de vir a ser, de se tornar, de alcançar, de conseguir ou de se livrar; um ciclo infinito de pensamentos adicionando pensamentos sobre pensamentos; uma entidade imaginária em um ciclo infinito de imaginações – assim eu definiria essa ilusão do “eu”.
Se você não faz essa exploração do corpo e da mente de forma dinâmica, real, aqui e agora, você vai lutar por essa “paz”, por esse “amor”, por essa “felicidade”, a vida toda. Como resultado disso, não haverá Compreensão, não haverá Inteligência, não haverá Liberdade.
Estar preso a essa condição é estar sempre com medo. Você não percebe que é esse medo que o impulsiona, o tempo todo, para resolver questões, as quais estão presentes quando problemas estão presentes. Para você, não ter o controle é um problema. Então, você quer controlar, e isso é um impulso do medo. Quando você se depara com este trabalho aqui, isso fica tão evidente, tão claro, que o seu ego fica assustado, que essa falsa identidade fica apavorada com a possibilidade de desaparecer. Na verdade, ela não tem medo de morrer, porque ela não existe como alguma coisa viva, como uma entidade real. O medo da imaginação é de desaparecer, não de morrer, e isso explica esse seu medo de não controlar.
Quando você se depara com uma fala como esta, de uma lucidez e uma clareza irretocáveis, apresentando uma visão sem rasuras, esse movimento de vir a ser, de alcançar algo, se sente ameaçado. O que você não percebe é que uma porta se abre para lhe revelar Aquilo que está presente aqui e agora – a Verdadeira Paz, a Verdadeira Liberdade, a Verdadeira Felicidade, o Verdadeiro Deus, como seu próprio Ser. Quando essa porta se abre, a fragilidade desse medo, desse controle, da questão que traz o problema do controle, que se fundamenta no medo, se revela.
Essa porta se abre aqui em Satsang. O primeiro passo dado já o coloca do outro lado do portal. Apenas um passo! Isso não requer nenhum tempo, nenhuma jornada. Pode parecer algo abstrato, mas, olhando bem, não existe nada tão prático, tão objetivo.
Isso não é ciência filosófica nem teológica. Isso é como olhar diretamente para uma flor e ter a visão do que ela representa, sem nenhuma formulação, sem nenhuma teoria, sem nenhum conceito. Assim é a Verdade, a Verdade Divina, a Verdade do seu próprio Ser, Aquilo que está agora aqui.
Você não pode chegar mais perto dessa Realidade, dessa Consciência, do que já está. Então, para onde ir?
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 18 de Outubro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Sobre o Real Conhecimento de Si Mesmo

Podemos começar perguntando para você: para onde ir? A partir desse Lugar, desse Espaço onde Você se encontra, para onde ir? Essa ação, essa atividade de fazer, de se direcionar, sempre acontecerá enquanto você se imaginar como um “eu” separado, como uma entidade no tempo e no espaço, passível de se mover. Isso é, na realidade, um movimento muito habitual de todos. Trata-se de um movimento de afastamento Daquilo que está presente, Daquilo que nunca está ausente, desta Consciência presente agora, então é sempre imaginário.
Tudo que tem sido feito é esse afastamento, esse “eu” imaginário nesse movimento de vir a ser, de chegar, de alcançar um objetivo. Sabem o resultado disso? É o afastamento da Felicidade presente. A Felicidade não se encontra em conquistas, em realizações, em um alvo, um objetivo alcançado, dentro do movimento do tempo, que esse “eu” imagina existir para ele. Então, o resultado disso é o afastamento da singela Beleza, que é a Paz, a Felicidade que está aqui e agora.
Então, como poderíamos fazer uma definição verbal daquilo que eu considero a coisa mais importante: a Meditação? Poderíamos definir como a beleza de não se afastar, imaginariamente, Daquilo que já está aqui, que é a Felicidade. Esse “eu” imaginário, separado, não é nada além do que esse simples movimento imaginário encobrindo a Paz, a Felicidade, o Natural Estado de Meditação, seu Estado Divino, seu Estado Natural.
Por que você quer ir a algum lugar? Porque você imagina! É bem simples! Você imagina outro lugar fora desse Lugar, que é esse Espaço onde Você, como Consciência, Verdade, Paz, Felicidade, reside. Você imagina não ter encontrado O que já está aqui. Esse é o movimento do pensamento, é o movimento imaginário, o movimento desse falso “eu”. Só porque você imagina, acredita poder se mover, mas o que se move é apenas a mente, procurando por uma paz ou por um objeto que flutua em algum lugar distante – é a busca de uma situação futura, num tempo imaginário. Você não pode chegar mais perto da Paz se movendo! Tudo que você faz com isso é se distanciar Dela.
Minha ênfase na Meditação é porque a essência Dela está na compreensão de que não existe nada como o chamado “futuro”. Quem é que poderia se afastar ou se aproximar dessa Consciência, dessa Felicidade, dessa Beleza, dessa Graça, dessa Divina Presença? Apenas uma pessoa imaginária poderia se mover, um falso “eu”, algo totalmente inexistente. Não existe nada em sua experiência que esteja afastado ou longe Daquilo que Você é em Essência. Não existe nada em sua experiência que esteja acontecendo longe da Verdade do seu Ser; só a imaginação.
Você imagina um mundo no qual há pessoas que precisam ser amadas ou esquecidas, das quais precisa se afastar ou se aproximar, pessoas com quem você se preocupa, se ocupa, das quais quer resolver problemas... Tudo imaginação! Há uma pessoa principal nisso tudo que é “você”, com problemas também para resolver. Tudo isso é imaginação!
Se o seu corpo está doente, isso é um problema do corpo, não é um problema seu. É seu quando você acredita ser o corpo. Não é seu quando você deixa as crenças. O corpo é um problema para a medicina, para a ciência médica. Ela estuda há milênios como cuidar dele! É assim também com os problemas psicológicos – eles são problemas para a ciência psicológica e não para você.
Talvez, um dia a ciência psicológica descubra que o que pertence à ciência não pertence à Consciência. Colocando de uma forma diferente: aquilo que pertence à mente não diz respeito à Consciência. A Consciência permanece livre quando a mente ou o corpo estão doentes. Assim como o corpo não pode atingir a Consciência, a mente também não pode. Então, é possível que chegue um tempo em que a ciência reconheça que ela é limitada, e sempre será. Da mesma forma, é possível que chegue um momento para você – e eu espero que seja agora – em que compreenda que, quando estiver fisicamente doente, isso será um assunto do corpo e, portanto, da ciência médica que trata da fisiologia do corpo. Assim como, quando você sentir tristeza, isso será um problema para a mente e para ciência psicológica, e não para você.
É quando você se identifica com a mente que a tristeza é um problema para você. Da mesma forma, quando você se identifica com o corpo, a doença se torna um problema para você. Nosso propósito, nessa Arte do Real, do Real Conhecimento de Si Mesmo, é o fim da identificação com o corpo e com a mente e, portanto, o reconhecimento de que sua Natureza Essencial está fora da ciência. Isso é Liberdade!
A questão toda é que é muito íntima essa relação entre corpo, mente e Consciência, e você precisa da Habilidade, do Real Conhecimento de Si Mesmo, para quebrar essa identificação. A atenção sobre o movimento da mente pode quebrar essa identificação com a experiência de sensações ou de qualquer reação natural do corpo, assim como essa identificação com a experiência psicológica de tristeza, como falei há pouco, ou com qualquer outra reação psicológica. Essa atenção é tudo o que você precisa para não confundir mais essa íntima relação entre corpo, mente e Consciência. Aqui, se identificar é estar embolado. Você não é o corpo, você não é a mente... Você é Consciência! É nessa Consciência que o corpo e a mente aparecem, assim como essas reações presentes.
Então, a Meditação é a arte de se distanciar, com plena Consciência, dessa comum e habitual identificação com o corpo e com a mente. Assim, essa “viagem” que se faz para o futuro não tem lugar. A Felicidade, a Liberdade e a Paz estão presentes agora, quando você não é o corpo e a mente. Isso significa que a pessoa que está aí assentada ouvindo não é real. O que está presente nesta sala, neste encontro, é apenas a Presença. A Presença é a única Realidade presente! Essa “pessoa” aí, com sua história, é uma fantasia, é apenas um “eu” imaginário.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 18 de Outubro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O reinado da ilusão

O ego nos coloca no centro do universo. Depois que o ego se instala, você fica escravizado pelo tempo, porque você passa a residir em uma história. Gostariam de ouvir sobre isso? Essa é a minha especialidade: mostrar-lhe o que o ego tem feito, o que ele vem fazendo na história humana, na sua história. Aliás, só há história no ego.
Essa centralização de uma entidade é um trabalho da ilusão. A falsa identidade se centraliza em um universo que ela mesma fabrica. O ego se instala no centro desse universo imaginário, separado de tudo e escravizado pelo tempo – ele cria o tempo e constrói uma história. Esse é o seu condicionamento: mágoas, ressentimentos, rancores, frustrações, desesperança... O lado positivo também: entusiasmo, animação, esperança... Essa personalidade vive em seus sonhos, medos, desejos e pressões de todos os tipos.
O ego cria uma torrente constante, um volume enorme, extraordinário, de estruturas mentais. No centro dessa estrutura, ele se senta como um rei e se denomina “eu sou”. O primeiro nome é “eu”, o segundo “sou”. Aí, depois desse “eu sou”, o ego assume vários pseudônimos: “eu posso”, “eu tenho”, “eu quero”, “eu faço”, "eu controlo”, “eu realizo”... São pseudônimos desse “eu sou”.
Esse condicionamento vem desde a infância. O resultado é você aqui, assentado, tendo uma grande dificuldade de acompanhar uma fala como esta, resistindo, interpretando, julgando, avaliando, vendo se está certo ou errado, se isso se ajusta ao seu programa, ao seu fundo de condicionamento, se dá para aceitar ou rejeitar isso…
A verdade é que esse “eu sou”, esse rei, assume essa posição desde a infância, e nós ficamos tão envolvidos nisso! Assumimos isso como real de forma tão estreita e medíocre! Assim, “ele é quem somos”. Essa é uma suposição insidiosa, e ficamos apaixonados por isso! Ele pega o lugar de honra, se orgulha, fala em nosso nome, sente em nosso nome, pretende em nosso nome... Aliás, não sabemos qual é o nosso nome, mas essa falsa identidade já assumiu o “eu sou” e se passa por nós.
Desde a infância já estamos envolvidos, apaixonados e crescendo com esse arsenal bélico para nos defender dos ataques do inimigo. Um arsenal de autodefesa para nos defender dos inimigos imaginários. O ego, sem questionar, assume que ele é quem somos. Então, ele pega o lugar de honra, pensando, sentindo, falando, agindo, escolhendo, resolvendo, crescendo, depois namorando, casando, procriando... Ele adora procriar, adora dar continuidade à sua prole. Ele adota uma voz, um jeito, uma aparência e começa a tomar decisões e a se proteger. Ele tem um arsenal para se defender contra-atacando os inimigos imaginários que a vida apresenta. Para ele, a vida é hostil, a existência é muito hostil. O ego se sente hostilizado, mas ele tem um arsenal de autodefesa enorme! Ele vai desenvolvendo, a cada dia, novos planos e novas formas de autodefesa e contra-ataque, para se proteger da hostilidade em que vive.
Você descobre na existência, no viver, como essa estrutura se move, como se molda e como se constrói. Descobre, também, como se livra dela. A gente não aprende isso com outros, a gente aprende isso observando a nós mesmos, nos investigando momento a momento. Até porque, você é o resultado de milênios de “evolução da consciência humana”.
Não escutem essa fala de forma passiva. Vão ouvindo e observando essa paixão de infância que vocês carregam.
O ego adota mesmo essa voz e se coloca no ponto mais alto, de onde começa a tomar decisões. Aliás, ele descobriu: “eu posso pensar”, “eu posso fazer”, “eu posso realizar”. O seu ego não se importa com o que ele mesmo produz em forma de pensamento. Ele diz que vai fazer uma coisa apenas de forma verbal; é apenas um pensamento sendo expresso. Mas o controle dele é tão soberano que ele não respeita nenhum pensamento que ele mesmo produziu, e logo você se pega na força do hábito. “Vou parar de sofrer” - isso é só um pensamento. A força do hábito de sofrer não respeita o pensamento “vou parar de sofrer”.
Esse pretenso rei sentado no trono está controlando esse universo. Controle total! Ele não tem o poder real que se atribui, mas ele assume, tem força para assumir. O pensamento diz “não sentirei mais culpa”, “não sentirei mais saudade”. É como dizer “eu vou emagrecer” ou “eu não vou mais beber”. Isso é só um pensamento. Esse falso rei, com um selo falso, governa, e está forte contra os seus inimigos, tem um arsenal de autodefesa extraordinário.
Olhe para você, olhe para o que o pensamento cria dentro de você, olhe a riqueza de imagens que o pensamento constrói, produzindo todo tipo de conflito e sofrimento, dos quais você não se livra por uma simples decisão de pensamento. Sabe por quê? Porque esse falso rei vem dominando, vem controlando, vem reinando sobre esse universo que ele mesmo construiu. Desde a infância tem sido assim.
Você tem milhares de pensamentos todos os dias. Sua mão não se importa com o que sua mente pensa. Sua boca não se importa com o que seu pensamento diz sobre o efeito da macarronada ou do excesso de carboidrato. Esse rei não leva o selo real, nem tem o poder que se atribui, mas assume um poder extraordinário que você não pode jamais subestimar.
Que sutileza é essa? Que habilidade é essa? Que poder é esse? Por que o ego assume tanto controle? Porque esse lugar está ocupado! Um lugar que não é facilmente visível. Ele está no controle!
Os seus pensamentos, as suas emoções, as suas experiências sensoriais estão acontecendo e sendo determinadas ou controladas por essa forte e imperiosa vontade – a vontade do “eu”. E por que esse lugar não é visto? Porque ele fica invisível. O ego, o “eu”, reside no lugar invisível, no nosso lugar. O que se pode ver nesse lugar é um rei tirano, ditador, usurpador de trono, construindo e sustentando uma história.
O lugar da Realidade, da Consciência, é invisível, ou melhor, não é facilmente visível, porque essa vontade, aí, está sendo governada, desde a infância, por esse usurpador de trono, esse falso rei. O ego reside nesse lugar invisível. Você não sabe quem Você é porque não enxerga o seu lugar. Então, não há uma Verdade imperando; há somente uma vontade tirana de um rei usurpador de trono no poder.
O pensamento diz “eu vou” e se disfarça como sendo a fonte da Inteligência, da Sabedoria, da Consciência. Ele assume esse lugar dizendo “eu vou”, “eu quero”, “eu não quero”, “eu gosto”, “eu não gosto”. Uma aberração! O ego é uma aberração dentro de uma referência totalmente equivocada.
Nosso Verdadeiro Eu, nosso Verdadeiro Ser, nossa Verdadeira Consciência, não age pela vontade. Há uma Inteligência tão excelente e de uma qualidade tão misteriosa, que tudo acontece sem qualquer esforço, sem qualquer volição, sem qualquer intenção, sem qualquer desejo ou medo. Seu Ser carrega essa Beleza, mas essa aberração, não! Essa aberração só cria confusão, desordem, bagunça tudo, falsifica tudo, falsifica os mais belos sentimentos, as mais belas expressões do pensamento dentro dessa Inteligência.
Essa aberração falsifica tudo, nos torna seres medíocres, infelizes, complexados, traumatizados, sintomáticos, miseráveis, fazendo uso desse arsenal de autodefesa, atacando o tempo todo e se defendendo de um ou vários inimigos imaginários, em uma vida hostil, em uma existência que é só sofrimento. Tudo isso está nessa postura ou nessa atitude da “pessoa”. Essa Inteligência, essa Beleza, é usurpada pelo ego, então o que há é uma aberração de inteligência, uma aberração de beleza, uma aberração de consciência. O ego é uma autorreferência falsa trabalhando com pretensões, sempre se escondendo, se defendendo, resistindo.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 27 de Setembro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

A coisa fundamental é Realizar essa Verdade

Descobrir Aquilo que Você é, a Verdade sobre Si mesmo, é a coisa de maior importância na sua vida!
Você tem muitas crenças, muitas ideias a respeito de si mesmo. Aqui, através do contato com essa fala, você termina perguntando a si mesmo: “Afinal, qual é a distância entre aquilo que eu sou (ou acredito ser) e a Verdade?”. “Talvez essa crença que eu tenha a respeito de mim mesmo não seja real. Afinal, qual é a distância entre a Verdade daquilo que sou e todas essas ideias que tenho sobre mim mesmo?”.
Nós estamos sempre olhando através de crenças, ideias, aquilo que está acontecendo. Então, ficamos dentro do conflito comum, olhando para a vida com perplexidade. Como, na verdade, não sabemos quem somos, não conseguimos perceber o que é a Vida! O que é a Vida, se nós nem sabemos quem somos? As ideias que você tem sobre si mesmo não lhe dão nenhuma resposta verdadeira, porque o conflito não termina. Já se tornou até algo muito comum viver em luta, em meio a todo esse conflito.
O ser humano vive em conflito porque essa é a natureza da mente. O pensamento, em suas crenças, tenta compreender ou se ajustar à Vida, e isso não funciona, não dá certo. Todos os problemas são resultados disso! Todos os seus problemas surgem da ideia de que você tem uma vida particular, e ela nunca é satisfatória! Essa “sua vida”, realmente, é cheia de conflito, dilemas, dramas e problemas.
Assim, você tem a ideia de que tem uma vida particular acontecendo, a “vida de alguém”, um “alguém” capaz de fazer escolhas, realizar desejos e se livrar dos problemas, algo que nunca acontece! Alguns desejos são realizados, mas eles estão sempre acompanhados de conflitos. Na verdade, essas realizações estão apenas acontecendo! Se olhar de perto, você vai perceber que é um acontecimento da própria Vida.
O que temos é a Vida aparecendo nesse ou naquele formato e a mente presente “discutindo” com Isso. A mente procura encontrar uma solução para todos os problemas que surgem, mas ela está confusa! Na verdade, é ela que está sustentando o problema, tudo porque você não sabe nada sobre Si mesmo, sobre quem Você é. Como não sabe quem é, você não sabe o que é importante, de verdade, para você.
A mente está abarrotada de conceitos, crenças, motivações e desejos. Você se confunde com ela e segue por esse caminho, buscando muitas coisas. Você não sabe, de fato, o que é importante para você, porque não sabe quem Você é.
Nesses encontros, eu tenho apontado para você a importância de saber o que é importante, que é reconhecer seu Estado Divino, seu Estado Natural, seu Estado Verdadeiro, que está livre de toda essa confusão que a mente tem produzido nessa chamada “sua vida”. Uma mente em conflito, uma vida em conflito. O importante é Reconhecer a Si mesmo! Então, esses desejos e toda essa procura por algo para fazê-lo feliz desaparecem, porque a Felicidade, a Liberdade, é algo inato, já é a sua própria e verdadeira Natureza, a sua Natureza Divina!
Dessa forma, Satsang é algo bastante importante, porque aponta para essa direção, para o fim dessa ilusão de uma vida pessoal, particular, própria, de uma entidade separada, desse “eu” que você acredita ser.
Após cada realização sua, você termina descobrindo que ela não lhe deu paz, não lhe deu felicidade. Isso porque você, nessa confusão, perdido na mente, vem acreditando já há muito tempo que será feliz ou estará em paz quando realizar alguma coisa, algo que deseja, que sonha.
Satsang lhe dá uma amostragem dessa Paz, dessa Felicidade, dessa Liberdade, que você já tem dentro de si mesmo. Então, pela primeira vez, você descobre que Isso não está fora, não é algo que uma nova conquista, uma nova realização ou uma nova condição vai lhe dar. Isso tudo está dentro da ilusão da mente egoica, dessa mente voltada para a exterioridade. Essa mente egoica é separatista, ilusória e está sempre andando em círculos.
Eu quero dizer que, aqui e agora, neste instante, e para além deste instante, em seu próprio Ser, está a Natureza da Verdade. Mas, enquanto está buscando algo do lado de fora, você está se esquecendo do que está aqui e agora, já presente, aí dentro.
Toda a nossa educação, todo o nosso aprendizado, todo o treinamento que tivemos, ao longo de todos esses anos, foi para que encontrássemos do lado de fora uma felicidade, uma paz, uma liberdade, que nunca encontramos e que ninguém, jamais, encontrou. No entanto, todos continuam procurando! Isso é um condicionamento mental.
Você tem certa educação, certa formação, certa cultura, certa capacidade, já tem algumas conquistas, realizou muitas coisas, mas, dentro, você ainda continua seco, endurecido, sofrido, em conflito. Isso tudo porque você não sabe a Verdade sobre Si mesmo e não recebeu um alerta quanto a isso. Ninguém à sua volta se questiona: “Quem sou eu?”. Então, falta Profundidade, falta Beleza, falta Graça.
Se a Vida aí dentro, a Realidade que é, a sua Natureza Essencial, não tem essa Liberdade de expressão, não há Beleza, não há Graça, não há Profundidade. Fica essa coisa seca, dura, conflituosa, que você chama de “vida”. Eu falo da Vida Real, fora dessa “vida”. Há uma Vida Real em Você e há uma ideia que você tem do que é a vida, que é essa coisa seca.
Há algo em Você clamando por Algo além disso tudo, que sente falta de Algo que você mesmo não sabe o que é. Você não vê a Si mesmo, só tem ideias sobre quem é. Você não vê a Vida, apenas faz ideia sobre o que a vida seja.
Dedicar seus dias, os anos que você ainda tem por aqui, para investigar Isso com profundidade, para mergulhar fundo em Si mesmo e descobrir uma Qualidade Real de Vida fora dessa “vida” que você acredita ter, que você acredita viver, é uma grande possibilidade.
A coisa fundamental é Realizar essa Verdade, olhar para aquilo que está acontecendo, neste momento, sem interpretar, sem julgar, sem desejar alterar, sem alguma forma de medo por detrás desse olhar, sem nenhum apelo romântico, sentimental, sem nenhuma forma de crença. Vê como isso é importante? Ter o coração livre do peso da mente, viver sem a mente...
Tudo isso é fruto da Meditação. Meditação é o Despontar desse Estado Verdadeiro, desse Estado Natural, Aquilo que eu acabei de chamar de “a coisa mais importante”.
Realize a Verdade sobre Si mesmo e descubra essa Paz, essa Liberdade, essa Felicidade da qual estou falando. Depois, olhe para o mundo e veja o que está acontecendo com ele. Você terá um olhar completamente diferente a partir desse “Lugar”. Quando você é infeliz, acredita que está no mundo para torná-lo feliz, para fazer uma grande diferença nele. Quando Realiza seu Estado Natural, você descobre que o mundo não precisa de você para ser feliz, que você não pode torná-lo feliz, que não existe nenhum mundo. O mundo é algo que está dentro da sua cabeça!
Se você é infeliz, quer tornar o mundo feliz, mas isso é parte da infelicidade. Você sente o mundo infeliz, vê o mundo miserável, porque internamente você está em miséria. Quando você Realiza O que é, a Verdade sobre Si mesmo, descobre a Natureza Real do mundo, a Realidade subjacente a todas as aparições, a toda a manifestação. Não existe nada fora do lugar ou errado, precisando da sua ajuda.
Você está aqui para Realizar Isso, para Constatar que não existe nenhum mundo. Essa Realização Divina é a Liberação do mundo, a Felicidade do mundo, que é quando você Realiza a Felicidade em Si mesmo. Só então você carrega o Silêncio, a Paz, a Inteligência, a Compaixão, para compartilhar com o mundo Aquilo que Você é. Isso acontece dentro de um processo muito natural, sem qualquer esforço egoico da sua parte.
Se é Feliz, você Realiza a Felicidade do mundo; se está nessa dimensão de Paz, você leva Paz para aqueles que estão à sua volta, e pode Despertar neles essa mesma Paz que tem dentro de você. Então, não se preocupe em salvar o mundo, o mundo não precisa da sua ajuda! Você não está aqui para isso, mas sim para descobrir que não existe nenhum mundo! Realize o que Você é e Deus tomará conta de tudo.
Então, meu convite é para que você “desapareça”, para que apenas essa Consciência Divina possa brilhar. Esse “sentido do eu” precisa desaparecer. Aqui, quando você não é nada, você é tudo! Aqui, quando você não tem nada, você tem tudo! Quando tem tudo, na verdade, você não tem nada. Quando é “alguém”, na verdade, você não faz a menor diferença, porque esse “alguém” é só conflito, é só confusão.
Quando compreende a necessidade de investigar isso, você fica aberto para Si mesmo. Então, se abre uma porta, uma oportunidade de você ir além de toda essa confusão, de toda essa mediocridade, de todo esse senso de insatisfação e sofrimento humano, para uma Vida Divina, para uma Vida Sagrada, para uma Vida em Deus, para uma Vida na Verdade!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 27 de Julho de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

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