quarta-feira, 22 de julho de 2020

Quando o meu Mestre apareceu

Participante: “Que mágica é essa, Mestre querido, que nos faz querer rir de todos os nossos problemas aqui na sua Presença?”
Marcos Gualberto: Seus “problemas” não são problemas. Eles são suas imaginações, sua resistência, seu desacordo com a vida, uma quebra de contrato.
Quando você celebra um contrato de serviços, ele deve se dar por escrito, com assinatura e testemunhas. Isso existe somente nesse mundo de pessoas, porque pessoas são, naturalmente, infiéis, temperamentais, e elas quebram contratos.
Não sei se existe alguma profissão na qual se trabalha mais do que a jurídica. Os juízes estão sempre cheios de querelas, sempre mediando situações, porque as pessoas quebram contratos. Essa infidelidade é da natureza da mente. Então, os contratos terminam se tornando problemas. Na Existência, a quebra de contrato representa conflito. Agora mesmo, se você está vivendo alguma forma de conflito, é porque você está quebrando algum contrato. Se você quebra o contrato com a Existência, com a Vida, vivencia o conflito. Todo o seu sofrimento está baseado nesse princípio; é uma querela, uma demanda, é um choque com a Vida, com a Existência.
O meu trabalho aqui é lhe mostrar que todos os seus problemas são imaginários. Quando os pensamentos vierem até você, pergunte para quem são eles. Descubra a fonte dos seus pensamentos. É assim que se faz! “Quem sou eu? Qual é a fonte desse ‘eu’? Qual é a fonte desses pensamentos? De onde eu venho?” Assim, você perceberá que está na ilusão e, nela, a sua vida é cheia de problemas, porque está cheia de imaginação, de muitos pensamentos, ideias, crenças.
Descubra para quem esse “eu” aparece e, então, você descobrirá uma coisa maravilhosa: esse “eu” nunca existiu! Todos os seus problemas estão na imaginação. Você está contra a Existência, numa permanente luta, e essa é a causa do seu sofrimento, do seu conflito, com seus pensamentos e desejos: “Eu quero isso, não quero aquilo”; “Eu tenho certeza disso, não tenho certeza daquilo”.
No seu Ser, você é um Sábio, mas, na mente, você é estúpido, uma estúpida “pessoa”. Você não quer ser feliz! Você quer excitação! Você sabe que comer muito, comer errado, vai lhe fazer mal. Você vai ficar gordo, terá diabetes… Você não herdou essa doença, mas vai adquiri-la ao longo da vida porque os seus hábitos são prejudiciais. Então, o que você quer? A excitação! Você não quer ser feliz! Se quisesse ser feliz, não cedia à tentação de comer essas guloseimas que fazem mal. Portanto, na mente você é estúpido. Você sabe que vai lhe fazer mal e mesmo assim ainda pratica, ainda come, ainda faz. Então, o que você quer? É ser feliz? Não! Você quer excitação!
Isso vale tanto para a alimentação quanto para relacionamentos, de todos os tipos. Você sabe que estão lhe fazendo mal, mas quer a excitação, não quer a Felicidade. Você sabe que fumar vai matá-lo, mas, mesmo assim, a excitação de fumar é mais importante do que não morrer, até que a hora da morte chegue. Você sabe que comer de forma errada vai matá-lo a curto, médio ou longo prazo, mas você quer a excitação de comer errado, e prefere isso ao perigo da doença e da morte. Chega um momento em que você adoece, vai para um leito de hospital, vê que pode morrer por causa daquilo, aí vai orar a Deus.
Você vem ao meu encontro e diz: “Aqui é tudo diferente”. Claro que é, porque eu não vivo na ilusão. O que o atrai a mim é a sua percepção de que eu não vivo nesse modelo. Você está num sonho, mas ele já se tornou um pesadelo, e eu quero ajudar você a acordar. Somente quando você acorda, o sonho termina, e, quando ele termina, a Felicidade está presente. Olhe para mim, escute a minha voz, ouça o meu silêncio... Sabem o que é isso? São sinais! É o perfume da Felicidade! Por quê? Porque vivo sem imaginação, sem quebra de contratos! Estou em acordo completo com a Vida, com a Existência, e, quando se está nesse ponto, nada falta!
É exatamente o oposto da vida no mundo da mente, dessa egoidentidade, onde você deseja muito e não tem nada. Fora do ego, você nada deseja e tem tudo! Você quer o mundo e ele lhe é negado. Você vive numa luta constante para conseguir coisas do mundo, mas tem medo de perdê-las. Então, você vive desejando e tendo medo, mas, quando acorda, isso muda. Olhe para mim! Eu queria Deus, a Verdade, queria esse Amor, essa Paz, essa Alegria, essa Felicidade que eu vivo hoje. Deixei o mundo à minha volta acontecer, sem me envolver com ele. Deixei de imaginá-lo, parei de quebrar o contrato com a Existência. É assim que acontece esse encontro de você com Deus, com o seu Ser, com o seu Coração, quando então você não deseja mais nada do mundo, não tem mais medo de nada no mundo, mas tem tudo o que precisa. Na realidade, você tem muito mais do que precisa, mas nada disso produz medo ou conflito.
Você vê a foto aqui atrás [o Mestre aponta para o quadro de Ramana Maharshi]? Eu queria encontrar Cristo e Ele veio, na forma do meu Mestre, falar comigo sobre Deus. Quando eu era criança, disseram-me que Cristo estava no céu, ao lado direito de Deus, assentado num trono muito grande e que, se eu falasse com Ele, conseguiria uma vida de felicidade, sem conflito, sem sofrimento, sem problema. Assim, fui falando com Ele, cresci falando com Ele, e, quando tinha vinte e quatro anos, Ele me ouviu e apareceu para mim na forma do meu Mestre.
Lembro que, naquela época, havia um conflito interno entre a imagem que eu tinha de Jesus, como me ensinaram na igreja, e o meu Mestre, que falava ao meu coração, que tinha olhos que me tocavam profundamente. Porém, foi uma questão de clareza interna acontecendo, porque, se eu estava orando a Deus, não poderia ser o diabo que estava aparecendo para mim; se o meu desejo de infância — e cresci nesse desejo — era parar de viver pecando, fazendo coisas erradas, sentindo dor e produzindo dor à minha volta, não era possível que essas orações estavam, agora, sendo respondidas pelo diabo. Outra coisa: quando o meu Mestre apareceu, os seus olhos tinham um brilho e o seu Silêncio tinha uma voz. Era um Silêncio, mas com uma voz… Era como uma música, trazendo algo para mim que nada nesse mundo poderia trazer, então, não poderia ser do diabo, não poderia vir do mal, só poderia ser uma resposta divina para mim.
Quando Ele me encontrou, eu fiquei mais leve, e não mais pesado. Fiquei tão leve que, a princípio, não precisava mais ficar lendo tanto a Bíblia, porque a “Coisa” já estava vindo para mim, de dentro de mim. Quando eu olhava para Ele, a certeza estava lá! E sabe qual era essa certeza? “Ele me ama! Ele me compreende! Ele me aceita! Quando eu estou com Ele, tudo fica diferente”. Como um de vocês escreveu agora, aqui: “Que mágica é essa, na sua Presença, que faz com que tenhamos vontade de rir dos nossos problemas?”
Isso aqui inclina o seu coração para o Silêncio, para a ausência do desejo e do medo. Aqui, você não tem nenhum contrato para quebrar.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro intensivo online, no dia 16 de Maio de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Desidentifique-se da mente!

Este encontro é mais uma oportunidade para a autoinvestigação. Trata-se de um convite da Consciência para a Consciência. Não é um convite para a mente, pois ela não pode conhecer nada.
Nós temos um tipo de consciência objetiva e, mesmo ela, não é a mente conhecendo alguma coisa. Como a mente não pode conhecer nada, ela não pode se convidar para essa investigação, pois ela é somente mais um objeto. Então, o que nós chamamos de “consciência objetiva” é apenas uma percepção dessa Consciência, que não pode ser definida ou limitada. A mente, sim, está dentro desse limite do conhecimento e da experiência. O que nós investigamos, nesses encontros, nesse convite da Consciência, é o movimento da mente.
Portanto, esse convite é da Consciência, na Consciência e para a Consciência. Tudo aquilo que pode ser, aparentemente, conhecido pela mente é um conhecimento nessa Consciência. A mente é apenas um elemento de percepção, e tudo que ela pode fazer é perceber sua limitação, o que ocorre através dessa investigação da Consciência. Então, na verdade, essa Consciência traz para a mente a percepção de que ela é limitada.
O que podemos dizer é que a mente pode explorar a sua limitação, e é isso que acontece nessa autoinvestigação: você percebe o quanto, na mente, esse sentido do “eu” é limitado, o quanto essa percepção e esse conhecimento são limitados. Então, isso é a única coisa que você pode descobrir dentro dessa autoinvestigação. Eu vejo isso de uma forma muito simples. Não sei se você consegue ver o quanto é simples a mente perceber sua própria autolimitação, suas crenças, imagens, seus conceitos, sua noção de futuro e passado.
Toda experiência do campo da mente é de percepção, porém, a sua Natureza Verdadeira, que é Consciência, está além da mente e de sua percepção. Essa constatação, por meio da autoinvestigação, consegue fazer com que a mente seja desconectada desse movimento de identificação com a experiência, da imaginação de ser uma “identidade”.
Durante toda essa percepção da mente, há algo além dela: a Realidade, que não precisa ser esquecida, mas é o que acontece quando não há atenção sobre esse movimento da mente. O homem comum está dentro desse autoesquecimento, porque está nessa identificação com a mente e com o que ela percebe. Então, isso passa a ser ele, sem ser, e essa Consciência fica travestida de pessoa. Agora, essa Clareza, o Despertar ou a completa Visão da Verdade é sempre um Mistério.
Isso é como você se olhar no espelho e dizer: “Sou eu!”. Agora, esse “sou eu” tem um significado inteiramente diferente do que a mente conhece, é algo inteiramente desconhecido, um grande Mistério. Esse Autorreconhecimento é chamado de Despertar ou Iluminação, que é a Compreensão de que a experiência e a ação não são suas, de que o pensamento, o corpo e o mundo não são seus, nem são O que Você é. Nós permanecemos Naquilo que somos quando a mente, o corpo e o mundo não têm mais importância. Em seu Natural Estado de Ser, que é Meditação, você simplesmente se permite pensar, sentir, perceber e experimentar, momento a momento, sem a ilusão de que “você” está aí, controlando, movendo, mudando e fazendo isso acontecer. Tudo isso apenas está acontecendo.
Quando não há um trabalho sobre si mesmo, você se confunde com esse pensar, sentir e perceber aparecendo, que você chama de “eu” − aqui está a sua identificação com uma imaginação. Você imagina uma sala, pessoas nessa sala, situações e coisas acontecendo, e isso sendo percebido, visto, analisado e entendido por uma “testemunha”. A mente diz que você é essa “testemunha”, mas isso é um truque, é somente uma percepção da própria mente, pois não há nenhuma testemunha aí. Há apenas esse movimento, biológico e funcional do cérebro, do corpo e dos sentidos nessa experiência. É muito fascinante isso!
A Consciência não participa disso, dessa ilusão. A participação Dela é como a base de tudo, mas não tem aí uma “pessoa”, uma “testemunha”. Ela é somente a base desse fenômeno impessoal. Tudo que aparece é somente um fenômeno impessoal dessa Consciência, nessa Consciência, para a Consciência. Então, mesmo a experiência que você chama de “medo” não está acontecendo para a “pessoa”, mas sim para um padrão de condicionamento psicológico. A sua Natureza Essencial não vivencia o medo, e sim a mente. Como você se confunde com a mente, nessa imaginação, aí está “você” com medo.
Existem pessoas inteligentes, não inteligentes, saudáveis, doentes, felizes, infelizes, altas, baixas, gordas, magras, mas isso é somente um fenômeno impessoal da Consciência, pois essas pessoas, essas formas, não carregam identidades separadas. Pessoas de todos os tipos estão dentro de uma sala, mas não tem nenhuma “pessoa” ali, porque tudo é somente um fenômeno nessa Consciência.
Consciência é O que nós somos. Assumir a sua Natureza Verdadeira é desfrutar do Amor, da Paz e da Felicidade, e não mais se confundir com o corpo, com a mente e com o mundo. Esse é o objetivo! Assim, nós permitimos tudo ser como é. Quando você permite tudo ser o que é, Você é O que é! Quando você se confunde com a mente, briga e não permite tudo ser o que é, as coisas serem como são, você está identificado com a ilusão de um falso “eu”, então, você é miserável, infeliz.
Você, em seu Ser, não pode ser infeliz! Fora do seu Ser, você sempre será miserável, haverá sempre essa luta contra a Verdade presente, aqui e agora, essa Verdade impessoal, na qual não existe “você” para controlar, opinar, julgar, comparar, avaliar, aceitar ou rejeitar.
Porém, a mente é teimosa, o ego é muito teimoso. É isso que diferencia o Sábio do tolo, o homem Realizado daqueles que não assumiram a Verdade sobre si mesmos: o tolo acredita existir e possuir o controle; o Sábio sabe que ele não está ali, não há o que controlar e “alguém” que possa controlar qualquer coisa. Então, um está relaxado em seu Ser e Feliz, e o outro está em sua mente, tenso e miserável.
E você? Onde você está nisso? Como você pode relaxar na Felicidade, na Paz e na Liberdade presentes aqui e agora se está no movimento de revolta contra o que a Vida apresenta, aquilo que Ela mostra, que é implacável, inexorável?
Então, a mente é essa série de conceitos e crenças aparecendo e assumindo um falso lugar. Olhe para isso de perto e se desidentifique da mente! Valeu pelo encontro! Namastê!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 23 de Março de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

6º - Descobrindo a Real Liberdade

No que diz respeito à nossa Real Liberdade, temos conduzido nossas vidas sempre dessa maneira: perdidos, vagando sem direção.
O fato é que onde não há Paz e Liberdade, não existe Felicidade permanente. Nossos breves momentos de alegria são circunstanciais, assim, somos também jogados para o outro lado do pêndulo, para a tristeza. Estamos perdidos nessa dualidade de prazer e dor, alegria e tristeza. Não há Silêncio em nossa mente e coração. Somos como dados no jogo das circunstâncias, lançados de um lado para o outro, à mercê de qualquer probabilidade.
A verdade é que não há aceitação da vida como ela é, com os seus desafios, então, a inadequada resposta que damos nesses momentos nos coloca em terríveis sofrimentos. E por que essas respostas são inadequadas? Porque estão baseadas nessa entidade chamada "eu", aquilo que alguns chamam de "ego". Essa entidade não existe, é uma ficção que tem sua base de vida apenas no pensamento. É aquilo que a Bíblia chama de "velho homem" ou "velha criatura".
O que estamos dizendo é que é possível uma vida inteiramente diferente, acima das circunstâncias, além da dualidade, ou seja, além dessa alegria em tempos "bons" e tristeza em tempos "ruins".
Quando esse "eu" desaparece, nessa Realização de Deus, não há mais dualidade e o sofrimento termina. Mas, para Isso ser descoberto e realizado, requer-se um coração dedicado à investigação da Verdade; não em letras de livros ou palavras, por mais bonitas e sábias que nos pareçam, mas em nós mesmos, no claro percebimento do que não somos e, assim, na clara Visão de quem realmente somos.
Podemos ser livres a ponto de nunca mais sofrermos por nenhuma situação, acontecimento ou pessoa. Isso pode parecer bom demais para ser verdade, mas quero lhe dizer que isso é realmente muito bom e é a pura Verdade! Alguns já vivem desse modo e, embora sejam uma pequena minoria, estão fazendo uma grande diferença neste mundo de ignorância e sofrimento. Você quer aprender a viver assim? Isso só é possível no espelho, pois ele revela o nosso rosto.
A vida é esse espelho, com todos os seus desafios, situações, acontecimentos e pessoas com quem nos relacionamos. Assim, descubra como estar atento! Não ignore, não se afaste ou despreze esse espelho, pois a vida é uma dádiva de Deus.
*Este texto, escrito pelo Mestre Marcos Gualberto, compartilhando a visão do Sábio sobre a vida, foi veiculado pela primeira vez em 07 de outubro de 2010. Trata-se da sexta publicação deste blog, fazendo parte do acervo relativo aos primeiros anos deste trabalho, cujos textos, após terem sido mantidos offline nos últimos anos, serão republicados em série, de forma comemorativa pelos dez anos de criação deste blog, este que foi o primeiro canal da internet através do qual este trabalho tornou-se público. Para mais informações, acesse o nosso site,  clique aqui.

sábado, 11 de julho de 2020

5º - Deus como o “Eu Sou”

Durante muitos anos da minha vida, segui o padrão comum da busca de Deus. Eu fui criado em um ambiente como a maioria das pessoas, sendo treinado para falar sobre Deus como se O conhecesse. Contudo, não se conhece Deus através de palavras, conceitos e crenças, que nada mais são que afirmações verbais.
Estamos dispostos a defender qualquer imagem mental como realidade, colocando-a no lugar da própria coisa: a ideia do marido no lugar do marido; da esposa no lugar da esposa; dos filhos no lugar dos filhos... Assim também fazemos com a ideia ou a imagem de Deus, tomando-a como o próprio Deus. Então, ensinam-nos a crer, a aceitar as imagens mentais no lugar da coisa em si.
Dessa forma, ficamos limitados a crer, a novamente crer, e, depois, a crer outra vez, em uma coisa atrás de outra: doutrinas, crenças, filosofias, conceitos... Temos nossas cabeças cheias de imagens, acerca de tudo, e nada conhecemos realmente de primeira mão. Por essa razão, estamos vivendo uma vida superficial, estreita, confusa e profundamente contraditória.
Apesar de termos todas as teorias e palavras sobre como viver uma vida em paz, em amor, em liberdade e em felicidade, na verdade, não vivemos isso. Os anos passam e, com eles, a nossa capacidade física, mental e emocional, mas continuamos afirmando coisas que realmente não vivemos, não conhecemos. Dizemos uma coisa, pensamos outra e fazemos uma outra. Pura contradição! Ou seja, somos teóricos, criaturas verbais, cheios de respostas teóricas para tudo e, ainda assim, estamos confusos.
A pergunta é: podemos nos livrar inteiramente de todo esse padrão condicionado de viver? Podemos nos livrar de todas as teorias, crenças e conceitos para entrarmos em uma Visão Direta de Deus? Esse modo de dizer nos coloca em um terreno perigoso, o terreno da crença, no qual podemos pisar novamente e aceitar um “eu” capaz de enxergar um Deus separado dele, para que, depois, possa carregar essa imagem, falando Dele para todos.
No entanto, todos aqueles que têm tido esse Encontro Real falam como Moisés diante de faraó: “Eu Sou me enviou a vós”. Uma Vivência Direta com Deus destrói todas as teorias, crenças e, naturalmente, todas as imagens. Todas elas fazem parte da memória e, portanto, do pensamento, daquilo que pode ser descrito pelo pensamento, sendo, assim, limitadas. Todas as descrições são limitadas, porque todos os pensamentos assim o são.
Moisés disse que aquele que vê Deus, morre. Portanto, quando o “eu” desaparece, Ele aparece como “Eu Sou”; como Silêncio, Amor, Bem-Aventurança, Realização e Paz.
*Este texto, escrito pelo Mestre Marcos Gualberto, compartilhando a visão do Sábio sobre a vida, foi veiculado pela primeira vez em 05 de outubro de 2010. Trata-se da quinta publicação deste blog, fazendo parte do acervo relativo aos primeiros anos deste trabalho, cujos textos, após terem sido mantidos offline nos últimos anos, serão republicados em série, de forma comemorativa pelos dez anos de criação deste blog, este que foi o primeiro canal da internet através do qual este trabalho tornou-se público. Para maiores informações, acesse o nosso site,  clique aqui.

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Algo fora do tempo, do conhecido e que está além do limite da mente

Se você se depara com uma imagem diante de um espelho, nunca duvida de que ela é apenas um reflexo. Você não acredita que tem alguém dentro daquele espelho, olhando para você. É muito claro que é somente um reflexo, uma imagem, e que isso não é você. Porém, a mente, aí dentro, vê tudo de uma forma diferente.
Então, o que estamos investigando aqui? Estamos apenas nos tornando cientes de que uma imagem é apenas um reflexo, não representa a Realidade. Isto aqui não é um curso, em que você aprofunda o seu conhecimento. Este Trabalho não é de crescimento, nesse sentido. Isso porque o Ser não se aprofunda, a Consciência não se aprofunda. Quando falamos de Consciência e de Ser, estamos falando de Algo fora do tempo, do conhecido, que está além do limite da mente.
Você não pode imaginar uma rosa ou uma orquídea, em sua expressão, tornando-se mais profunda, ou seja, tornando-se mais do que ela já é, em sua manifestação de flor. Ali está a flor: simples, bela, natural... Ela não pode ser mais bela do que já é, ou complexa, ou não natural. Sua Natureza Divina, sua Natureza Essencial, carrega a marca da Eternidade, da Atemporalidade, do Desconhecido. Você, em seu Ser, já é essa Consciência e está além do tempo.
Você escuta essas palavras e pode até perguntar se elas são verdadeiras, mas não se trata de serem verdadeiras ou falsas. Nada é verdadeiro ou falso. Assim, eu faço a pergunta e lhe dou a resposta: nenhuma palavra é verdadeira. Aqui, não se trata de verdadeiro ou falso, pois, quando lidamos com palavras, estamos lidando com um apontar; é uma seta no meio da estrada.
É como quando você vem dirigindo seu carro e, ao chegar em uma encruzilhada, tem a felicidade de encontrar uma seta indicando para a direita ou esquerda. Então, palavras aqui funcionam como essa seta na encruzilhada; não são verdadeiras nem falsas, são apenas indicações. Você terá que descobrir se elas estão dizendo algo para você ou não. Esse passo na direção dessa dimensão da Verdade, da Sabedoria, é um passo na incerteza. Isso carrega uma grande beleza, porque você precisa de confiança, de rendição, daquilo que é chamado de “fé”, até você saber por si mesmo. Na verdade, esse Saber é adentrar o Desconhecido, que é o Não Saber.
Tudo bem? Podemos continuar ou fica como uma introdução? Aliás, todas as nossas falas são assim, elas nunca dizem algo, fica sempre um capítulo em aberto. Isso aqui é uma novela que não termina. Você se depara com essa seta na encruzilhada, que diz: “Tudo é ilusão”. Então, para entender a ilusão, é necessário um pouco mais de ilusão.
Participante: Aqui a seta diz “volte”; não é para direita nem para a esquerda.
Marcos Gualberto: Este Trabalho é surpreendente! Como a Verdade é fascinante! Quanto mais você se aproxima, mais percebe que não há distância, então, nunca sabe se Isso está perto ou continua longe.
Participante: A sensação é que está longe.
Mestre Gualberto: A mente diz que está longe. Então, eu chego e lhe mostro essa seta, essa indicação, e nela está escrito: “Tudo é ilusão!” Para entender essa ilusão, é necessário um pouco mais de ilusão. Você pode perguntar: “Afinal, o que você está dizendo? O que é isso que acabou de falar?” Vocês acham que podem chegar aqui e ter a Verdade. Não podem! Podem chegar aqui e ter um pouco mais de ilusão, que será colocada sobre a mesa para ser servida. Um pouco mais de ilusão para você deixar a ilusão. Vocês realmente não acreditam, mas podem acreditar que eu estou dizendo a Verdade. Contudo, se algo é falado, não é a Verdade. Se algo pode ser expresso, é algo dentro do tempo, dentro do conhecido.
Então, o propósito aqui não é encontrar, nessas palavras, a Verdade. O propósito nesse encontro é ter a constatação da Natureza da Verdade, que é o Desconhecido. Assim, Ela não está no tempo, não está nas palavras. Sinto muito... Por isso é que minha ênfase está na Meditação e não no estudo. Eu poderia pedir a vocês que estudassem o Vedanta, os Upanishads (livros sagrados da Índia), a Bíblia, os filósofos gregos, o Curso em Milagres, ou algum outro livro, outra escritura, mas a Verdade não está ali, não está na palavra, não está no que é dito.
Então, quando digo que esse aqui é um encontro onde, para se ver a ilusão, é necessário um pouco mais de ilusão, estou dizendo que essas palavras ou esse encontro com o professor, que a gente chama de Guru ou Mestre, é algo que também ocorre dentro dessa ilusão. Esse é como um encontro em um sonho, no qual uma pessoa lhe comunica muitas coisas. Aí você acorda e descobre que tudo o que ela disse tinha relação com o sonho, servia somente para dentro do sonho. Ou seja, ela estava dentro do sonho falando coisas sobre o sonho. Aqui estamos fazendo algo parecido com isso.
Participante: Aquilo que o senhor está dizendo comunica algo e para tudo.
Marcos Gualberto: Sua observação é interessante. Não é aquilo que é dito, mas é de onde vem essa fala, essa comunicação. Daí a beleza e a importância desse espaço chamado Satsang, que é o encontro com a Consciência, na forma do professor, do Mestre. Isso é Algo fora da mente sendo colocado numa linguagem de dentro da mente. A fala está dentro da mente, e a Realidade está além dela. Então, encontrar o Mestre é aceitar o ensino no “sonho”. Isso ainda está dentro da ilusão, mas há um encontro. Por isso eu disse que, para compreender Aquilo que está fora da ilusão, é necessário um pouco mais de ilusão, para que você aplique isso em si mesmo, investigue essa questão do “conhecimento” e, passada essa fase, atravesse essa ilusão.
Assim, as palavras nunca traduzem algo essencialmente verdadeiro, mas são uma forma de você, como aspirante à Realização, investigar em si mesmo o que é dito e ir além disso. Elas são úteis? Sim, são úteis. Mesmo estando dentro da ilusão? Sim. Porém, elas ainda estão dentro da ilusão, eu sei, por isso não são, em última instância, verdadeiras. Contudo, havendo esse acolhimento, essa confiança e aceitação desse “ensinamento” do Guru, do Mestre, em razão da fé e dessa confiança, um Trabalho real pode acontecer. Vocês compreendem isso?
Então, apesar de não estarmos lidando com a Verdade nas palavras, essa Autorrealização ocorre, e, a partir desse momento, o ensinamento do Guru, do Mestre, não é mais necessário. Isso porque, agora, você sabe que nenhum desses ensinamentos eram verdadeiros, mas você precisou da “canoa” para atravessar o “lago”. Depois que atravessa o lago, você não pega a canoa coloca nas costas e sai com ela, pois já atravessou o lago. Compreendem isso? Esse “lago da ilusão” requer “a canoa da ilusão”. Depois que se está na outra margem, percebe-se que não há lago, portanto, não existe margem do lado de cá e do lado de lá, e não existe canoa.
Essa é a beleza da Presença do Guru, do Mestre. Somente ele pode lhe mostrar a Verdade de que ele não é real, que qualquer conclusão sua sobre isso será falsa, ainda baseada na mente. Alguns vivem nesse debate: “A Presença do Guru é necessária ou não? Ela é Real ou não”? Eu concordo com eles quando dizem que não é necessária, mas, dentro da minha visão, não é necessária apenas quando não há mais ilusão. Enquanto a ilusão estiver presente, toda forma especial de ilusão se faz necessária. Existem ilusões e ilusões: ilusões especiais ou especializadas (vamos colocar assim) e ilusões não especializadas.
Ilusões não especializadas são ilusões da vida mundana. A ilusão especializada é aquela da inclinação do coração do devoto para o encontro com o Divino. Ainda é uma ilusão, mas é uma ilusão que somente a Graça Divina pode revelá-la como tal. Antes disso, qualquer conclusão é mera especulação intelectual e, portanto, egoica. Então, nesse sentido, eu concordo com os que dizem que o Guru é necessário, como Ramana dizia. “O Guru sempre será necessário”, Ramana dizia.
Aqui é necessário você estar diante da revelação do Sábio, da Consciência, da Presença, Daquilo que está fora do tempo psicológico, da mente psicológica, dessa egoidentidade. O Guru é essa Consciência se expressando em uma forma visível e audível, dentro desse “sonho” de mundo, no qual você acredita viver como uma pessoa. Tudo isso termina quando a ilusão termina. Quando se chega na outra margem, descobre-se que não há lago, nem margem, nem canoa, nem ensino, nenhum Guru! Tudo era somente um sonho e terminou!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 11 de Maio de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

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