terça-feira, 16 de fevereiro de 2021

O mundo não é o responsável por sua confusão

Todos procuram a Liberdade, a Paz, mas o próprio pensamento e o sentimento que eles têm sobre quem eles são, sobre o que a Vida é, sobre o que o outro é, é o que os impede de viver nessa Paz, nessa Liberdade. Aquele que se sente nessa Liberdade, nessa Paz, é exatamente aquele que não pensa – não pensa estar vivendo, não acredita estar vivendo. Aquele que não se sente nessa Paz e nessa Liberdade não pode saber o que é a Felicidade, porque ele pensa e sente como uma entidade separada, como alguém que controla tudo, ou deseja controlar tudo, mas não pode. No fundo, você sabe que não pode, e mesmo assim insiste. No fundo, você sabe que os seus pensamentos são interpretações sobre a vida, sobre o mundo, sobre o outro, sobre quem você é, e esses pensamentos o aborrecem, o entristecem, o ferem, o magoam, o fazem sofrer.
Sem investigar a natureza desse que pensa e sente, você se mantém perturbado, naturalmente confuso. Assim, o que prevalece é sofrimento. Não há Paz nesse estado! A sua guerra é o que produz o conflito em que você vive, e não o que está acontecendo externamente. Todo sofrimento é uma autoprojeção, é algo que está acontecendo dentro de você. Não é o mundo, não é a vida, não é o outro o responsável por sua confusão e, portanto, pelo seu sofrimento, por essa guerra e conflito em que você se encontra. É necessário remover esses obstáculos, e é o pensamento que os sustenta.
O sentimento é algo muito ligado ao pensamento, algo que se encontra dentro de uma grande limitação. Você se confunde com isso, se identifica com isso, se perde nisso. É sobre isso que temos falado com você. As ações que você toma são baseadas nas impressões que o pensamento causa, impulsionadas pelo sentimento estreito e limitado, ligado ao pensamento. Portanto, suas ações nascem dessa confusão e produzem mais conflito, mais guerra, mais sofrimento.
Uma vez confuso, você deveria parar e observar o que se passa aí dentro. Não deveria tomar nenhuma ação ou fazer qualquer coisa até que houvesse clareza. Mas não pode haver clareza quando se está confuso, não se pode agir inteligentemente quando se está perturbado. Isso explica por que há tanto sofrimento no mundo. Você se vê como uma pessoa capaz de resolver os problemas que a sua própria mente está criando, capaz de se livrar da confusão que, de uma forma inadvertida, você se envolveu. Tudo isso está acontecendo dentro de você! Por mais que você tente se livrar, você não consegue, porque sua ação nasce da confusão e, se ela nasce da confusão, sua busca para se livrar disso não é verdadeira.
Você não sabe o que é Liberdade para poder encontrar Isso buscando. Mas, na mente, você projeta se livrar disso fazendo alguma coisa. Nessa confusão, você se mete a fazer e se envolve com isso. É evidente que, se você não sabe o que é Liberdade… o que você pode fazer? Apenas fugir! Então, a sua ação é para se livrar do desconforto, da situação em que a mente, em que o seu próprio pensamento e sentimento o colocou – o que é uma característica muito presente nessa falsa identidade, nesse ego. Então, você se encontra sofrendo, confuso, em guerra, em conflito, buscando... Não a Liberdade, porque você não sabe o que é Liberdade, mas alguma coisa para aliviar essa dor. No entanto, o que quer que você faça não vai resolver.
Assim, você passa dos 20 anos de idade, vive mais 20 anos, mais 40 anos, mais 60 anos, e depois você morre, mas continua na mesma condição. Não há Felicidade, não há Amor, não há Paz, não há Inteligência, porque o que prevalece é a confusão, é a identificação com o que o pensamento produz, com o que o sentimento produz – você acredita nas coisas que eles dizem. Isso se confirma vez após vez, por evidências externas. Tudo o que a mente egoica sabe fazer é se confirmar, fazendo com que o mundo, o que acontece, pareça muito real. Isso é um velho truque do ego, um velho truque da “pessoa”, para continuar vivendo sua história.
Então, a coisa acertada é ficar quieto, se liberar de todo esse conteúdo, de todo esse peso interno, de toda essa confusão, mas você não pode. Apenas uma ação da Graça Divina, uma ação da Verdade, pode pôr fim à ilusão, e isso acontece quando você para. Precisa ficar quieto, precisa descobrir o que significa estar verdadeiramente quieto. Sua mente está colocando você em estados. Você é aquele em que todos esses pensamentos e sentimentos surgem, mas o seu hábito é se confundir com isso, é acreditar nisso, é preservar isso.
Você é algo além do pensamento e do sentimento, além da confusão, portanto além do sofrimento, da guerra e do conflito que surgem em razão disso. Mas você não se conhece, nada sabe sobre si mesmo, não conhece a Verdade de sua Natureza Real. Existem atividades internas criando essa agitação. O corpo está agitado, a mente está agitada, os sentimentos estão agitados... você está agitado! Você está se confundindo com o corpo, com a mente, então não há Consciência. Quanto mais consciente você se torna, mais fica claro que você não é isso. Na razão direta dessa inconsciência, maior é a confusão, mais a ilusão se estabelece como sendo verdadeira.
Então, uma ação Divina, uma ação da Graça, que surge dessa Quietude, se faz necessária para que haja maior Consciência, até que essa Consciência se torne absoluta e o conflito termine, a ilusão desapareça, a guerra não esteja mais aí dentro de você. Então, não haverá mais sofrimento. Permanecer nessa Luz de pura Consciência, que se assenta nessa Quietude por uma ação da Graça Divina, traz o reconhecimento da Verdade sobre quem Você é. Estar ali significa uma vida livre de sofrimento, uma vida livre dessa egoidentidade, com toda a confusão que ela produz. Você não tem referência disso à sua volta. Você vive e convive todos os seus dias com pessoas, e a primeira e mais importante pessoa é a mais difícil com quem você tem que lidar – essa pessoa é você! A pessoa número um na sua vida é a mais confusa.
O meu convite é para que você descubra a Verdade sobre quem é Você. Enquanto essa Verdade não se estabelece, o que não é Você prevalece, e isso sofre, sim, as consequências do que sente, das atitudes que toma, das ações que pratica... Sofre as consequências de acreditar ser “alguém”. É necessária uma profunda investigação e uma grande entrega à Verdade de que você não é o corpo, de que você não é a mente, para depois você dizer: “Não sou eu que faço. Não estou fazendo nada, não há alguém aqui para fazer.” Enquanto isso não se estabelece de uma forma real, isso é puro engano. Ainda é a mente egoica tentando se passar pela Verdade.
Participante: O que mais quero é conseguir essa desidentificação com esse falso “eu”, mas como conseguir isso?
Mestre Gualberto: Não é possível. Não se trata de algo que você irá conseguir; se trata de algo que você irá assumir. Você assume Isso quando há Consciência. Se não há Consciência, todo e qualquer esforço para alcançar Isso é apenas ainda o movimento desse falso “eu”. Na verdade, o que ele está buscando é se livrar de desconfortos momentâneos. Realização, essa Compreensão da Verdade sobre si mesmo, é a morte dessa condição de “identidade presente”, dessa “pessoa” que o pensamento dentro da sua cabeça tenta reafirmar o tempo inteiro, trazendo o senso de um “eu” presente, de “alguém” sentindo, pensando, fazendo, resolvendo…
É preciso que a gente compreenda isso sem o intelecto, porque, no intelecto, a gente fica dentro da dualidade. A gente pode desenvolver, intelectualmente, toda forma de crença sobre isso, falar sobre dualidade, sobre não dualidade, repetir frases inteiras, falas, palestras, ou muitas coisas que foram lidas em livros, mas, mesmo assim, isso não representará absolutamente nada. Por isso, o meu convite sempre será para essa Quietude, para esse Silêncio, para esse Descobrimento, dentro da pura Visão da Consciência, que é a Meditação. Só então será possível estar além dessa dualidade, dessa identificação “eu sou o corpo” e também da crença “eu não sou o corpo”.
Tudo o que você precisa é descobrir o que é estar Consciente e permanecer nessa Consciência. Há uma Presença Divina imutável e Ela se mantém apesar do que o pensamento e o sentimento estejam produzindo. Aqui, a questão é que vocês se identificam com o que o pensamento produz e não tomam ciência Disso que está presente e que não se altera nunca. Essa Presença é sua Verdadeira Natureza. Tomar ciência disso é essencial, é fundamental! O toque da Graça torna isso possível. É necessário se abrir para Isso, estar aberto e receptivo para Isso e, assim, descobrir o que estamos dizendo aqui.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 04 de janeiro de 2021, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2021

Tome ciência de suas ações, reações e resistências

Satsang é uma oportunidade para você olhar para dentro, para aquilo que se passa aí. Na mente, há muita confusão – esse é o estado comum da “pessoa”. Você não está consciente de suas ações, reações e resistências presentes. É muito importante você ver suas resistências, de outra forma você se mantém na prisão, na cadeia da resistência. Ver as suas reações é a única oportunidade de se libertar delas, de outra forma você continua preso a elas.
Quando suas ações nascem dessas reações, elas são ações de um prisioneiro, e um prisioneiro não age com liberdade. No momento em que vê isso, você está fora disso. Somente quando está realmente fora dessas ações reativas, dessas reações psicológicas e dessa resistência, você se depara consigo mesmo em absoluta Liberdade.
Por isso, é muito importante estar em Satsang. Aqui, você pode investigar isso e ir além dessa mente egoica. Esse momento chamado “Satsang” é primoroso, é muito valioso, de muita importância! Aqui, tudo cai, tudo se dissolve, tudo desaparece! Não existe mais tensão, nem conflito ou medo, apenas Silêncio, Verdade, Inteligência, Liberdade... Liberdade é a coisa mais importante!
Não há Liberdade quando você está preso. Quando preso, você age como um prisioneiro. Assim são suas ações e reações dentro dessa resistência da velha identidade que você acredita ser. A natureza da mente é viver em conflito. Você tem toda forma de problema, toda forma de sofrimento. Você não pode resolver os problemas porque, na mente, você é o problema. Você se mantém preso a isso.
O que é importante aqui é você perceber que o que estamos dizendo procede totalmente. Ações, reações e resistências: o antigo e velho movimento da mente egoica. A vida na mente é contradição – você sente uma coisa, pensa outra, diz outra e faz uma outra coisa totalmente diferente de tudo isso. É ou não é assim? Não há Lucidez, não há Clareza, não há Liberdade.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 25 de janeiro de 2021, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

O estado humano comum não é natural

A pergunta que as pessoas se fazem é "como vai, tudo bem?" Por que será que as pessoas fazem esse tipo de pergunta umas às outras? Todos sabem por que isso é perguntado: você nunca sabe como aquela pessoa, que estava tão bem ontem, vai estar hoje; ou, que estava tão bem há dez minutos, vai estar agora, depois que se passaram dez minutos. Por que isso acontece? Porque aquilo que nós chamamos de “consciência humana” são estados mutáveis de emoções, sentimentos e pensamentos. É assim que o ser humano vive. Essa tem sido a nossa experiência comum.
Mas eu quero questionar isso. Isso é algo essencialmente humano do ponto de vista comum, mas não é essencialmente humano do ponto de vista Real. Tudo o que sabemos é como ser um ser humano comum, mas nada sabemos sobre como ser um ser humano Natural. Então, do ponto de vista comum nós perguntamos: "E aí, tudo bem? Como vai?" Mas você não precisa perguntar, basta olhar para o rosto da pessoa que você já tem uma leitura: ela está irritada, estressada, aborrecida, triste... Isso na melhor das hipóteses, porque ela pode estar muito pior! Não é assim?
Com você é assim também? Não conhece alguém assim? Dentro do seu círculo de amizade comum, as pessoas não são assim? Então, esse é o estado humano comum, não é o Estado Natural. O Estado Natural humano é não dual, de plena Consciência; é um Estado livre do “eu”.
Participante: Mestre, o “eu” e o medo são uma coisa só?".
Marcos Gualberto: Não só o “eu” e o medo são uma coisa só, mas o “eu” e o conflito, o “eu” e o sofrimento, o “eu” e o desejo, o “eu” e a inconsciência. Basicamente o que é esse “eu”? O que é que você chama de “eu” quando você fala de si mesmo ou de si mesma? Repare que esse “eu” uma hora é tristeza, outra hora é euforia, outra hora é arrependimento, conflito, medo... A gente não separa nunca esse “eu” dessa experiência emocional, sentimental, ou dessa experiência de pensamento.
Então, quando nós perguntamos "como vai você?", o que estamos querendo saber é “em que estado nesse momento você se encontra?” É como dizer: “Está com raiva? Está triste? Chateada comigo? Com o mundo? Com você mesma?” A gente só, educadamente, diz “e aí, como vai?”, mas o que estamos perguntando é isso. Estamos perguntando “que espécie de ‘eu’ você tem agora para me mostrar?” “Qual é o ‘eu’ que está presente no momento?” Não é isso?
Você que tem namorada ou namorado, ou vive num relacionamento mais próximo com alguém, sabe bem do que eu estou dizendo. Uma hora essa pessoa sorri, faz juras de amor. Dez minutos depois, ela está beliscando você, porque está cheia de pensamentos imaginários sobre traição, sobre estar sendo traída ou sobre a possibilidade de vir a ser traída. Então o ciúme toma posse daquele corpo, daqueles olhinhos bonitos, daquele rostinho meigo e, agora, ela parece o próprio demônio, possuída pelo ciúme. Não é isso?
Então com que “eu” estou tratando nesse momento? Numa relação com outra pessoa, você estranha o quanto ela muda, mas não percebe o quanto você muda, porque você tem vários “eus” também: uma hora é o “eu-conflito”, outra hora é o “eu-raiva”, o “eu-medo”, o “eu-desejo”, o “eu-…”, e por aí vai. Tem o “eu-amor” e o “eu-ódio”; o “eu” que ama e o “eu” que odeia. Você nunca é um só! Isso é fácil observar. Dificil é observar isso em si mesmo, mas no outro é muito fácil. Em si é que está a complicação. É fácil perceber que o outro é louco ou que está à beira da loucura. Então, do que tratamos em Satsang? Tratamos do Estado Natural humano, e não do estado comum da humanidade. Nós investigamos o estado comum da humanidade, mas não apontamos para ele como um real objetivo de vida, de existência. Nós estamos apontando para a não dualidade. Sabe o que significa não dualidade? Significa “não dois”. “Eu-amor” e “eu-ódio”; “eu-alegria” e “eu-tristeza” – isso é dualidade! “Eu e o outro”, “eu e o mundo”, “eu e o sofrimento”, “eu e o desejo”, e por aí vai – isso é dualidade!
Estamos falando da não dualidade, desse sentido de Realidade fora da mente, que é como um senso de conexão com a Vida. Então, essa ilusão de ser uma testemunha desaparece, a ilusão de ser “alguém” numa relação com o mundo desaparece – isso é não dualidade! Na não dualidade, você não vê o mundo – o mundo e você desaparecem. Você não vê uma montanha, não há “você” e não há montanha; ou só há a montanha, mas não tem “você”. Não tem “você e o mundo”. O mundo está presente, mas sem o sentido de um “eu” separado, e, quando não há essa separação, não há medo, não há o “eu-medo”. Quando não há essa separação, não há “eu” e a inveja, porque não existe objeto de desejo. Não há “eu e o controle”, então não há “eu e o ciúme”, porque não existe o medo de perder, o medo de não dominar, o medo de não controlar, que é o que sustenta a inveja, o ciúme, todos esses estados internos mentais conflituosos, infelizes e complicados dessa dualidade.
Estamos juntos até aqui? Percebem isso em vocês mesmos ou apenas no mundo em volta, no outro? É o outro que é assim? Você não vê isso em você? Esse sentido de dualidade, esse sentido de separação, esse desejo de fugir, de punir, de se vingar? Esse desejo de se proteger ou de não sofrer? Isso é sofrimento, isso é conflito. Não desejar sofrer já é sofrimento. Há um grande conflito nesse desejo de escapar do sofrimento. Percebam que é sempre o “eu” com esse perfil, é ele carregando esse perfil. Sem o sentido do “eu”, só há a montanha, não há “eu e a montanha”. Sem o sentido do “eu”, não existe o amigo do outro lado nem o inimigo. Não existe aquele de quem “eu” gosto e aquele de quem “eu” não gosto. Compreendem isso? Compreendem que gostar de pessoas é como não gostar de pessoas? O problema está presente.
A raiz de todo sofrimento humano está na ignorância dessa simples e direta Verdade – a Verdade de que não há dois. Só há essa Consciência em toda parte! Alguns sábios chamaram essa Consciência de Deus. A única Realidade, a única Verdade presente em toda a manifestação, em toda existência, em toda parte! Só há Deus! Não existe “você e Ele”.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 13 de janeiro de 2021, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Desidentifique-se do corpo e da mente

Nesses encontros, nosso grande objetivo, nosso grande propósito, é nos voltarmos para o Coração, nos voltarmos para dentro. Estamos tratando de Algo que já está presente como nosso próprio Ser. Não é alguma coisa que vai chegar; é Algo que já está presente. Portanto, nosso propósito é entrar em contato direto com Aquilo que somos, agora mesmo, aqui, neste instante. Quando falamos da Natureza da Consciência, da Natureza do Ser, estamos tratando de Algo sempre presente. A mente está sempre procurando novas experiências, novas sensações, mas seu Ser não é uma experiência nova, nem é uma sensação nova. Seu Ser é essa Realidade presente!
Nós passamos uma vida inteira alimentando e sustentando essa falsa identidade, que é quem está sempre buscando, procurando, tentando encontrar algo novo. A mente faz isso em razão da sua insatisfação. A natureza da mente é se afastar do Coração, Daquilo que está presente agora, aqui, neste instante. Todo nosso interesse, em Satsang, está em constatar Aquilo que somos, entrar em contato diretamente com Aquilo que somos neste instante, neste momento presente. A mente tem construído o tempo. Ela se move nele. Assim, ela está sempre buscando experiências e sensações. Quando você faz isso, você se identifica com o corpo e com a mente.
A base de toda miséria humana é essa identificação com o corpo, a ilusão de uma identidade presente dentro do corpo. Se você é alguém dentro do corpo, está preso à noção de tempo e espaço, vivendo na procura de experiências e sensações. Toda a sua vida gira em torno dessa ideia central: a ideia de que você é uma pessoa.
Em uma certa manhã, um homem esteve diante de Ramana Maharshi. Ele era um missionário e também professor de inglês. Ao entrar e se prostrar diante do Mestre, ele estava em grande tristeza, porque havia perdido o seu filho na guerra. Naquele momento, ele perguntou ao Mestre: “Afinal, qual é o meio de se obter essa libertação da dor?”. Ramana olhou para ele, se manteve em silêncio por alguns minutos, e respondeu: “Toda sua tristeza está apenas na sua mente”. Ramana lhe disse que toda aquela dor estava sendo criada pelo pensamento. O Mestre lhe disse: “Sua tristeza é só o seu pensamento; a sua Natureza Verdadeira é Paz”. E continuou: “O seu remédio é investigar, dentro de sua própria Natureza, quem é Você. É porque o pensamento diz que o seu filho não existe mais que você sente tristeza. Se no pensamento você ainda acreditasse que ele está vivo, você não sentiria nenhuma tristeza”.
Ramana também lhe contou uma história, que eu vou contar para você aqui. É a história de dois jovens que saíram juntos numa peregrinação. Eles chegaram numa aldeia, no norte da Índia, e um deles morreu. Aquele que ficou vivo arrumou um emprego e começou a trabalhar. Depois de um certo tempo, ele decidiu voltar para sua cidade, mas, nesse intervalo, ele conheceu alguém, um outro peregrino que estava voltando antes dele para sua cidade. Então, ele pediu para o peregrino avisar à família daquele seu amigo que ele havia morrido. Assim, o peregrino transmitiu as notícias, mas, ao fazer isso, trocou o nome dos rapazes. Como resultado, os parentes e amigos do falecido estavam contentes, porque acreditavam que ele estava vivo, enquanto o pessoal do peregrino vivo estava pesaroso e muito triste, todos chorando, pensando que esse tinha morrido. A notícia foi trocada!
Então, Ramana lhe contou isso, e é isso que estamos falando com você nesse encontro aqui, em Satsang: enquanto você se identifica com a ideia da pessoa que você acredita ser, todo o seu mundo gira em torno de pensamentos. Identificado com o corpo e com a mente, você é uma pessoa no mundo – um mundo de crenças, conceitos, conclusões, opiniões. Esse é o sentido de escravidão, o sentido de uma egoidentidade.
A Iluminação, ou o Despertar, ou Realização de Deus, é o definitivo rompimento com essa crença “eu sou alguém” – alguém que tem família, parentes e amigos. Na mente, você sempre vive no medo de perder o que tem, e o que você tem só existe na sua cabeça. Esse é o seu mundo! O que eu estou dizendo em Satsang, todos os dias, é que Você já é a Paz, já é a Liberdade, já é a Felicidade, mas somente quando não tem nada. Quando você não tem nada, Você é a Felicidade! Quando você tem alguma coisa, você é miserável.
Seu sentido de pessoa é tão miserável que projeta miséria para além da vida do corpo. Vocês esperam morrer e ir para um “outro lado”, se encontrar com seus medos, desejos e apegos, encontrar algumas pessoas que estão “do lado de lá”. O medo é a base da mente. Em razão do medo, a mente tem criado todo tipo de vinculação com coisas, pessoas, lugares... Esse é o estado miserável da pessoa, desse “mim”, desse ego.
Você precisa “morrer” para tudo isso, “morrer” para a pessoa que você acredita ser, e “morrer” para todas as coisas que você acredita que tem, o que significa parar de buscar experiências e sensações. A Paz, a Liberdade, o Amor, a Felicidade está aqui e agora quando você não está, quando a sua mente não está, quando essas imagens na sua cabeça não estão mais aí. Então, de fato, você “morre”, o seu mundo desaparece. Agora, Você está além da vida e da morte, além da ilusão de que um dia nasceu e de que um dia vai morrer. Você é esse Espaço que nunca se agita, esse Espaço que não se move.
Você aqui tem uma sala e pode movimentar os móveis dentro dela. Você pode criar agitação de objetos dentro dessa sala, mas o espaço dela não se move. Quando você Realiza a Verdade sobre Si Mesmo, Você é esse Espaço que não se move. Todos os seus parentes, um dia, irão morrer. Um dia, todas as coisas que você tem, você perderá. Quando você perde o próprio corpo, você perde tudo! Quando, fisicamente, seu corpo vai para a sepultura, você perde tudo, instantaneamente, imediatamente, de uma vez só. Mas agora você sabe que não é o corpo, e como você não é o corpo, você não perde nada. Isso é Realização! Jesus chamava Isso de “nascer no Reino de Deus”. Um dia, ele disse: “Aquele que crê em minhas palavras nunca morrerá!”. Se você também confiar em minhas palavras, nesse momento você poderá ir além da ilusão dessa “pessoa”. Nesse Despertar, nessa Realização, você nasce de novo!
*Transcrito de uma fala ocorrida em 28 de junho de 2017, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Viva como a flor de lótus

É importante que você faça suas descobertas. O que eu posso lhe dar aqui são indicações sobre o que você irá descobrir dentro deste trabalho. Essas indicações são, na verdade, revelações do que você precisa descobrir por si mesmo. A flor de lótus nos dá o exemplo: suas folhas vivem na água, ela bebe dessa água, retira vida dela, retira beleza dela, mas a água não a toca. Ela está no lago, mas a flor, em si, está na superfície da água. Quando a chuva vem e cai sobre ela, as gotas rolam para o lago, e a flor continua na superfície, não é tocada pela água. A flor de lótus se livra da água quando ela tenta tocá-la.
Você também precisa se tornar consciente da realidade do seu mundo. Você vive nesse mundo, sua vida física está nesse mundo, que é um mundo de pensamentos. O pensamento tem produzido isso tudo à sua volta! Sua existência física e sua história, como criatura humana, vão acontecer em mais um ano. O seu ambiente, como aparente entidade individual, é essa vida humana. O ambiente da flor de lótus é o lago, mas ela não é tocada pela água, ou, quando é tocada, a água não permanece em cima dela – ela rola e volta para o lago. Então, ela sempre está seca, livre da água, mesmo vivendo dentro d’água. Da mesma forma, embora essa existência física e psicofísica esteja nesse mundo, a sua Natureza Verdadeira não é desse mundo!
O que eu posso lhe adiantar é que, dentro deste trabalho, a descoberta que você fará é a de que o pensamento não é o instrumento, não é o alimento, não é a verdade de que você precisa. Ele jamais será um instrumento capaz de ajudá-lo a viver em harmonia com a vida! Ele não é o instrumento da Vida, ele não irá lhe ajudar a viver em Paz, em Verdade. O pensamento é algo caótico, contraditório, imaginativo, é algo fora da Realidade. Ele não trata da Realidade, mas da imaginação, da contradição, dos fenômenos. Se a sua vida permanecer assentada no pensamento, você será uma flor de lótus sufocada pela água. Mas não é assim que acontece com a flor de lótus, pois ela não se deixa sufocar pela água. Se o nível da água sobe, ela o acompanha, sobe com ele. Ela não aceita viver submersa. Nesse mundo, as pessoas são como uma flor de lótus, mas estão submersas na água, sufocadas por ela.
A minha ênfase é sempre nessa questão do pensamento, e por quê? Porque eu percebo que você passa a maior parte do tempo ocupado com pensamentos, e eles levam você para uma relação de “flor submersa na água”, o afastam da Realidade, porque o colocam no mundo, nesse “mundo da água”, que é o mundo da mente. Se está ocupado com o que o pensamento produz – e é com isso que a mente egoica se ocupa –, você está vivendo no ego, e não em sua Natureza Divina. O pensamento é algo morto, não toca a Realidade.
O pensamento fala de um Espírito, de uma Consciência, de um Deus, de uma Vida, de uma Imortalidade, de uma Inteligência, de um Amor, de uma Paz que ele não conhece. Ele não conhece, porque ele está morto! No pensamento, você está submerso numa identificação com um personagem, com esse personagem que você acredita ser, o qual odeia, ama, sente falta, necessidade, sofre, deseja… Não é isso, não? Eu estou errado? Mostre para mim uma lembrança que não seja uma fotografia do passado. Nunca notou que é impossível você trazer uma lembrança que não seja uma fotografia do passado? E, se é uma foto, não é a Realidade, é uma impressão de memória. O pensamento é algo morto! Suas relações não estão vivas, porque todas elas estão baseadas na memória.
Há quem fale da importância de se construir um mundo correto pelos pensamentos corretos, de realizar o que você deseja, desejando a coisa correta. Você precisa estar atento para ter discernimento. O ser humano é muito ingênuo! Ele se deixa convencer pelo que escuta e convence outros sem uma investigação mais acurada, mais verdadeira, mais honesta. Você não irá construir o mundo fazendo uso do pensamento, o mundo já está pronto! O que puderam fazer pelo mundo já o fizeram, e o que alguns precisam ainda fazer no mundo, irão fazer, sonhando da forma que estão.
Quando vem a Satsang, você é convidado a parar de sonhar, a deixar o mundo em paz. O mundo deixará de ser construído ou de se reafirmar vez após vez? Não. O pensamento sempre estará construindo o mundo; ele só não precisa do seu pensamento, de mais um nesse contexto de sonho, se vendo como uma entidade separada, capaz de controlar e fazer as coisas. Um Buda é aquele que vê o jogo e, para ele, isso é apenas uma brincadeira. Ele não está dentro do jogo.
Como eu disse agora há pouco, o pensamento é algo morto, não pode tocar a Realidade. Ele é aquele que cria os problemas e vai em busca da solução para eles. O pensamento traz ideias a você sobre como o mundo deveria ser, e você pode ficar dentro desse jogo, tentando construir um mundo diferente do que você está vendo, acreditando, como uma entidade separada, estar no controle, ser capaz de gerenciar e corrigir a vida, construindo o que você deseja, como se isso pudesse lhe trazer harmonia, paz e felicidade, como se isso tivesse base dentro da Realidade da Consciência, da Realidade do Ser. Não! Pensamentos são contraditórios, dualistas, problemáticos, imaginativos...
O planeta não está em perigo! O mundo não precisa de ajuda! Você, sim, está em perigo, já que não pode ver, ouvir, lidar com o pensamento como ele é, com os sentimentos como eles são, com as emoções como elas se apresentam. Você é o perigo, um perigo para si mesmo, e isso é estar fora da Realidade. O perigo é estar fora da Realidade, é ser infeliz, é ser “alguém”.
Desses quase 8 bilhões do planeta, quantos vocês acreditam que amanhecem no primeiro dia de um novo ano, como este de 2021, e já se deparam com algo assim? Quantos são advertidos ou chamados para Isso? Eu não estou lhe desejando um ano novo, eu estou chamando a sua atenção para a Vida, sem toda essa coisa velha, morta, que é a vida no pensamento. Há algo em você além do tempo, além do espaço, anterior a toda essa manifestação chamada “mundo”, a toda essa criação, a tudo isso que o pensamento tem produzido. Há algo anterior a tudo isso! Anterior ao corpo, à mente, à história, ao pensamento... Aquela flor de lótus vive na água, bebe da água, está dentro d’água, mas quando você joga água sobre ela, a água rola. Quando você compreende o que eu estou dizendo, de verdade, nada mais pode permanecer.
Krishna diz na Bhagavad Gita para Arjuna: “O mundo em mim não permanece.” Há um outro momento em que Krishna também diz: “Não se impressione com minhas palavras, é Aquilo que Eu Sou que importa”. Na Índia, eles chamam a Visão Daquilo que Você é de Realização de Deus, que é quando há a Compreensão de que Você é o princípio de toda a manifestação, a única Realidade, e não há mais a prisão do pensamento.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 01 de janeiro de 2021, num retiro online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

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