Esse assunto das relações, que é a sua pergunta: a sua pergunta é se temos que olhar para o outro ou olhar para nós mesmos, se temos que tomar ciência daquilo que se passa dentro de nós ou temos que olhar também para o outro, para o que ele faz ou para o que ele representa. Primeiro, antes de tudo, por que isso acontece? Em que nível se encontram nossas relações? Quando você se relaciona com alguém, quem é a pessoa com a qual você se relaciona? Quem é a pessoa que é você nessa relação? É isso que nós temos que estudar, é isso que temos que compreender.
Pode parecer razoável querer não sofrer nas relações, mas as relações humanas estão sobrecarregadas de sofrimento. E por que isso ocorre? Então, apesar de não querer o sofrimento, ele está presente. E por que ele está presente? É a compreensão disso que nos liberta do sofrimento, e não o desejo de ficar livre do sofrimento na relação. O que você irá observar dentro da relação é que nós não temos um encontro real com o outro. E por que não temos esse encontro? Porque nós não sabemos quem nós somos nesse contato, nessa relação.
Você não pode ter um encontro real com ele ou com ela a partir da ideia que você faz sobre quem ele ou ela é. E estamos fazendo isso o tempo todo, porque nós não temos só ideias sobre os outros: nós temos ideias sobre quem nós somos, sobre o que merecemos, sobre o que não merecemos, sobre como o outro deve nos tratar, nos receber, nos aceitar. Então, a nossa relação é sempre uma relação confusa, problemática. É a relação da confusão. Isso não é real, Real Relação.
Existe algo aqui que nos escapa o tempo todo: é o fato de que pessoas, de fato, não se encontram. Elas não se encontram. São como opiniões: cada um tem a sua; talvez haja uma concordância de opiniões. Nesse momento, aparentemente, um encontro aconteceu; fora isso, é desencontro total. Então, primeiro, antes de tudo, a gente tem que investigar a verdade sobre quem nós somos. Nós não temos como ter a verdade sobre o outro. Aliás, a visão da verdade sobre si mesmo irá lhe mostrar, sim, aquilo que você é. A compreensão daquilo que você é irá lhe fazer ver o outro. Mas o ponto não é ver como o outro lhe trata; o ponto é ver como você se sente nesse tratamento.
Há algo que a gente não percebe. Nós não somos diferentes uns dos outros: psicologicamente falando, internamente, do ponto de vista dentro de nós, nós somos como todas as outras pessoas. Você não se dá conta de que é invejoso - isso seria muito doloroso para você se dar conta - mas você é invejoso. Você não se dá conta de que você é violento - isso seria doloroso demais você se dar conta disso. Você se vê como deseja ser, e não como de fato você é.
Então, você se vê como uma pessoa pacífica, amorosa, compreensiva, inteligente, verdadeira, leal, bondosa. Você se vê como deseja ser, como idealiza ser; você não se vê como você é. Sabe qual é o resultado disso? Quando o outro não reconhece esse ideal que você tem sobre si mesmo, isso lhe magoa, lhe ofende, lhe entristece, lhe aborrece ou lhe enraivece, ou lhe deixa furioso ou furiosa demais. E você chama isso de relação, de relacionamento. Sim, vamos chamar isso de relacionamento, mas desconhecemos a presença da verdadeira Relação.
Então, o nosso modelo de ser alguém é esse: é o modelo da pessoa. Quando é que somos magoados? Quando é que somos feridos? Quando é que ficamos assim, enraivecidos? É quando a crença que temos sobre quem nós somos não é reconhecida por ele ou por ela. E nós vivemos nessa busca, nessa ânsia, nessa necessidade de apreciação, porque somos, na verdade, muito pobres; internamente somos criaturinhas muito pobres, pobres, sim. Pobres de Inteligência, pobres de Liberdade, pobres de discernimento, pobres de percepção de realidade. Pobres. Vivemos como criaturinhas muito carentes e apreciamos isso.
Então, o que nos falta? Compreender, compreender, compreender a si mesmo, compreender a verdade da vida, como ela acontece. Mas nós estamos vivendo em ideias, estamos vivendo em pensamentos; essa é a vida que nós conhecemos. O que pode nos parecer aqui muito estranho, mas fundamental, é a importância de nos compreendermos. Pode parecer estranho, porque a ideia que você tem é que você se conhece, que você se compreende. Olhe para si mesmo. Nós não soltamos, não nos desvencilhamos da dor; a gente não soltou, não se desvencilhou do sofrimento. E nós temos isso como uma coisa muito natural, ou seja, aquilo que é comum à nossa volta a gente tem, para nós mesmos como algo natural.
Então, viver ansioso, viver preocupado, viver com raiva, viver com medo, viver sofrendo - isso é muito natural. E lá vêm os especialistas e nos dizem: "Olha, é assim mesmo; ninguém nunca terá a possibilidade de ir além dessa condição, porque é assim." Reparem: eles estão certos, são razoáveis dentro daquilo que é a particular experiência deles. Então eles nos dizem: "Olha, ninguém pode se livrar desse 'eu', desse ego, desse elemento em você, que é a pessoa, que é a pessoa que sofre, porque isso é natural." Então, eles falam a partir de onde eles se encontram.
O que é que nós precisamos aqui? É compreender a nós mesmos, e é a compreensão que liberta. É a compreensão que nos faz ver que estamos lidando com um modelo de existência comum a todos, mas dentro da ilusão de todos. Esses todos não são diferentes uns dos outros, nem diferem de nós. Nós somos como todos. A não ser que tenhamos uma visão clara da Verdade sobre nós mesmos, a não ser que haja um rompimento com essa condição de vida mental, de vida psíquica, de condição psicológica, continuaremos olhando para o mundo a partir desse "eu", desse ego, e vivendo o que todo mundo está vivendo.
A meu ver, o sentido real de uma relação é cumplicidade, é companheirismo, cooperação mútua; isso requer a presença de Inteligência, e não há Inteligência no ego, não há Inteligência no "eu", não há Inteligência na pessoa. Nós transformamos isso - que seria um propósito real nas relações - em uma outra coisa. As nossas relações são para obtermos prazer, para extrairmos dele ou dela algo que nos dê uma compensação e que nos preencha. Olhe para si mesmo. A gente quer fazer as coisas para ser alguém; a gente casa para ser feliz.
Repare: a coisa mais absurda. Como é que uma ação de busca de algo em alguém que também está buscando algo que eu estou buscando? Serei eu capaz de dar ao outro o que não tenho, e ele me dá o que ele também não tem? Mas acreditamos que todo movimento na vida tem que ter um propósito para esse "mim", para esse "eu". E esse propósito será encontrado quando, nessa relação, acontecer isso. Então, nós vivemos sempre nesse padrão de necessidade psicológica do mundo, do outro, das coisas e das pessoas.
Então, esse propósito real de encontro foi perdido. Então, o que nós temos? Uma mentira, uma mentira de vida a partir desse centro falso que é esse "eu", que desconhecemos, que não compreendemos, que não temos nenhuma clareza sobre isso. Então, o que estamos juntos fazendo aqui? Estamos nos aproximando da importante questão: quem sou eu? Essa é a importância de se conhecer, essa é a importância de se autorrevelar, essa é a importância de se livrar da ilusão, do sofrimento em você. É quando você não vai mais projetar o fim desse sofrimento sendo dado por uma outra pessoa, mas vivemos nessa mentira.
A gente quer que o outro nos livre do sofrimento casando conosco. Mas ele também, ou ela também, está esperando a mesma coisa. Então, é completamente ridícula a ideia de que o mundo irá nos fazer felizes, o outro irá nos dar o que a gente não tem. Então, é desafiador? Sim, é desafiador saber que a vida não é aquilo que a gente espera ou deseja ou aguarda que ela seja; ela é algo diferente. O que a gente aguarda dela ou espera dela é falso.
Aqui, estamos lhe convidando a tomar ciência do que você é, e não de quem o outro é. Aqui, estamos lhe convidando a investigar a natureza da sua dor, abandonando a ilusão de que o mundo está lhe causando dor, o outro está lhe causando dor, o outro está lhe fazendo sofrer, ou o outro tem a possibilidade de o fazer feliz, ou realizado, ou pleno. Isso é falso, completamente falso. Mas é o que nós temos, é o que nós recebemos da história humana, da cultura em que vivemos. Ensinaram-nos que o mundo pode e precisa contribuir conosco, de alguma forma. Mas quem é você? Quem sou eu? É isso que precisa ser revelado; ninguém irá fazer isso em seu lugar.
Eu quero chamar sua atenção para algo aqui que eu tenho como a chave, eu vejo como a chave para essa clareza, para essa percepção, para essa lucidez. Essa é a presença de um olhar para nós mesmos, de um perceber aquilo que se passa conosco, sem reagir a isso. Essa é a presença de uma Atenção sobre si mesmo, algo - escute com calma - porque é algo inteiramente diferente do que nós conhecemos. A nossa ideia, sempre constante, é de reagir e nunca de ficar ciente, só. A gente quer ficar ciente para fazer algo. Aqui, estou lhe convidando apenas a olhar, olhar aquilo que se passa com você, dentro de você.
Se alguém lhe aborrece, o aborrecimento é seu, não é dele. Reparem que coisa estranha o que você vai ouvir, muito estranho. Quando você está aborrecido, isso tem uma causa; a gente não pode negar a causa desse aborrecimento. Só que a causa desse aborrecimento não é a resposta para o fim dessa dor de estar aborrecido. Então, quando você está aborrecido, em geral o que fazemos é encontrar a causa para explicar para nós mesmos, para justificar para nós próprios por que esse estado de dor está aqui. E o que fazemos quando estamos aborrecidos? Tomados dessa emoção, reagimos; isso dá um alívio, quando expressamos xingando, brigando, batendo no outro, culpando o outro. Mas isso não resolve, porque passamos por isso agora, neste instante.
Você tem trinta anos, você já esteve aborrecido pelo menos umas três vezes... evidente que não: você já esteve aborrecido muitas vezes. Se você tem trinta anos, não foram só três vezes. Então, o que ocorre conosco? Nós vivemos constantemente, por exemplo, ficando aborrecidos, e a gente nunca se deu conta do que é o aborrecimento. Isso é como ter um problema que nunca se resolve, e a gente tendo que lidar com ele vez após vez, após vez.
Então, não adianta você fugir do aborrecimento, fugir brigando, xingando, fazendo alguma coisa, porque você vai continuar sendo uma pessoa que se aborrece, uma pessoa que se chateia, que se magoa, que se ofende, que se entristece - porque não é só aborrecimento. Enfim, o estado em nós, de condição interna, de condição psicológica, é de continuidade, e isso não termina até que tenhamos real compreensão disso. E a gente não sabe como compreender isso, porque a gente não foi nem... em nenhum momento nos chamaram a atenção para a possibilidade dessa compreensão. É por isso que se fala que ninguém consegue viver livre do "eu", livre do ego, porque isso é o comum.
Nossas referências são de pessoas à nossa volta, sim ou não? Não são as pessoas que estão à nossa volta? A gente não vive com pessoas? A gente conhece algum extraterrestre vivendo conosco? Não. São pessoas, e pessoas são assim. Mas haverá algo além disso? Esse é o desafio de uma fala como essa, de uma qualidade de encontro como esse. Sabe como eu considero esse encontro? Eu considero esse encontro como um encontro profundamente religioso. Mas religioso no sentido de um apontar para Algo além... além do conhecido, além do comum. Mas também além das práticas espiritualistas ou doutrinas, ou do que a gente entende aí fora por religião. Aqui, trata-se de um encontro com a Verdade sobre você.
Então veja: nós temos a verdade sobre mim, e há uma realidade sobre você. Essa realidade sobre "você" não é essa verdade sobre esse "mim"; esse "mim" é esse que se aborrece, que se magoa, se entristece, sofre, carregado de problemas. Então, como podemos ter uma aproximação real disso? Tomando ciência de como nós funcionamos. Isso requer a presença de um olhar para as nossas reações em atenção. Quando você está aborrecido, você está desatento. Escute isso: você está desatento. E por que está desatento? Porque você está explicando, justificando, procurando a causa, procurando quem lhe fez isso; está absorvido na dor, mas se separando dela, fazendo isso. Então, você está desatento.
Experimente, da próxima vez em que ficar aborrecido, assumir isso. É um grande desafio não encontrar a razão, não encontrar a causa, não encontrar o porquê. Apenas ficar com a dor, com a sensação, sentimento ou emoção. Você sabe que, quando você sente algo, e quando isso tem a liberdade, por alguma razão, de se expressar, esse sentir se torna uma emoção; ele envolve o corpo, envolve algo físico. Então, da próxima vez em que você sentir algo do tipo, como a tristeza, não encontre a razão. Eu sei que é uma tentação muito grande não encontrar o porquê de estar triste. Experimente, quando estiver triste, ficar sem a razão da tristeza; experimente isso e veja se isso se sustenta.
Observe: quando você está triste, não há uma história? Não há uma história? Alguém consegue ficar triste sem a história desse alguém? Quando é que você está triste? Você está triste quando algo que não esperava aconteceu, algo que não aguardava para si mesmo surgiu. Você está triste quando você é rejeitado, quando você não é aceito, quando você não tem o que deseja; é quando você fica triste. Mas é só tristeza, ou isso se transforma em aborrecimento e também em raiva, e isso começa... E por que tudo isso ocorre? Porque não há uma Atenção para essa imagem que é você, que você tem sobre si mesmo, que foi magoada, que foi desprezada, que foi rejeitada. A gente defende essa imagem, defende essa pessoa que nós somos; para justificar, a gente explica. Então, esse é o jogo. É assim que estamos dando continuidade nessa desatenção para nós mesmos, a esse "eu".
Então, como podemos nos aproximar disso? Olhando. Essa é a presença da Atenção sobre as nossas reações. Veja: sobre as nossas reações. Não tem nada a ver com o outro, nada a ver com o que aconteceu do lado de fora; não tem nada a ver com a causa, com a razão; tem a ver com as nossas reações. O que estamos comunicando aqui para você é a chave da aproximação da Meditação. O que requer a base para isso: a base é se conhecer, Autoconhecimento. A importância do Autoconhecimento lhe mostra o que é aprender sobre si mesmo, e você aprende sobre si mesmo quando para de ter ideias, pensamentos, conclusões sobre o que está lá fora, a razão, a causa.
Notem que nós fazemos exatamente o oposto: a gente vive o tempo todo esperando que o outro nunca nos ofenda, nunca nos magoe, sempre nos trate do jeito que esperamos. Vivemos nessa dependência; essa pobreza interna de ciência de si, de si mesmo, nos coloca nessa condição. Então, falta-nos uma Atenção sobre nós mesmos, uma Atenção plena, completa, uma visão daquilo que se processa aqui, dentro de nós, neste instante.
A sua pergunta pela manhã foi: o que é ficar com o que é? Veja: a primeira aproximação é tomar ciência do que é. Espere: você está me dizendo que eu tenho que continuar com a raiva, com o medo ou com essa dor? O que estamos dizendo aqui para você é: fique ciente disso. Não é você ficando com isso. É a ciência de que esse estado e você não estão separados. Esse é o ponto. Veja: o nosso condicionamento foi outro. A gente tem a ideia de alguém triste, alguém magoado, alguém aborrecido. Não existe tal coisa. Eu vou dizer de novo: não existe tal coisa. No aborrecimento, isso é tudo, isso é você; não tem "você" aborrecido. Na tristeza, você só fica triste quando pensa; aí você se vê como alguém. Mas, quando há tristeza, é uma dor, é uma sensação, é uma emoção, é um estado, é uma condição. Tome ciência disso, apenas olhe, perceba, observe.
É assim que nos aproximamos daquilo que aqui está presente. E, quando nos aproximamos assim, não há alguém nessa aproximação; é uma aproximação sem alguém. Isso é Meditação. A presença da Meditação é a compreensão da ilusão de alguém; de outra forma, não existe Meditação. Quando alguém usa a expressão "meditação" como uma prática para alguém, a ideia é de alguém no exercício daquilo. Enquanto que, na Meditação, o que temos é a compreensão da inexistência do meditador; isso é Meditação. Quando há Meditação, o "eu" não está. Quando há Autoconhecimento, que é a compreensão daquilo que aqui está presente, não fica alguém.
Essa expressão "autoconhecimento" é uma expressão muito usada em psicanálise, em psicologia, em psiquiatria, nessa área de estudo do pensamento humano. Mas as pessoas sabem lá o que é autoconhecimento? Porque a compreensão da Verdade sobre esse "eu" é a clara visão de que não existe nenhum "eu". Então, quando você se aproxima para investigar a natureza desse "eu", na pergunta "quem sou eu?", se isso se aprofunda, nenhum "eu" é encontrado.
A pergunta "quem sou eu?" não tem nenhuma resposta. Não há resposta para a pergunta "quem sou eu?". Porque ela não é uma pergunta como um problema que traz uma solução; ela é uma pergunta como um problema insolúvel. Por ser insolúvel, estamos diante de um Mistério: o Mistério da Vida, quando esse "eu" não é encontrado. Então, você faz a pergunta, mas não é para ter uma resposta; é para adentrar o Mistério de que não existe alguém aí. Alguém aí para ficar aborrecido, alguém aí para ficar triste, alguém aí para ficar magoado, alguém aí para ter medo, alguém aí para se livrar do medo. Isso requer a presença de um olhar, isso requer a presença de uma percepção nova.
Quando você olha para algo, ou há o olhar ou existe alguém no olhar. É impossível o olhar de uma outra forma: ou o olhar está presente sem alguém, ou o olhar está presente tendo um observador. Quando é que esse observador está presente? Quando o seu olhar é para definir, é para explicar, é para falar a respeito, é para dar importância ou valor ao que está sendo visto. Como, por exemplo: quando você vê algo como uma flor, e você diz o nome ou você fala da cor, essa qualidade de olhar tem nela a presença daquele que observa. Mas estar diante da flor nesse olhar, sem a cor, sem a importância da cor, sem a importância da categoria da flor, da história da flor, da qualidade da flor - é só o olhar. Então, uma coisa é olhar; outra coisa é alguém vendo.
Em geral, o nosso contato com o momento presente é alguém vendo. Aqui, estamos lhe convidando a olhar. Olhe para essas reações em você sem dar nome, sem classificar, sem a ideia de quem fez, de quem não fez aquilo com você; apenas olhe, tome ciência. O que é ter uma aproximação da vida sem esse "eu"? Isso é a presença da Meditação. O que é isso? É olhar sem o observador, é perceber sem alguém que percebe, é ficar ciente sem alguém com qualquer interesse do que fazer com aquilo. Nós desconhecemos isso, gente; nós desconhecemos. Porque tudo o que nos ensinaram foi a meter o nariz o tempo todo, a sermos enxeridos. A gente está o tempo inteiro se envolvendo, se envolvendo, sendo alguém, sendo uma pessoa o tempo todo. É um vício: ser uma pessoa é um vício.
Quando você se aproxima de uma menina ou de um menino ou de um objeto, é: "O que isso vai me dar? O que isso vai me trazer?" Isso está aí, está dentro dessa estrutura psicológica de condicionamento humano que trazemos. Tudo é para nos dar prazer ou trazer sensação. Então, nós vivemos sempre como pessoas, o tempo todo. Quando alguém vem falar com você algo, como uma pessoa você espera o que ela vai dizer. Se ela disser o que você gosta, você gosta dela; se ela disser o que você não gosta, você não gosta dela. Então, nós vivemos o tempo todo sendo pessoas. Quando você chegou aqui pela manhã e disse: "Eu disse algo lá, e quando eu acabei de dizer ela veio com cinco pedras na mão." É assim que nos aproximamos do outro: é a partir da pessoa que acreditamos ser, na ilusão de uma pessoa que acabamos de encontrar. Resultado: confusão na certa, o tempo todo. Assim são as nossas relações humanas.
O segredo dessa riqueza interna, que é essa visão da vida sem as conclusões do pensador, do observador, desse "eu", é olhar para este momento sem esperar, sem aguardar, sem buscar nada dele. E esse momento pode ser um encontro com ele ou com ela. Então, há uma diferença entre você lidar com ele ou com ela, ou com eles ou com elas, e lidar a partir da pessoa com pessoas. Se você olha a partir da pessoa, você vê pessoas; se você olha a partir desse lugar, não há pessoa. Não há pessoa para te frustrar, te decepcionar, te enganar, te fazer sofrer ou lhe dar alguma coisa. É algo completamente diferente esse encontro, é algo completamente diferente isso. É algo inteiramente novo essa aproximação desse instante, quando o "eu" não está.
Aí você diz: "Como realizar isso?" Você não vai realizar isso; você vai tomar ciência do que está aqui, de como a sua mente funciona, como você reage, como você responde, como você fala, como você escuta, como você gesticula. Escutem isso: é essa Atenção sobre as nossas reações, a presença de um olhar livre da necessidade de uma consideração, de uma pessoa lá, porque você não está mais se importando com a ilusão de alguém aí; você está atento a essas reações. Isso é Meditação.
Então, o que é Meditação? Eu achava que era se assentar, cruzar as pernas, repetir "om"... Não é isso, não é isso. Meditação é a ciência da Vida como ela acontece, e ela acontece quando não há mais a ideia de como ela deveria ser. A ideia de como ela deveria ser é um aspecto psicológico da ilusão de uma identidade que se vê presente sendo a pessoa. Isso está alienado da Vida, isso está distante da Realidade, isso está distante do outro.
Então, os casais convivem há dez anos, há quinze anos, há vinte anos, há quarenta anos, mas eles nunca se encontraram, porque são pessoas. Pessoas com suas crenças, opiniões, ideias, desejos, medos, expectativas, esperança, desespero. São pessoas que estão guardando dentro delas os momentos infelizes e miseráveis que viveram juntos mais do que os momentos felizes e agradáveis que tiveram, porque é típico do ego: ele ama recordar, sobretudo aquilo que lhe dá identidade, e nada lhe dá mais identidade do que ser sofredor, do que ter passado por mentiras, problemas na relação.
Resultado: a gente olha para o mundo e diz: "Onde está a Felicidade?" A ilusão nos diz que a gente vai encontrar a Felicidade na relação. Mas pessoas em relação são como trens vindo na mesma linha, em direções contrárias. Pessoas não se encontram; elas se chocam, elas se chocam. Os trens estão vindo, cada um na sua própria direção, mas ninguém está se ocupando com o outro; só que a linha é a mesma. O sentido do "eu", o sentido do ego, o sentido de alguém presente é isso.
O que é a Liberdade? O que é a Felicidade? O que é o Amor? O que é a Paz? É a presença da Relação livre do "eu", livre do ego. A Vida é relação. Você está respirando: sua relação com o oxigênio é muito íntima, muito profunda; você nem se dá conta de que está respirando e de que há uma relação entre esse corpo e o oxigênio do ambiente. Isso é a vida; a Vida é relação. Mas, no sentido do "eu", não há Vida, porque ele vive no isolacionismo; ele nunca se relaciona; ele tem o que lhe interessa, o que busca, o que procura ali, nele ou nela, no outro. Então, a qualidade de relação que conhecemos é muito grotesca, para não dizer problemática, para não apelar e chamar de profundamente miserável, porque ela é cheia de problemas.
Mas como seria diferente, se "eu" sou o problema? Não é outro o problema; "eu" sou o problema. Então, eu sou esse trem que vem. Como podemos olhar para isso? Só há uma forma: olhando. Se olhar de qualquer outra forma, você vai olhar a partir do pensador, vai olhar a partir do pensamento, a partir das conclusões, a partir de ideais e propósitos pessoais; você vai ser uma pessoa, e esse é o seu vício: ser alguém nessa relação. E, nessa relação, não há Verdade, não há Verdade.
Assim, esse encontro com a Vida não pode ser um encontro entre dois trens; não pode ser um encontro com a pessoa; tem que ser um encontro com a Verdade. Isso é que é Você, quando não há mais ilusão. Então, antes de fazer a viagem, antes de ser um trem em alguma direção, encontre o sentido disso, encontre o sentido disso. O que a sociedade nos ensinou foi outra coisa. Disseram que a gente tinha que estudar, crescer, depois casar; foram nos dando direções, e nós estamos exatamente na direção que eles nos deram, e parece que não está dando certo. Não está dando certo. Vamos olhar para isso, ok?
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