terça-feira, 30 de outubro de 2018

O que é Liberação?

No ego, você é profundamente miserável, mesmo em meio a toda opulência, toda riqueza, toda grandeza, toda beleza.
Ramana viveu numa caverna na qual você precisa entrar “de gatinho”. Você tem que sentar ou deitar, porque não pode ficar em pé, de tão baixa, de tão pequena. Alguém costumava subir à montanha e levar um pouco de comida para ele. No dia em que alguém levava, ele comia. Ele acordava pela manhã e bebia água numa nascente ao lado. Quando precisava ir ao banheiro, ia à mata, atrás da caverna. Sua mente não carregava nenhum objeto, nenhuma imagem, nenhum parente.
Ramana tinha um irmão mais velho e duas irmãs mais novas do que ele, mas, em sua mente, não havia referência de irmãs, de irmão, nenhuma imagem de colégio, de amigos, do esporte de luta que ele praticava no ginásio... Muitos macacos em volta da caverna (seus companheiros, seus amigos) e alguns devotos, que vinham para estar perto dele. Ramana ouvindo os sons dos macacos gritando nas árvores e pulando de galho em galho... Ali está o “filme” da Felicidade.
Não tem piscina, não tem casa grande, não tem mobília cara, não tem quadros na parede, não tem cama, mas ali está a Felicidade, porque não há miséria! Disso você não tem inveja. A mente não pode invejar o que ela não conhece; ela só pode invejar o prazer que ela conhece, o qual ela confunde com Felicidade.
Você vai a um lugar e vê algo que acha lindo, então, a mente diz: “Puxa, isso seria tão bonito na minha casa também!”. A mente está lhe pregando uma peça. Ela está dizendo que se você conseguir um negócio daquele e colocar na sua casa, você entrará em suprema “bliss”, em suprema felicidade, nunca mais sofrerá. Ela está sacaneando você!
A mente é medíocre! Ela vê um homem ou uma mulher e diz: “Puxa, era isso que eu queria!”. Isso se chama “desejo”. Pode ser um sapato, uma bolsa, um vestido, uma casa, uma biblioteca, um salão, um marido, crianças... “Puxa, eu queria ter filhos também. Olha como são lindas essas crianças! Como é bom ser mãe!”. Desejo! É a mesma coisa, é a mesma vibe, a mesma ilusão. A mente está pregando uma peça.
A mente faz surgir o objeto, uma imagem, um pensamento, e gruda naquilo. Isso se chama “identificação”. Quando ela agarra aquilo e você vai junto, então, você é só um objeto. Você saiu de sua Natureza Essencial, que é pura Bem-Aventurança, que é pura Liberdade, que é Paz, Amor, Verdade e, agora, você é o próprio objeto desejado, é o desejo, você está em aflição, já não tem mais paz.
"A mente faz surgir o objeto, uma imagem, um pensamento, e gruda naquilo. Isso se chama “identificação”. Quando ela agarra aquilo e você vai junto, então, você é só um objeto."
Então, você vê aquela piscina, um pequeno lago de peixes, um tapete na sala da casa da sua amiga e depois vai para casa; parece que aquilo foi embora. Mas, enquanto você está jantando, alguém liga a televisão e aparece um cachorro correndo em direção à porta de uma casa. A mente diz: “Vai sujar o tapete!”. E lembra: “Ah, aquele tapete...”. Ela vai buscar, novamente, o tapete. Assim, você está em aflição e isso é ser miserável. Não tem nada a ver com o que você tem ou com o que você não tem. Tem a ver com o que a mente aí está “linkada”, ligada.
Então, o que é Liberação? Liberação é um estado de Amor, que é a ausência de desejo. É um estado de Paz, que é a ausência de desejo, é um estado de Liberdade, que é a ausência de desejo.
A mente é tão tosca, que agora ela vai dizer: “É... Eu quero isso: não desejar! É disso que preciso!”.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial na cidade de Fortaleza, em Julho de 2018. Acesse a nossa agenda e se programa para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-satsang.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Você não tem nenhuma necessidade

Você vem a Satsang para me ouvir, mas não está interessado nisso. Por quê? Porque Isso representa seu fim, o fim do desejo de colocar ordem nas coisas, de que as coisas aconteçam do jeito que você quer.
Não estou falando dessa coisa de “colocar a geladeira no seu quarto” - isso é simples. Estou falando que você quer mudar o mundo. É uma completa estupidez, um comportamento maluco da mente, um comportamento doentio do ego, imaginar um futuro para si. Não tem esse “si”. Como você está imaginando o futuro para alguém aí? Loucura! Como você pode desejar mais do que a vida lhe apresenta aqui e agora? Isso é insanidade!
Não existe nada fora deste momento; não existe nada que a vida possa oferecer que ela já não esteja lhe dando. Você está pedindo algo e não percebe que isso significa tempo. “Pedir” está dentro do tempo, dentro da escolha, do desejo, e isso é sofrimento, é insanidade, é loucura, é criar a ilusão de uma necessidade que não é real. Eu já comentei isso em outras falas: você não tem nenhuma necessidade!
Talvez você diga: “Eu tenho necessidade de comida!”, mas não é você que tem, é o estômago. A comida é para o estômago, o estômago é para a comida. O que tem o estômago e a comida a ver com você? Se ficar muito tempo sem ir ao banheiro para urinar, você vai sentir dor na bexiga, então, alguns órgãos (como os rins) começarão a ficar desconfortáveis. O corpo vai brigar para expelir aquilo, começará a ficar perigoso para ele manter por muito tempo aquele líquido na bexiga. Então, haverá uma dor que lhe obrigará a urinar, mas isso ainda não é o problema, porque não é uma necessidade sua, é um problema do corpo.
Estou falando da sua necessidade. Que necessidade você tem? Só aquela que o pensamento cria, e isso é desordem, confusão, sofrimento, infelicidade. Você compreende isso? Aqui e agora, que necessidade você tem?
A necessidade de urinar é a necessidade do corpo de se aliviar, assim como a necessidade de comer é a necessidade do corpo de se sentir saciado, mas ainda nada disso é problema seu. O seu problema é desse “eu”, é o que “ele” deseja. O que esse “eu” deseja? “Que os filhos mudem!” Mas, que filhos? O que isso tem a ver com você, realmente? Nada! Tudo porque, sem os filhos, você não é ninguém, não é mãe, é um “zero”, é um “nada”. Então, eles são importantes para você ser alguém.
Veja o quanto esse “eu” está aí só para criar confusão, pedindo coisas! Você faz isso o tempo todo! É como uma criança que quer brincar na linha do trem e pede ao pai: “Pai, posso brincar aqui?”. Ela não tem ideia da gravidade do problema de brincar na linha do trem. Sabe-se lá a que hora esse trem vem! E ela não sabe nem o que é um trem passando por cima dela. Mas, ela quer brincar nos trilhos! Assim, você faz orações a Deus, querendo coisas.
Então, quando você vem a Satsang, vem para dar um tempo a si mesmo, para olhar esse “si mesmo” e ver o quanto “ele” tem falsas necessidades, o quanto é exigente, mentiroso, chantagista, manipulador, ambicioso, invejoso, explorador, competitivo. O ego adora fazer comparações: “Ela tem, por que eu não tenho?”, “O mundo inteiro tem e eu não tenho. Meu Deus, dê-me isso!”. É o mesmo que dizer: “Eu quero brincar aqui, pai! Deixe-me aqui, estes ferros são tão bonitos! São dois, um ao lado do outro e está cheio de pedrinhas entre eles!” Então, o pai alerta: “É o trilho do trem, criança!”, mas ela insiste: “Não! Eu quero isso! Isso é ótimo!”.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial na cidade de Campos do Jordão, no Ramanashram Gualberto, em fevereiro de 2018. Acesse a nossa agenda e se programa para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-Satsang.

terça-feira, 23 de outubro de 2018

Uma profunda necessidade para ser Um com a Verdade

Em geral, todos querem saber, conhecer alguma coisa, e Satsang não tem essa proposta. Você não está aqui, neste encontro, para aprender alguma coisa, para saber um pouco mais. O propósito destes encontros é o contato com a Verdade que você já traz, “algo” que já está presente.
Você é um devoto da Verdade, um discípulo da Sabedoria. Assim, ser um discípulo é estar preparado para essa Sabedoria; ser um devoto é estar nessa disposição de rendição ou de entrega a essa Verdade – esse amadurecimento é essencial. Ser um discípulo ou um devoto significa ter essa profunda necessidade para ser Um com a Verdade. Sabedoria é Verdade! Se não há Sabedoria, não há Verdade; se a Verdade está presente, a Sabedoria também está.
Existe um momento claro, em que essa rendição, que é a devoção, acontece. É, também, o momento em que o discípulo fica pronto para a Sabedoria. Assim, todo este trabalho é para a manifestação da Verdade. Você está pronto para isso quando está dentro dessa urgência, quando está disposto a desistir de todas as suas crenças, convicções, opiniões e julgamentos.
O mais importante não é a fala, mas o seu coração estar voltado para essa Divina Graça presente neste instante. Então, quando esse claro momento acontece, o discípulo real é o devoto e o devoto real é o verdadeiro discípulo. Quando há a urgência da Liberação, do fim da ilusão, do sentido de separação, você está “queimando” por isso e, então, você está pronto. Quando você é um discípulo da Vida, todo seu “fazer” está envolvido com essa questão da Verdade. Este é o sinal!
Então, o discípulo é o devoto, o devoto é o discípulo, quando está em uma rendição, em uma entrega, num trabalho real em si mesmo. Seu trabalho é ir além dessa contração, dessa falsa identidade, desse falso “eu”. O sinal real dessa Orientação é que uma transformação significativa começa a acontecer. Isso é paradoxal, porque não é algo para você sentir diretamente ou reconhecer pessoalmente, porque o ego ainda estaria aí. Essa é uma transformação que não deixa sinais, para o ego, de que está acontecendo.
As pessoas, às vezes, escrevem algumas coisas para mim, relatando suas experiências, as quais chamam de “experiência de iluminação”. O Real Despertar ou a Iluminação não dá sinais. É paradoxal, porque há uma Orientação interna acontecendo, mas não há sinais externos de experiências místicas, como a presença de raios luminosos, sensações, poderes. Tudo isso ainda está dentro desse circuito da mente egoica.
O convite, nestes encontros, é para a devoção, para o que significa o real estado de discipulado, para essa sensibilidade, para o descobrimento da Verdade sobre Si Mesmo. É necessário ir além dessa ilusão, a ilusão do falso “eu”. Então, quando há essa maturidade de entrega, o trabalho acontece. Mas, você não é um devoto, um discípulo, se está constantemente mantendo a ilusão da identificação com o corpo e a mente. Se o seu interesse é apenas aprender novas palavras, conhecer mais profundamente o assunto, isso ficará apenas no nível intelectual.
"O convite, nestes encontros, é para a devoção, para o que significa o real estado de discipulado, para essa sensibilidade, para o descobrimento da Verdade sobre Si Mesmo."
Você é potencialmente um discípulo-devoto, um devoto-discípulo, mas isso só é real quando toda a sua atenção, todo o seu coração e todo o seu amor estão nas palavras da Verdade. É nesse sentido que a Sabedoria, que é a Presença do Guru, a Presença da Vida, a Presença da Verdade, é importante. Quando você está vivendo nessa profunda intimidade com as palavras da Verdade, nessa profunda compreensão, dentro dessa rendição e com a atenção e o coração totalmente voltados para Isso, uma real transformação acontece, sem nenhum estardalhaço aparente. Na verdade, quando não está acontecendo aparentemente nada, é quando tudo está acontecendo. O verdadeiro “progresso” neste trabalho é completamente silencioso. Assim, a minha recomendação é: não se preocupe com qualquer resultado que possa vir como fruto deste trabalho; volte-se para a rendição, para a devoção, para essa entrega.
Você não pode encontrar Isso, mas pode confiar, render-se, entregar-se, para que Isso o encontre. Você não pode encontrar a Verdade ou a Iluminação; Isso não está lá fora, como algo que você possa encontrar. Todo esse movimento é, na realidade, um impedimento. Todo esforço, toda prática, todo trabalho idealizado pela mente é só um afastamento ainda maior. Isso não representa devoção, não representa ser um discípulo da Verdade.
Assim, quando eu falo sobre essa atenção, sobre esse envolvimento de todo o coração, não estou falando de um esforço, estou falando de uma entrega, de uma rendição. A natureza do ego é sempre “fazer alguma coisa” e na rendição não existe um “fazer”, existe uma desistência do “fazer”.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite de 15 de Agosto de 2018 – Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (exceto em períodos de retiros) – Para informações sobre o app Paltalk e instruções de como participar, clique aqui.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Você não pode e não precisa se libertar

O medo é um outro lado do desejo. A compreensão disso é muito importante. A mente vive sobrecarregada de desejos, assim ela carrega consigo muito medo. Muitas das ações que você toma são baseadas no medo e as demais são baseadas no desejo.
Todo movimento do homem comum é puramente reativo. Enquanto o ego se mantém presente, você está em uma impossibilidade: a impossibilidade da Felicidade. Não é possível encontrar a Felicidade em objetos. Então, não importa que tipo de realização você tenha, ela será sempre uma conquista do desejo ou uma fuga do medo.
Como nós temos falado nestes encontros, você não pode encontrar a Felicidade, encontrar a Paz, encontrar a Liberdade. Isso não é uma conquista; é algo que está presente quando o desejo termina, que é quando o medo termina. Mas você não pode se libertar do desejo nem pode se libertar do medo. Então, todo seu esforço em direção a essa libertação do medo, do desejo, é o próprio desejo, é o próprio medo nesse esforço. Portanto, é uma fuga impossível. A natureza da mente é medo, a natureza da mente é desejo.
Assim, nos encontramos diante de uma situação: a mente não pode se livrar da mente. Esse é o primeiro ponto. Portanto, não adianta nenhum tipo de esforço que você faça, pois qualquer esforço que você venha a fazer ainda será para se manter nesse movimento.
O segundo ponto é que você não precisa se libertar. O primeiro é que você não pode se libertar, o segundo é que você não precisa se libertar. A autoinvestigação é a investigação da ilusão da mente e não de sua realidade, de sua verdade.
Sua Natureza Verdadeira é Felicidade, é essa Paz que você busca, que você procura. Então, você não precisa se libertar da mente, do desejo, do medo. Tudo o que você precisa é tomar ciência dessa ilusão através da investigação desse movimento.
"Sua Natureza Verdadeira é Felicidade, é essa Paz que você busca, que você procura. Então, você não precisa se libertar da mente, do desejo, do medo. Tudo o que você precisa é tomar ciência dessa ilusão através da investigação desse movimento."
A questão é que você precisa descobrir como investigar e compreender por si mesmo, diretamente, essa ilusão – a ilusão da mente criando esse movimento de desejo e de medo. Então, é preciso aprender a investigar a natureza dessa mente ilusória com seus medos e seus desejos. Essa investigação real tem que levar em conta onde você se encontra neste momento, o que é que se passa aí, nesse organismo, nesse mecanismo, qual é, de fato, a sua vivência prática, real, nesse mundo de experiências, de relacionamentos, na vida como um todo.
Assim, é necessário aprender a olhar para si mesmo, a olhar para o que se passa aí, para o que de fato está acontecendo. Então, você tem que abandonar todas as teorias sobre a Realização. Você parte desse princípio de muita honestidade para olhar para esse movimento do medo e do desejo presente aqui e agora nesse organismo, nesse mecanismo, nessa pessoa que você acredita ser.
Não se trata de um esforço para se livrar da mente, mas um trabalho honesto e sincero para observar o seu movimento. Logo, esse movimento honesto, sincero, contínuo, persistente, se constitui em um trabalho – um trabalho para desalojar a ilusão da dualidade, da separatividade, desse falso “eu”.
Não basta dizer que esse “eu” não é real, que ele é falso, que não está aí... isso não basta! Eu tenho frisado muito que estamos vivendo um momento em que há uma simplificação muito grande acerca desse assunto, algo completamente intelectual.
Você precisa abandonar tudo isso e olhar para o medo que está aí, pois o medo é a verdade deste momento – pelo menos, enquanto a mente egoica se mantém entronizada com suas crenças e condicionamentos. Caso contrário, você vai analisar e racionalizar isso, mas, internamente, vivencialmente, estará experienciando uma outra coisa, que são todas essas crenças, todos os condicionamentos e, portanto, todos os desejos e medos.
O que estou dizendo é que a rendição desse falso “eu” é essencial, fundamental, imprescindível. Como disse agora há pouco, precisa ser de uma forma prática, direta, real, persistente, até que haja, de fato, uma dissolução dessa continuidade. Isso para alguns é um trabalho de uma vida inteira.
Autoinvestigação, meditação e entrega. Esse é o lado prático de um trabalho real em direção a essa Liberação.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite de 08 de Novembro de 2017 – Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (exceto em períodos de retiros) – Para informações sobre o app Paltalk e instruções de como participar, clique aqui.

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Aqui não se trata de conhecimento, se trata de florescimento!

A sua natureza é Consciência. Você tem sempre o poder, a liberdade, de se confundir com a experiência presente ou de se manter como sua testemunha. Você é uma testemunha da experiência quando está completamente presente. Mas, você não está presente quando está interpretando, traduzindo, julgando ou avaliando o que acontece através do pensamento; você está inconsciente.
Você é Consciência, mas, em geral, se confunde com os pensamentos sobre o que acontece e dá uma identidade ilusória à experiência que o corpo está vivendo através das sensações, das percepções. Aí está o ego, a inconsciência. Você tem toda liberdade de viver sem ego, mas precisa fazer uso disso, senão jamais descobrirá o que isso significa.
Agora mesmo, o “escutar” é a Consciência. Interpretar o que se escuta é inconsciência. Para interpretar, você precisa do pensamento avaliando, concordando, discordando, aceitando ou rejeitando. Para escutar, não. Quando escuta um pássaro, você não se preocupa se ele está cantando certo ou errado, se está afinado ou não. Mas, quando escuta um ser humano, você fica prestando atenção se ele vai errar, se vai perder as notas. Este é o ponto! Aqui está a inconsciência.
"A sua natureza é Consciência. Você tem sempre o poder, a liberdade, de se confundir com a experiência presente ou de se manter como sua testemunha."
Então, você é pura Consciência ouvindo um pássaro, mas não é Consciência ouvindo um ser humano cantando. Você não consegue viver nessa Liberdade de só ouvir, porque está muito viciado em ser alguém. E quando você é alguém? Quando julga, interpreta, traduz, avalia, mede, escolhe, gosta ou não gosta.
Participante: Entender Isso é impossível. Só é possível viver Isso.
Mestre Gualberto: Você tem que viver essa Liberdade para descobri-La. Precisa trabalhar isso. Esta é a proposta em Satsang: trabalhar a atenção desidentificada desse falso “eu”. Tentar entender, por exemplo, é um esforço, e, intelectualmente, somos viciados nisso. Por que fazemos isso? Porque, no ego, queremos capturar o que está sendo dito para isso ser nosso, para termos mais alguma coisa na coleção do nosso velho baú de lixo, chamado “baú do conhecimento”. Basta o “ouvir”, sem esforço, sem ambição, sem desejo, sem querer entender, ou sem rejeitar por não entender.
O problema não é o “não entender”, mas querer entender. Quando um pássaro canta, você não entende o que ele está fazendo, o que ele está cantando, mas você não se importa, porque fica livre ouvindo-o. Mas, quando é um Guru, você diz: “Poxa! Eu quero Isso que ele tem!”. Pronto, surgiu a ambição e você perdeu.
Participante: Eu estou aqui porque quero esse Estado em que o Guru vive.
Mestre Gualberto: Mas, você não pode alcançar este Estado querendo-O. Você tem como constatar Isso em você, relaxando. O que fazemos em Satsang? Aprendemos a nos desfazer do que sempre fizemos. Começamos a parar de fazer, e a Graça vem e nos atropela. Então, não existe mais “a gente”, fica só a Graça, a Sabedoria, a Inteligência, a Presença, a Consciência, a Verdade.
Nós ouvimos o som de duas mãos batendo palmas. Agora, qual é o som de uma mão só batendo palma? Este é um koan Zen. Não dá para ir pelo intelecto, dá para estar aqui e agora, Nisso, nesse relaxamento, nesse “ouvir”, nessa atenção sem esforço, então essa “Coisa” que já está aí aflora, brota, tem a liberdade de sair da gaiola do ego, do intelecto, da inveja, da ambição, do desejo de ter, de conseguir.
O Guru lhe dá Isso, Deus lhe dá Isso. Não é você que O apanha, não é você que O pega. Participante: Neste trabalho, tem que ter paciência e calma. Não adianta se desesperar por cada incômodo, por cada dor, por cada dúvida.
Mestre Gualberto: Isso vem com o amadurecimento interno, com o florescer do Estado Natural. Em razão das vasanas, das tendências da mente, isso leva algum tempo mesmo, até você saber do que eu estou falando, porque, até então, você não sabe.
Você não sabe, ainda, só ouvir. Você escuta e parece que está tentando capturar o que digo. Não dá para capturar a minha fala, mas dá para Isso se assentar aí. No começo, nós intelectualizamos, analisamos: “Puxa, é isso! Eu já sei!”. Mas, não é assim, porque aqui não se trata de conhecimento, se trata de florescimento. De certa forma, quando você acha que não está crescendo, não está evoluindo, não está progredindo, nas palavras de Roberto Adams, "esse é o sinal de que está havendo progresso!”.
Participante: Aqui não tem comida nenhuma para o ego, então, ele diz: “Não estou evoluindo!”.
Mestre Gualberto: Não tem comida para ele. Isso aqui não o fortalece. Estudar as palavras de Ramana, a Bhagavad Gita, Vedanta, isso sim fortalece, alimenta. Mas, aqui não tem alimento, é só esvaziamento mesmo.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite de 04 de Julho de 2018 – Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (exceto em períodos de retiros) – Para informações sobre o app Paltalk e instruções de como participar, clique aqui.

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