terça-feira, 2 de junho de 2020

Aquilo que é Imutável nunca nasceu

A questão é: onde você tem falhado? A sua falha está na falta do direto reconhecimento de seu próprio Ser, em se imaginar localizado no corpo e na mente. Você tem essa crença de uma maneira muito forte! Assim, acredita que compartilha dessas qualidades de pensamentos, sentimentos, imagens e sensações. Você acredita que isso é você, a sua realidade, a realidade da sua vida. Você carrega essa convicção! Em razão de um sentimento, de alguma dor emocional, você acredita ser essa própria dor. Em razão do sentimento de tristeza, por exemplo, você acredita que está triste.
Isso acontece também em razão de qualquer sensação que você tenha no corpo. Se você sente frio, calor ou fome, não atribui isso ao corpo, mas a si mesmo, assim como quando o corpo está passando por algum problema de enfermidade, como uma dor muito intensa. Existe uma convicção psicológica de que essa dor, esse frio, esse calor ou fome é algo que está acontecendo a você. Um sentimento de tristeza ou infelicidade tem o mesmo resultado.
Dessa forma, existe uma convicção de autolimitação criada pelo esquecimento de sua Natureza Verdadeira. Esse é o principal e mais contundente esquecimento. Você esqueceu a sua Identidade Essencial de Pura Consciência, além de todas as qualidades e definições. A maioria das pessoas vive nesse estado de completa amnésia. Essa Consciência da Verdade sobre Si Mesmo é algo que está eclipsado, oculto pelos pensamentos, sentimentos e sensações. Por isso, você tem se imaginado como um “eu”, uma entidade separada e frágil, pensando, sentindo, decidindo, escolhendo.
O curioso é que, embora não seja uma verdade, isso é sentido como sendo a sua única verdade. Mas, esse é apenas o ponto de vista da mente, então, não é a Verdade! Seu Ser Essencial nunca foi ou será obscurecido pela mente – pensamentos, sentimentos, sensações ou percepções. No entanto, esse esquecimento cria essa sensação, essa forte convicção. Como quase todas as pessoas passam boa parte da vida e, às vezes, uma vida inteira, sem um trabalho direto em si mesmas, elas vivem dentro desse esquecimento. Em Satsang, estamos questionando isso tudo. Estamos lhe dando a oportunidade de perceber que tudo são só aparências.
Nós vivemos experimentando aparições e desaparições de pensamentos, de percepções, de sentimentos, de sensações no corpo. Isso nos mostra que há Algo aqui que é imutável, que permanece presente como a Natureza dessas percepções. Isso nunca aparece ou desaparece, é algo que se mantém sem mudança. Então, quando estamos em Satsang, temos essa oportunidade de olhar para essa experiência corpo-mente como sendo algo que está mudando o tempo todo, enquanto há Algo presente que não muda. Isso que não muda é Aquilo que está sempre presente agora, mas não é uma experiência. Isso não é como o corpo, com suas sensações que mudam, ou como a mente, que tem percepções que também estão mudando o tempo todo. Isso é muito importante, porque é a grande chave dessa Realização — saber que há Algo presente que não muda.
Você vê a mudança de todo esse conhecimento da mente e do corpo — o corpo com suas sensações e a mente com suas percepções. Tudo isso aparece e logo depois desaparece, mas há Algo presente capaz de perceber essa mudança. Você pode observar que o tempo é algo simplesmente mental, que varia em razão do movimento dos pensamentos, por exemplo. Então, a noção de tempo é algo que muda, é somente uma forma de perceber que a mente tem.
O pensamento imagina uma série de imagens ou eventos e, assim, cria essa noção de tempo. O corpo experimenta diversas sensações, e, dessa forma, a mente cria a ideia de ser uma “entidade presente”. Mas, reparem que tudo está mudando: essa multiplicidade, essa grande diversidade de coisas, tanto de percepções como sensações e experiências. Diante de tudo isso, há Algo presente capaz de perceber essas mudanças, e é Isso que chamamos de Consciência, Presença, Realidade. Essa é a Verdade do seu Ser.
A Meditação é o que revela, muito claramente, Aquilo que está presente e é imutável. Então, você observa de perto que pensamentos, sentimentos, sensações, imagens, memórias e percepções não são o que Você é, eles acontecem sempre ao corpo e à mente. Seu Ser é Aquilo que conhece ou toma ciência dessas experiências. Enquanto tudo isso muda, seu Ser, essa Presença, Consciência, não muda. Então, essa série de sensações e percepções experimentadas não são Você. Essa Realidade que Você é conhece todas essas sensações e percepções.
Há cinco anos, essa Realidade Presente teve suas percepções, sensações e experiências, assim como há quinze anos. O corpo mudou, a mente mudou, tudo mudou, mas há Algo presente, sempre presente, e Isso não muda. Esse é o nosso Ser, essa Presença, Consciência. Essa Consciência estava presente e sempre se manteve presente. Quando esse corpo apareceu e anteriormente a esse aparecimento, lá estava Ela. Agora, aqui, está Ela. Nesse esquecimento, você se vê como uma “entidade presente”, ligada à idade do corpo e às experiências deste momento, às experiências da mente, a essas percepções e sensações. Isso é somente uma crença, um pensamento.
Assim, você acredita que nasceu e, pela mesma razão, acredita que morrerá um dia. Na verdade, Aquilo que é Imutável nunca nasceu. Pode parecer estranho você ouvir isso, mas, na realidade (e agora vou dizer algo diferente do que acabei de dizer), você nunca esteve presente no nascimento do corpo, nem estará presente na morte dele – isso é um assunto do corpo, não é um assunto de sua Natureza Essencial, dessa Consciência. Essa Consciência não está nesse estado de sonho, apenas a mente está, e, nele, a ideia é de nascimento e morte.
Reparem que essas falas soam de forma bastante paradoxal. Não dá para ajustá-la a uma base intelectual, para depois você terminar dizendo “entendi tudo”. Não é um assunto para entendimento, porque Isso está fora da mente. Na verdade, todas as crenças, que são somente o que o intelecto pode ter, terminam sendo responsáveis pelo medo, porque o intelecto não alcança Aquilo que está fora dele. Tudo o que ele conhece é julgamento, comparação, separação, divisão, ou seja, o intelecto ainda faz parte desse princípio de egoidentidade.
Você precisa ir além do intelecto, descobrir sua Essencial Natureza! Nós somos Pura Consciência! O que você está sentindo, exatamente agora, no corpo e na mente, diz respeito ao corpo e à mente. Então, não é verdade que você nasceu quando o corpo nasceu, nem que você irá morrer quando o corpo parar de respirar. Repare que, quando seu corpo-mente desaparece durante o sono, há Algo que permanece, mas Isso está fora do conhecido, fora da ideia de “nascer” e “morrer”.
Então, o que é Isso que não desaparece, quando o corpo, o mundo e a mente desaparecem? A ideia de que nascemos e estamos mudando, de que crescemos, estamos envelhecendo e iremos morrer, é simplesmente uma crença – a crença da maior parte da humanidade. Ela é algo presente dentro da religião e da cultura. Normalmente, pensamos que nascemos, mudamos, evoluímos, crescemos, envelhecemos e que, logo, morreremos. Essa crença está presente, porque não há essa Realização da Verdade.
É evidente que o corpo e a mente aparecem e desaparecem, nascem e morrem. Toda experiência é assim! Essa crença na morte é uma presunção. Esse medo de desaparecer, ou morrer, é uma emoção bastante primária, algo profundamente imaginário nessa entidade ilusória, criada exclusivamente por essa associação com o corpo, com o pensamento “eu sou o corpo”.
Então, é essencial a Libertação da ilusão dessa identificação com o corpo e a mente. Sem isso não há Liberação! Essa vivencial, direta e não intelectual Compreensão do nosso próprio Ser é essencial. Portanto, antes de conhecermos qualquer coisa, precisamos conhecer a Verdade de nosso próprio Ser. Qualquer conhecimento, antes desse Conhecimento, é apenas ignorância, algo completamente inútil. Pode ter até alguma utilidade nesse sonho chamado “vida humana”, mas é inútil do ponto de vista da Felicidade.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 29 de Fevereiro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Deus é a Realidade do seu Ser

Você tem sido condicionado a viver vendo uma grande multiplicidade de fenômenos à sua volta, e algo está escapando de você: a Realidade do seu próprio Ser, a sua Direta Vida.
Então, é preciso descobrir como quebrar esse hábito de confusão mental, de pura programação e condicionamento. Sua visão é completamente errônea, distorcida. Deus é a Realidade do seu Ser, mas, como você nunca parou para investigar a Verdade sobre si mesmo, não tem consciência Disso. Você pode apenas, no máximo, acreditar Nisso, o que é outra forma de condicionamento, um condicionamento religioso, mas que não resolve absolutamente nada, também. Não adianta acreditar que Deus é a sua Realidade, a Realidade do seu Ser, pois a Verdade não é uma crença, uma doutrina. Ou você vê Isso de forma direta ou continua sem saber do que se trata.
Esse conceito do “eu” é um equívoco enorme, o cerne de toda essa confusão, a base dessa programação, desse condicionamento. Realização é a destruição disso, a quebra desse modelo. Quando você vem a Satsang, não pode esperar algo. É necessário estar completamente desarmado neste espaço. Você precisa ser surpreendido por algo totalmente desconhecido. Tudo o que você precisa é a habilidade de ver as coisas como elas realmente são. Você tem muitas crenças, muitos conceitos, muitas ideias, e tudo isso precisa cair, desaparecer.
Então, esses encontros que nós temos são realmente singulares, pois algo inteiramente novo está acontecendo aqui. Não estou confirmando as suas crenças, convicções e ideias, e é por isso que você não pode esperar nada de mim. Quando há essa visão flexível, aí está a Liberdade. A Liberdade reside nisso, nessa capacidade de ver as coisas como elas realmente são ‒ é o que estamos fazendo juntos em Satsang.
Espero que você não esteja aqui buscando espiritualidade. Esse é um lugar errado para buscá-la. Aqui não estamos lidando com espiritualidade, mas investigando a natureza da Verdade, a Verdade sobre você. Somente Isso pode lhe permitir a Felicidade de Ser, de puramente Ser. O nosso interesse em Satsang é descobrir essa Realidade fora do tempo, imperecível; essa Verdade que Você é.
Temos que partir já de um princípio muito claro aqui: não há nada para ser encontrado lá fora. Estamos trabalhando esse encontro com a Verdade que Você é, aqui e agora. É por isso que falamos muito de Autoinvestigação e Entrega, que não estão separadas dessa imersão na Verdade que somos, que é Meditação. Autoinvestigação, Entrega e Meditação andam sempre juntas, não podemos separar uma coisa da outra. Não há Real Meditação sem a Entrega da ilusão, e isso somente é possível quando há uma Investigação séria, verdadeira, acontecendo. Você tem Autoinvestigação, Meditação e Entrega quando a mente para de se voltar para os seus caminhos costumeiros, para de ir para fora, para os objetos, para o seu mundo de imaginações, sonhos, desejos.
A mente, em sua programação, vive dentro de imagens, funciona com imagens. Você passa uma boa parte do dia flutuando em imagens mentais, em objetos, que podem ser lugares, pessoas, situações que já aconteceram ou que o pensamento imagina que irão acontecer, o que dá no mesmo... Tudo isso é imaginação! Não existe nada acontecendo na mente, a não ser a imaginação do que aconteceu e do que irá acontecer.
Participante: Temos algum controle ou escolha na ação?
Marcos Gualberto: Não! A ação acontece como tudo acontece, e não existe ninguém, absolutamente, no controle disso. Tudo o que acontece é uma ação da Consciência. É uma ação Dela, Nela, por Ela e para Ela. Não há “alguém” envolvido nisso! A ilusão reside na ideia, que é só uma imagem do pensamento, de que há uma autoria na ação, um indivíduo, um personagem envolvido nela. Todas as coisas acontecem dentro da determinação, da programação ou da vontade da Consciência.
Aqui, Liberdade, que é sinônimo de Felicidade, Paz, Verdade, Amor, significa a ciência de que isso tudo é um jogo sem “alguém” presente determinando o resultado. Até porque o resultado desse jogo não é para prazer, satisfação ou preenchimento de “alguém”. Tudo é somente um grande acontecimento Divino. Quando isso ficar claro, ficará clara, também, a Verdade sobre você. Basicamente Realização é isso: a clara e direta visão de que tudo está no lugar.
O que você chama de ação, pensamento e movimento são apenas fenômenos dentro desse jogo. Seu Estado Natural é pura Consciência, livre da identificação com o fenômeno de fazer e pensar, o fenômeno do movimento. A mente não sabe nada sobre Isso, porque ela está sempre interessada em satisfação, prazer e realização. Ela está interessada na ilusão do fazer, do controlar, do manipular. Esse é o movimento dela, o movimento da ilusão, e é por isso que ela vive em confusão, desordem, sofrimento. A grande Verdade é que a Vida está completa Nela mesma, como Ela é.
Participante: Então, não existe a manifestação de uma realidade a partir da mente, do pensamento?
Marcos Gualberto: Tudo o que a mente pode manifestar é parte dela mesma. Isso não pode ser a Realidade, mas somente parte do seu fenômeno. Na verdade, não existe nada que a mente possa manifestar, porque ela não existe como uma realidade criadora, realizadora. Ela é apenas um fenômeno na Consciência.
Aqui a questão é que, quando você usa a expressão “mente”, geralmente, está ligando-a a uma entidade presente. Quando eu uso essa expressão, estou tratando de um fenômeno universal, impessoal, apenas uma energia fenomênica, que é uma energia de manifestação da Consciência, também. Como tudo é essa Consciência, essa energia também é Dela; é Ela própria. Não existe uma entidade presente, você não é um “pensador” por detrás desses pensamentos, não é “alguém” que tem uma mente. Esses pensamentos são, ainda, manifestações desse fenômeno chamado “mente”, mas ela, em si mesma, não é real; é apenas uma modulação, uma forma de manifestação da Consciência.
O problema surge quando esse fenômeno passa a ser visto como sendo a Realidade. Ele não é a Realidade. A Realidade é Aquilo que está além e por detrás desse fenômeno. Quando o pensamento, de forma imaginativa, se individualiza e se separa, o problema surge, a ilusão do “eu” surge, a ilusão da separação surge. Mas, é uma ilusão que causa bastante confusão, desordem e sofrimento para a própria ilusória entidade presente.
Nessa Liberdade de Ser, de pura Consciência, que é a sua Natureza Real, a Vida é somente um grande jogo e a mente é somente um fenômeno, sem muitas implicações, sem a capacidade de criar desordem, sofrimento e confusões pessoais, particulares. Isso porque Você, em seu Ser, está além da mente, está livre dela, da confusão criada por essa identificação com esse fenômeno.
Você raramente percebe, mas tudo isso aqui é um grande “sonho”. Em certos momentos, você tem alguns vislumbres disso, de que isso aqui está desordenado demais para ter uma explicação.
Repare que, quando você sonha à noite, apesar de não conseguir explicar o que está acontecendo e ver coisas absurdas, você encara aquilo como algo muito normal. Mas, quando acorda, diz: "Como aquilo seria possível?" Então, em alguns momentos, mesmo durante o sonho à noite, você tem uma aceitação de que está tudo no lugar e que a coisa é confusa desse jeito mesmo, que é assim porque é.
Aqui, acontece a mesma coisa. Em alguns momentos, você tem um vislumbre de que as coisas estão sem controle da sua parte, e que elas são assim mesmo. Porém, quando entra a mente, que é dualista, separatista e lógica, ela tenta explicar as coisas, colocar a ordem do jeito dela, aí surge a confusão, a dúvida, o medo, a perplexidade. Mas, quando isso tudo não está presente, você está relaxado, acolhendo o que se apresenta.
A Vida é como Ela é, um grande jogo, uma grande brincadeira divina, sem “alguém” no controle, sem “alguém” para acertar as coisas. As coisas já estão no lugar! É apenas esse condicionamento, que você tem, que diz que as coisas estão fora do lugar e precisam ir para o lugar. É apenas esse condicionamento que está rejeitando coisas, vendo-as como ruins, más, difíceis, complicadas. É ele que rejeita tudo isso, que quer o bem, mas não quer o mal; quer a saúde, mas não quer a doença; quer a vida, mas não quer a morte; quer o certo, mas não quer o errado.
Então, observe... Esses são condicionamentos, modelos programados de pensar, sentir e fazer, enquanto, na verdade, não tem ninguém pensando, sentindo, fazendo. A Vida somente está acontecendo, nessa Liberdade que Ela tem. Se Você está em seu Ser, está livre de conflitar com a Vida, de entrar nesse aspecto de rejeição, conflito, sofrimento, medo.
Nosso trabalho, aqui, juntos, é para que você descubra Isso. Na verdade, a mente não tem nenhum parâmetro real sobre o que é o Amor, a Verdade, a Felicidade, a Paz. O propósito desse trabalho é lhe mostrar diretamente Isso, que é a Verdade sobre Você, a Verdade sobre a Vida, sobre o mundo... a Verdade sobre Deus!
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 13 de Janeiro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

O propósito dos nossos encontros é a Real Meditação

Há toda uma preocupação naqueles envolvidos com essa busca da Verdade, da Sabedoria, da Realização, relacionada com a questão das práticas. Hoje, posso falar um pouco sobre isso aqui. Estamos para entrar em um retiro, mas o propósito aqui não é a prática espiritual, pois não existe tal coisa.
Há, basicamente, algumas práticas dentro dessa “busca espiritual”. Dentre elas, estão as práticas da chamada “meditação”. A mais comum consiste em aquietar o corpo, fechar os olhos e forçar o pensamento ao silêncio, ou, através de alguma técnica, silenciar esse movimento do pensamento. Isso é algo muito comum dentro das práticas espirituais. Portanto, essa é uma forma convencional de prática, de busca.
Hoje, existem alguns métodos mais modernos do que essa antiga prática de aquietar o corpo e a mente, para se obter esse mesmo resultado, que são realizados através de aplicativos de celular ‒ você baixa um desses aplicativos e faz sua prática espiritual. Todos esses métodos fazem a mesma coisa: trazem relaxamento físico, psicológico, emocional. Se você estiver diante de um relógio daqueles antigos, com o martelinho batendo no ponteiro dos segundos, ao ouvir e prestar atenção a esse som, a cada uma daquelas suaves batidas na passagem dos segundos, e ocupar-se inteiramente com isso, você terá um efeito parecido.
Basicamente, a técnica causa um efeito cerebral de aquietação, relaxamento, algo próximo do sono. Assim são essas técnicas de meditação guiada, elas têm o mesmo efeito do som da mudança dos segundos naquele relógio antigo, daquele “tic-tac, tic-tac”. Assim, qualquer método que você conheça é hipnótico, de relaxamento cerebral e físico. Se relaxa o cérebro, relaxa o corpo. Nosso trabalho aqui não é esse, pois não se trata de um relaxamento psicológico, físico, emocional. Isso você consegue dormindo ou por meio de algum estímulo de indução externa.
Aqui, o seu trabalho é permanecer livre do que a mente diz sobre quem você é, sobre o que está acontecendo externa ou internamente. Quando digo “externamente”, me refiro ao próprio movimento do que se mostra, momento a momento, na vida. Já a expressão “internamente” diz respeito aos pensamentos e imagens que surgem dentro de você, ou seja, “o que está acontecendo”. Então, permanecer desidentificado desse movimento interno, é permanecer desidentificado do que o pensamento, a sensação, a percepção e a emoção produzem aí. Estar desidentificado do movimento externo, por sua vez, é não estar identificado com a experiência, com o que surge neste instante. Então, agora estamos tocando na Real Meditação, que possui um sentido inteiramente diferente de uma prática, porque Nela você não realiza qualquer prática.
Se você realiza uma prática, está dentro de um processo mecânico de realização, e, naturalmente, de conquista de algum resultado, o qual, certamente, estará se ajustando ao seu nível de empenho, à sua capacidade de realizar. Então, isso tem algo a ver com esforço, com uma aquisição, com o alcance de um objetivo. A questão é: quem é esse que realiza ou pode realizar isso? É evidente que isso está dentro do limite do próprio “eu”, do próprio “indivíduo”, da própria “pessoa”.
Meditação não é isso! Meditação é quando a “pessoa” não está, portanto, não se trata de um esforço, de uma aquisição, de uma realização pessoal. Isso não é uma prática espiritual, que requer a presença de um “alguém”. Por isso, a expressão “Realização de Deus” é completamente inadequada para ser usada em Satsang. Fazemos uso dessa expressão, mas ela não diz nada, porque Realização de Deus é a direta Manifestação do Desconhecido, e, aqui, o Desconhecido se manifesta por Si só. Não existe algo que possa ser feito para que Isso aconteça ou não aconteça, porque a Real Meditação não é uma prática. O propósito dos nossos encontros é a Real Meditação, que é a Visitação do Desconhecido, a Realização Divina.
Satsang é esse encontro com a Realidade, com a Verdade, e Isso é Meditação. Não é uma alteração naquilo que é chamado de “nível de consciência”. A experiência de uma alteração de nível de consciência é apenas mais uma experiência limitada, pessoal, algo cerebral, detectável, que pode ser mapeado. A Realização não está dentro da experiência. O que estou dizendo é que a Realização não é para “você”. Realização é a ausência desse “você”, assim como a Meditação, a Verdade.
Quando “você” está, a “pessoa” está. Enquanto existir um “experimentador” na experiência, o senso de limitação, de separação, estará aí. A Meditação é a ausência do senso de separação, do sentido de um “eu” presente, de um “experimentador”. Então, quando você fecha os olhos e relaxa o corpo por meio de um estímulo externo, como uma voz suave ou o som de um mantra sendo entoado, ou mesmo as batidas de um relógio, isso pode produzir uma profunda sensação prazerosa, mas não é Real Meditação.
Isso é muito saudável, faz você dormir melhor, ter menos estresse e ansiedade, traz inúmeros benefícios que podem ser mapeados e comprovados cientificamente, mas isso é somente uma nova sensação prazerosa e relaxante. Por isso, essa estrutura egoica continuará sólida em seu centro, permanecerá em seu movimento, pois esse “eu” estará apenas quieto, porque, agora, o movimento dele será para a quietude.
Antes, havia nele um movimento de inquietude e, agora, existe um movimento para a quietude, devido à facilitação encontrada para que isso ocorra. Então, essas práticas, essas técnicas que vocês aprendem, como a chamada Yoga, a respiração pranayama, a Meditação Transcendental, Mindfulness, tudo isso faz muito bem, aquieta, relaxa o “eu”.
Entretanto, aqui a questão não é obter um estado, que é algo dentro de uma experiência. A Meditação nunca pode ser um estado! Aquilo que é conhecido como “meditação” sempre envolve um certo estado, um estado de bem-estar, de prazer, de relaxamento, de diminuição de velocidade. O ego é muito ativo, a mente egoica é muito ativa, tagarela.
Quando você encontra uma criança muito ativa e a quer quieta, você tem que dar algo para ela fazer. Você dá um brinquedo que chama a atenção dela, então, ela se assenta e começa a brincar. Toda sua atenção agora está no brinquedo, assim, o corpo dela também fica quieto. A criança se assenta no chão, começa a brincar e para de correr pela casa. Dessa forma, os móveis estão a salvo, assim como os jarros de flores! Tudo continuará no lugar enquanto ela estiver ali ocupada com aquele brinquedo. Vocês entendem o que eu estou dizendo?
A mente é algo assim. Se você der algo para ela, que consiga lhe dar alguma sensação, algum estado, alguma experiência de prazer, de relaxamento, de bem-estar, ela vai se ocupar com isso, mas não tem nada a ver com Real Meditação, tem a ver com uma técnica. Você “coloca um brinquedo para criança e ela começa a brincar”, ou seja, você pega uma pessoa religiosa, espiritual, e a coloca para cantar mantras, repetir nomes sagrados, rezar com um terço na mão, respirar de uma certa forma… Você pode também ensiná-la a olhar para o momento presente, para aquilo que acontece do lado de fora, de forma que ela se deixe absorver por completo pela experiência presente. Tudo isso são truques, os quais não destruirão essa forte e sólida estrutura do sentido de separação, desse “eu”. O medo, a inveja e todas as idiossincrasias da “pessoa”, do senso pessoal, continuarão lá. Não é isso?
Estou dizendo que a Meditação Real requer um terreno Real, que é permanecer diante de si mesmo, momento a momento. Você descobre a Meditação limpando o terreno para que Ela floresça. Meditação é essa Presença do Desconhecido, mas Ela se manifesta quando o conhecido não está. Isso não requer nenhuma técnica, nenhuma prática espiritual, nenhum tipo de “brinquedo”, de rezas, canções, danças, nem o uso de substâncias, como pílulas ou chá, modos de respirar ou qualquer outro tipo de coisa.
Aqui, é olhar e ver o que está aí presente. O que é esse “conhecido”? O que é esse terreno? Qual é o terreno do “eu”, desse senso do “mim”, com suas escolhas, desejos, anseios, receios, medos, inveja, ciúmes, toda essa maluquice da “pessoa”? Quando esse terreno fica limpo pela observação, a Real Meditação tem espaço. Quando não há mais o “louco”, não há mais a necessidade do “hospício”. É isso.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 16 de Novembro de 2019 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 22 de maio de 2020

A natureza dessa Consciência é atemporal

A nossa aproximação, nesses encontros, é para que você tome ciência dessa Consciência. Realização, Despertar, Iluminação, ou como você queira chama Isso, não se trata de se tornar Consciência, mas de constatar a Verdade de que Ela já está presente. Você não pode se tornar Consciência, porque Você é Consciência! Você é a Consciência da Consciência na própria Consciência! Por isso, tratamos aqui do descarte da ilusão da inconsciência. Acompanhe isso com cuidado... Essa inconsciência é uma ilusão! A Consciência jamais deixa de ser O que Ela é ‒ a Consciência nela mesma.
A compreensão disso é importante, porque assim você logo vê que esse “eu” é somente um pensamento, uma ideia produzida pelo próprio pensamento. Você acredita ser alguém, mas isso é somente um pensamento que se sustenta nessa inconsciência, por ignorância. Porém, mesmo esse pensamento está dentro dessa Consciência que Você é. Estar identificado com esse pensamento é o que chamei de ilusória inconsciência.
Hoje, alguém me perguntou se Maya é anterior à mente e ao corpo. Minha resposta é que Maya é uma ilusão e, assim, está presente na própria mente. Maya não é anterior à mente; é a própria ilusão da mente. A mente que carrega esse sentido de separação é a ilusão, e isso é Maya. Portanto, não pode ser anterior à mente e ao corpo.
Então, você não vai se tornar essa Consciência; vai assumir a Verdade de que há somente Consciência e Ela é Você. Você não é a mente, não é o “eu”, nem o corpo. Você é Consciência!
É belo esse contato, em Satsang, com Aquele que está vendo Isso com clareza. Somente Aquele que não mais se confunde com a ilusão da mente, com a ilusão que é Maya, pode ver Isso com clareza. A beleza de investigar Isso com um Mestre vivo é que Ele lhe provê uma perspectiva a partir da visão de sua Real Natureza, de seu Ser Real. Essa é uma perspectiva atemporal e não intelectual. A natureza dessa Consciência é atemporal e está fora do intelecto, portanto, essa é a forma da real aproximação do verdadeiro Satsang.
A mera compreensão intelectual, verbal, de palavras, não é Satsang. Essa não é a perspectiva ou formulação de um Mestre vivo. Então, a ênfase aqui é a partir dessa posição interna, dessa posição fora da mente, fora da perspectiva do intelecto e do tempo.
Em outras palavras, você não pode eliminar o conflito através da análise, porque ela é parte do conflito. A análise trabalha com imagens, comparando-as, e isso faz com que ela permaneça como um processo limitado pelo pensamento, pela imaginação. Isso não pode mudar a mente, porque está dentro dela própria. A transformação real ocorre somente quando esse movimento de imagens e pensamentos cessa, que é quando não existe mais nenhuma restrição. Assim, não é mais necessária nenhuma análise e o conflito termina, porque agora você entra nessa dimensão de Totalidade, que é Consciência.
Se você tenta eliminar o conflito através da análise, sustenta a ilusão de uma entidade presente, fazendo suas comparações e trabalhando com imagens. Isso não resolve! É por isso que não termina nunca esse processo. A mente continuará aparecendo, porque as imagens continuarão sendo produzidas, e isso ela sabe fazer bem. Quando a mente produz imagens, ela separa, divide e compara, e isso sustenta o conflito, o sofrimento, então, não pode haver Autorrealização.
Autorrealização, de forma real, é o fim da ilusão desse “auto”, desse “eu”, desse senso de identidade que busca se realizar. Então, podemos chamar Isso de simples e direta Realização, a Realização da Verdade sobre Si Mesmo. Por isso comecei dizendo que você não se torna Consciência. Você já é Consciência, a Consciência da Consciência, na Consciência e por Ela Mesma, porque há somente Consciência!
O que acontece nesse processo de Realização da Verdade sobre Si Mesmo é a direta constatação de que não há “alguém”, não existe mente, não existe “eu”, não há nenhum sentido de identidade e de separação, pois isso tudo está na fantasia do pensamento. Está muito complicado isso, hoje? Ou dá para acompanhar? Se você se esforçar intelectualmente, não vai conseguir acompanhar. Se não houver nenhum esforço intelectual, apenas uma atenta passividade em ouvir, essa compreensão do que estou colocando aqui chegará para você.
Vou dar um exemplo disso: quando você acorda pela manhã, não tem “você” acordando; há somente a Consciência se expressando novamente, através desse mecanismo. Então, esse mecanismo recupera as suas funções para mais um dia, mas em razão dessa Consciência e não em razão de um “eu”, de um “indivíduo” presente, de uma “pessoa” presente. Essa Consciência se torna cônscia dos eventos, das situações de mais um dia, e, curiosamente, tudo isso está acontecendo nessa própria Consciência, não é algo separado Dela; é a sua própria experiência de mundo. Ou seja, não tem esse “eu” aí! Tem Você, mas Você é essa Consciência! Não tem esse “mim”, esse “eu”, essa “pessoa” que você acredita ser, pois isso não é real.
É lindo isso! É simplesmente maravilhoso saber que não há “alguém” para fazer alguma coisa, que tudo simplesmente acontece como acontece, e não porque tem que acontecer ou foi planejado para acontecer. Só acontece porque acontece! Simplesmente assim! Não há nada para se fazer e não há ninguém que possa fazer qualquer coisa.
Quando há o relaxamento dentro dessa visão, está presente o que tenho chamado de Meditação. Trata-se da aceitação da possibilidade de que está tudo perfeito, de que está tudo no lugar. Isso é Real Perfeição, é o seu corpo vivendo em Você, não é “você” vivendo em seu corpo; é o mundo vivendo em Você, não “você” vivendo no mundo; é a Vida vivendo no que Você é, não é “você” vivendo a vida! Nada há para se fazer e nenhuma perfeição para se obter, porque Isso já é perfeito como é! Não há nada para se obter, conquistar, conseguir…
Esse senso da “pessoa”, o “eu”, o ego, é a ilusão da inconsciência, a inconsciência em sua própria ilusão, sendo sustentada por pensamentos, crenças, imaginações, ideias. Suas preocupações pessoais, seus desejos, medos, essa sua relação com a vida, com o corpo, com o mundo, tudo isso, é imaginário. Não tem nada disso, de fato, acontecendo fora da sua imaginação. Isso tudo é somente a imaginação de ser “alguém”. Existe somente Consciência e Ela é comum a tudo, a todos, sem distinção e separação. A coisa engraçada é essa constante busca pela liberdade, para transcender, mas, transcender o quê? Que espécie de liberdade é essa que se busca? Tudo isso está na imaginação.
Agora, constatar Isso é algo que demanda investigação, inquirição, auto-observação. Quando você assume esse trabalho, você está pronto para descobrir Aquilo que Você é: Liberdade, Consciência, Felicidade. Então, você está pronto para o seu Estado Natural, que é Meditação.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 16 de Outubro de 2019 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Eu chamo isso de “colapso”

O que se chama de “pessoa” é a ideia de um fazedor, ou seja, uma imaginação se responsabilizando por alguma coisa, e isso é somente uma crença. Tudo que acontece não pode deixar de acontecer, e acontece somente porque acontece. Há um único Poder e Presença tornando tudo possível! Esse Poder, essa Presença que torna tudo possível, é essa Consciência.
Todo juízo de valor surge do ponto de vista social, filosófico, espiritual, emocional, mas, do ponto de vista da Consciência, da Vida, não existe juízo de valor, não existe o certo e o errado. As coisas acontecem segundo essa única Vontade, essa única Presença, que torna tudo possível. A palavra aqui é “vontade”, mas ela também não é adequada... Tudo acontece por essa Consciência!
A intimidade com a sua Natureza Essencial vai lhe mostrar que não existe tempo e que o pensamento não é o fator que determina o que acontece ou não. Na realidade, o pensamento também é parte do que acontece, e não há “alguém” no controle disso.
Seu Ser, como Consciência, é algo sempre presente agora, não em uma sucessão de “agoras”, que pressupõe tempo. Seu Ser é algo presente nessa Realidade agora! Isso é atemporal, não é algo que dura para sempre, pois “para sempre” pressupõe tempo. Então, é agora que o corpo nasce, é agora que o corpo morre, e não há “alguém” nascendo, nem “alguém” morrendo. Essa noção de corpo aparecendo e desaparecendo precisa de aferições do pensamento para poder ter qualquer realidade dentro do tempo, que é uma ilusão.
Seu Ser nunca apareceu ou desaparecerá. Não existe tempo presente, passado ou futuro. Há apenas essa atemporal Consciência, que é a nossa Real Natureza. Nossa cultura não sabe nada sobre Isso, pois ela conhece somente aquilo que o pensamento constrói. Ela não pode detectar aquilo que está na visão do Sábio. Assim, tudo o que acontece está no seu devido lugar; é apenas o pensamento que diz que não está e se debate com isso. A Realidade está fora desse reino da imaginação, que é o reino do sonho, do pensamento, do tempo.
Não se preocupe em entender isso, porque não é para mente capturar o que está sendo dito. A Compreensão é possível a Você, mas não faz nenhum sentido para a mente. A mente precisa do tempo, de uma sucessão de acontecimentos, de uma lógica, de um caminho a seguir. Quanto mais você explora sua Natureza Essencial, por meio da Meditação, mais percebe que essa Consciência não carrega nenhuma qualidade, nenhuma noção de “certo e errado”, “verdadeiro e falso”, “positivo e negativo”. Isso tudo está dentro da dualidade, de conceitos, de programações culturais, sociais, e ainda é parte da prisão, que é a egoidentidade; não é a sua Natureza Real.
Quanto mais você mergulha na Verdade sobre si mesmo, mais percebe que esses conceitos são todos abstratos. Quando isso vai ficando claro, a mente começa a sofrer colapsos, começa a perder a sua solidez, segurança, certeza, autoconfiança. Eu chamo isso de “colapso”, pois não existe nenhum nome adequado que possamos dar para essa dissolução da mente. Chamam Isso também de “Iluminação”, “Despertar”, mas não existe nenhum nome adequado para Isso. É a simples dissolução da ilusão, daquilo que, de fato, nunca existiu, nunca esteve aí. Isso não pode ser nomeado, não se pode dar nome ao Inominável, ao Absoluto, Àquilo que é sem atributos.
O propósito dessas falas é indicar para você a falsidade do que se passa aí dentro da sua cabeça. Tudo isso é falso, porque está dentro da produção do pensamento. Por isso sua mente não pode alcançar Isso. Por maiores que sejam os seus esforços, não resultarão em nada.
Consciência é Ser, que é essa Realidade agora, atemporal, sem nome, sem forma, sem tempo. Você não pode capturar a Realidade, mas pode se tornar cônscio da ilusão, da mente presente e do que ela produz. Assim, ela entra em colapso, se dissolve, perde o seu poder de sustentação.
* Transcrito a partir de uma fala em um encontro online, na noite do dia 04 de Fevereiro de 2020 – Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

Compartilhe com outros corações