quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

Não há nada e ninguém lá fora

Em geral, o ser humano vive uma vida muito superficial e com uma interna necessidade, que é um anseio pela Paz. Essa é uma porta interna, mas ela parece oculta para a grande maioria das pessoas, pois seus interesses são muito superficiais. Nossa educação, nossa formação, desde criança, é voltada para a exterioridade, para a vida do “ganha-pão”: estudar, formar-se, trabalhar, constituir família... E os filhos seguem esse mesmo formato. Nós morremos, mas deixamos nossos filhos seguindo o mesmo modelo.
Essa necessidade interna de Paz, de Consciência, é ocultada pela superficialidade do condicionamento social, do modelo cultural no qual fomos educados e inseridos. Assim, você não sabe da possibilidade de ir além dessa superficialidade. Você casa cinco vezes para encontrar um amor! Se conseguir viver mais tempo, você casa mais duas ou três vezes! Nessa superficialidade, a promessa é de que você vai encontrar alguma coisa do lado de fora, mas não encontra nunca! Essa “coisa” prometida é o amor, a paz, a felicidade, sempre do lado de fora.
A questão é: quem é você? Você não se pergunta isso, porque já tem por certo quem você é. Você acredita que é o que a sociedade, o mundo e a cultura dizem que você é. Assim, você pode chegar somente onde a sociedade, a cultura, diz que você pode. Na verdade, ela diz que você tem que ir para algum lugar e, dessa forma, você tenta ir para o lugar que ela indica. Porém, quanto mais você caminha, mais se afasta de Si mesmo. Isso porque, quando você não se conhece, quando seu conhecimento sobre si mesmo é apenas com base no que o pensamento diz, você continua alheio, alienado da Verdade de quem, de fato, Você é.
Há dentro de cada um esse anseio por algo maior do que essa vida comum. Estamos aqui diante de algo que não pode ser forçado sobre o outro. Eu falo desse tremendo anseio pelo autodescobrimento, e isso é algo que vem pela inquirição, pela investigação, quando você sai do pensamento tradicional e se volta para inquirir sobre si mesmo, para perguntar o que é isso, quem é você. Isso não ocorre porque outro lhe diz para perguntar o que você é, é algo que surge dentro de você. Você deve ser como um cientista: curioso. Mas, seu laboratório não é externo, é interno. Você deve inquirir, exatamente como um cientista, sobre sua vida e, aqui, o laboratório é a sua própria vida.
Dessa forma, é possível Despertar para a Verdade sobre Si mesmo. Quando Ela está presente, não há mais confusão, há uma completa rendição a essa Percepção, e isso é fundamental. Isso é algo que depende de como você compreende a questão de quanto o sofrimento é algo absurdo na sua vida, o quanto é estúpido viver em sofrimento. É por isso que esse Despertar não é para a maioria, pois ela ainda está dormindo quanto a esse respeito, não tem nenhum interesse. É uma espécie de estado de conformação e todos são unânimes em aceitar esse modelo.
Quando eu era criança, o que era mais importante para mim eram aqueles momentos nos quais eu podia ficar desconfiado de que tinha algo que não se encaixava. Eram nesses momentos que eu sentia a falta de uma totalidade, de uma completude. A minha vida foi assim, em meio a orações para que Deus se revelasse, porque fui ensinado, quando criança, que Deus era real, que Ele era a resposta para qualquer aflição e confusão humana. Então, havia essa busca. Quando eu estava com 24 anos, algo aconteceu: houve o aparecimento da Presença do meu Mestre, meu Guru. Isso produziu dinamismo para eu explorar mais profundamente o que havia de errado, o que estava faltando aqui.
Você precisa ter uma certa maturidade e, quando isso está presente, você é atraído para a Verdade, pela Verdade, para esse encontro que você precisa ter Consigo mesmo, com Aquilo que você traz aí dentro. Por isso, ninguém pode, e nem precisa, ensinar-lhe algo sobre Isso, porque já está aí. É como uma criança que, quando sai do útero, já sai procurando a sua mais vital experiência: o peito da mãe para mamar. Ninguém precisa ensinar isso para a criança. Há dentro do homem um anelo pela Verdade e, quando ele está nessa maturidade, esse anelo cresce de uma maneira tão grande que ele não suporta mais viver sem essa Realidade; é quando o bebê vai buscar o peito da mãe para poder se alimentar.
Esse é o anelo que você tem, aí dentro, pela Verdade. Você pode dar qualquer nome para Isso: Verdade, Deus, Presença, Consciência, porque Isso não tem nome mesmo! É “algo” além dessa sua vida medíocre. Alguns se atentam para isso mais cedo, outros mais tarde, mas você vai ter que se atentar para isso em algum momento, porque você não pode viver longe do “seio da sua mãe”. Você não tem como “se nutrir”, “se alimentar”, ou seja, não tem como continuar tendo uma vida sem Isso!
Não há possibilidade de Liberdade, Paz, Amor e Felicidade se não há Vida, e não há Vida sem a Verdade. Esse “ensinamento” é sem ensino, porque Isso não é ensinável. É um “ensinamento” apontando para O que não pode ser ensinado. É uma questão de Despertar! Então, você se torna mais e mais ciente, mais e mais consciente, e vai além da mente egoica, do sentido de um “eu” separado; além dessas questões do “sonho”: as questões sociais, econômicas, filosóficas, espirituais, políticas... Você está além disso, da ilusão de ter nascido como brasileiro, americano ou alemão, além dessa noção de ser uma pessoa com uma herança genética e cultural. Você Acorda e, então, é um Sábio! Essa é a sua Natureza, a Natureza de Deus, da Verdade, da Consciência, da Realidade.
Não é isso? Se não é isso, você fica preso a essas questões de justiça, injustiça, no campo da ética, da moral, da política, da religião, no terreno da cultura. Estou falando da Realização da Felicidade, da Realização de sua Divina e Essencial Natureza, Daquilo que outros, antes de você, realizaram um dia, e também falaram dessa “porta”. Ela não é uma porta fechada, é uma porta aberta! É somente como se estivesse oculta da grande massa, porque a maioria não tem interesse em investigar isso, ainda não tem maturidade para isso.
Esses antigos padrões são os modelos que você herda da sociedade, do mundo à sua volta, em que todos, absolutamente todos, estão presos a essa dualidade entre o certo e o errado, o justo e o injusto… Assim, você tem questões a respeito de quem deve ganhar a copa do mundo, quem deve ser o próximo presidente, quem deve resolver as questões nessa ou naquela área... Você fica preso a isso, como se isso fosse a sua realidade, mas é somente o “sonho” que o pensamento constrói sobre o mundo à sua volta, que, na verdade, nem está à sua volta, está somente dentro da sua cabeça. Porém, ninguém nunca lhe informou nada sobre isso, até porque você não tinha interesse em ouvir nada disso. Agora, você está se voltando para se perguntar “quem sou eu?”, que é algo novo, um momento novo. Assim, você se torna mais e mais presente para saber quem Você é. Meu Mestre me mostrou Isso.
Você precisa descobrir que o sofrimento é uma ideia baseada no pensamento, na crença desse falso “eu”. Você está muito apegado a essa suposta identidade, que você acredita ser, e aí está o que sustenta toda a ilusão da sua vida, todos os problemas que você já teve e terá na vida (teve porque estava “dormindo” e terá somente se não “acordar”).
Essa falsa identificação com o corpo e a mente é o seu problema. Quando você tem essa Compreensão, isso se torna uma real e nova direção para sua Vida, porque agora Ela é Real, não é mais a vida dada pela sociedade, pela cultura, pelo mundo, pelos padres, pelos políticos, pelas ideologias e crenças, todas elas baseadas no conceito de dualidade (o que é e o que não é; certo e errado; verdadeiro e falso; bom e mau). Você não é um conceito nem uma crença, é algo maior do que tudo isso. Você é Deus! Você é essa Presença, essa Realidade!
Essa é a constatação quando você adentra por essa “porta” que, até então, parecia não existir ou estar oculta. Por isso que Jesus Cristo um dia disse: “Eu Sou a porta”. Ele estava falando dessa “porta”! Ele se referia a Cristo, que é a sua Realidade interna. Quando ele dizia “Eu Sou”, estava falando desse “Eu Sou” que Você é, dessa mesma Realidade, porque há somente uma Realidade em toda a manifestação, que é esse “Eu Sou”... “Eu Sou a Porta”. Então, eu fiquei sabendo... Eu conheci a Mim mesmo acontecendo neste momento, não como um conceito, mas como um Ser sem localização.
Você compreende isso? A Constatação da Verdade sobre Isso que Você é, é a Compreensão da não localização, da inexistência de tempo e espaço. Você é a própria Realidade do Cristo, de Deus, da Verdade. Não é a Realidade somente de Jiddu Krishnamurti, Eckhart Tolle, Ramana Maharshi, Buda e Jesus de Nazaré; é a sua Realidade! É Você! Isso não é uma crença, um nome, uma forma ou uma história.
Quando você tem a Verdade presente, essa autoimagem se dissolve, a história de autoimportância cai, e tudo é acolhido nessa única Realidade que Você é, nessa Consciência, que é Deus. Assim, não há mais a acepção de pessoas, porque não há mais “pessoas”. Não há mais medo de pessoas, porque não há mais “pessoa” em lugar nenhum! Não há mais frustração, decepção nem encanto com o externo. Então, ninguém vai lhe dar mais Amor do que O que Você é aqui e agora, ninguém vai lhe dar mais Paz do que Isso que já está aqui e agora, porque nada Disso vem nem virá de fora. Não tem nada lá fora!
Quem disse para você que tem alguma coisa lá fora? Não tem nada lá fora! Então, a Felicidade não virá por trocar o seu carro por um modelo 2019. Você não precisa de um carro, de uma casa maior ou um novo apartamento, nem de uma nova namorada, um novo casamento, ou de mais filhos... Você não precisa de mais! Meu Mestre me mostrou isso! Então, tudo, absolutamente tudo, foi percebido de uma forma nova. Uma completa mudança está presente nessa Constatação da Verdade sobre O que Você é.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 01 de Junho de 2018 – Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (exceto em períodos de retiros) – Para informações sobre o app Paltalk e instruções de como participar, clique aqui .

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Meditação: um completo esvaziamento

Meditação é um completo esvaziamento de todo peso, de todo esse grande conteúdo de coisas que a pessoa precisa ter para “ser alguém”, do acúmulo de tudo que você já leu, ouviu, estudou e viveu, de tudo aquilo que está na memória desse mecanismo, nas próprias células do cérebro, que faz você dizer “eu sou fulano”, “eu sou Carlos”, “eu sou José”, “eu sou Maria”, “eu sou Pedro”, “eu sou o Marcos”, algo do qual você nunca se desliga. A Meditação é o varrer de tudo isso, é o esvaziamento de todo esse conteúdo! Ela chega nesse “eu” e vai além dele.
Meditação não é uma prática de dez dias, ou uma prática diária de duas horas pela manhã e à noite. A Real Meditação encontra esse espaço de investigação da natureza ilusória desse “eu sou fulano”. Ela tem que encontrar esse espaço completamente livre desse “eu sou fulano de tal”, “eu sou vascaíno”, “eu sou palmeirense”, “eu sou petista”, “eu sou...” Então, a autoinvestigação está presente quando o espaço está inteiramente livre. A autoinvestigação não é acompanhar uma fala como esta e acreditar que está investigando isso, pois esta é somente mais uma fala.
Depois de escutar muitas falas como esta, ler muitos livros sobre o assunto, você pode até fazer uma bela fala, se for um bom orador. Você pode conhecer isso tecnicamente, de uma forma perfeita, movimentar isso com uma precisão extraordinária, mas ouvir falas sobre isso não é autoinvestigação.
A autoinvestigação é observação, a observação do movimento do “eu sou fulano”, e isso não é para dez dias ou para um final de semana, ou para duas horas pela manhã e à noite. Ela está presente a cada momento! É como você escuta o som à sua volta, qualquer que seja ele. Pode ser o canto de pássaros em meio à natureza (algo que a mente adora) ou o grito de um marido machista, mandatário, opressor, gritando no ouvido da mulher, ou uma mulher gritando no ouvido do marido. Meditação é ouvir isso e não fugir! Saber ouvir isso, estar diante do desagradável sem internalizar isso, sem se confundir com “alguém” presente dentro dessa experiência, sentindo-se ferido, magoado, triste, com raiva ou medo, isso é Meditação! Ao ouvir, ver, assentar-se, caminhar, na hora de comer, ir ao banheiro, momento a momento... Isso é trazer atenção para Aquilo que é anterior mesmo ao sentimento “eu sou”.
Assim, é possível a Constatação da Realidade Última, desta Verdade que não tem nome, forma, cor, sabor, cheiro; que nunca nasceu e, portanto, não conhece dia de nascimento nem festa de aniversário. Você não pode continuar se segurando “nesse lado”. Sabe do que eu estou falando? Do lado onde a aparição é tudo que você conhece. Haverá a interrupção disso, num dia chamado “dia da morte”, mas não há por que ter medo. Claro, não há como conhecer o Desconhecido. A Meditação é o Desconhecido e você não vai conhecê-La. A Meditação é a Presença sem forma, sem nome, sem cor, sem sabor. Quando a Meditação está, não tem o conhecido, não tem esse “eu sou fulano”, “eu sou José”. Você tem que estar disposto a deixar a história do personagem marido, filho, mãe, pai, e isso significa um rompimento completo com o conhecido. Repito: não é para saber o que é o Desconhecido, pois você jamais saberá o que Ele é! Você jamais conhecerá o Desconhecido! Esse Constatar é a ausência desse que constata; o Real Conhecer é a ausência do “conhecedor”; a Real Experiência é a ausência do “experimentador”. A Vida é o Desconhecido. A expressão “Jnana”, tão conhecida na Índia, nós traduzimos como “Conhecimento”, que é esse puro Conhecer sem o “conhecedor”. Assim, Meditação é se aproximar deste “Eu”. Agora, trazendo isso para mais perto, para o nosso viver, para o nosso dia a dia. Você diz: “Eu sou o Carlos”. Corte esse “Carlos”, corte esse nome com sua história, aí fica “eu sou”. Corte o sentimento “sou” agora, aqui, e, então, fica o “eu”. O que é esse “eu”? Esse “eu” desaparece... Pronto! É isso!
Ou você fica com isso ou fica agarrado aos seus problemas. Aqui cada um tem um drama. Pergunte ao vizinho aí do lado que ele vai dizer que tem. Em algum nível, tem. Ou você fica agarrado a esse drama ou você vai trabalhando isso. O ego vai ficar ressentido. Ele vai dizer: “Você não está sendo cuidadoso, não está dando a atenção devida a isso”. Isso porque o ego quer consertar as coisas. Você tem que perceber isso em você. Eu sei, porque eu vivi isso no passado, eu vi isso também. Houve um tempo em que também havia dramas aqui, os quais estavam no mesmo pé desses que você tem hoje. Você acredita que os dramas são seus e fica tentando consertá-los, mas isso não tem conserto, porque isso é cármico, é destino, já está traçado. A única coisa que você pode e precisa fazer é se desidentificar dessa coisa.
Compreendem? É isso! Qual é a diferença do Osho, Ramana ou Krishnamurti para você? Nenhuma! Eles apenas deixaram de se importar com a história em volta deles. Eles se importaram por tanto tempo que um dia perceberam que não tinham mais como ficar presos a isso, porque era ridículo! Numa fala de alguns minutos, estou resumindo para vocês aqui, diretamente. É isso mesmo que eu quis dizer o tempo todo com essas palavras tão bonitinhas, que não servem para nada também. A única coisa certa que vocês estão fazendo agora é estar aqui, e não tem mais nada que possam fazer a não ser ouvir isso.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão – SP; em Março de 2019 – Acesse a nossa agenda e se programe para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-satsang.

sábado, 7 de dezembro de 2019

Você é anterior ao sentimento "eu sou"

Você traz consigo um sentimento, que é o do “eu sou”. Ele está presente sempre, 24 horas por dia, mas você precisa voltar a sua atenção para Aquilo que é anterior a ele. Se o seu interesse é descobrir a Verdade sobre você mesmo, precisa descobrir Aquilo que é anterior até ao próprio sentimento “eu sou”, que está presente e o acompanha o tempo todo, em todas as horas do dia.
Para você, “eu sou o João”, “ele é Pedro”, “ela é Maria”… Isso é uma nomeação desse “eu sou”, desse sentimento “eu sou”, é uma crença que o pensamento criou sobre Aquilo que nós somos. Você permanece anterior a esse sentimento e anterior a essa nomeação. Então, aqui temos duas coisas: a primeira é o sentimento “eu sou” presente, o qual todos carregam e é algo sempre presente aqui e agora. A segunda coisa é a história sobre esse “eu sou”, que recebe um nome quando o corpo aparece nesse cenário. Assim, são duas coisas das quais vocês precisam se livrar, porque não tem nenhuma verdade nisso, tem somente a relativa “verdade” de uma aparição, mas nada disso é Você.
Você precisa dar atenção Àquilo que é anterior a essas aparições. Esse “eu sou João”, “eu sou Maria”, é só um nome com uma forma no tempo e no espaço. Aquilo que é anterior a esse “eu sou” é anônimo, não tem nome, forma, cor, substância aparente, porque é anterior a tudo. Aqui, a questão é que você tem se confundido com “eu sou João”, ou “eu sou Pedro”, ou “eu sou Maria”. Você tem confundido uma aparição (com um nome, uma forma e uma cor) com Aquilo que não tem nome, forma ou cor, e que não é uma aparição.
Você precisa descobrir o que Você é. Antes desse “eu sou”, Você é! Isso não tem passado, presente e futuro, não tem história. Todo seu problema é esse: “eu sou Maria”, “eu sou João”, “eu sou Carlos”... A sua atenção está naquilo que é aparente. Assim, você tem um dia de nascimento, o qual comemora todos os anos — e faz muita questão disso —, porque isso confirma sua identidade no tempo. Você gosta de se lembrar do seu aniversário porque isso diz “eu sou José” e dá continuidade à sua história no tempo, à pessoa que você acredita ser, confundindo-se com o corpo.
Nós vivemos em um mundo onde isso é muito importante. A aparição é muito importante! Quando um nome, uma forma e uma história são importantes, a ideia da morte também se torna muito importante. Esse é um outro aspecto da ilusão desse sentido do “eu sou”. Repito: esse sentido do “eu sou” se vê confirmado pela presença do corpo, localizado em determinado espaço, vivendo em um determinado momento. Assim, há um espaço regional para essa identidade que supostamente você é e um tempo no qual essa identidade supostamente vive. Esse tempo é a história e esse espaço é o corpo no mundo, num determinado país, numa determinada cidade, cercado por um certo número de pessoas e objetos, que têm formas, nomes, cores, assim como você tem uma forma, um nome e uma cor. Esse é o sentimento “eu sou”.
Dá-se muita importância a esse “eu sou” no corpo. Você se lembra muito da morte quando se ocupa com a ideia de que nasceu um dia. Você está validando o tempo todo a ideia “eu sou” quando olha para o corpo e o coloca nesse espaço, que é o lugar onde você acredita que está vivendo (cidade, país, planeta), e no tempo, quando valoriza a história e aqueles que fazem parte dela (família, vizinhos, amigos). Assim, você permanece constantemente procurando uma confirmação de que está vivo — esse é um outro aspecto desse “eu sou”, na crença “sou alguém”. Não é possível a Verdade sobre Você, enquanto você sustentar essa ideia de estar vivo (“eu sou o corpo”).
A Realização, Despertar, Iluminação, representa essa anônima Presença, que é sem forma, nome, cor, cheiro, tempo (sem história), mundo (sem espaço). Enquanto você se sentir patriota, carioca, nordestino, americano, inglês, ou seja, sentir-se regional no espaço, no mundo, ou enquanto estiver se sentindo como homem ou mulher, atrelando esse “eu sou”, que é somente o sentimento de presença aqui e agora, à crença “estou no corpo”, você se sentirá sujeito ao nascimento e à morte.
Assim, qual é o seu trabalho aqui? Assumir a Verdade sobre sua Natureza! Em sua Natureza Verdadeira, Você não está na história, porque Você é anterior a esse “eu sou”, ao próprio sentimento que você carrega durante 24 horas por dia. “Eu sou”, reparem, não é a última Realidade, ainda não é a Verdade, a Realidade Absoluta, mas é o que você tem de mais próximo e prático para se aproximar dessa Realidade Absoluta.
"Assim, qual é o seu trabalho aqui? Assumir a Verdade sobre sua Natureza! Em sua Natureza Verdadeira, Você não está na história, porque Você é anterior a esse 'eu sou'."
Então, resuma! Pegue o “eu sou João” e corte a palavra “João”, e fique com o “eu sou”. Agora, corte o “sou” e fique com o “Eu” ‒ um “Eu” sem definição. Esse “Eu” não tem sexo, não tem corpo, não tem mente, não está no mundo… é somente “Eu”. Qual é a Natureza Real desse “Eu”? Esse “Eu” não tem definição, porque não é “eu sou João”, “eu estou aqui”, “eu sou alguém”, é somente “Eu”. Esse “Eu” não nasceu, não tem nome, não tem país. É o puro “Eu”! Esse “Eu” é o que ficou ainda mais próximo de nossa Natureza Real, dessa anônima e indefinível Presença.
Na Índia, eles chamam de “Parabrahman”, “Atman”, “Deus”, Aquilo que é anônimo, que não tem forma, não tem cor, não tem cheiro. A Última Realidade! “Eu” sem nenhum pensamento, sentimento, emoção e sensação associados. Esse “Eu sou” se resume a esse “Eu”, que também desaparece. Deus desaparece, Parabrahman desaparece, Atman desaparece. São somente nomes, tudo isso desaparece, assim como quando um filme que você está assistindo termina.
O que acontece? Você está no cinema assistindo a um filme, a luz do ambiente está apagada, toda luz que você tem é aquela projetada na tela, e nessa tela você tem as aparições. Quando o filme termina, com as aparições, que são os personagens do filme, as suas cenas de drama, terror, comédia ou ação se apagam na tela. A tela continua, mas não há luz sobre a tela, como se ela houvesse se apagado, mas tivesse uma luz própria. Quando a luz da tela se apaga, os personagens, as imagens, as ações amedrontadoras do terror desaparecem, assim como as ações românticas, as cenas amorosas e as ações dinâmicas da ação, de combate, luta. Quando você olha para a tela, é como se ela também tivesse desaparecido, toda luz que tornava isso possível desapareceu.
Despertar, Realização da Verdade, Iluminação, ou qualquer que seja o nome dado para Isso, é o fim da história. Essa história nunca teve início, mas ela pode aparentemente terminar, e ela precisa terminar. Assim, tudo aquilo que você tem feito para dar continuidade a esse movimento de imagens, para se confirmar, dia após dia, como “alguém”, com esse sentido de “eu sou fulano”, “eu sou João”, “eu sou pai”, “eu sou mãe”, “eu sou filho”, “eu sou”, está carregado de histórias, de apegos, desejos, vinculado a meras projeções do pensamento. Você afirma que nasceu numa determinada cultura, sob certo regime político e religioso, e passa a vida toda agarrado a isso: “Eu sou democrata”, “eu sou católico”, “eu sou protestante”, “eu sou do PT”, “eu sou do PMDB”, “eu sou socialista”, “eu sou ...”.
O que mais podemos dizer sobre isso? Quantos anos você tem? A que partido você pertence? Qual é a sua religião? Você é nordestino ou é sulista? Reparem como isso é forte, como o condicionamento do sentido do “eu sou” é forte. Observe o quanto você está saturado disso! Isso porque essas crenças criam todo tipo de preocupação, aflição e sofrimento. Você precisa de muita coisa para se estabilizar na crença “eu sou alguém”. Você precisa viver todos os seus dias, durante 24 horas de cada dia, ligado a esse sentimento “eu sou”, defendendo isso e brigando por isso. Puro condicionamento!
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro no Ramanashram Gualberto na cidade de Campos do Jordão, em Março de 2018 – Acesse a nossa agenda e se programe para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-satsang.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O que é a Vida Real?

Você pode passar uma vida inteira como todos têm passado: sem a mínima noção do significado real de estar aqui. Assim, sua vida termina dentro de uma condição de profunda miséria. Todo e qualquer resultado que você acredita ter alcançado se mostra, no final de sua vida, como algo que não valeu a pena. Tanta luta para se obter, tanto trabalho para se conquistar... Mas, você pode mudar isso Acordando, saindo dessa condição de vida puramente mental, que é completa inconsciência sobre si mesmo.
Então, a Autorrealização não é uma questão de escolha, mas uma ação de pura Inteligência. Escolha é confusão! Quando há Clareza, não há escolha! Escolha é para mentes medíocres. O Homem Inteligente não faz escolhas! Você não pode escolher ser feliz ou ser miserável. Se você tem essa escolha, é porque você já é miserável, já é infeliz, não carrega Inteligência. Quando há Inteligência, não há escolha entre ser feliz ou miserável, entre viver a Verdade ou a ilusão. A ilusão é um falso “eu” que você tem abraçado por todos esses anos. Esse tem sido o seu estilo de vida, de dependência, medo, desejo e sofrimento.
Se você é Real, porque é Inteligente, não faz nenhuma escolha, não decide sobre estar Realizado ou não. E, aqui, o sentido da palavra “Realização” implica Liberdade, Verdade, Amor e Consciência. Então, você precisa aprender a viver, precisa aprender o significado de estar vivo. Você só está vivo para a Felicidade, não para esse modelo tão comum que você vê à sua volta, onde há muita desordem e confusão. A guerra é o resultado disso! Toda a estupidez humana é o resultado disso, de mentes que escolhem, que estão inteiramente perturbadas.
Nas relações, você percebe todo esse conflito da escolha. Repare que tudo o que você escolhe é a partir de sua confusão. Isso não representa Paz na sua vida, nem Liberdade, Amor, Consciência. O que está em sua vida é a ilusão! É isso que você chama de “minha vida pessoal, particular”. “Eu não quero que ninguém se meta comigo, porque essa é a minha vida”. Você se orgulha de tudo isso, de todas as “suas” conquistas, mas nada disso representa Felicidade. Você não está neste presente momento, você não está vivendo a vida como ela está acontecendo aqui e agora.
Na mente, você vive uma projeção de existência. Não é a existência como ela é, não é a vida como ela é, é somente uma projeção, um cálculo criado pelo pensamento, o que estou chamando de “escolha”. Então, você é só um joguete dessa inconsciência. Vive em uma bela casa, tem uma família bonita, um bom marido ou uma boa esposa, filhos também muito bonitos... Você os coloca numa faculdade, dá uma formação profissional para eles, e eles mantêm o modelo, tornam-se pessoas respeitáveis mais tarde, por tudo que também alcançaram, por tudo o que realizaram, mas todos eles ainda se mantêm presos à infelicidade. Tudo porque eles, como você, nunca conheceram a Real Vida, nunca conheceram a Liberdade, nunca conheceram a Felicidade, porque nunca conheceram a Si mesmos. Realização é se conhecer, o que não significa conhecer esse falso “eu”.
Então, a palavra “autoconhecimento” não se aplica aqui. Não se trata de se autoconhecer. Eu estou usando a palavra “Realização”, neste momento, e não “autorrealização”. Realização de sua Verdadeira Natureza, de seu Verdadeiro Ser, de seu Verdadeiro Eu! Não esse falso “eu” que só conhece esse modelo já prefixado pela sociedade, pela cultura, pelo mundo à sua volta. Então, eu sempre volto a essa questão: a vida é algo que está acontecendo, mas você, no falso “eu”, não conhece isso. Tudo o que você está vivendo está dentro desse modelo da mente, dessa pseudorrealidade, que você chama de nascer, viver e morrer, e, nesse ínterim, conquistar, realizar, procriar, viver o que você chama de “amor”, “afetividade”, “realização de desejos”.
Então, a questão é saber o que está aqui, neste instante. O que é isso que aqui se expressa temporariamente em um corpo, em uma mente, através desse organismo? Se você não descobre isso, se você não conhece o significado real dessa Realização, você não está verdadeiramente vivo. Você nunca viveu! Isso significa apenas estar em um sonho… um sonho de inconsciência e miserabilidade. Então, você precisa Acordar!
Havia um imperador no Japão, que era um homem muito, muito, muito poderoso. Ele se tornou um imperador muito famoso, era conhecido no mundo inteiro, mas era infeliz. Ele tinha tudo, mas não conhecia a Felicidade. Ele era um desses que escolhe, que confunde seu ser com aparições, com realizações externas, com conquistas. Então, ele ouviu a respeito de um mestre que havia em seu país. Esse mestre se tornou também muito famoso no antigo Japão. Ele se chamava Nain.
Então, o imperador foi ver o mestre e, ao chegar diante dele, disse: “Gostaria de lhe fazer uma pergunta. Eu sou famoso, todos me conhecem, todos conhecem o poder e a riqueza que eu tenho. Isso me tornou famoso no mundo inteiro! E eu quero saber de você. O que o tornou famoso aqui no Japão? Todos falam de Nain, o Mestre Zen. O que fez de você alguém tão famoso? Você não tem o poder e a riqueza que eu tenho, e sou eu que estou vindo a você lhe fazer uma pergunta, e não o contrário. O que lhe deu tanta fama?”.
Nain olhou para o imperador e disse: “Quando vou à floresta, eu corto lenha e trago para casa.” Havia um pequeno poço e ele apontou para o poço e disse: “Quando eu preciso de água, eu vou àquele poço e tiro água dali, e coloco dentro de casa.” Naquele momento, o imperador, olhando para ele, disse: “E daí? E daí?” E Nain respondeu para o imperador: “Eu corto lenha e trago para casa. Eu tiro água do poço e coloco dentro de casa”. O imperador disse: “E é só isso?”. E Nain respondeu: “Sim”.
Naquele momento, o imperador ficou muito furioso! Ele disse: “Eu sou o imperador, eu viajei muitos dias para ouvir uma resposta como essa?” Nain continuou em silêncio. O imperador ficou mais furioso ainda! Ele voltou-se para Nain e gritou: “Eu sou o seu imperador! Eu vim aqui para um aconselhamento espiritual e é só isso o que você tem para me dizer?” Nain aguardou alguns segundos e respondeu para o imperador: “Esse é o conselho espiritual que dou a todos. É a única coisa que tenho a dizer. Quando alguns me procuram para descobrir a Paz, a Felicidade, a Liberdade, eu digo isso a eles.
"Eu levei anos para chegar nesse ponto, de apenas cortar lenha e trazer para casa, de ir ao poço e pegar água e colocar dentro de casa. Eu levei muitos anos porque, quando eu saía de casa, minha mente estava cheia de pensamentos. Durante todo o caminho até a floresta, muitos pensamentos se passavam dentro de mim, muitas preocupações, muitos desejos, muitos sentimentos, muitos conflitos havia aqui, até eu chegar aonde eu ia cortar lenha. Enquanto estava cortando lenha, os pensamentos estavam aqui, antecipando o futuro, preocupados com realizações futuras, com o que havia acontecido no passado… Havia uma multidão de pensamentos aqui! Então, eu voltava para casa. Enquanto carregava lenha, os pensamentos, as preocupações e os sentimentos ainda estavam aqui. Então, levei muitos anos para aprender a cortar lenha e trazer para casa. Quando eu ia ao poço pegar água, os pensamentos e os sentimentos estavam aqui. Em tudo o que eu me colocava para fazer, eu não estava presente. Os pensamentos estavam presentes, os sentimentos, as sensações, as percepções, e eu me confundia com isso o tempo inteiro. Eu acreditava que era isso tudo! Eu estava dormindo!
"Agora tudo está claro. Não há mais sonho, não há mais pensamentos, então, a única coisa que eu tenho para lhe dizer é que eu aprendi a cortar lenha, a tirar água do poço. Hoje, quando vou cortar lenha, eu apenas corto lenha; quando carrego lenha, apenas carrego a lenha; quando eu tiro água do poço, eu apenas tiro a água do poço; quando estou trazendo água do poço para casa, eu apenas estou trazendo água do poço para casa. Não há mais sonho, eu não estou mais dormindo! Então é isso o que digo para todos: ‘Aprenda a cortar lenha e a trazer água para casa’”.
Permaneça em seu Ser! Aqui a questão é essa! Isso é a Vida! Assim, ou você está na Vida, ou você está preso às identificações com a mente. Se você se identifica com a mente, com essa enorme quantidade de pensamentos, sentimentos, sensações, emoções, percepções, você vive num mundo de desejos, num mundo de medo, numa vida irreal, ilusória. Então, quando falamos de Realização, estamos falando da Constatação da Verdade sobre quem Você é. Isso é a Vida Real!
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro na cidade de Campos do Jordão no Ramanashram Gualberto em Março de 2018 – Acesse a nossa agenda e se programe para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-satsang.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

A chave para a Liberação

O seu trabalho na direção do Despertar começa exatamente aqui: pare de imaginar, de configurar, aí dentro, imagens sobre como estão, foram ou serão as coisas. O segundo passo é: acolha o mundo externo, em suas aparições, como ele é! Se está chovendo, isso é um fato! Não quer se molhar? Use um guarda-chuva! A chuva está lá fora, você precisa sair... abra um guarda-chuva e saia! Não faça dessa situação, desse acontecimento, desse mero incidente, uma calamidade pessoal. Não transforme isso num drama pessoal. Não construa a sua história em torno de uma chuva.
O ego está fazendo isso o tempo todo! Se não faz com a chuva, faz com outras coisas que estão acontecendo. O seu marido não levou o prato da mesa para a cozinha, e você já pediu isso dez vezes... Não, cem vezes! Mas, ele nunca atende! Isso é um fato! Ou ele tem um problema de audição, ou ele não está disposto a estar nesse jogo com você, atendendo ao seu desejo. Não faça disso um drama!
O trabalho do Despertar precisa ser percebido por você nas coisas mais simples, onde o sentido de um “eu” está sendo construído e sustentado. Mantendo-se ciente de si mesmo, de forma zelosa, aplicada, dedicada, sem se perder em imaginações, em pensamentos sobre os fatos, sobre os acontecimentos, você começa a perceber esse movimento intrincado, malicioso, capcioso e imaginário de uma identidade presente aí, fazendo dramas, tempestades em copo d’água!
Despertar é permanecer aqui, agora, neste “Eu sou”, sabendo que o que está acontecendo externamente ou se apresentando internamente não possui nenhuma realidade fora deste “Eu sou” e, por isso, não pode roubar sua atenção, não pode capturá-lo.
Qual é o significado do Despertar? Permanecer em seu Ser, de forma completa, total e irreversível. Isso como um fato, não como uma teoria verbal, não como uma filosofia advaita, não como uma crença. A única certeza é Aquilo que é Real, que está além das crenças, das opiniões e conclusões.
"Qual é o significado do Despertar? Permanecer em seu Ser, de forma completa, total e irreversível."
Só há este instante! Não tem nada a ver com o mundo externo. Quando digo “este instante”, não estou falando do que está acontecendo, porque o que está acontecendo já aconteceu. Percebe? Você está respirando? Não! Ou respirou ou vai respirar. Respirou? Já foi! Vai respirar? Não está aqui! Então, não está acontecendo uma coisa nem outra. Alguém está respirando? A respiração acontece, mas, como tudo que acontece, já foi! Não é isso?
Estou falando Daquilo que é imutável. Isso não acontece, não aconteceu... Olhe para a sua cabeça, que coisa curiosa: o pensamento aconteceu ou vai acontecer; não é imutável. O sentimento aconteceu ou vai acontecer; não é imutável.
O futuro, que a mente ama criar em sua imaginação, não é um fato, é uma crença, é só um pensamento. Não é imutável! A Realidade é Imutável! A única certeza é: “Eu sou”. Permaneça nisso! Trabalhe nessa direção! Não importa se você fracassar muitas vezes. Você já está há milhões de anos sem tentar uma única vez e já quer acertar na primeira? Você tem uma vida pela frente. Esse “Eu sou” é atemporal. Ele não acontece, não aconteceu e não vai acontecer. Já a sua vida é uma fraude! Eu falo dessa “vida” que o pensamento projeta, posicionando-se no tempo e no espaço.
Agora, tocamos em um aspecto fundamental, que é a chave para essa Liberação, para essa Realização, para Aquilo que chamei de Despertar. Essa chave é a Meditação!
Agora vocês sabem o que é Meditação. O prato não foi levado para a cozinha? Quem se importa? A quem isso fere, atinge, magoa, ofende, entristece, aborrece, deprime, angustia? Você não recebeu presente de Natal? A quem isso importa? Lembraram do seu aniversário? Aniversário de quem? A quem isso importa? Quem se importa de se sentir amado?
Em seu Ser, Você é Deus! O que está faltando para Deus? Que alguém leve o prato para a cozinha para Ele se sentir bem? Isso só acontece nessa ilusão, nessa flutuação de tempo psicológico, criado pelo pensamento. Não há tempo, não há passado, não há futuro, não há presente, não há pensamento, não há alguém! Isso é Meditação!
Você não pode se livrar do mundo do lado de fora, nem pode dar ordem a ele para que tudo aconteça como você quer. Não adianta tentar mandar a chuva parar. Pega o guarda-chuva e sai com ele! Não adianta tentar mudar o outro para se sentir preenchido, feliz, satisfeito, realizado… Tudo isso está no velho fundamento da mente egoica.
Por que os consultórios psiquiátricos estão cheios de pacientes? Responda para mim. Numa escala menor ou de maior expressão, onde a sua loucura se posiciona? Essa loucura está só na ilusão de que tem alguém aí, fora esse “Eu sou”.
Despertar é permanecer aqui e agora! Descubra em você mesmo o que mantém esse sentido de uma identidade presente neste momento. Isso está ocultando a Realidade. Não está destruindo a Realidade, porque Ela é intocável. Por mais miserável que você se sinta, por mais infeliz e problemático, isso não muda o fato de que esse “Eu sou” permanece além do corpo e da mente.
Você tem toda a energia necessária para esse Despertar. A chave está disponível! Contudo, você está desperdiçando essa energia o tempo todo, devaneando, pensando, imaginando, identificando-se com o corpo e suas satisfações, com o ambiente externo e seus acontecimentos, seus episódios, como se isso fosse mais importante que Você! Então, isso se torna, de fato, mais importante que Você! Quando isso acontece, você é miserável. Quando o outro, o mundo, as formas, as coisas, os pensamentos, os sentimentos e as imaginações são mais importantes que permanecer nesse olhar, nesse ouvir, nesse sentir, nesse experimentar, nesse vivenciar, sem se identificar com isso, você é miserável.
*Transcrito a partir de uma fala em um encontro na cidade de Campos do Jordão no Ramanashram Gualberto em Março de 2018 – Acesse a nossa agenda e se programe para estar conosco: http://mestregualberto.com/agenda/agenda-satsang.

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