domingo, 14 de maio de 2017

Qual é o meu segredo?

Em Satsang, estamos tratando do final do tempo, da história, do pensamento, do passado, do futuro, da noção de estar presente. O que traz você a Satsang é a sensação de que há algo maior do que a “pessoa” na experiência de viver. Há algo maior do que a experiência de ser alguém vivendo seus dias, para depois ter uma história para contar, um livro para escrever, coisas para dizer.
O meu enfoque é nesta Presença, onde nós somos o que somos. Nesta Presença, nesta tarde, o sol brilha, o seu coração brilha também, e você é o que é. Não há tempo, não há história, não há o “eu”. Há somente Consciência aqui e agora, sem revolução, sem guerra, sem luta, sem dor.
Quando eu olho para você, eu vejo a mesma Luz que brilha em meu coração, o Brilho de Deus, a Luz de Deus! Um dia, Jesus Cristo disse: “Você é a Luz do mundo!”. Brilhe sua Luz! Neste momento, neste encontro, só há Deus! Não há você, não há história, não há ninguém! Eu quero que todos vocês relaxem nisso.
O ego é o seu problema; os seus pensamentos são os seus problemas. Pare com os seus pensamentos! Não pense! Permaneça na contemplação da Luz do Sol, neste momento. Todo momento é este momento, e somente nele Deus está. Eu sou Deus, você é Deus! Não pense sobre a “pessoa”. Não há “pessoa”! Para mim, não há “pessoa”, só há Deus! Em seus olhos há Deus! Deus em todo lugar! O tempo todo, eu sinto Deus, porque eu sou Deus! Em minha vida, não há medo, não há problema, não há sofrimento. Bem-vindo a Satsang – este encontro com a Verdade. A Verdade é Beleza! Deus é uma linda menina! Eu quero ficar aqui… Eu preciso ficar aqui onde Deus está! Eu não quero me mover! Eu não preciso me mover, porque eu posso permanecer sem ego, sem pensamentos sobre o que acontece. Meu segredo é o Silêncio da Meditação.
Tudo que eu posso mostrar a você é como viver assim, e Isso é possível a todos! A Felicidade não é a realização de alguém; a Felicidade é a Realização da ausência de alguém. Todo o problema que você tem comigo é esse: você quer afirmar uma crença e me convencer de que ela é real. Eu me sinto como alguém que entra no museu de cera e encontra muitos personagens da história humana: Stalin, Hitler, Mussolini, Tibério César… Na sessão dos filósofos, eu encontro Descartes, Spinoza, Sócrates, Aristóteles, Platão… Tanta gente bonita, em suas roupas elegantes… mas são apenas bonecos de cera. Quando eu escuto você falar comigo, você está sempre falando da história. Só sabe me contar história! Quer me convencer que você é de verdade. Como pode encontrar a Felicidade de ser O que É, se você se confunde com uma história que está sendo contada? O corpo está contando uma história; a mente está contando uma história; a sociedade, a cultura, o conjunto de situações e circunstâncias estão contando uma história; e você, convencido disso, quer me contar essa história.
Compreende? Não tem ninguém! Você não é uma história, mas assumiu um nome, uma profissão, um personagem – “algo feito de cera”. Este é o sentido do “eu” na experiência que você chama de vida. Compreende o que eu quero dizer? É um drama, uma tempestade com vendaval, relâmpagos, trovões e muita água, mas eu vejo que é só um copo d'água produzindo isso. Você pode fazer uma tempestade com um copo d'água! Oh, criança… Que “tempestade”!
Sabe o que você está fazendo? Você está dando continuidade a isso, perpetuando a história do museu. Você está chamando muita atenção! Todos os dias recebendo visitações e sendo apreciado como “alguém”… Alguém com seus trajes típicos, vestido e investido de uma história, tendo o tempo como o fator mais importante. Isso só porque você pensa, ou acredita pensar, sobre coisas, pessoas, lugares e situações; só porque passa um pensamento aí dentro da cabeça dizendo coisas e você acredita nele.
Quando esses pensamentos se tornam demasiadamente persistentes e não largam você, você fica obcecado por isso. Não basta só o que todos têm como senso comum, o pensamento vai mais longe. Ele cria particularidades, as quais fazem de você alguém que a ciência médica, psicológica, chama de “paciente”. Só porque algumas crenças são muito fixas, bastante persistentes, eles chamam isso de patologia. O pensamento é uma coisa incrível! E lá vai você viajando nessa imaginação, naquilo que o pensamento sabe produzir muito bem, só porque não assume a Verdade sobre si mesmo; só porque você valoriza o que todos valorizam. O que é que você valoriza tanto? Crenças, conceitos, teorias, ideias, pensamentos sobre como deve ser o mundo, sobre como deve ser a vida – a “sua” e a “dos outros”, como se houvesse outros à sua volta.
Tudo é uma grande fraude, um museu de cera! Se você não encontra Hitler, ou um dos personagens aqui do Nordeste, como Lampião ou Maria Bonita, você encontra o seu namorado, seu marido, seu filho… Não muda muito, não! São todos personagens neste museu de cera, no qual você também se vê como alguém. Então, este instante de encontro com esse entardecer é desprezado. Este momento único, sem separação entre esse sol e você, é desprezado. Aquilo que está aqui e agora é desprezado, para ser valorizada a história que o pensamento constrói sobre o que aparece, sobre o que acontece. Então, você está dentro de um museu, onde tudo que você vê é história, e toda ela é imaginária, criada pelo pensamento, construída de cera. Você chama isso de vida! A vida está presente agora, quando não há história, quando não há cera, quando não há personagens. Faz sentido isso? Dá para acompanhar? Sobre o que eu estou falando, gente?
Participante: Sobre a mentira da vida pessoal. A mentira de ser alguém para alguns, que ajudam a manter essa identidade, que nos valorizam ou desvalorizam.
Mestre Gualberto: Isso! E isso é o quê? Isso é tempo, imaginação! Isso o afasta de Deus! Deus é sinônimo para o que acontece aqui e agora, sem “alguém”, sem interpretação, sem o desejo de alterar, mudar, lutar contra isso. Sem história, só há Felicidade! Você precisa do pensamento para estar no mundo como “alguém”. Agora mesmo, vá para sua casa. Precisou do pensamento ou não? Você precisa do pensamento para ir para a sala da sua casa, diante da televisão, para aquele móvel à direita da televisão, para a porta de entrada do seu apartamento… Agora vá para o seu quarto. Vá para a cama. Agora para o escritório, para o consultório, para a fábrica… Vá para dentro do seu carro. Agora você tem um carro, tem uma casa, tem um escritório, um consultório… Agora vá ver seu filho, sua filha, seu marido, sua esposa…
Você precisa do pensamento para ser alguém no mundo. O mundo se lembra de que você é alguém e o chama. É o pensamento que constrói o seu mundo; é o pensamento que constrói a avó, a mãe, o pai, o filho… É o pensamento que constrói esse museu de cera. Sem o pensamento, quem é você? Como você pode sofrer sem o pensamento? Sofrer por quem? Como você pode ter uma patologia sem o pensamento? Como você pode ser um psicopata, um maníaco? Como você pode ser um louco ou um sábio? Como você pode ser um menino ou uma menina? Como você pode ter problemas? Como você pode ter contas para pagar? Como você pode ter coisas ou perder coisas? Como você pode ser rico ou pobre? Como você pode ser humilhado, estar ofendido, magoado, triste, sem o pensamento? Então, do que estamos falando?
Você não está lidando com os fatos, pois os fatos são as coisas que acontecem. Você está lidando com o que o pensamento diz sobre o que está acontecendo. Aí está o problema! Entre o fato (que é a realidade) e a ideia sobre o fato (que é imaginação), há uma distância, e nela o conflito aparece. Nessa separação, o sofrimento aparece. Não há Amor nessa distância; não há Paz nessa distância; não há Felicidade nessa distância; não há Liberdade nessa distância; não há Deus nessa distância; não há Verdade nessa distância.
Você está sempre assim, nesse museu de cera: ou você está com a história do passado ou com a história do futuro. Uma coisa chama-se lembrança e a outra chama-se imaginação – futuro é imaginação e passado é lembrança.
*Transcrito de uma fala ocorrida em Abril de 2017, num encontro presencial, na cidade de Fortaleza/CE .
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quarta-feira, 10 de maio de 2017

A única coisa que importa de verdade é encontrar a si mesmo

A única coisa que importa de verdade, para você, é encontrar a si mesmo. Tudo o que você faz, ou fez, ou tem a intenção de fazer, é, no fundo, para encontrar a si mesmo.
Tudo o que você faz na vida é para encontrar a Felicidade, mas Ela não é algo que é resultado de alguma realização externa. Isso significa que você está na busca de si mesmo, mas não sabe. O caminho que a cultura, a sociedade, o mundo lhe deu, foi esse movimento para fora. É necessário voltar-se para dentro; sair da rua e voltar para a casa. A mente só conhece exterioridades, só conhece o lado de fora. Enquanto a mente só conhece o lado de fora, algo em você só conhece o lado de dentro.
Há algo em você que é a base de todas as aparições externas, que sustenta todas essas aparições externas, mas não se confunde com elas. Há algo em você profundamente enraizado nessa interioridade. Este algo em você é essa Presença interna, que não despreza o lado de fora, mas não se perde nele. É o Cerne, o Espaço indescritível de pura Presença… É o “Coração”!
Mente significa exterioridade e miséria; Coração representa Presença, Consciência e Felicidade. Toda a sua riqueza real está dentro de casa, não está na rua. A única coisa real presente, aqui e agora, é essa Presença além da mente e do corpo. Isso não pode ser tocado pela morte, assim como não foi tocado pelo nascimento. Indo para fora, saindo de casa, você se confundiu com o corpo, com a mente e com os projetos de uma realização externa e se empobreceu como uma pessoa, como uma entidade separada, confundindo-se com a experiência “corpo-mente-mundo”. Você está vivendo em pobreza.
Nessa ilusão de ter nascido, você carrega essa ilusão de adoecer, envelhecer e morrer. Você carrega a ilusão “eu sou o corpo”, “eu estou no mundo”, e isso não é verdade. Essa é a ilusão de estar do lado de fora, fora de casa, de ser “alguém” no mundo, de estar na rua. Quando você vem a mim, quando escuta as minhas palavras ou olha em meus olhos, nesse instante, eu me dirijo a essa interioridade, a essa riqueza de sua Real Natureza. Nesse sentido, não há alguém falando, não há alguém ouvindo; é a Riqueza se encontrando, o Coração se encontrando, a Interioridade se encontrando. É Deus com Ele mesmo! Você é Deus, mas se vê como pessoa, fora de sua Natureza Verdadeira. Fora de sua Natureza Essencial, você se vê na rua, se vê como alguém jogado na rua, procurando algo do lado de fora, procurando uma riqueza que não está lá.
Você quer ter mais saúde, mais dinheiro, mais coisas… Todos querem ganhar na loteria! Você quer mais poder, quer fazer algo pelo mundo, pelos outros, quer ajudar a humanidade, quer salvar o planeta, quer deixar seu nome na história, quer ser alguém lembrado, reconhecido, importante, famoso… Na rua, você sempre quer alguma coisa. No lado de fora, você sempre procura mais, e isto é sempre mais do mesmo, mais das mesmas coisas que todos buscam, mais, mais, mais…
Felicidade não é ter mais, não é poder mais, não é fazer mais, não é ganhar mais. Felicidade é só Felicidade, e Nela não tem “você”, e não tem mais. Felicidade é a ausência desse “você”, dessa ilusão de estar do lado de fora à procura de algo. Quem é algo, tem algo a perder. Quem não é, não tem o que ter e, portanto, não tem o que perder.
Assim, o meu convite para você é: deixe a rua, volte para casa. As pessoas estão morrendo, mas quando pessoas morrem não estão voltando para casa, estão apenas dando continuidade à sua história pessoal, ao sonho pessoal, ao sonho dessa entidade ilusória – a rua continua. É necessário morrer, mas morrer de verdade. A Verdade significa voltar para casa, soltar essa ilusão de ser “alguém”, sustentado, agarrado, segurando ou procurando coisas. Quando se morre assim, só se morre uma vez. Isso significa morrer para o passado, morrer para o futuro, morrer para coisas, pessoas e lugares geográficos; deixar o tempo.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 26 de Abril de 2017, num encontro aberto online.
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segunda-feira, 8 de maio de 2017

O que é a Verdade?

A Verdade, necessariamente, é algo presente agora, aqui, nesse momento. Nós não vamos produzir, trazer ou imaginar isso. E aí surge a pergunta: o que é a Verdade? Por que ela parece estar tão oculta? Uma vez que Ela está presente, por que Ela não se apresenta, afinal? Onde é que Ela se esconde, já que Ela é algo que está como base, como essa Realidade, como Aquilo que, sendo um fato, não pode ser negado?
Você tem sempre a sensação de que há duas coisas presentes: aquilo que observa e aquilo que é observado. Por exemplo: neste momento, você tem a impressão de que você está ouvindo e eu falando. Assim, nós temos duas coisas aparecendo. Então, a minha sugestão para você é: aproxime-se dessa experiência colocando o pensamento fora dela. Agora, por exemplo, enquanto você escuta, fique no “ouvir”, mas sem o pensamento sobre o que você escuta. Isso você pode aplicar em qualquer experiência sensorial, seja auditiva, visual, tátil…
Geralmente, o que fazemos nesses momentos é nomear, classificar, aquilo que experimentamos. A mente egoica tem a necessidade de se separar da experiência, e faz isso classificando, procurando segurança, pois o que ela ama é essa separação entre essa experiência de ouvir e “alguém” para ouvir. “Alguém” ouvindo vai concordar, discordar, aceitar, rejeitar, apreciar, gostar… e isso vai somente validar, a cada momento, a ilusão de duas coisas acontecendo, a ilusão da dualidade, a separação entre “alguém” e o que esse “alguém” escuta.
Aqui estou lhe dando algo muito prático, o trabalho a ser feito. O trabalho é: fique com a experiência, mas não entre nela. Isso é a base da Meditação e é Ela que torna clara a Realidade, a Verdade presente aqui e agora, nesse momento.
O único trabalho necessário é Meditação, agora, nesse momento, diante dessas palavras, do que os olhos estão vendo, da sensação que o corpo experimenta, sentado aí no sofá, na cadeira, ou deitado na cama… A pura sensação desse instante, seja auditiva, visual, etc. Se enquanto esse “ouvir” estiver acontecendo, a boca estiver mastigando alguma coisa, fique apenas com a sensação do paladar. Todo o seu condicionamento é de “alguém” nisso. Esse “você” sempre está aí, o que é uma ilusão. Nunca tem “você” aí, tem somente a experiência, mas é o pensamento que diz que tem “você” aí. Esse é o hábito, o vício dessa continuidade.
Você tem escutado muitas falas por aí que tratam da não dualidade, mas não lhe dão o trabalho para a constatação disso. Eu estou lhe dando o trabalho, sinalizando para você a única coisa que precisa ser trabalhada, o que é algo básico e simples. Embora possa parecer, a princípio, muito complicado, ainda é a parte mais fácil. A parte maior é da Graça, é dessa Presença, dessa Presença de Deus. Essa Presença, Deus, o Guru, faz o trabalho pesado.
Não há separação alguma na experiência. Ouvir, falar, caminhar, sentir frio, calor, são sensações. Você não separa a sensação, daquilo que sente; não separa o calor, do corpo que queima; o ouvir, dos ouvidos que escutam; o doce, do paladar. O que eu quero dizer é: o calor é sentido aí, sem separação; o som é sentido aí, sem separação; o sabor é sentido aí, na língua, sem separação. Você não separa o experimentador da experiência; é uma coisa só! Quando os seus olhos estão diante de um objeto, não há você e o objeto nesse olhar; há somente o olhar, não há separação. Tudo acontece dentro desse mecanismo, desse cérebro, dessa "máquina", mas você não separa o que acontece dentro, daquilo que acontece fora. Não há separação.
A ilusão é que tem “alguém dentro”, que está nessa experiência, mas eu estou dizendo que há somente essa experiência. Esse “alguém dentro” está classificando a experiência para o seu conforto, sua segurança, sua crença, para a validação de uma entidade presente. Isso está claro? Isso vale para qualquer sensação externa, sensorial, como para qualquer sensação interna.
Com o pensamento, portanto, é a mesma coisa: você não separa o pensamento do pensador. A ilusão do pensador cria o pensamento como algo separado, e o pensamento cria a ilusão do pensador, mas você não separa o pensamento do pensador. Isso vale, também, para uma emoção: ela não acontece fora. Ou seja, o pensamento é um só movimento; a emoção é um só movimento; a sensação física é um só movimento. Então, a pergunta que eu fiz no início da fala foi: onde está oculta a Realidade dessa Verdade presente? Está oculta nessa ilusão de um “alguém” presente nisso. Não tem alguém! Isso é tão claro!
Participante: De onde surge essa ilusão?
Mestre Gualberto: Da ilusão de que há uma ilusão. Tudo isso é criado pelo próprio pensamento imaginando algo. O pensamento ama imaginar-se, imaginar a si mesmo como uma entidade separada, e aí cria o pensador. Então, de onde surge essa ilusão? Da ilusão! Quando fica constatada a ilusão da ilusão, não há ilusão. É maluco demais isso?!
Participante: O pior é que saber disso com toda clareza não muda nada.
Mestre Gualberto: Muda tudo, porque eu acabei de explicar para você o único trabalho que você tem para fazer. Coloque em prática isso e depois me diga se muda ou não muda. Quando uma voz estiver falando com você, a ideia é que “alguém” lá está comunicando algo para “alguém” aí. Nesse momento, interrompa isso, essa ilusão, pois isso é só a mente com ela mesma, dizendo coisas. Da mesma forma que ela fala dentro dessa cabeça aí, entre essas duas orelhas, fala através desse “outro”, mas é a mesma mente. Então, muda tudo! Se você percebe que isso é somente um jogo da mente com a mente, olha para isso e testemunha sem dar continuidade, você quebra esse modelo, esse padrão. O pensamento diz: “Não muda nada”, mas é por que ele quer a mudança. É um velho truque do pensamento dizer isso. Todavia, não vai mudar nada aí, pois já está tudo no lugar. Acompanhem isso fazendo esse trabalho e vocês verão.
Por exemplo: quando você não permanece nesse “ouvir”, você emite uma posição sobre o que está sendo colocado, como acabou de fazer, dizendo: “O pior é que saber disso com toda clareza…”. Ou seja, não há clareza! O ponto é esse! Quando há clareza, não há confusão, desordem, conflito, nem a necessidade de mudar alguma coisa. Está tudo claro? Então já mudou tudo. Você está habituado a viver norteado pelo pensamento, pela "pessoa", pela ideia de "alguém" presente nessa experiência de ver, ouvir, pensar, falar, sentir, explicar, esclarecer, justificar. Você faz isso o tempo todo, numa relação ilusória com um mundo do lado de fora, onde tem namorada, noivo, marido, filhos… Então, isso produz medo, que só é possível nessa separação, nessa ideia “eu e o outro”, “eu de bem com o mundo”, “eu de bem com ele, com ela”… Mais claro dessa forma?
Estou colocando para você como trabalhar isso. Trabalhe isso agora, nesse “ouvir”. Se essa atenção está aí, você não se separa, dizendo: “Eu não consigo”. Quando você diz isso, quem entrou em operação senão o pensamento, já se separando, já ouvindo e interpretando? Ou seja, não tem nada claro, porque isso não está claro para o pensamento. Isso está claro, sim, mas não para o pensamento. Isso só opera a mudança, mas não opera a mudança para "alguém", para o pensador. Isso acaba com o pensador, com esse que julga, avalia, censura; esse observador separado, que diz: “Não dá”; “Está muito claro”; “Já cheguei lá. Consegui”.
Quando convido você ao Satsang, eu o convido à arte de ouvir. E ouvir não é entender, é somente ouvir. Você passa todos os dias, o dia inteiro, entendendo coisas: liga a televisão, liga o rádio, escuta as notícias, conversa com alguém, recebe e-mail, recebe uma conversa no whatsapp… Quando convido você ao Satsang, eu o convido a ficar quieto. Não se trata de entender, mas apenas ouvir. Nesse “ouvir”, Aquilo que está claro (sem o pensador, o pensamento e a ideia a respeito) revela-se como Verdade, que é essa Realidade, que é a base de Satsang.
Não é para entender! Isso é Meditação, Consciência, Presença. Isso é o Despertar! É algo presente agora! Pode levar cinquenta anos [para esse Despertar], mas esses cinquenta anos são agora! Pode ser que esse trabalho leve cem anos, mas ele já terminou agora! Só termina agora, porque, na realidade, quando esse trabalho começa, termina. Não há uma progressão, uma evolução, nem é uma escada, pois você não vai galgando degraus. Você "solta" o pensamento, a crença; "solta" aquele que interpreta, julga, avalia, que diz “está claro” ou “está muito nebuloso”; "solta" aquele que diz “entendi” ou “não entendi nada”. Você "solta" isso e pronto: aí está a sua Natureza Real, Verdadeira.
Entenderam? Muito prático, muito direto. Isso é o fim do sentido da separação, da dualidade, dessa simples crença: “eu e aquilo lá” – um “eu” aqui experimentando o mundo lá, com esse “eu” se confundindo, naturalmente, com o corpo, o que é somente uma crença que o pensamento anda fortalecendo. E agora? Como está aí? Ainda está claro ou está escuro? Está fácil ou está difícil?
Participante: Sempre bem na Sua Presença.
Mestre Gualberto: Essa Presença que Eu Sou é essa Presença que Você É. Sempre está bem nessa Presença, sim. Essa Presença é a base da Realidade. Quando você sai para o pensamento, sai dessa Presença. Vocês estão viciados em fazer isso e é por isso que o trabalho leva algum tempo.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 30 de Janeiro de 2017, num encontro aberto online.
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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Quando você vai a um Mestre, você está indo a si mesmo

Esse é sempre um momento de investigação. Esse é o Real Satsang, que é um momento não intelectual. No ego se dá muita importância ao intelecto. Quando chegam alguns novatos, eles trazem, geralmente, muitas questões. Em Satsang, não estamos interessados em respostas, mas na direta percepção. É por isso que você está aqui. Você se encontra nesse espaço para perceber diretamente e não para entender intelectualmente. Quando identificado com o corpo e com o processo do pensamento, seu interesse intelectual é muito forte e você acredita que, quanto mais entende intelectualmente, mais avançado está. Na verdade, mais confuso você está. Quanto mais entende intelectualmente esse assunto, mais confuso você se encontra. Esse não é um assunto intelectual.
Sabedoria não é nada intelectual. O conhecimento é intelectual, a Sabedoria não! Aqui, o propósito é irmos exatamente além dessa limitação do intelecto, porque a grande verdade é que, quanto mais você sabe, mais confuso você está. Quanto mais você conhece, entende, aprende, muito mais intelectual se torna e mais confuso fica. É sempre o ego que quer saber, pois ele tem que conhecer, e, para mim, esse é um dos claros sinais de verdadeira insensibilidade a essa percepção que vai além da dualidade. O entendimento intelectual está dentro dessa dualidade. Eu falo dessa percepção direta, que significa estar cônscio, ciente, daquilo que se apresenta, que está diante dos olhos. Essa percepção lhe dá sabedoria, não dá conhecimento. Está presente no “não saber”, no “não conhecer”, nesse “ver de uma forma direta”, não dual. Está claro isso?
Isso é algo diferente do que você está acostumado a ouvir. É contrário a todo “nosso” aprendizado, treinamento, condicionamento. Digo “nosso”, porque é o condicionamento que recebemos desde a infância. Aqui estamos diante de algo que é fascinante, de extraordinária beleza e Graça! Quando eu confesso para você que, por exemplo, você não é o corpo e a mente, que você é essa Presença do “Eu Sou”, não basta isso ser intelectualmente apreendido, guardado, decorado, compreendido. É necessária, sim, uma compreensão, mas não intelectual, pois esse tipo de compreensão é algo inteiramente diferente do que estamos tratando em Satsang. Aqui, estamos falando da direta compreensão que está nessa Percepção.
Então, essa questão fica muito clara quando confesso a você que Eu não sou o corpo, nem a mente, que Eu Sou essa eterna Presença. É claro que, quando usamos aqui esse pronome “Eu”, não estamos nos referindo à pessoa, mas sim a essa Presença, que é onipresente. Essa Presença não é algo particular de um corpo chamado Marcos Gualberto. Não estou falando sobre Marcos, ou João, ou José, ou Maria. Esse “Eu Sou” inclui todas essas aparições. Eu não estou falando de “mim mesmo”, desse “você mesmo”, dessa “pessoa”, mas o intelecto pode pegar esse pronome “eu” e tornar isso algo pessoal, que é o que ele faz muito bem. Quando você faz isso, mais uma vez está confuso.
Portanto, quando eu me refiro a esse “Eu Sou”, refiro-me a cada criatura, manifestação, aparição. Esse “Eu Sou” é essa Absoluta Realidade. Esse “Eu Sou” é sem nascimento e sem morte. Esse “Eu Sou” não desaparece, não tem começo e não tem fim. Esse “Eu Sou” é eterna Beatitude, Bem-Aventurança, Felicidade! Portanto, esse “Eu Sou” é Nirvana, é Reino dos Céus, é tudo! Esse “Eu Sou” é nada! Nesse “Eu Sou” não há nenhuma criação e nenhuma destruição!
Assim, não há como apreender o significado disso intelectualmente, mas sei que alguns têm tentado esse tipo de coisa. Alguém vai a uma palestra, ouve uma fala, decora algumas palavras e as repete, porém, essa não é a compreensão da qual eu falo; é uma compreensão meramente intelectual e isso não serve para nada! Isso ainda está nessa dimensão do “eu”, na dimensão da “ego-consciência”, da “mente-consciência”, da mente em sonho – em completa inconsciência, portanto.
As pessoas, quando vêm falar comigo, dizem basicamente as mesmas coisas. Elas trazem sempre as mesmas questões, como: “Como eu resolvo esse problema?”. Quando elas descobrem acerca dessa possibilidade da Realização, de ir além de todos os problemas, querem resolver esse “problema”: o problema da Realização. Elas sempre têm problemas. Primeiramente, os problemas pessoais, e, depois, surge o problema de “ir além da pessoa”. A mente está sempre criando problemas, sejam eles para a “pessoa” ou para a crença de uma suposta “não-pessoa”. Então, as pessoas perguntam: “Como posso ‘me’ autorrealizar?” Geralmente, elas querem Isso de forma rápida. De preferência, sem Satsang presencial, sem nenhum desconforto, “assistindo ao final do campeonato de futebol”.
É como uma pessoa nadando em um rio e reclamando que está com sede. O problema delas é a sede, embora estejam dentro de um rio. Estão pedindo por água mesmo nadando em um rio. Essa Realização é a sua Real Natureza. Portanto, Isso não é um problema. O problema é a ilusão de ser uma pessoa, o que traz todos os outros problemas para a “pessoa”. Então, a “pessoa” quer se livrar dos problemas, mas ela é o problema; a ilusão de sua identidade separada é o problema. Assim, a sua sede é a ilusão da falta de água; é a ilusão de uma existência separada. No rio, que é pura Consciência, a ilusão é uma entidade presente nadando e sofrendo de sede. Então, quando elas perguntam como resolver os problemas, é algo muito engraçado para mim. Acompanham isso?
Você está preso à experiência “corpo-mente-mundo”, como uma entidade (“pessoa”) presente nela, e isso é o que chamam de Maya na Índia: a ilusão do sentido de separação. Por estar preso a esse condicionamento, você está preso a essa ilusão da sede, da falta de água, mesmo estando cercado por ela, havendo água por todos os lados. Pela manhã, quando você caminha pela rua e, de repente, escurece, você olha para cima e percebe que o sol, momentaneamente, está oculto por detrás de algumas nuvens, mas você não diz que não tem sol. Você se mantém tranquilo, não se apavora, se assusta ou se perturba, porque sabe que o sol vai aparecer de novo. Não é assim? Você continua caminhando e sabe que daqui a pouco vai clarear tudo de novo, porque o sol está lá. Aquilo é só uma nuvem. Assim, você apenas aguarda a nuvem se dissipar, e, então, o sol brilha novamente, em todo o seu esplendor, em toda a sua glória. Não é assim? É exatamente assim.
Da mesma forma, você é o Divino, é a Consciência, é Deus, é a Verdade, é esse Radiante e Indescritível Sol, essa Indescritível e Radiante Luz. São apenas as nuvens da ignorância que aparecem e cobrem o Sol. Quando isso acontece, você acredita que é uma “pessoa”, um “ser humano”, e fica assustado! Então, você se depara com todas as situações que aparecem e as transforma em situações de ordem pessoal. Se elas são agradáveis, você se sente muito feliz, pessoalmente, e, se são desagradáveis, você se sente triste, deprimido, pessoalmente também. Assim, o que é bom é a “boa sorte” e o que é ruim é a “má sorte”, quando você acredita que tem problemas. Cansado disso, você vai em busca desse Despertar, dessa Realização. Começa a estudar Advaita e a fazer diversas práticas espirituais. Agora, você se encontra com outro problema, que é o “problema da iluminação”. Portanto, há sempre nuvens.
Eu quero dizer para você: não há nada errado! Você pensa que há algo errado, porém essa sensação criada pelo pensamento de que há algo errado é um condicionamento mental, um modo de aproximação e pura interpretação daquilo que acontece. Algo intelectual, mental. Então, você pensa que existe algo errado em algum lugar – algo errado com você, com o mundo, com os outros. Eu lhe garanto que tudo está no lugar em que precisa estar! Mesmo o que está “fora do lugar”, ainda está no lugar em que precisa estar, e até que aquilo “entre no lugar”, o lugar dele é aquele onde ele se encontra.
A ilusão diz que você vai controlar isso e, portanto, que você vai acertar as coisas. Entretanto, eu lhe garanto que as coisas se acertarão no tempo e da forma em que elas se acertarão, e até elas se acertarem, as coisas estarão no lugar. Tudo é essa Absoluta Presença, Absoluta Realidade. Tudo é o que é, e essa é a sua Verdadeira Natureza. Não há nuvens, ou, se aparecem nuvens, isso não pode encobrir a Realidade dessa Presença, dessa Consciência. Ela está sempre lá, brilhando, radiante.
Alguns de vocês estão começando a perceber que, quanto mais estudam e aprendem, mais confusos e estúpidos se tornam; ficam mais barulhentos, inquietos e agitados internamente – uma mente sem espaço, inquieta, tagarela. Portanto, não adianta se envolver em todo tipo de coisa, ficar para cima e para baixo, caminhando de religião para religião, de guru para guru, de escola para escola, de prática para prática… Existem muitos ensinos, estudos e livros, muito a aprender e sobre o que ouvir, mas tudo isso é tremendamente inútil. O que você precisa é ir além desse sentido de separatividade, além da dualidade, e o intelecto não pode fazer isso, porque ele não consegue e não tem como fazer isso. Todo o esforço pessoal é um esforço que gira em torno da própria “pessoa”, pois tudo o que a mente procura é aquilo que está dentro do campo dela; não pode estar fora. Para o ego isso é algo desesperador, porque ele sempre pretende fazer algo.
Algumas pessoas perguntam como isso aconteceu aqui, a Marcos Gualberto, e eu falo de Ramana. Então, elas perguntam: “Você tem Ramana como seu Guru? Ele foi seu Guru?”. Minha resposta é muito clara quanto a isso. Eu considero Ramana como Eu mesmo, como Aquilo que Eu Sou. Eu olho para ele como algo muito maior do que um Guru. Hoje, claramente, eu posso olhar para ele como o próprio Universo, como a própria Vida, Nela mesma, e isso não é outra coisa a não ser Aquilo que Eu Sou. Assim, ele é simplesmente outro aspecto de Mim mesmo. Quando ele me encontrou, eu prestava reverência a ele, e havia algo aqui claramente me mostrando que essa era uma reverência ao meu íntimo Ser, a Mim mesmo. Então, isso é tratar o Guru como a Si Mesmo. A palavra “guru” significa mestre, aquele que dissipa essas nuvens, as nuvens da ignorância. A palavra “guru” significa “aquele que dissipa a escuridão” e, aqui, dissipar a escuridão é dissipar essas nuvens aparentes, passageiras. O Guru é aquele que dissipa essas nuvens e, então, Aquilo que já está presente, que é essa Presença, essa Graça, essa Verdade do “Eu Sou”, que está aí, se apresenta.
Ramana esteve fazendo exatamente aquilo que estou fazendo hoje. Ele estava apenas confessando a Verdade de sua Real Natureza; não estava ensinando. Era um trabalho de Despertar! A questão está em despertar o aluno, o discípulo, para a Verdade de sua própria Natureza. Não se trata de ensinar ao discípulo Aquilo que ele é, mas de fazê-lo ver Aquilo que ele é. Ele, Ramana, estava apenas confessando essa Verdade sobre ele mesmo. As pessoas iam e podiam se assentar diante dele e perceber que não havia “pessoa” presente.
Nesse momento, os pensamentos, as perguntas e os problemas desaparecem, porque as nuvens desaparecem, e aí a Presença do Guru é a mesma Presença do discípulo. Então, não há “Guru”, nem há “discípulo”. Temos apenas essa única Presença nessa real confissão. A beleza de estar diante do Guru, de um Mestre vivo, é que você pode se encontrar com Aquilo que você é! Além das formas, dos nomes, das aparências, você pode se encontrar com essa Realidade, com a Verdade de sua Divina Natureza. Ramana olhava para todos à sua volta como olhava para si mesmo. Ele nunca se dizia Mestre.
Quando você vai a um Mestre, não é ele quem diz que é um Mestre. É você quem faz isso. Ramana olhava para todos como a si mesmo. Essa era a sua confissão: não havia ninguém separado dele. Quando você vai a um Mestre, você está indo a si mesmo. Enquanto existir essa ilusão da separação, da separatividade, de entidades presentes dentro de uma experiência, não haverá Verdade. O Guru é a Verdade, e ele não vê alguém separado dele. O discípulo vê assim; a mente vê assim. Claro isso? Portanto, a Realização é uma questão de despertar, não de ensinar alguma coisa para alguém, porque não há “alguém”.
Assim, aquilo que você sente é um equívoco, porque sente a partir dessa ilusão da separatividade. Quando você vê o Guru como sendo uma “pessoa”, você o julga, o ama e o odeia como a uma “pessoa”. No entanto, o Guru está em outra confissão, na qual não há dois, não existe o sentido de separação. Nessa confissão, ele não depende do discípulo, porque não há discípulo, não há dualidade, não existem os dois lados da moeda. O Amor, essa Consciência, Presença, Verdade, Liberdade, Felicidade, não conhece esses dois lados da moeda. Somente aquilo que a mente produz como sendo liberdade, consciência, verdade ou amor, que sempre está dentro de uma dualidade, carrega o oposto junto.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 24 de Agosto de 2016, num encontro aberto online.
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quarta-feira, 3 de maio de 2017

Este sentido de ser alguém ainda está aí?

Esses encontros carregam sempre um novo perfume. Nós estamos tratando de algo sempre novo. A Verdade é algo assim. Eu tenho percebido o quanto tem sido difícil, para alguns, a compreensão direta da importância de um trabalho como este, a importância direta deste trabalho.
Por que nós temos esse jogo aqui? Por que nós temos essa brincadeira aqui? Esse jogo chamado Mestre e discípulo? Essa brincadeira chamada Mestre e discípulo? Nós podemos levantar milhares de argumentos, questionar isso de diversas formas, ter milhares de aproximações para investigarmos esse tema, que é essa necessidade (ou não) de um jogo como esse, de uma brincadeira como essa, onde temos a figura do Guru e a figura do discípulo, a figura do Mestre e a figura do devoto.
É natural que alguns professores, alguns, assim chamados, “gurus”, digam claramente que não há você, que você não é real, que esse aparente indivíduo presente não é real. Os verdadeiros Gurus também fazem o mesmo. Podemos tirar daí a ideia de que você não pode fazer nada para essa Realização, uma vez que você não é real. Então, não existe nada que esse aparente indivíduo, essa aparente pessoa, possa fazer por essa Realização, em direção a essa Realização. No entanto, nós precisamos investigar isso, porque a verdade é que, enquanto houver alguma forma de identificação com essa ilusão de um “indivíduo” aparente, a ilusão dessa “pessoa”, não há qualquer escolha a não ser a busca.
Porém, é comum você ouvir, também, que a busca não é real, uma vez que aquele que está na procura disso não é real. Mas eu quero que você olhe comigo o que vamos colocar. Se existe esse sentido de separação, esse sentido de um “eu” localizado dentro [do corpo], ou como esse corpo, então essa crença – que não é só uma crença, mas também um sentimento – estará, com certeza, ocultando essa Realidade. Então, reparem que é uma fala bem paradoxal. Enquanto houver esse sentido de um “eu”, localizado aqui no corpo, ou como o próprio corpo, essa crença, esse sentimento, estará ocultando a Verdade.
A verdade é que não há “alguém”, não há a “pessoa”, mas essa crença/sentimento dá existência a essa entidade ilusória. Então, não adianta simplesmente teorizar sobre isso. Toda essa fala tão comum, de que o guru não é necessário, porque não há discípulo, não há mestre e não há pessoa, está perfeitamente certa, mas não funciona. Ela está certa do ponto de vista do Guru, ou do ponto de vista Daquele que está fora da ilusão de ser uma “entidade”, de ser “alguém”, de estar presente no mundo, dentro do corpo ou como o corpo. Mas, se isso não é real, é apenas uma crença e, como uma crença, não funciona. É só mais uma teoria sobre a Verdade, mas não é a Verdade.
É aqui que entra esse jogo, onde a figura do Mestre e a figura do discípulo aparecem para aquele que ainda se vê sendo uma entidade separada. Aquele que se vê como uma entidade separada não pode lidar com a Verdade; pode, sim, lidar com as crenças. Em suas crenças, ele pode aceitar a Verdade do Guru ou a ilusão do guru; mas, em suas crenças, ele não pode deixar de aceitar a ilusão de ser “alguém”. A crença não tem qualquer liberdade, mas a vivência direta da Verdade tem Liberdade. Repito: a crença não tem qualquer liberdade.
É uma tremenda ilusão – a pior e mais funesta de todas as ilusões – tecer teorias sobre a liberdade ou a verdade no campo da mente, onde só há crenças, teorias, ideias, conceitos. A Verdade está além disso! A Realidade de nossa experiência direta, que não é uma experiência pessoal, é a experiência sem o experimentador, sem a crença de um “eu” presente; a experiência livre da ideia “eu sou o corpo”. Essa experiência, o experienciar direto, é de uma ilimitada Consciência, suprema Inteligência, suprema Realidade. Mas isso não é uma crença, não é uma teoria. Portanto, a necessidade da brincadeira “Mestre e discípulo” sempre se fará necessária, enquanto a ilusão “eu sou o corpo”, ou “eu sou alguém”, estiver presente. É exatamente a crença “eu sou o corpo” ou “eu sou alguém” que está ocultando a sua Verdadeira Natureza, sua Real Natureza, Aquilo que é a Verdade sobre Você. Isso está ocultando, aparentemente, mas de uma forma “bem real”, a Paz, a Liberdade, a Felicidade, que é algo inerente, inato, que é a Natureza do Ser.
Então, todas essas discussões são puramente intelectuais, algo completamente estúpido e inútil. Enquanto o sentido de separação estiver presente, enquanto a ilusão de um “eu” separado, de uma entidade nessa experiência “corpo-mente-mundo”, estiver presente, a presença da figura do Guru se fará necessária. Eu sei que isso é uma forte pancada, um golpe violentíssimo, na presunção, no orgulho, e na vaidade do “eu”, porque ele é profundamente arrogante, bastante autodidata, mas não pode sair do campo da egoidade, da dualidade, por maior que sejam os seus esforços. Isso porque todo trabalho no ego é o trabalho do ego, para o ego e pelo ego. Todo trabalho na mente é o trabalho da mente para a mente, pela mente, com a mente e não sai da mente.
Não há quantidade de argumentos, de declarações e de afirmações que possam mudar isso, porque isso é assim. Somente Deus reconhece Deus! Somente Consciência se revela como Consciência! A mente não chega lá. Nenhuma prática, técnica de meditação, nenhum tipo de sadhana, nada disso pode manifestar essa Realidade, porque Ela está fora do tempo. A sadhana até tem certo lugar, mas isso é muito primário, inicial. Mesmo uma sadhana real, aquela diante da figura, da Presença do Guru, também não representa nada decisivo.
Portanto, se esse sentido de separação está aí, a ilusão está aí, com toda a sua intelectualidade, capacidade de argumentar, contra-argumentar, explicar, ensinar, concluir, deduzir. Estamos dizendo que essa aparente entidade presente na busca dessa Realização, dessa Felicidade, é ela mesma o impedimento. Assim, essa aparente entidade presente de braços cruzados, falando de uma “não entidade”, de uma “não pessoa”, da ilusão do discípulo e do guru, também está na mesma condição.
A coisa é muito simples, muito básica. O Guru é uma necessidade enquanto a ilusão estiver presente, carregada desse sentido de separação. O Guru é uma necessidade, porque esta Presença é uma necessidade! Deus é a única necessidade, porque Ele é a única Realidade, a única Verdade! Tudo mais são crenças, conceitos, ideias, conclusões, opiniões espiritualistas, conclusões filosóficas, conclusões advaitas, ou neo-advaitas, e assim por diante. Em Satsang, estamos tratando do fim do sentido de separação, dessa ilusão de “alguém” localizado dentro do corpo, aqui, como este corpo; estamos tratando do fim dessa crença/sentimento. Tratamos da ilimitada Consciência, Daquilo que é a base de todas as aparições, de toda e qualquer experiência. É o final, o “cair” desse véu, que é o véu da separatividade, da dualidade, do sofrimento, da busca, da ilusão do “eu”.
É algo completamente ingênuo, tremendamente estúpido, essa aparente e ilusória entidade presente, essa “pessoa”, falar de uma “não pessoa” e que não há nada para ser feito. Tremenda, funesta e grande ilusão! Tendo compreendido isso, fica muito claro que essa aparente entidade ainda está em busca da felicidade e, ao mesmo tempo, dizendo que não há nada para ser feito. Como uma aparente entidade, ainda nessa ilusão de ser “alguém”, de ser uma “pessoa”, nega a necessidade de fazer alguma coisa, se ela ainda está em busca da felicidade, da paz, da liberdade e da verdade? É só uma crença. Essa aparente entidade, também, é só uma crença, e crê que não há nada que se possa fazer, mas, mesmo assim, continua na dualidade, na egoidade, no sentido de separação, na infelicidade, na busca da felicidade. Então, nunca mais discutam sobre isso, pois é muito estúpido, coisa de um ego muito grande. Deixem a mente em paz. Parem de perturbar a mente. Portanto, guardem muito bem isso, e nunca mais terão problemas com isso.
Vou terminar apenas repetindo isso: se existe esse sentido de separação, esse senso do “eu” localizado aqui, dentro do corpo, como esse corpo, então essa crença, esse sentimento, está ocultando a Realidade, a Verdade de Ser, a Verdade de Sat-Chit-Ananda, a Verdade da ilimitada Consciência. Se Isto está presente, dizer que não há nada para se fazer e, ao mesmo tempo, continuar buscando a Felicidade, a Paz, o Amor e a Liberdade, carregando esse sentido de desejo e medo, é bastante sem sentido, estúpido e ingênuo.
Ok, pessoal. Vamos ficar por aqui. Até o próximo encontro. Namastê.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 18 de Novembro de 2016, num encontro aberto online.
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