quarta-feira, 29 de março de 2017

O simples reconhecimento desse "Eu Sou"

Há algo que não permanece presente. Repare que à sua volta tudo muda e dentro de você, também, tudo muda. Da manhã até esse momento, alguns pensamentos passaram por aí, mas eles foram embora e deram lugar a outros pensamentos. Da mesma forma, algumas sensações foram experimentadas no corpo e deram lugar a outras sensações; elas aconteceram e foram embora. É possível que você tenha tido algumas emoções, também, durante o dia, mas elas foram embora, não estão mais aí. Assim, até a hora de dormir você ainda passará por algumas experiências. Percebam o quanto isso é simples e, também, o quanto é simples isso ser observado.
A questão é: o que é isso que está ciente disso que está mudando? É aqui que está o quanto isso é simples. Você, nesse momento, está ciente de si mesmo. O que é esse "Eu Sou"? Você está ciente desse “Eu sou” – esse que passou por tudo isso durante o dia, que está passando, agora, por esta experiência de ouvir essa fala. O que é esse "Eu Sou"? (Esse “Eu Sou” que teve pensamentos, sensações, emoções, diversas experiências que já não estão mais aí, foram embora, e estão dando lugar a outras experiências).
Você está ciente desse “Eu Sou”, mas o que é isso que está ciente? Obviamente é a Consciência. É óbvio que é esse Eu – a Consciência de que estou consciente desse “Eu Sou”. Então, isso é algo muito básico, muito simples. Há algo que está sempre consciente em meio a essas aparições, acontecimentos, variações, pensamentos, sentimentos, sensações, emoções, percepções sensoriais, nesse simples reconhecimento: "Eu Sou". Isso é essa Presença dessa Consciência. Em outras palavras, o simples reconhecimento desse “Eu Sou” é essa Consciência. Então, é Dela que estamos tratando... algo muito simples. A Consciência está consciente; é disso que estamos tratando em Satsang.
Claro isso?
Por isso que é algo muito simples. Enquanto você se perde, confundindo-se com a experiência, seja pensamento, sentimento, emoção ou sensação, há algo presente que está consciente disso. É desse “algo” que nós estamos tratando. Esse “algo” é a Consciência, que está consciente do pensamento, da sensação e do sentimento mudando. É muito claro isso! Repare que estamos sinalizando o Estado Natural, que é Meditação.
Isso é o que Eu Sou, verdadeiramente – este Eu ciente desse "mim mesmo", sinônimo de Consciência, de Presença... Consciente desse "mim", do movimento, do pensamento, da emoção, do sentimento, da sensação... Consciente dessa aparição, que é essa pessoa. A "pessoa" vem e vai; aparece no estado de vigília e no sonho, e desaparece no sono profundo. Mesmo no estado de vigília, ela está mudando o tempo todo! Contudo, essa Consciência está consciente, Nela mesma, do seu Ser, de sua Natureza Verdadeira. Por isso é algo simples, se você não se confunde com a "pessoa". Mas, se você se confunde com a "pessoa", ela predomina e Você desaparece. Esse Você real, que é esse Eu Real, não é esse "eu pessoal", como uma entidade separada. Eu falo desse Eu, mas é um Eu que não conhece o “tu”, o “ele”.
Estamos falando de algo que todos vocês experimentam o tempo todo – o simples conhecimento do seu próprio Ser. É a experiência da Consciência, estando consciente Dela mesma. Isso é algo simples, óbvio, sempre presente; é um fato sempre presente. Não há limitação nessa Consciência. O pensamento, o sentimento, a emoção, a sensação, enfim, toda experiência é limitada, mas não há limitação nessa Consciência. Portanto é disso que estamos tratando em Satsang. Esse é o nosso tema, nosso assunto. Essa Consciência, essa Presença, não está limitada à mente, ao corpo ou a uma experiência, de prazer ou de dor... Ela está além do corpo! A sensação, o prazer sensorial de comer algo, ou qualquer sensação no corpo, não limita essa Consciência. Prazer ou dor não limita essa Consciência.
Você, definitivamente, não é a mente, nem o corpo. O corpo e a mente aparecem em Você. Não é Você que aparece no corpo e na mente. A crença é que existem muitos encarnados, mas isso é uma imaginação. Não existe ninguém encarnado, ninguém no corpo. Eu sei que é muito estranho, mas é assim. Você é essa Consciência, consciente desse "Eu sou". "Eu estou", "eu sinto", "eu caminho", "eu penso", "eu escolho", "eu decido", tudo isso são apenas crenças, das quais, como Consciência, você está consciente. Tudo isso é apenas uma imaginação. "Eu como", "eu durmo", "eu caminho", "eu falo", "eu escuto", "eu penso", "eu faço", "eu desfruto", "eu sofro", "eu amo", "eu odeio", e assim por diante, tratam-se de imaginação! É a ilusão do sentido de "alguém" nessa “coisa”.
Tendo descoberto isso, o que você vai fazer? Comece a viver em conformidade com essa descoberta. Pare de se confundir com esse "alguém". Exatamente isso: comece a viver em conformidade com isso e desconecte-se dessa ilusão, que é a ilusão da "pessoa". Estou propondo isso para você neste encontro.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 25 de Janeiro de 2017, num encontro aberto online.
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segunda-feira, 27 de março de 2017

Você não é quem parece ser

Para quem esses pensamentos acontecem? Para quem esses pensamentos surgem? Para quem eles vêm? Quando os pensamentos aparecem a você, minha dica, em Satsang, é que você pergunte a si mesmo exatamente isso: “Para quem esses pensamentos acontecem?”
O propósito desses encontros é seguir e encontrar essa fonte, a origem, a base dos pensamentos. Encontre a fonte dos seus pensamentos! Você a encontrará neste “eu”. A fonte desses pensamentos é este “eu”. Então, você pergunta: “O que é este ‘eu’?”, “Quem sou eu?” ou “Qual é a fonte do ‘eu’?”. O propósito de Satsang é essa investigação. Nessa investigação, você chega a este “eu”, que é a base desses pensamentos. Mas, onde esse “eu” aparece? Esse pronome “eu” é a primeira palavra, é o primeiro pensamento. Depois deste pronome “eu”, surgem os outros pensamentos: “eu e minha casa”, “eu e minha família”, “eu e meu corpo”, “eu e a minha história”, “eu e o meu nome”, “eu e o meu mundo”… Qualquer outro pensamento, sentimento ou emoção está sempre atrelado, ligado a este “eu”. Tudo está ligado a este “eu”: “eu me sinto alegre”, “eu me sinto triste”, “eu me sinto doente”, “eu me sinto preocupado”, “eu me sinto pobre”, “eu me sinto rico”... Tudo está atado, preso, a essa ideia de “alguém” aí, a esse “eu”. A primeira ideia é este pronome “eu”.
Então, você pode trabalhar isso. Se você busca esse “eu”, você descobre que não existe nenhum “eu”. Tudo está preso, atrelado, atado, a esse “eu”, mas nesse Eu você não encontra nenhum “eu”, isso é só mais um pensamento também. Assim, acontece essa coisa espantosa: o descobrimento de que não existe nenhum “eu”. Você descobrirá que isso é apenas um pensamento e que todos os outros pensamentos estão ligados a esta “ideia-sensação”, “ideia-sentimento”, a essa suposta entidade presente. Não existe uma entidade presente aí. Nunca houve um “eu”!
Você constatará, claramente, que não existe e que nunca existiu esse “eu”. A ilusão está em cima do sentido de separação, assentada nessa ideia principal de que o experimentador está aí, o “eu” está aí, a “pessoa” está aí. Mas não tem “pessoa”, só tem o fenômeno, que é a vida como ela é, com tudo que aparece nela. Isso significa que não teve alguém que nasceu, não tem alguém para morrer, não tem alguém vivendo. Você nunca nasceu! Se nunca nasceu, não poderá morrer. Você nunca morrerá!
É claro que essa fala é bastante estranha, a princípio. Não existem “outros”. Se é assim, que experiência é esta? É só a vida; é só o que acontece. É sempre do ponto de referência de um “eu” que existem os “outros”. Tudo é esse Ser, é essa Consciência, é essa Presença, é essa Vida, sem nenhuma separação. Os seus problemas todos são pessoais. Só pode haver problemas para a “pessoa”. Sem a “pessoa”, as coisas são como são. Sem a referência da “pessoa”, não pode haver problemas, não pode haver dificuldades. É só a vida como ela se expressa, de uma forma positiva ou negativa, boa ou má, e isto está sempre dentro da interpretação pessoal. Existe somente o Ser. Tudo isso é esse Ser.
O corpo aparece sentindo, falando, agindo, nascendo e morrendo, mas o corpo é só uma aparição existencial, não tem alguém especial nisso. Você, em sua Natureza Real, não está no corpo; o corpo está em você, a mente está em você, as experiências sensoriais estão em você. Tudo isso aparece Naquilo que Você É, mas pode aparecer ou não. Como Consciência, você não está preso a essas sensações, sentimentos, emoções, experiências… a esta experiência “corpo-mente-mundo”.
Você é essa Pura Consciência, essa Pura Inteligência, essa Verdade não tocada pelo experimentador, pela experiência, pelo observador e pela coisa observada. Você não é o que parece ser. Você não é quem parece ser!
Por muito tempo, você tem se identificado com o corpo, com as experiências do corpo, nessa ideia de que tem alguém dentro dessa experiência. Então, a princípio, quando você se depara com essa fala, que começa a questionar e a virar toda essa coisa de ponta-cabeça, isso soa estranho. Você precisa agora aprender a ver as experiências a partir desse novo olhar, desse novo modo, aproximando-se de cada evento, de cada incidente, de cada acontecimento, de cada coisa em sua vida, questionando o experimentador dentro disso; esse “eu”, que é só um pensamento nessa experiência. Quando você começa a fazer isso, você tem a possibilidade de ir além desse condicionamento, dessa programação, desse modo repetitivo de pensar, sentir e agir. Então, você pode ir além dessa identificação egoica. É quando você pode descobrir sua Natureza Verdadeira, Aquilo que está fora disso tudo, que não é tocado por nada disso, e que, ao mesmo tempo, é onde isso tudo aparece, acontece, ou parece acontecer.
O seu corpo continuará fazendo coisas, experimentando sensações, emoções, ou seja, você parecerá ser uma pessoa também, mas você perceberá, você saberá, estará desidentificado disso, estará além dessa forma comum, grosseira, de lidar com o mundo e o com que acontece nele.
Nesses encontros, eu tenho procurado trazer este desafio. É importante que você comece a assumir essa Verdade. Você não pode simplesmente se justificar dizendo: “Eu não estou acordado”. Já está acordado sim! Já pode, perfeitamente, se desidentificar dessa ideia do experimentador; já deve começar a treinar isso. Essa é a sua sadhana, esse é o seu trabalho. Se você continuar pelos mesmos velhos caminhos, nas mesmas velhas identificações, crenças, sensações e sentimentos, o velho condicionamento se manterá.
É preciso permitir a si esse real “sentimento”: o “sentimento” da Liberdade, o “sentimento” da Consciência, e não perdê-lo; não sucumbir de novo ao movimento da mente. Está claro isso? Isso eu poderia chamar de Meditação – tomar consciência de si mesmo, momento a momento. Então, você não perderá essa Consciência; não se deixará perder nessa inconsciência! No entanto, se você se perde, você volta de novo, e de novo, e de novo, e de novo… Mas não tem problema, você está trabalhando isso.
*Transcrito de uma fala ocorrida em 14 de Dezembro de 2016, num encontro aberto online.
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sexta-feira, 24 de março de 2017

Meditação: A pura observação

Qual é a natureza da Realidade? Afinal, o que é Isso que permanece estável? Afinal, o que é Isso que permanece livre? Como podemos nos aproximar Disso?
A sugestão, na mente, é que duas coisas estão presentes: a primeira é a consciência e a segunda são as aparições, são os objetos. Então, na mente há essa divisão, há essa separação entre consciência e as aparições. Você se vê como uma pessoa que está consciente do mundo das formas.
Então, a ideia é a de um “eu” presente vendo o mundo do lado de fora. Há uma consciência – essa é a crença – e, do lado de fora, um mundo do qual essa consciência está consciente.
Dessa forma, nós temos a consciência e as aparições, o “eu” e os objetos. O “eu” como sujeito e os objetos como aparições. O sentido desse alguém presente é a ilusão de alguém que está consciente do mundo; alguém dentro do corpo consciente do mundo fora do corpo.
Deparamo-nos com essa ilusão da dualidade, a ilusão deste “eu” e deste “não-eu” – eu e o mundo, eu e Deus. Essa é a sugestão da mente para tudo isso. Essa consciência é descrita como uma testemunha das aparições. Ela é compreendida como aquele que vê os objetos. Assim, temos aquele que vê e temos os objetos; a testemunha e a coisa testemunhada. Aí está a dualidade!
Nessa base está o conflito, está toda essa problemática do “eu”, porque você se separa como uma entidade – aquele que pensa e os pensamentos; aquele que sente e os sentimentos; aquele que observa e aquilo que é observado. Quando você faz isso, fortalece o sentido de separação. Quando você acredita nisso, você está preso a mais uma crença criada pelo pensamento.
O pensamento é a base dessa divisão, dessa crença, dessa dualidade, desse sentido de separação, dessa ideia. Quero convidar você a observar sem o observador, o que significa uma observação onde não existe observador e coisa observada. Fica a experiência direta, mas não fica “alguém”. Na experiência da pura observação não há separação.
Quero convidá-lo a não se confundir com o pensamento e a não se separar dele. Quando você se separa do pensamento, é o próprio pensamento se separando dele mesmo. Quando você se confunde com o pensamento é o próprio pensamento se confundindo com ele mesmo. Chamaria isso de se desidentificar do observador, se desidentificar do pensador. O pensamento não acontece para você, nem em você; ele só acontece. A observação não acontece em você ou para você. Isso é a Real Meditação! A ação executada sem alguém fazendo; o “ver” sem alguém olhando; o pensamento sem alguém pensando. Então, o pensamento termina; a observação, com o sentido de alguém observando, termina; a ação, nesse sentido de alguém fazendo, também termina. Isso é Meditação!
Para vocês, tem sempre que haver alguém: alguém meditando, alguém pensando, alguém fazendo… Agora mesmo, nesse instante, só há o Silêncio, essa ausência do pensador, do fazedor, do observador, daquele que escuta… Não há alguém escutando e não há alguém falando. A fala acontece, o ouvir acontece, o pensamento acontece, a ação acontece, e isso é Meditação.
Você pode acompanhar isso, mas não pensar sobre isso. Se pensar sobre isso, você volta ao jogo de novo – o jogo de alguém analisando, de alguém procurando compreender, de alguém concordando ou discordando. Simples assim! É só ouvir e, nesse ouvir, há a clareza da Meditação. Essa clareza da Meditação é a compreensão sem alguém compreendendo, sem alguém acumulando, sem alguém concordando com isso ou discordando disso. Se você está ouvindo dessa forma, você está em Meditação. Se está tentando “pegar” isso para levar para o momento seguinte, esse é o próprio movimento da mente egoica. A mente quer capturar isso, mas não dá.
Acompanhar isso é possível, mas alguém acompanhando isso, não! A compreensão disso é possível, mas alguém compreendendo isso, não! É um hábito. A mente egoica tem esse hábito de adquirir, de acumular. Não há espaço nessa Consciência Real para isso. Isso é um espaço forjado pela mente egoica. A mente egoica forja um espaço, o espaço do conhecimento, o espaço da experiência, o espaço da memória, o espaço da informação, o espaço do experimentador.
Essa Consciência é essa amplitude, além de todo espaço, além de toda limitação. Espaço é limitação. Esse não-espaço, essa não-limitação é a Meditação. Essa é a Consciência! Isso é pura observação, sem observador e coisa observada. Isso é pura experiência, sem experimentador e coisa experimentada. Isso é essa realidade que não se separa de uma aparição. Então, essas aparições não estão separadas dessa Realidade. Como não estão separadas, não causam nenhum problema. O pensamento não causa problema, o sentimento não causa problema, a emoção não causa problema, o corpo não causa problema. Quando não há separação, não há sofrimento, então não há problema.
A mente criou essa ilusão de que o corpo é o problema, o pensamento é o problema, o mundo é o problema, a vida é o problema. Mas, na verdade, o problema é só essa ilusão que a própria mente criou, esse sentido de separação entre ela e o pensamento, entre ela e o corpo, entre ela e a vida. Ela quer que a vida seja diferente, que o pensamento seja diferente, que o corpo seja diferente, que tudo seja diferente! Ela se separa para exigir e, quando faz isso, produz sofrimento.
Vocês não precisam se livrar do corpo, da mente, do mundo, da vida, só precisam se livrar da ilusão de que tem “alguém” aí, que está vendo tudo errado, tudo fora do lugar; “alguém” com suas exigências, observando como o observador e julgando: “gosto e não gosto”; “alguém” nessa ilusão de ser um pensador, tentando controlar os pensamentos: “esse eu aprecio, esse não aprecio”; “desse eu gosto e desse eu não gosto”; “eu estou certo disso, não tenho muita certeza daquilo…” Essa é a ilusão! Tem a ilusão do fazedor também – esse “alguém” que está fazendo as coisas, esse “alguém” que faz, que se sente responsável pelas coisas acontecendo à sua volta, como se ele pudesse controlar o que acontece à sua volta. É sempre essa ideia de um “alguém”, que pensa, que faz, que sente.
Você aprende a se desidentificar dessa ilusão, desse “alguém”. É só isso! Assim, você percebe o pensamento, o sentimento, a ação, o mundo e o corpo indo para o seu devido lugar, e esse “você” desaparece. Você ainda está tentando pensar sobre isso? Isso é tão simples que você não precisa pensar sobre isso. Se pensar sobre isso, vai complicar, porque é uma fala fora da mente para a não-mente.
Esse momento de encontro, chamado Satsang, é um momento de Meditação. Na Meditação não tem “alguém”, não tem pensador. Ser é algo muito natural. A crença do pensador é algo aprendido. Nós aprendemos, adquirimos, essa crença de que somos pensadores e que os pensamentos somos nós quem fabricamos. Esse pensador não é Real! Não há nenhum pensador! Pensamento, sim; pensador, não!
Todos os problemas que você tem estão assentados nesse equívoco, nessa compreensão de que você está aí para mudar alguma coisa, para fazer alguma coisa, para consertar alguma coisa. Isso não é verdade! Você está aqui apenas para constatar que não tem ninguém aí, só a Vida! E na Vida não existe pensador, não existe observador, não existe juiz, não existe alguém para consertar ou ajustar. A Vida permanece como um mistério, um acontecimento inexplicável. Isso é Amor, isso é Liberdade, isso é Felicidade!
*Transcrito de uma fala ocorrida em 16 de Janeiro de 2017, num encontro aberto online.
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quarta-feira, 22 de março de 2017

O fim dessa ilusão de que você está aqui e agora

Todo e qualquer momento pode ser percebido por cada um de nós como um momento natural, simples, direto, ou um momento em que interpretamos de forma pessoal o que quer que esteja surgindo. De uma forma convencional, esse “eu” já subentende, dentro de cada um de nós, a ideia da mente e do corpo. Essa experiência “eu”, que subentende “mente-corpo”, de uma forma convencional, está sempre consciente de algo acontecendo, de algo aparecendo. Então, de uma forma convencional, nós temos uma crença, basicamente: a crença “eu e o objeto”; “eu e aquilo que está acontecendo do lado de fora (da mente e do corpo)”. Então, nós temos o sujeito e o objeto, o “eu” e aquilo que aparece ou acontece.
De uma forma bastante convencional, nossa crença nos diz que há um “eu” que está consciente do que acontece. É assim que, basicamente, pensamos ou acreditamos ter o contato com a experiência. Para nós, o contato com a experiência é de um sujeito com um objeto; um sujeito dentro com um objeto fora; um que experimenta, que “sou eu”, e aquilo que está fora, que é experimentado, que é a outra coisa, pessoa, situação ou objeto. Basicamente, é assim.
Nessa divisão que, convencionalmente, nós aceitamos como sendo real, está todo o problema humano. Todo o seu sofrimento está na ideia de que você está aí e que a experiência não está sendo favorável a você. Quando ela lhe é favorável, você se sente bem. Quando não é, você se sente mal. Mas mesmo quando você se sente bem, não é o suficiente, porque há uma divisão entre você e a experiência do lado de fora. Seja uma experiência pessoal – que é algo mais íntimo, particular, como o contato com parentes e amigos – ou não tão pessoal, como o contato com um evento, um incidente, um acontecimento do lado de fora.
De qualquer forma, isso é sempre pessoal, porque o seu modo de transitar dentro da experiência é sempre dessa forma convencional: “eu” consciente do que acontece; “eu” experimentando algo; “eu” aqui e essa outra coisa do lado de fora. Nessa divisão está o ego! É bem simples isso. Nessa divisão está o sentido de separação.
O que eu estou dizendo é que você pensa sobre o que acontece e, quando assim faz, você se separa da experiência como sujeito, sendo o sujeito, e o acontecimento, o evento, o incidente ou a relação com o outro, com a outra, é o objeto. Então, você se separa e, quando você se separa, a mente egoica, a mente separatista aparece.
Toda sua história só pode ser contada com base nessa crença, nessa fundamental crença de que você está aí e tem alguma outra coisa do lado de fora. Não há como você reconhecer sua Natureza Real se identificando, se perdendo, se confundindo com esse modo convencional de sentir, pensar e experimentar, o que significa sempre criar, sustentar e alimentar o conflito. Então, a “pessoa” está presente, que é esse “eu”, essa ideia “eu-mente-corpo”.
Não há uma observação sem o observador; não há uma linha de pensamentos sem o pensador; não há uma experiência acontecendo, neste instante, sem o experimentador, e, enquanto houver essa separação, essa divisão, haverá problema. Você sempre estará em apuros! Você é o apuros, você é o problema. Você nunca relaxa em seu Ser, O qual não é consciente da experiência, não é consciente do outro, não é consciente do objeto. Seu Ser é a Consciência, a pura Consciência, só Consciência… Não tem o outro, não tem a experiência, não tem o objeto. Portanto, não tem “eu” consciente do que se passa do lado de fora; não tem esse “mim” sentindo, pensando, experimentado… Esse “mim” é o conflito!
Tudo que estou falando com você, nesse momento, é a chave da Meditação! Meditação não é pernas cruzadas, coluna ereta, respirar de certa forma, criar uma visualização, tentar afastar os pensamentos, tentar seguir uma linha de pensamento ou uma forma de respiração, cantar mantra, ou qualquer uma dessas coisas. Meditação é apenas ficar com o que acontece. Não é estar consciente do que acontece, é ficar com o que acontece. Você não fica consciente do que acontece. O que acontece já é a Consciência.
O pensamento, no seu próprio movimento, ainda é a expressão dessa Consciência; o sentimento ainda é expressão dessa Consciência; o que acontece é a expressão dessa Consciência. O que é visto, sentido, pensado, não é visto, sentido, pensado dessa forma convencional, onde há alguém vendo, sentindo ou pensando. Tem o pensamento, tem o sentimento e tem a visão, mas não tem aquele que vê, aquele que pensa, aquele que sente. Portanto, não há separação e, quando não há separação, você tem a beleza da Meditação. Falar é Meditação; comer é Meditação; trabalhar é Meditação; o pensamento acontecendo sem a ideia de alguém presente na experiência do pensar também é Meditação; o espaço que acontece entre os pensamentos também é Meditação; ouvir é Meditação; falar é Meditação; a vida é Meditação!
Meditação é quando não existe mais a ilusão de um “eu-mente-corpo” consciente do que está acontecendo fora, tendo este “fora” como algo separado da experiência. Na verdade, essa experiência “eu-mente-corpo” também é apenas um acontecimento na Meditação. Tudo está contido dentro da Meditação. Não tem nada como um “eu” especial meditando, um “eu” especial pensando, um “eu” especial concluindo, um “eu” especial consciente do outro, do mundo, da vida. Esse “consciente” é só um modo pessoal de interpretar o que aparece, o que acontece. Isso é a divisão. É o sentido do “eu” preocupado com ele mesmo, preocupado com suas conclusões, com suas crenças, com suas ideias, com o seu desejo de acertar ou o seu medo de errar.
Perceba para onde estamos apontado em Satsang... Estamos apontando para a arte de Ser, que é Meditação, que é não se confundir com esse modo convencional de se mover na existência, como uma entidade separada, como alguém na sua autoimportância, consciente do que acontece. Esse “consciente para alguém” é só um modo condicionado de se mover na mente egoica. Quando há Consciência, não existe o sentido do “eu” na experiência de estar consciente. Quando há Consciência, não existe um “eu” consciente disso ou daquilo. Quando há Consciência, só há Consciência e não há conflito, porque não há divisão. Não há o certo e o errado, o bom e o mau, o agradável e o desagradável, o que deve ser e o que não deve ser, o “eu gosto” e o “eu não gosto”, o “estou triste” e “estou alegre”. Isso está sempre na ideia de alguém presente falsificando a pura experiência.
Na pura experiência, não existe experimentador. No puro ver, não há o observador e a coisa observada. No puro sentir, não há alguém sentindo, não há história. Quando surge a história, surge a mente dando os valores dela ao episódio, ao evento, ao incidente, ao acontecimento, a isso que é só um jogo divino, o jogo das relações com pessoas, lugares, objetos, pensamentos, sentimentos… É só um jogo! Aquele que valoriza isso é o sentido egoico! É o sentido egoico que valoriza um sentimento, que se agarra a um sentimento com muita força e tenta afastar o outro; agarra-se a uma linha de pensamento e tenta afastar uma outra linha; agarra-se a algumas pessoas e tenta afastar outras; agarra-se a uma experiência e tenta afastar outras. Fica nesse jogo, que é um jogo do ego, um jogo de escolhas.
Participante: A mente é complicada!
Mestre Gualberto: Sim, a mente é complicada! A mente é a complicação! Tudo para ela tem que ser assim! Esse “ela” é você na ilusão de que é ela. Você está muito apegado a isso, à ideia desse “eu-mente-corpo” consciente do que está acontecendo, tentando se proteger, se defender, se ajustar, não sofrer, ver todos os desejos cumpridos no tempo e na hora desse “mim”, desse “eu”. Não existe nenhuma liberdade nisso! É uma prisão centrada na ilusão de um “eu” experimentador, na ilusão de que tem alguém aí. Puro condicionamento!
É muito simples, muito natural, trabalhar isso: o fim dessa ilusão de que você está aqui e agora. É preciso se desapegar da autossuficiência, desse autofavorecimento, dessa autoproteção, desse condicionamento. Isso é Meditação! A Meditação é a arte dessa Consciência assumida. Assumir Consciência é Samadhi, é Meditação, é não dualismo. Não dualismo significa o fim da ilusão entre eu e a outra coisa, dessa parede criada pela ilusão dessa suposta entidade no contato com o outro lado, com a outra coisa, com o outro objeto. O fim dessa parede entre sujeito e objeto é o fim da ilusão do sujeito, como uma entidade se separando, e, naturalmente, do objeto. Isso é o fim do dualismo. Então, isso é o fim do ego.
Nada dessa coisa de estudar, analisar, aprender e ir a fundo na história. História é tempo, conhecimento, e está baseada na ideia “eu-mente-corpo” consciente do que acontece do lado de fora, tendo algo para dizer, declarar, escrever, palestrar sobre isso; para se arrepender, para sentir remorso, para sentir orgulho, satisfação, prazer... Tudo isso é muito primário e bastante inútil. O seu ego está tendo vida na história que você está contando para si mesmo o tempo todo; na ilusão “eu-mente-corpo” consciente do que aconteceu ou do que está acontecendo, e pronto pra reconhecer o que há de acontecer.
O futuro é importante porque o passado também foi, então, esse presente também é bastante interessante para se contar uma história, para se investigar o que é possível descrever sobre o que está acontecendo. A autoinvestigação não é descrever o que está acontecendo! Autoinvestigação é tomar Consciência de que só há Consciência, e isso é o fim da ilusão do “eu” consciente do que acontece, porque o presente é tão irreal quanto o passado e o futuro quando não há essa ilusão de alguém que tem algo para contar sobre ele. Dessa forma, não há presente, como não houve passado, como não haverá futuro. Isso é Meditação, isso é Consciência, isso é Presença, isso é Ser, isso é Samadhi.
Participante: Mestre, o corpo está em você e não o contrário. Então, através de que olhos o Senhor vê esse aparente mundo?
Mestre Gualberto: Só há um olhar nessa experiência, e, para esse olhar, o fora e o dentro são a mesma coisa! Esse olhar não está vendo o mundo como um objeto externo, com ele sendo o sujeito interno, como também não está vendo o que há internamente, tendo algo externo a ele. O olhar que vê o mundo é o olhar onde o mundo aparece e desaparece. Quando o mundo aparece, esse olhar vê o mundo em si mesmo; quando o mundo desaparece, esse olhar mantém esse desaparecimento, ou esse sumiço, nele mesmo.
Com que olhos essa Consciência vê o mundo?
O mundo é a Consciência desse olhar e esse olhar é a Consciência desse mundo. Em outras palavras, quando há uma aparição, esse olhar é ela, e, quando não há essa aparição, esse olhar se mantém como essa não aparição. Não há dentro e fora, assim como não há coisa observada e aquilo que observa.
Participante: Através de que olhos o Senhor vê esse aparente mundo?
Mestre Gualberto: Através dos seus olhos, porque só tem os seus olhos, e é neles que esse mundo aparece e desaparece. Esses olhos são os meus olhos, são os olhos de tudo e de todos, porque só há esse olhar! Quando você fecha os olhos, para onde o mundo foi? Quando você abre os olhos, de onde ele está vindo? Aqui, a recomendação é: permaneça em seu Estado Natural, e tudo assume o lugar natural que deve assumir. Simples, porque não há dualismo, não há separação.
A “coisa” já aconteceu! Ela não deixa de acontecer. Não é o seu entender ou não entender que torna isso possível ou impossível. A “coisa” já aconteceu, ou melhor, a “coisa” está acontecendo. Não será no dia em que você entender; será no dia em que a ilusão de alguém que pode entender, ou a ilusão de alguém que não pode entender, desaparecer aí. Ficará claro que isso já aconteceu, ou que está acontecendo, e que não tem você nessa “coisa”. A visão direta de todos aqueles que, ao longo de séculos, ao longo de toda história humana, relatam esse Despertar, ou essa Realização, é a mesma: Isso está aqui! Sempre esteve aqui! Isso já é assim! Isso já é assim!
*Transcrito de uma fala ocorrida em 26 de dezembro de 2016, num encontro aberto online.
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segunda-feira, 20 de março de 2017

Mestre, o que é a realidade?

Nós estamos sempre diante de uma brincadeira divina bastante interessante. Ela é algo que está acontecendo, mas, ao mesmo tempo, não está. Cada pequena aparição, pequena coisa, está viva e em busca de uma autoexpressão. Todas as coisas estão! Nós aprendemos na ciência que há coisas vivas e não vivas. Este é o modo como a ciência representa o mundo das formas: objetos animados e inanimados.
Do ponto de vista da Verdade, da Realidade, da visão do Sábio, a coisa é muito mais simples: tudo está vivo e se autoexpressando. Não há tal coisa como a morte. Não existe morte! Tudo está vivo e se expressando, desde o menor inseto até o maior de todos os astros. Nós temos a Terra, o Sol, a Lua, as estrelas, as plantas, as flores, os animais, assim como os metais, as rochas... Tudo aquilo que é visível, que está aparecendo, está vivo. Tudo está vivo! Tudo é a expressão dessa Vida! A Vida se expressa em tudo! Esta é a visão do Sábio: tudo está vivo e não há coisas animadas nem inanimadas!
A palavra "anima" vem de alma, de vida. Então, há coisas animadas e coisas inanimadas. Do ponto de vista da Realidade, tudo é vida, tudo está vivo. É aqui que entra a coisa curiosa nessa brincadeira divina. Apesar de tudo estar vivo e presenciarmos uma multiplicidade indescritível de formas e de aparições, curiosamente, quando falamos do Despertar, dessa Realização, estamos falando que todas essas aparições não são reais. Elas estão aparecendo como tudo aparece enquanto você sonha. Quando você acorda, tudo desaparece. Estou dizendo que todas essas aparições desse, assim chamado, universo, mundo, são mentais. Quando você volta a sonhar, tudo volta a aparecer, e, quando você para de sonhar, o "sonhador" desaparece, também. Quando não há sonho, não há o "sonhador", não há o mundo e não há a mente.
A parte curiosa dessa brincadeira divina é que tudo é muito real enquanto aparece. Uma vez que desaparece, não está mais ali. A mente está trazendo à baila a sua existência, a sua manifestação. Toda a sua manifestação é mental, mas essa manifestação ainda é uma aparição nesta Presença, nesta Realidade, nesta Verdade que somos. A mente está projetando a “realidade” dela, mas é, ainda, a "realidade” de uma aparição, que só pode aparecer nesta Presença, que Você É, porque Você É essa Realidade, essa Consciência. Então, é aqui que tudo fica bastante curioso.
Você está nessa multiplicidade de formas, tendo-a como verdade, e o que está fazendo isso é a mente. A única coisa que faz isso é a mente em sua projeção. No momento em que você se reconhece como Consciência, Presença, todo esse mundo é apenas uma aparição sem importância, assim como o sonho não tem importância para quem acorda. Isso é o Despertar. Para aquele que acorda, o sonho não tem mais nenhuma importância, é só um sonho, mas, enquanto não acorda, o sonho para ele é bastante real. Todo o seu sofrimento, os seus conflitos, aflições, além dos problemas pessoais, individuais e particulares, seja de saúde ou qualquer outro, são problemas do sonho, do "sonhador". O problema no sonho é um problema do "sonhador", que é a mente aceitando seu projeto como uma única realidade. Então, você se separa como se fosse uma entidade presente gerenciando toda essa coisa e, quando faz isso, o sofrimento e os problemas aparecem. Isso é bastante curioso, porque não é real.
Real é apenas Aquilo no qual isso está surgindo, tomando forma, onde essa coisa chamada mente está se levantando e fazendo aparecer todo o seu projeto. Enquanto você estiver se confundindo com essas aparições, irá se ver, se comportar, sentir e sofrer como uma "pessoa". Quando for traído, se sentirá enganado; quando for elogiado, se sentirá reconhecido pelos seus méritos e feitos; quando for criticado, se sentirá triste ou com raiva ou bastante ofendido. Tudo isso está acontecendo apenas na sua mente; não tem nenhuma realidade fora da sua cabeça. Portanto, quando você vem e se depara com esse momento de investigação da realidade, está se deparando com a possibilidade de abandonar esse "sonho", essa ideia de que você está aí presente nessas múltiplas experiências de um suposto "eu", de uma suposta identidade presente, que tem um nome, uma forma e uma história.
Assim, voltamos ao básico: você é uma fraude, não é real. Não é possível nem ficar ofendido, porque ninguém está aí para se ofender com isso. Quando você se confunde com a mente, o sentimento de ofensa aparece e, consequentemente, o ofendido aparece, porque estamos desmerecendo sua “real presença” no universo. Você, no sentido de um "eu", considera-se muito importante e nada disso é real. Aqui está o ponto curioso e engraçado nessa coisa chamada Despertar. É muito real, mas não é Real. Na Índia, eles chamam de leela essa brincadeira divina, que, quando é particularizada para o "sentido de alguém", não se chama mais de leela, mas de maya, a ilusão. Quando aparece no cenário a ideia de "alguém" na leela, isso é maya, a ilusão – a ilusão da multiplicidade, da separatividade, de um "eu", de uma "pessoa"; essa "pessoa" e seus conflitos, medos, acertos ou erros, virtudes ou vícios.
Claro isso? Difícil demais? Dá para acompanhar isso?
Portanto, você como "mãe", "avó", "pai", "filho", "marido", etc., é uma crença, porque há somente uma única Presença, Consciência, Realidade – você em sua Natureza Real. Isto é o seu Estado Natural, quando você não se confunde com esse "sonho" de avó, filha, filho, marido, esposa, homem, mulher, jovem, velho, criança... Não há "pessoa" quando não há história. Não há história, então, não há "pessoa". Tem história? Então, tem uma "pessoa" envolvida nisso.
A vida é uma leela de Deus, para o Sábio. Para aquele que se identifica com a mente egoica, a vida é maya. Em maya, tem os vivos e os mortos, os sábios e os tolos, os viciados e os virtuosos, os santos e os demônios; tem a tristeza e a alegria, o bem e o mal; tem o passado, o presente e o futuro; tem os amigos e os inimigos; tem história, tem pessoa... Tem tudo isso! Assim, não há Paz, Liberdade, Felicidade, Amor, Consciência... Só tem história.
Quando eu falo Paz, Liberdade, Felicidade, Amor, Consciência, não estou falando de algo que tem um contrário. Por exemplo, a paz tem o contrário, que é o conflito; a felicidade tem o contrário, que é a infelicidade; a liberdade tem o contrário, que é a prisão... Não estou falando dessa liberdade, dessa felicidade e dessa paz. O amor tem o contrário, que é o ódio, mas não estou falando desse amor. Estou falando do Amor, de uma Felicidade, de uma Consciência, de uma Paz, que não tem contrário, opostos, ou seja, não faz parte da história, do "seu mundo"... É algo desconhecido; algo de sua Natureza Real.
Quando eu digo “desconhecido”, é porque não é algo que possa ser conhecido. É algo que permanecerá sempre como o mistério chamado vida, que, na mente, você divide entre seres animados e inanimados, vivos e mortos. Quando eu digo para você ir além da mente, estou dizendo para ir além de maya, além da história, além da pessoa, além desse sentido de se sentir magoado, ofendido, humilhado, arrependido, triste, alegre, sábio ou tolo.
É como a história de um discípulo que foi ao Mestre e perguntou: "Mestre, o que é a Realidade? O que é essa Verdade?". Eles estavam perto um pé de laranja, no campo, e o Mestre disse: "Pegue uma daquelas laranjas". O discípulo pegou uma laranja e o Mestre disse-lhe: "Corte-a ao meio"; o discípulo fez isso. O Mestre perguntou-lhe: "O que você vê?", ao que o discípulo respondeu: "Eu vejo gomos de laranja". "O que tem nesse gomo?", perguntou o Mestre ao discípulo, apontando para as sementes, e disse-lhe: “Tire uma dessas sementes e corte-a ao meio”, o que foi feito. “Corte de novo, mais uma vez… Mais uma vez…”. Até que chegou num ponto em que não dava mais para cortar aquela semente. Então, o Mestre perguntou: “O que você vê agora?”. “Mestre, agora não tem nada”, respondeu o discípulo. O Mestre, então, disse: “Aí está o sentido da Realidade: não tem nada!”.
Esse Vazio é o sentido da Realidade. É desse Nada, desse Vazio, que veio a semente, que vieram os gomos, que veio a laranja, a árvore, a terra em que essa laranjeira está plantada; que veio esse campo, esse lugar; que veio esse mundo e esse universo. A Realidade é esse Nada, onde tudo aparece e desaparece. Esse Nada é a Consciência, é o Amor, é a Felicidade, é o desconhecido. Então, lembre-se disso: se você pode descrever, não é a Felicidade; se você pode descrever, não é a Paz, a Verdade, a Realidade. O que você pode descrever está dentro da história e o que está dentro da história é pessoal.
Nesses encontros, em Satsang, estamos apontando para você o fim de tudo isso… Estamos apontando o Nada. Mas o Nada, lembre-se, tem a qualidade de Sat-Chit-Ananda – Ser, Consciência, Felicidade. Então, não é um nada de vacuidade, de nulidade; é um Nada de Plenitude, de Totalidade. É um Nada que contém o Todo e onde o Todo desaparece. Então, é um Nada de uma qualidade completamente diferente. É um Nada que é a Natureza do Sábio, da Verdade. É lindo estar em Satsang, porque Satsang aponta somente para Isso. Não aponta para a ciência, filosofia, física quântica, artes, dança, música... Satsang aponta para o Nada, que não é o nada de “coisa nenhuma”; é o Nada onde tudo aparece e se dissolve. Então, lembre-se: o que você pode descrever não é Isso. Olhe de novo, de novo e de novo... Curve-se diante desse Nada – isso é adoração! Curve-se diante desse Vazio – isso é oração! Curve-se diante desse Nada Vazio – isso é autoinvestigação.
Tudo que eu ensino é o Nada. Eu o ensino a dar um "bye, bye", um "tchau, tchau" para as aparições, começando pelas aparições íntimas, próximas, ligadas ao sentido de uma identidade presente aí. O meu ensino não é uma instrução, nem forma você a ponto de torná-lo "alguém instruído". O meu ensino esvazia você de todo conteúdo, conhecimento, de todo conteúdo do experimentador. Então, o meu ensino é um não-ensino. Não escute com a sua cabeça, porque não vai funcionar. Em qualquer lugar você poderia ouvir com a sua cabeça, menos nesse espaço chamado Satsang.
Não tente analisar isso, encontrar a lógica, a aplicabilidade, o bom senso disso. Não dá! Não há bom senso em minha fala e não é algo aplicável, utilitário ou que fortalecerá você. Isso iria somente fortalecer sua história e, quando isso acontece, a "sua pessoa" fica mais forte, e o propósito não é esse. Não acreditem em minhas palavras. Não aprendam, decorem ou tentem enquadrar minhas palavras. Fiquem com o que está por trás delas. Mas vocês não podem fazer isso com a "cabeça"... Não escutem com a "cabeça". Aqui, começando por mim, ninguém é importante. Não tem ninguém importante. "Alguém importante" é a história, a instrução, o conhecimento e a experiência sendo compartilhados. ISSO aqui não é uma experiência que pode ser compartilhada.
Quando você olha para isso que acontece em Satsang, está apenas olhando para um espelho. Se você ainda estiver se vendo nesse espelho, sua visão está equivocada, porque não tem ninguém lá no espelho. O espelho está sempre vazio. Se você está encontrando uma imagem nesse espelho é, ainda, a sua história. Eu disse olhar para o espelho, não disse se ver no espelho. Tudo o que você fez, até hoje, foi para se encontrar e quando se encontra é como "você", que é o mesmo que se ver no espelho. Você vai melhorando essa imagem que vê de si mesmo no espelho. Em todos os lugares e trabalhos a intenção é essa: melhorar essa imagem, melhorar a "pessoa" que você acredita ser e encontra quando olha para o espelho.
Aqui, em Satsang, eu convido você a olhar para o espelho e descobrir que ele está sempre vazio; não tem "alguém" ali. Quando as pessoas começam a ler livros e ouvir falas desse tipo, passam a decorar essas palavras e, daqui a pouco, acreditam que se tornaram mestres do assunto e podem até sair por aí dando Satsang, porque elas estão perfeitamente instruídas na [teoria] Advaita. Isso é curioso, porque Advaita não é instrução. Advaita é não-dualidade. É esse Nada, esse Vazio... É o fim do sentido de um "eu".
*Transcrito de uma fala ocorrida em 23 de Dezembro de 2016, num encontro aberto online.
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