Temos aqui o propósito de descobrirmos, constatarmos Aquilo que somos, Aquilo que verdadeiramente nós somos, Aquilo que está por detrás, que é anterior a essa "pessoa" corpo-mente. Uma coisa que nós temos visto é a facilidade com que todos nós nos embolamos com essa coisa, com essas afirmações filosóficas ou esotéricas. Alguns afirmam categoricamente que nós construímos ou somos capazes de construir a nossa própria realidade. Quando olhamos para essa assim conhecida vida que temos, a impressão é que ela foi construída por nós, construída como resultado dos nossos pensamentos. Então, segundo essa base filosófica, espiritual ou esotérica, nossos pensamentos criam nossa realidade no mundo.
O que nós não percebemos é que essa assim chamada "realidade" de mundo dessa "pessoa" corpo-mente é apenas um sonho. E a ideia de uma identidade principal nessa realidade é ainda parte desse sonho. A única realidade não é a realidade do sonho, mas é a realidade onde esse sonho acontece. Esse sonho "pessoa-corpo-mente-mundo". Essa realidade é anterior à "pessoa", é anterior ao corpo, à mente e ao mundo. É evidente que a sensação da mente é a sensação da criação de sua própria realidade, mas essa realidade é a realidade do sonho. É a realidade de uma pseudoidentidade dentro dessa coisa. Isso também ainda é o sonho.
Esse sonho tem a realidade que a mente produz, que o pensamento produz. Essa realidade que o pensamento produz, que a mente produz, é a realidade mental. Apenas na mente essa realidade é possível. Eu continuo afirmando que isso é apenas uma aparição fenomênica, uma aparição que aparece como uma brincadeira divina. Essa brincadeira divina será sempre um mistério e a única coisa que podemos falar sobre ele é que é uma brincadeira mesmo, uma brincadeira divina. Não há qualquer propósito nessa brincadeira. É o próprio divino, é a própria Presença, é o próprio Ser, é a própria Consciência Nela mesma se expressando. Ela aparece como a substância e como a testemunha, como aquilo que é observado e aquilo que observa. Mas aquilo que observa e que é a testemunha se mantém como anterior a qualquer fenômeno, a qualquer aparição, a qualquer sonho.
Você é essa Presença. Ciente dessa Presença, o sonho é só um sonho. Não há qualquer realidade separada aí. A realidade "pessoa-mente-corpo-mundo" é o sonho nessa realidade que é você. Não há "corpo-mente-mundo" como algo separado dessa Consciência, dessa testemunha, dessa realidade. Assim sendo, você não pode, na mente, ser "alguém" criando a realidade para essa assim chamada "sua vida". Essa "sua vida", que é um sonho, não é você. Você é a Vida anterior a essa "sua vida".
Sua Consciência, sua Presença, é anterior ao seu nome, ao seu corpo, à sua forma e ao seu mundo. É anterior a essa "sua vida". A mente manifesta sua própria realidade, depois ela diz que é capaz de criar sua própria realidade. A mente no sonho dizendo ser o sonhador, dizendo ser "alguém" sonhando. A mente não cria nada. Ela confirma sua própria aparição. Termina dizendo que está criando sua própria realidade. Você não é "alguém" criando sua realidade de vida. Essa "sua realidade de vida" é uma produção da mente, isso não tem nada a ver com você. É só um fenômeno, só uma aparição. Se desidentifique desse fenômeno. Se desidentificar desse fenômeno significa não se confundir com ele.
O trabalho de autoinvestigação, de meditação e de entrega a essa Verdade que é a Consciência é o fim dessa identificação com a mente, que nada mais é que esse sonho "pessoa-mente-corpo-mundo", como "alguém" nisso. Então, a brincadeira do sonho continua, mas não há mais a ilusão de um sonhador criando sua própria realidade. Você não é "alguém" criando sua realidade. Você é a realidade livre desse "alguém". Não há "alguém". Essa realidade é Ser, Consciência, Deus, Brahman. Essa realidade é Sat-Chit-Ananda, como se diz na Índia. Essa realidade Sat-Chit-Ananda não é o sonho, não é uma realidade que o pensamento cria, que a mente cria, que a mente sonha.
P: O que é compaixão? O "eu" pode ser compassivo, solidário e fraterno?
M: A ilusão é a ilusão de "alguém" sendo alguma coisa. Quando a ilusão de ser "alguém" está presente, esse "alguém" pode ser qualquer coisa. Esse "alguém" pode ser violento, agressivo, medroso, piedoso, compassivo, solidário e também fraterno. Enquanto houver o sentido de ilusão de "alguém" na ação, esse "alguém" pode ser qualquer coisa.
Ser é Consciência, Ser é Presença. A natureza do Ser é Amor, é Paz, é Silêncio, é Verdade, é Felicidade. É onde entra essa assim chamada compaixão nisso. Compaixão é só uma palavra. O Amor não trata com pessoas. Para o Amor, que é Consciência, só há Consciência. E essa Consciência se reconhece. A Graça de um Mestre vivo, que alguém chama de compaixão, é a pura expressão desse Amor, que é Consciência, se reconhecendo. Isso é compaixão. Mas não é compaixão pelo "outro". Isso é Graça, isso é Amor. A Presença é Amor. Esse Amor em expressão é Graça, é Consciência.
P: A Presença é Amor, mas não amor por "alguém"?
M: Não. Amor é a natureza desta Presença, que é o cerne, o coração de qualquer experiência. O coração, a essência, a natureza desse encontro aqui, essa é uma experiência. Não há um experimentador dentro dela, há só o experimentar, não é o experimentar de "alguém", não é a experiência de "alguém". A essência desta experiência – e essa é a experiência única – é amor, não há "alguém" nisso. A experiência dessa Consciência é amor. Amor não é prazer, não é sentimento, não reconhece direção, não vem de um ponto em direção a outro ponto. É essa onipresença, que é Consciência, sem forma, sem objetos, sem imagens. Não há "eu" e "você". Não há ele, ela, nós, eles.
A questão é que nós estamos sempre reduzindo qualquer experiência a essa crença de uma identidade por trás dela. Então, há sempre o sentido de "alguém" nessa coisa, "alguém" capaz de amar, "alguém" capaz de receber esse amor. Não tem "alguém" quando há amor. Quando há amor, o sentido de "alguém" é impossível. Quando há o sentido de "alguém" amando, não há amor. "Alguém" é sempre uma crença do pensamento por detrás da experiência do prazer, da alegria, da satisfação, do conforto, do carinho, que é o que nós chamamos de amor por "alguém".
É como a liberdade, é como a paz. Não tem "alguém" na paz. Quando a paz está presente, o sentido de "alguém" não pode estar presente. Quando surge o sentido de "alguém", temos a crença da paz. A paz é impessoal, o amor é impessoal, a liberdade é impessoal. É a natureza da Consciência, é a natureza do Ser, é a natureza da experiência, sem o experimentador nela. Eu falo dessa experiência agora, sem qualquer descrição, relato, sem qualquer ideia sobre isso, sem qualquer avaliação, comparação, sem qualquer pensamento. Essa Presença, que é Silêncio, que é Paz, que é Consciência, que é o cerne dessa experiência, é Amor. Não tem "alguém" nisso.
Não tem "alguém" em nada, em nenhuma parte, nenhum lugar. Só tem Ele, Aquilo, a Presença.
P: Estou achando a Verdade tão subversiva, caótica, anárquica e louca...
M: Perfeito. Estou perfeitamente de acordo com você. Não há nada tão subversivo, caótico, anárquico e louco quanto a Verdade para a mente. É para a mente que a Verdade é isso. Ela simplesmente é o que é. Mas é natural que ela pareça assim. É uma bela aproximação. Se pudermos nos livrar da mente, estamos diante do que É. E o que é pode ser qualquer coisa. Pode ser caótico, pode ser anárquico, pode ser louco, pode ser subversivo. Mas isso são só aparições.
P: Como olhar para a realidade como você olha, Marcos?
M: Desapareça. Não tem outro jeito. Enquanto houver a ideia de que você está aí, esse olhar é impossível. Esse olhar já é seu, o problema não é a falta desse olhar, o problema é não confiar nesse olhar por se acreditar ser capaz de olhar. A vida se apresenta exatamente assim, aparentemente caótica, anárquica, louca e subversiva. Mas se pudermos deixar essa própria ideia de aparição de lado, ficamos simplesmente com o que é, e esse não é o olhar de uma "pessoa", é o olhar dessa Consciência, dessa Presença, que é Liberdade, que é Paz, que é Amor, que é Felicidade.