quarta-feira, 2 de abril de 2014

Um Esvaziar-se por Completo

Aqui estamos mais uma vez nesse encontro.

Podemos tocar, com vocês aqui, naquilo que eu acho muito importante vocês compreenderem: este trabalho, que é o trabalho do despertar, é algo que requer, de cada um, um profundo envolvimento. Este profundo envolvimento é o que nós chamamos de entrega.

Nós estamos sempre diante de paradoxos dentro deste trabalho, e há algo sobre isso, sobre este trabalho, que precisa ficar muito claro para cada um de vocês. Nós estamos falando desse Estado Natural. Este Estado Natural é florescer desta Graça, dessa Presença, dessa Realidade Divina, no entanto – é aqui que nós nos deparamos com algo bastante paradoxal, pois estamos falando de algo que já está presente –, qualquer movimento para chegarmos a Isso ainda é um movimento que nos afasta. Nessa tentativa de nos aproximarmos dessa Verdade, dessa Paz, dessa Liberdade, dessa Felicidade, nós temos nos afastado Disso. Nós nos afastamos Disso porque estamos exatamente em busca Disso. Essa busca nos afasta Daquilo que já está presente. Parece que o maior impedimento para todos nós é estarmos caminhando, é estarmos em movimento.

É muito amplo esse "mercado", esse mercado onde podemos procurar, onde podemos tentar encontrar. Quando nos metemos nesse mercado, no mercado da busca, nós nos perdemos. Reparem que a natureza da mente é o movimento da busca. A mente em sua insatisfação, em seu tédio, solidão, desejo e medo sempre se move, se move nessa busca, e essa busca é aquilo que na verdade lhe afasta dessa constatação, desse florescer. Essa Liberação, essa Libertação, essa Realização – essas são as palavras que usamos – só é possível quando não há mais nenhuma caminhada, quando há uma parada, quando não há mais nenhum movimento.

Mas como ficar livre do movimento? Em seu desespero, em sua aflição, em sua dor, a mente está sempre em busca de alívio, sempre na busca. Então a dificuldade que nós temos para esse Florescer, para essa Liberação, para esse Despertar, é essa, estamos identificados com a mente, e a mente no controle dessa coisa, a mente nesse movimento. Identificados com a mente, nós somos este movimento, e assim estamos perdidos.

Esse mercado se chama "o mercado da busca", onde há todo tipo de misticismo, práticas religiosas, seitas, religiões, filosofias, algo inumerável. Na mente, temos toda essa oportunidade de movimento, de nos mantermos nessa caminhada.

Nosso convite, em Satsang, é para esse instante, para essa parada, para esse não-movimento, para o término da busca.

A busca mantém essa identidade, a busca mantém esse sentido de ser, esse sentido de ser é a crença em uma sensação, a sensação de estarmos indo para algum lugar, de estar prestes a encontrar. Você já é agora, aqui, neste instante; sua Natureza Verdadeira é a Verdade, a Verdade é a sua Natureza Verdadeira, é a sua Natureza Real. Falo da Natureza Real porque nós temos a natureza da mente como sendo real, como sendo a verdade, como sendo a nossa verdade. Que fique claro que a sua Verdadeira Natureza é a Verdade fora da mente. Na mente temos sempre esse movimento, o movimento da busca, e esse movimento da busca é aquilo que se passa por nossa Natureza Real.

A vontade, o querer, o desejo, a procura, a busca – isso nasce dessa insatisfação, desse estado de conflito e contradição. Nesse estado de medo e solidão, nesse estado de incompletude que é a mente – e essa não é a sua Real Natureza Verdadeira, não é Você, não é a Verdade –, todo esse movimento é só o movimento do afastamento.

É preciso soltar absolutamente tudo. O que estamos dizendo é que você não pode encontrar a Verdade, mas pode constatar a Verdade presente nesse instante – esta é sua Natureza Verdadeira. Todo o seu trabalho aqui é de descartar aquilo que se passa por você, aquilo que procura tomar o lugar, que é o seu verdadeiro lugar, aquilo que procura substituir você, essa sua Natureza Real, Inata.

Então não se trata de ganhar algo, de alcançar algo, de chegar em algum lugar, aqui se trata de investigar aquilo que se passa por você, investigar essas crenças mentais, esses conceitos mentais, essas imaginações, esses interesses, motivos, conceitos, etc... Se trata de soltarmos por completo tudo o que nos foi ensinado.

Você, em seu Ser não aprende, não cresce, não evolui, não alcança, não chega, não se move. Essa é toda a nossa dificuldade, porque de uma forma sutil, permanece sempre esse desejo de chegar, de alcançar, de ser. O convite em Satsang é: esteja aberto à constatação de sua Real Natureza, aberto ao trabalho de descartar tudo isso, inclusive a própria imaginação do que seja iluminação, realização ou liberação, porque isso também é só uma imagem na mente. Você não precisa da mente aqui; você está investigando justamente aquilo que a mente tem feito para se manter no lugar de sua Real Natureza, está claro isso?

Aqui se trata de um esvaziar-se por completo. Realização não é, repito, uma aquisição, Realização não é uma realização, Realização é uma constatação desse Vazio, então Ser é não ser, Realização é o fim de todas as realizações.

Sua natureza real é o fim de tudo isso, é o fim de todas as imagens, todas as ideias e crenças, tudo aquilo que está limitado à mente, tudo aquilo que é a mente em sua limitação e isso significa esta Presença, esta Consciência daquilo que está agora nesse instante como a Única Verdade.

Estamos falando do fim dessa ilusão, a ilusão de ser, de fazer, de poder, de se mover, de ter algum lugar para chegar. Ok, vamos ficar por aqui? Está aí o nosso encontro!

Namastê!

*Transcrição de uma fala ocorrida em 02 de abril de 2014, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Você não é confiável, a Graça sim!

Mais uma vez em mais um encontro em Satsang. Satsang é um encontro com esse desafio. O desafio que você tem em Satsang é se encontrar. Se encontrar significa ir além de suas crenças, além de seus padrões, além desse gostar e não gostar, além dessa postura individual, pessoal, essa coisa da preferência. Quando nós falamos sobre o sentido de uma identidade separada, isso fica muito vago. Isso só começa realmente a ser visto nesse incômodo. Na verdade, você está cheio disso, e você não tem a mínima consciência. Você está permanentemente num estado de autodefesa. Nesse estado de autodefesa, você não quer ser tocado, não quer ser invadido, você não quer ser ferido, magoado, ofendido. O desafio para você é algo muito doloroso.

E o desafio aqui é o desmascaramento desse sentido de identidade presente. É por isso que Satsang é mortal. Essas falas em Satsang estão apontando exatamente para isso. É muito fácil ouvir uma fala como essa, e a mente logo racionaliza acerca disso, cria ideias sobre isso, tira conclusões acerca disso, dessa coisa que está sendo dita. No entanto, isso é inofensivo assim. Mas, na verdade, isso não é Satsang. Satsang é estar diante deste desafio que é a Graça, que é esse desmascaramento, que é poder constatar a possibilidade do fim dessa ilusão, da ilusão dessa identidade – essa que gosta, não gosta, controla, essa que não quer ser ferida.

Então, nós ficamos com aquilo que é prático quanto a isso. Já não estamos mais diante da teoria. É nesse sentido que Satsang funciona, é o espelho dessa Presença na figura do Mestre, daquele que está desperto, que não está inconsciente quanto a isso. Só esse é um espelho ideal. É isso que eu chamo de real investigação, é permitir-se olhar para isso, permitir-se não ser poupado. A sua mente está cheia de razões, cheia de projeções, cheia de crenças, ideias. Você até mesmo sabe como o Mestre deve agir. Você sabe até mesmo escolher o "mestre ideal". O mestre ideal para você é como aquele espelho que não pode refletir. O mestre ideal para você é aquele que ama você. Esse "você" é a ilusão. Esse "você" é esse suposto "eu", essa suposta identidade separada – caprichosa, vaidosa, ocupada com ela própria, que sabe tudo.

E é exatamente isso que tem que ser visto por você: a crença que você faz acerca de si mesmo. Um espelho real, um espelho ideal, é a Presença viva de pura Consciência, essa chama que devora a ilusão. Aí está o Mestre. É desconfortável, doloroso, difícil de lidar, difícil de aceitar, mas é assim. Seu ego vai querer fugir, mas ele jamais vai dizer para você que ele é o ego. Mais uma vez, ele vai se passar por você nessa "inteligência" de resolução, nessa "inteligência" de não ser manipulado, nessa "inteligência" de ter o perfeito discernimento. Na verdade, você quer essa libertação, mas do modo que você pode querer essa libertação – ainda se mantendo sendo "você". É "você" liberto, do seu jeito.

Tudo isso são truques, truques de continuidade dessa falsa identidade. O que estamos dizendo nesta fala, neste encontro, nesta noite, é que esse ego, esse "eu", esse "mim", essa falsa identidade, esse sentido de "alguém", não vai se render, não vai se entregar. Ele vai continuar fugindo. Ele vai sobreviver a todas as bombas, ataques terrestres ou aéreos, a toda e qualquer investida da Graça. Ele vai se disfarçar, ele vai se esconder, ele vai escapar. Ele não diz que é você, você não sente que é ele, mas é assim que ele consegue. É por isso que nós temos insistido nessa coisa, na importância de Satsang, quando esse "você" fica exposto e a dor aparece, o medo aparece.

Alguns de vocês já decidiram ir embora. Tem a dor em algum lugar aí acontecendo. Alguns já foram embora, e outros mantêm uma certa distância para não doer muito. Mas eu tenho que dizer para vocês uma coisa: isso não funciona. Realizar isso é atravessar essa dor, é descobrir que isso tudo é uma ilusão, que não há qualquer desafio mesmo – apenas essa suposta identidade sente isso como algo desafiador, está disposta a fazer qualquer coisa para escapar disso.

P: A maior dor é se achar um "eu".

M: Sim, é isso mesmo. A maior dor é o sentido de separatividade. A maior dor é o sentido de uma identidade separada. A maior dor é o medo. O que estamos apontando para você em Satsang é o fim do medo, o fim desse sentido de separação. Estamos apontando a você, em Satsang, para a bem aventurança, para a felicidade, para a liberdade, para o amor, para a paz. Estamos apontando em Satsang para a sua Real Natureza, para a Real Vida. Você não é confiável, a Graça sim. Essa Presença é confiável. Deus é confiável. É por isso que Ele toma forma. Se você não pode encontra-Lo na forma, você não pode encontra-Lo fora da forma. É na forma que você se vê, é na forma que você tem que econtra-Lo.

Quando você O encontra na forma, você está além da forma. Se você não poder encontrá-Lo no Mestre, não pode encontrá-Lo em si mesmo. Esse "si mesmo" é só uma teoria, é só um conceito mental, é só uma crença, é só a "não forma", é só o conceito de algo dentro. Isso porque, na verdade, você se vê no corpo, você se vê na forma. Existem alguns pontos aí que podem ser investigados. Podemos falar um bom tempo sobre isso. O problema é que a sua mente vai editar essa coisa, ela vai fazer recortes. Ela sabe habilmente escolher o que lhe convém. Assim, não adianta nós falarmos sobre isso fora desse encontro presencial. Então venha ao Satsang presencial olhar em meus olhos, e me permita olhar em seus olhos.

Permita-se ter raiva de mim, ver inveja em mim, ambição em mim, desejos e medos em mim; permita-se ver arrogância em mim, prepotência, personalidade forte, um ego muito grande. Tudo o que você está vendo é você mesmo, a coisa está toda aí. Na verdade, você está vendo qualquer coisa fora de si mesmo. Mas o que você está vendo fora de si mesmo é parte da crença que você tem acerca do mundo, e isso está assentado nessa base, na base dessa falsa identidade, se passando por você. Isso significa pura inconsciência, isso significa medo. Ego é medo. A pessoa é medo. Enquanto a pessoa estiver aí, o medo está aí. A pessoa aí é a ilusão de alguém vendo coisas do lado de fora.

O que estamos dizendo para você sempre em Satsang é que não tem jeito, você não tem salvação. Você não tem conserto, não há tratamento para você. Tem mesmo é que desaparecer. Isso é algo simples, mas não é algo fácil. Isso é o fim da inconsciência. Isso é o seu fim. É o fim da pessoa.

P: Eu realmente estou cansado do sofrimento psicológico, mental, da mente tagarela. Me parece que o simples conhecimento das coisas espirituais, filosofias, não está me ajudando a me tornar uma pessoa melhor.

M: E agora? O que você acha que pode fazer ainda?

P: Realmente não sei. O que sei é que não tem funcionado.

M: É muito bom isso. Você chegou num ponto excelente. Espero que tenha chegado mesmo nesse ponto. Provavelmente você já parou de ler todos os livros, já parou de praticar, já parou de frequentar sebos esotéricos, místicos, religiosos, filosóficos.

P: Sim. E junto com isso me dá um vazio por não ter chegado lá.

M: Aí está o ponto. Despertar, realizar Deus, Realização, Iluminação – qualquer que seja o nome para Isso – não é chegar lá. Esse chegar lá é só uma projeção ainda da mente. Essa é a primeira coisa a ser compreendida: não há como chegar lá, porque não tem lá, não tem alguém aí para chegar. Despertar, Iluminação ou Realização é o fim da ideia de alguém para chegar em algum lugar. De forma objetiva, prática, o que posso lhe dizer é que um trabalho se faz necessário. Mas não é um trabalho no sentido de uma procura, de uma prática, de uma dedicação à espiritualidade ou à filosofia. É um trabalho no sentido da investigação daquilo que se passa por você e que não é você, não é a sua Real Natureza.

Então, isso termina com essa ilusão – a ilusão do ego, a ilusão do "eu", a ilusão do sentido de alguém. Quando isso termina, o Despertar está presente, a Iluminação está presente. Isso é o fim da insatisfação, isso é o fim do sofrimento. Na Índia eles chamam isso de Sat-Chit-Ananda, Ser-Consciência-Felicidade. Satsang significa estar diante disso diretamente, estar diante dessa autoinvestigação, ou dessa investigação de si mesmo, que é meditação, que é essa entrega à sua Real Natureza. Eu lhe recomendo, e a todos presentes: venha ao Satsang. Você não pode realizar isso, mas pode estar vulnerável, se permitir essa realização em Satsang. Não é você que realiza, é Deus que realiza, é a Graça que realiza, é o Mestre que realiza, é essa Presença que realiza, é a sua Natureza Real tomando ciência dela própria. Isso é o fim desses padrões mentais. Isso é tudo o que a mente não quer fazer

P: Já li de uns 8 a 9 acordados a mesma ladainha: o "eu" não é real, é uma ilusão, mas e daí? De que me serve entender e compreender isso?

M: É exatamente isso. Isso não serve para nada. É só mais uma crença. Ler o que os acordados dizem ou disseram, ouvir o que eles dizem ou disseram, nada disso funciona. O que funciona é essa entrega a essa Presença. O que funciona é a ação dessa Graça, é estar diante desta Graça, a Graça em forma. O Mestre em forma, o Acordado em forma. Ele não é suas palavras, Ele não é suas falas, Ele é Você, Ele é a sua Natureza Real, é esse espelho real. É onde o trabalho acontece. Ele vai lhe provocar, Ele vai lhe contrariar, Ele vai lhe aborrecer, Ele vai lhe chatear. Ele será tudo o que você precisa ver em si mesmo. O seu anjo mau e o seu anjo bom, o seu próprio satanás e o seu próprio Deus. E é só você que vai ver isso, não tem ninguém mais para ver isso em seu lugar. Isso funciona, o mais são só teorias, conceitos, crenças, palavras, blá blá blá. É isso aí.

*Transcrição de uma fala ocorrida em 12 de fevereiro de 2014, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

O Real Sentido da Oração

P: Qual é a diferença entre acreditar que não existe, que não se é nada, e a baixa autoestima?

Mestre: Onde houver qualquer crença, em cima dessa crença, uma conclusão aparece, e essa conclusão é mental. "Eu não sou importante nem necessário, eu não existo" e a baixa autoestima, na verdade, são a mesma coisa, do ponto de vista da crença. A crença de que não se é importante, ou de que não se existe e a baixa autoestima são só uma crença, e não tem nada de real nisso. Se você acreditar que não existe, se você acreditar que não é importante, ou qualquer outro tipo de crença desse tipo, é a mesma coisa. Aqui não se trata de acreditar em alguma coisa. Qualquer forma de crença, positiva ou negativa, é só uma crença.

P: A autoinvestigação é o melhor meio de derrubar o ego? Como posso fazê-la?

M: Você não pode derrubar o ego. Não há nenhum ego para ser derrubado. A ideia de derrubar o ego ainda é do ego – desse ego que não é real, mas que se apresenta real tentando fazer alguma coisa, como essa coisa da autoinvestigação, como essa coisa de derrubar o ego. Esse trabalho de autoinvestigação não é seu, é um trabalho da Presença, é um trabalho da Graça, é um trabalho de Satsang.

Não há qualquer esforço que você possa fazer para realizar isso, embora o trabalho seja importante, seja necessário. Esse trabalho de autoinvestigação – que não é ego-investigação, que não é mente-investigação – é Graça-investigação, é Presença-investigação, é Satsang-investigação.

Não há como deixar de atrelar o Despertar a uma ação da Graça, a um trabalho da Graça, a um trabalho dessa Presença. Aqui, só lhe resta um "fazer", e esse "fazer" é deixar de fazer, é ficar quieto, é se entregar a Deus, que é a Graça, que é a Presença. Isso é Satsang. Há um poder que faz isso. O seu trabalho não é seu trabalho. Você não pode encontrar esse caminho – esse é o ponto. Você não pode dar o seu jeito. Isso é algo que vem até você, mas você não pode ir até Isso. É o Mestre que encontra você... Não é você que encontra o Mestre. É a Graça que alcança você... Não é você que alcança a Graça. Coloque o seu coração na Graça, na Presença. Fique ligado, no coração, com essa Presença, porque somente assim você fica quieto, e a Graça faz o trabalho.

O seu trabalho é ter essa disposição. Você faz o seu trabalho e a Presença faz o trabalho dela, e tudo isso é o próprio trabalho da Presença, é o próprio trabalho da Graça; só tem ela mesmo. Este é o real sentido da oração: essa disposição de não questionar, não discutir, não se proteger, não se defender. Isso é real rendição, real entrega. O grande momento em Satsang é o momento do silêncio, da entrega. Esse é o momento do coração, nessa disposição de deixar tudo, de soltar tudo, de colocar tudo diante dessa Presença; é o sentido de tocar os pés do Guru. O Guru não é outro senão você mesmo, sua Natureza Real... É o divino aí, em seu próprio coração.

Essa é a única coisa que você pode fazer. E isso é o fim dessa ilusão, a ilusão do ego, a ilusão desse "mim". Ramana dizia que a porta de Deus está sempre aberta, mas a verga da porta é muito baixa, e para atravessar essa porta, só de joelhos. E ele dizia: são muito poucos os que conseguem.

Vocês querem ouvir o meu segredo?

P: Não tem ninguém aqui para querer saber coisa alguma.

M: Isso é verdade? Perguntem a si mesmos se isso é verdade. Eu não sei porque a sala está tão cheia se isso é verdade... Quando quiserem saber o segredo para alcançar Deus, perguntem. Vocês fazem perguntas muito inocentes, que não atingem nada, como flecha sem ponta; flecha sem ponta não penetra, não atinge o alvo.

P: Qual é o segredo?

M: Só um teve a coragem de perguntar qual é o segredo. E qual é o segredo para realizar Deus? Eu vou dizer para você: dê tudo ao Guru. Tudo o que ele lhe pedir, você dá a ele. Dê a ele, quando você encontrar o Guru, puder reconhecer o Guru – isso é quando você só vê Deus... Foi o que eu vi em Ramana. Ele era o Cristo a quem eu orava, diante de quem eu jejuava, e ele apareceu a mim. Pediu todas as minhas crenças, minhas defesas, meus desejos, todas as minhas seguranças, todos os meus medos.

P: Entregou orando?

M: Sim. Oração é entrega. A oração abre a porta para essa entrega. Assim você não pode mais desconfiar de Deus e reivindicar nada para si mesmo. Então, essa falsa identidade cai, porque ela não pode resistir a essa amorosa Presença.

P: Expor os problemas para si mesmo e admitir os erros é um começo?

M: Não; nada disso. Nem mesmo o direito de ter problemas você tem, porém, admitir os erros você pode, quando você entrega tudo a Deus. Você não tem mais o direito de sentir-se um pecador, nem de buscar ser um santo. Acontece quando seu coração queimar diante da sua Presença, e Ele é o bem amado, porque somente Ele é confiável. Você não existe mais para admitir nada, para errar novamente. Se você não pode chorar por isso, essa deve ser a sua primeira oração, a sua primeira entrega. Seja honesto quanto a isso, e diga a Ele que você não pode chorar por isso, que você não pode confiar.

P: É bom isso, sinceridade absoluta.

M: Sim, criança, é isso. Você não pode mentir para si mesmo. Você não pode ser desonesto consigo próprio. Isso é real. Expor problemas e admitir erros não é Isso. Não se trata de querer alguma solução, que é querer melhorar; aqui não se trata disso. Não pode ter você e Deus. Deus não aceita concorrência, ninguém ao lado dele. Não é possível a Verdade e você. Então, que seja só a Verdade, que seja só Deus, e que você desapareça. Que esse "você" possa se dissolver nessas lágrimas sinceras. Isso significa explodir as pontes... elas ficam para trás, e não há mais como voltar.

*Transcrição de uma fala ocorrida em 10 de fevereiro de 2014, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O Trabalho acontece apenas em estar na Presença

Mais uma vez juntos no único lugar, e esse lugar é agora mesmo, aqui, onde tudo pode ser encontrado. Sejam bem-vindos a mais esse encontro com esse vazio, esse espaço no qual a realidade do mundo aparece. Esse espaço é aquele no qual a realidade da mente, do corpo e do mundo estão aparecendo. Nós estamos mais uma vez nesse espaço, mais uma vez sempre nesse espaço, o espaço do qual nunca saímos, onde não existe separação, onde sempre nos encontramos. É nesse vazio onde tudo se levanta, onde tudo aparece, esse é o único lugar, aqui e agora, o lugar da Paz, da Liberdade, do Silêncio, onde a Verdade aparece e essa assim chamada "ilusão" também aparece.

Não há nada separado desse espaço, desse vazio. Ele engloba tudo. E de fato é maravilhoso estarmos aqui, de onde nunca saímos. Na Presença da qual nunca estivemos ausentes. Essa Presença que segura todo esse jogo divino, esse jogo dessa assim conhecida ilusão. Tudo é transparente nesse vazio, nesse espaço, nesse lugar. Nós estamos vendo o pensador, o "eu", o "mim", a "pessoa", e isso tudo é só uma crença do próprio pensamento. Nada disso destrói a realidade dessa Presença sempre presente. É somente o pensamento surgindo, aparecendo, separando corpo, mente, mundo, inconsciência, consciência, ilusão, verdade. Nada disso pode destruir essa Realidade da Paz, da Liberdade, da Felicidade, do Amor presente.

Tudo que vocês de fato precisam aqui é constatarem Aquilo que está presente, e que nunca deixa de estar presente em meio a todas essas aparições. As aparições são só aparições. Isso que está sempre presente é esse vazio, é essa realidade divina, é a sua Natureza Verdadeira, que é Deus.

P: Se a coisa é aquietar-se, silenciar, ser presente, então não vale mais rezar, orar, mentalizar, praguejar para mudar uma situação de vida desagradável ou intolerável?

M: Aqui se trata de acolher, de abraçar, de não se separar daquilo que se apresenta. Agradável e desagradável é só uma aparição já indo embora. Tudo está indo embora, tudo está passando. Já esse Vazio, essa Presença, esse Espaço, esse Lugar, essa Consciência permanece como Pura Bem-aventurança, Pura Alegria, em Pura Liberdade. A situação é que vocês dão muita credibilidade ao intelecto, e aí ele confirma estados emocionais, sentimentais, estados que aparecem aí nesse mecanismo. Então o intelecto confirma como sendo algo de alguém. Não tem alguém aí não. Isso é uma crença muito forte.

É só o Vazio mesmo, é só esse Lugar, esse Espaço. O corpo aparecendo aí, e toda e qualquer sensação, qualquer sentimento, qualquer estado agradável ou desagradável, qualquer reza, qualquer mentalização, qualquer praguejar, qualquer não silenciar ou silenciar, qualquer aquietar-se ou não se aquietar. Tudo está passando mesmo. Quando lhe convido a Satsang, eu lhe convido e lhe dou esse "bem-vindo". Eu digo para você: bem-vindo a esse espaço de seu próprio Ser, o único lugar do qual você jamais saiu, onde aparece a ideia de um mundo do lado de fora, de uma mente do lado de dentro. E você não está separado dessa ideia nem daquela. Você não é o pensador desse pensamento. Não existe essa verdade aí, a verdade da crença de um pensador. Isso é só mais um pensamento também. A crença de um pensador é só mais um pensamento.

E o mundo inteiro aparece, o universo inteiro se desdobra, surge. Você, como esse Espaço, esse Vazio, essa Presença, essa Consciência, está além de toda essa aparição.

P: Marcos, você tem afirmado que o único modo de acordar, despertar, é ficar perto de um Mestre em Satsang, ou seja, nenhuma prática, nenhum exercício, só isso, que tudo é muito simples. Mas então para que tantos textos advaitas, tantas explicações dadas por tantos Mestres como Ramana, Papaji, Mooji, Bidi, e muitos outros, inclusive você?

M: É simples. Todas essas explicações dadas por esses Mestres são para o intelecto curioso enquanto ele está fazendo muito ruído. Quando o intelecto desaparece, as perguntas desaparecem. Essas explicações nascem das perguntas desses intelectos. A ênfase de Ramana era o silêncio. A de Papaji era ficar quieto. A do Mooji é dar respostas a perguntas – mas são perguntas do intelecto.

P: Então tirando esse valor referido por você não há mais nenhum? Eles não tem mais nenhuma utilidade?

M: Eles quem? Os ensinamentos? Não. Os ensinamentos são não-ensinamentos. Esses ensinamentos têm o propósito de lhe mostrar a não necessidade de aprender. O propósito deles é descartar qualquer ideia da necessidade de novos ensinamentos.

P: Mas então ensinar a não ensinar é um ensinamento ou não?

M: Tudo o que posso lhe dizer é que Despertar é Ser, e Ser não sabe, não se interessa em saber nem tem o que aprender. Ou seja, tudo aqui se trata em desaprender tudo o que a mente acredita que aprendeu. Não serve para Aquilo que você já É. O Trabalho acontece apenas em estar na Presença. É um trabalho nesse mecanismo, nesse corpo-mente, é um trabalho de desprogramação nessa máquina, nesse organismo, de todo o condicionamento mental presente. Nenhum ensino pode fazer isso, só o desaprender pode abrir espaço nesse mecanismo para a coisa assentar aí, para esse Estado que já é você fora de qualquer construção intelectual.

P: A minha pergunta não é nesse sentido.

M: Tudo o que estou dizendo é que Ser não depende de ensino. Ser você já é. Todo ensino só acrescenta algo mais a essa formação meramente intelectual da personalidade. E personalidade aqui é sentido de separatividade.

P: Não há nada a fazer para desaprender?

M: Claro que há: estar em Satsang. Alguns passaram 30 anos próximos a Ramana, outros 40, e outros a vida inteira. Há casos de alguns que despertaram em 6 anos com Ramana. Teve um cara da América chamado Robert Adams. Ele esteve um dia com Ramana e foi suficiente. Apenas uma vez, e foi suficiente. Tem a história de um camarada que esteve com Nisargadatta, assistiu dois Satsangs, um pela manhã e um à noite, e também despertou. Já foi o suficiente. Mas foi ali. Despertar é uma ação dessa Presença nesse mecanismo. Não tem nada a ver com ensino, com prática, com métodos, com exercícios. Tem a ver com uma ação dessa Presença, dessa Graça, que acontece.

P: Como então ficar quieto, aquietar a mente?

M: Você não pode. Isso não é trabalho seu. Todo o trabalho do Despertar é dessa Presença, dessa Graça, dessa Consciência, que é o que temos em Satsang. Não há como aquietar a mente. Quem aquietaria? Que mente pode ser aquietada?

P: Então como ele nos dá essa Graça?

M: Ele não nos dá essa Graça. A Graça já está presente. Você não pode receber essa Graça, você não existe para receber essa Graça. A disposição de estar em Satsang já é uma disposição da Graça trabalhando aí. Não tem alguém para receber essa Graça, não tem alguém para lhe dar essa Graça. Apenas esteja em Satsang e receba, estando ausente. Em Satsang o sentido de separatividade vai embora, e isso é Graça, isso é Presença. Não acabei de falar que não há ensino? Não tem o que aprender, não tem o que ser ensinado. A recomendação que eu dou para todos é a recomendação de todos os acordados.

P: Tenho que estar ausente em Satsang para estar presente?

M: Sim, totalmente ausente. Se o seu ego estiver presente em Satsang, não vai acontecer nada. Você só está presente em Satsang quando seu ego está ausente. Não adianta estar presente. Tem que estar ausente.

P: Como deixar o ego ausente então?

M: É o que estou tentando lhe mostrar desde o início. Você não pode fazer isso. Isso é um trabalho da Graça, do Mestre. Você só tem que trazer o corpo e relaxar. Se você não ficar quieto, você continua presente. Quando você está presente, você está ausente do Satsang.

P: O corpo vale alguma coisa?

M: Desperte sem corpo e depois me responda. Como você pode despertar sem corpo? O corpo é tudo o que você precisa neste momento para despertar. Mas é o corpo presente em Satsang, e não a mente egoica, e não o sentido de separatividade.

P: Então o espírito precisa do corpo?

M: Que espírito?

P: A Presença?

M: Todas as suas colocações são meramente intelectuais. Solte isso. Você só vai poder soltar isso quando estiver em Satsang, aí poderá estar ausente, estando presente.

P: Para isso estou aqui, para você me ensinar a soltar.

M: Estou lhe ensinando.

P: É um ensinamento.

M: Não, é um não-ensinamento. Porque o que eu digo é: a única coisa a fazer é ficar quieto. Toda essa intelectualidade desaparece em Satsang, quando o sentido do perguntador desaparece. É por isso que o ensino desaparece. A resposta dos Mestres, dos acordados, são dadas para o intelecto. Mas não servem para nada.

P: Podemos jogar todos os livros fora? Rasgar, queimar?

M: Para você ser o que você é, pode jogar tudo fora. Nenhum deles pode lhe ajudar a ser o que você já é. Eles não podem lhe dar o que você já tem. Não podem fazer de você o que você já é.

P: Um ego reage a situações baseada nos condicionamentos e memórias, e um acordado não reage, apenas responde a partir da Presença da não separatividade. Qual a diferença entre responder e reagir?

M: Nenhuma ação direta é uma resposta no sentido de algo vindo de uma reatividade. Então, aquilo que podemos chamar de resposta da Presença é ação. Na ação não há reatividade. Por outro lado, tudo o que a mente conhece é reatividade, é resposta reativa. A ação nasce neste instante sem qualquer compromisso com qualquer resultado. Não há medo nela. Essa é a diferença. Enquanto essa assim resposta reativa, que é a resposta da mente, nasce da busca de um resultado, o que na verdade é medo. Não há qualquer planejamento. As coisas vão acontecendo.

Na verdade, toda ação é essa ação, a ação natural, a ação dessa Presença, a ação dessa Consciência. Não há alguém nisso sendo recompensado ou punido. As coisas simplesmente acontecem por uma ação dessa Presença. Tudo o que vocês precisam é dessa naturalidade de Ser. Por isso eu recomendo Satsang. Isso acontece por ressonância. O Trabalho é por ressonância. Na Índia eles chamam de uma ação da Graça do Guru, da Graça do Mestre, da Graça da Presença, da Graça Divina, que é a mesma coisa.

*Transcrição de uma fala ocorrida em 10 de Janeiro de 2014, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Não tem alguém quando há amor

Temos aqui o propósito de descobrirmos, constatarmos Aquilo que somos, Aquilo que verdadeiramente nós somos, Aquilo que está por detrás, que é anterior a essa "pessoa" corpo-mente. Uma coisa que nós temos visto é a facilidade com que todos nós nos embolamos com essa coisa, com essas afirmações filosóficas ou esotéricas. Alguns afirmam categoricamente que nós construímos ou somos capazes de construir a nossa própria realidade. Quando olhamos para essa assim conhecida vida que temos, a impressão é que ela foi construída por nós, construída como resultado dos nossos pensamentos. Então, segundo essa base filosófica, espiritual ou esotérica, nossos pensamentos criam nossa realidade no mundo.

O que nós não percebemos é que essa assim chamada "realidade" de mundo dessa "pessoa" corpo-mente é apenas um sonho. E a ideia de uma identidade principal nessa realidade é ainda parte desse sonho. A única realidade não é a realidade do sonho, mas é a realidade onde esse sonho acontece. Esse sonho "pessoa-corpo-mente-mundo". Essa realidade é anterior à "pessoa", é anterior ao corpo, à mente e ao mundo. É evidente que a sensação da mente é a sensação da criação de sua própria realidade, mas essa realidade é a realidade do sonho. É a realidade de uma pseudoidentidade dentro dessa coisa. Isso também ainda é o sonho.

Esse sonho tem a realidade que a mente produz, que o pensamento produz. Essa realidade que o pensamento produz, que a mente produz, é a realidade mental. Apenas na mente essa realidade é possível. Eu continuo afirmando que isso é apenas uma aparição fenomênica, uma aparição que aparece como uma brincadeira divina. Essa brincadeira divina será sempre um mistério e a única coisa que podemos falar sobre ele é que é uma brincadeira mesmo, uma brincadeira divina. Não há qualquer propósito nessa brincadeira. É o próprio divino, é a própria Presença, é o próprio Ser, é a própria Consciência Nela mesma se expressando. Ela aparece como a substância e como a testemunha, como aquilo que é observado e aquilo que observa. Mas aquilo que observa e que é a testemunha se mantém como anterior a qualquer fenômeno, a qualquer aparição, a qualquer sonho.

Você é essa Presença. Ciente dessa Presença, o sonho é só um sonho. Não há qualquer realidade separada aí. A realidade "pessoa-mente-corpo-mundo" é o sonho nessa realidade que é você. Não há "corpo-mente-mundo" como algo separado dessa Consciência, dessa testemunha, dessa realidade. Assim sendo, você não pode, na mente, ser "alguém" criando a realidade para essa assim chamada "sua vida". Essa "sua vida", que é um sonho, não é você. Você é a Vida anterior a essa "sua vida".

Sua Consciência, sua Presença, é anterior ao seu nome, ao seu corpo, à sua forma e ao seu mundo. É anterior a essa "sua vida". A mente manifesta sua própria realidade, depois ela diz que é capaz de criar sua própria realidade. A mente no sonho dizendo ser o sonhador, dizendo ser "alguém" sonhando. A mente não cria nada. Ela confirma sua própria aparição. Termina dizendo que está criando sua própria realidade. Você não é "alguém" criando sua realidade de vida. Essa "sua realidade de vida" é uma produção da mente, isso não tem nada a ver com você. É só um fenômeno, só uma aparição. Se desidentifique desse fenômeno. Se desidentificar desse fenômeno significa não se confundir com ele.

O trabalho de autoinvestigação, de meditação e de entrega a essa Verdade que é a Consciência é o fim dessa identificação com a mente, que nada mais é que esse sonho "pessoa-mente-corpo-mundo", como "alguém" nisso. Então, a brincadeira do sonho continua, mas não há mais a ilusão de um sonhador criando sua própria realidade. Você não é "alguém" criando sua realidade. Você é a realidade livre desse "alguém". Não há "alguém". Essa realidade é Ser, Consciência, Deus, Brahman. Essa realidade é Sat-Chit-Ananda, como se diz na Índia. Essa realidade Sat-Chit-Ananda não é o sonho, não é uma realidade que o pensamento cria, que a mente cria, que a mente sonha.

P: O que é compaixão? O "eu" pode ser compassivo, solidário e fraterno?

M: A ilusão é a ilusão de "alguém" sendo alguma coisa. Quando a ilusão de ser "alguém" está presente, esse "alguém" pode ser qualquer coisa. Esse "alguém" pode ser violento, agressivo, medroso, piedoso, compassivo, solidário e também fraterno. Enquanto houver o sentido de ilusão de "alguém" na ação, esse "alguém" pode ser qualquer coisa.

Ser é Consciência, Ser é Presença. A natureza do Ser é Amor, é Paz, é Silêncio, é Verdade, é Felicidade. É onde entra essa assim chamada compaixão nisso. Compaixão é só uma palavra. O Amor não trata com pessoas. Para o Amor, que é Consciência, só há Consciência. E essa Consciência se reconhece. A Graça de um Mestre vivo, que alguém chama de compaixão, é a pura expressão desse Amor, que é Consciência, se reconhecendo. Isso é compaixão. Mas não é compaixão pelo "outro". Isso é Graça, isso é Amor. A Presença é Amor. Esse Amor em expressão é Graça, é Consciência.

P: A Presença é Amor, mas não amor por "alguém"?

M: Não. Amor é a natureza desta Presença, que é o cerne, o coração de qualquer experiência. O coração, a essência, a natureza desse encontro aqui, essa é uma experiência. Não há um experimentador dentro dela, há só o experimentar, não é o experimentar de "alguém", não é a experiência de "alguém". A essência desta experiência – e essa é a experiência única – é amor, não há "alguém" nisso. A experiência dessa Consciência é amor. Amor não é prazer, não é sentimento, não reconhece direção, não vem de um ponto em direção a outro ponto. É essa onipresença, que é Consciência, sem forma, sem objetos, sem imagens. Não há "eu" e "você". Não há ele, ela, nós, eles.

A questão é que nós estamos sempre reduzindo qualquer experiência a essa crença de uma identidade por trás dela. Então, há sempre o sentido de "alguém" nessa coisa, "alguém" capaz de amar, "alguém" capaz de receber esse amor. Não tem "alguém" quando há amor. Quando há amor, o sentido de "alguém" é impossível. Quando há o sentido de "alguém" amando, não há amor. "Alguém" é sempre uma crença do pensamento por detrás da experiência do prazer, da alegria, da satisfação, do conforto, do carinho, que é o que nós chamamos de amor por "alguém".

É como a liberdade, é como a paz. Não tem "alguém" na paz. Quando a paz está presente, o sentido de "alguém" não pode estar presente. Quando surge o sentido de "alguém", temos a crença da paz. A paz é impessoal, o amor é impessoal, a liberdade é impessoal. É a natureza da Consciência, é a natureza do Ser, é a natureza da experiência, sem o experimentador nela. Eu falo dessa experiência agora, sem qualquer descrição, relato, sem qualquer ideia sobre isso, sem qualquer avaliação, comparação, sem qualquer pensamento. Essa Presença, que é Silêncio, que é Paz, que é Consciência, que é o cerne dessa experiência, é Amor. Não tem "alguém" nisso.

Não tem "alguém" em nada, em nenhuma parte, nenhum lugar. Só tem Ele, Aquilo, a Presença.

P: Estou achando a Verdade tão subversiva, caótica, anárquica e louca...

M: Perfeito. Estou perfeitamente de acordo com você. Não há nada tão subversivo, caótico, anárquico e louco quanto a Verdade para a mente. É para a mente que a Verdade é isso. Ela simplesmente é o que é. Mas é natural que ela pareça assim. É uma bela aproximação. Se pudermos nos livrar da mente, estamos diante do que É. E o que é pode ser qualquer coisa. Pode ser caótico, pode ser anárquico, pode ser louco, pode ser subversivo. Mas isso são só aparições.

P: Como olhar para a realidade como você olha, Marcos?

M: Desapareça. Não tem outro jeito. Enquanto houver a ideia de que você está aí, esse olhar é impossível. Esse olhar já é seu, o problema não é a falta desse olhar, o problema é não confiar nesse olhar por se acreditar ser capaz de olhar. A vida se apresenta exatamente assim, aparentemente caótica, anárquica, louca e subversiva. Mas se pudermos deixar essa própria ideia de aparição de lado, ficamos simplesmente com o que é, e esse não é o olhar de uma "pessoa", é o olhar dessa Consciência, dessa Presença, que é Liberdade, que é Paz, que é Amor, que é Felicidade.

*Transcrição de uma fala ocorrida em 13 de Janeiro de 2014, num encontro aberto online. Para informações sobre os nossos encontros, clique aqui.

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