Toda essa dificuldade que nós temos de lidar com o sofrimento humano, com esse sofrimento em nós, é que a nossa interna condição de resposta, condicionada para essa presença da experiência do sofrimento, é a resposta da separação. Nós não aprendemos a acolher a vida como ela acontece, e isso nos impede de investigar a natureza do sofrimento, a verdade do sofrimento, o que ele é ali, o que ele representa ali.
Repare, não é para aprendermos algo com o sofrimento, mas é para descobrirmos a verdade desse elemento presente no sofrimento, que é o "eu". Não há uma real separação entre o sofrimento e aquele que sofre. No entanto, a nossa formação, a nossa educação, o nosso aprendizado foi exatamente esse, de que existe uma separação entre o sofrimento e esse que sofre.
Então, nós temos a conclusão, já estruturada em nós pelo modelo do pensamento que recebemos, de que o sofrimento é um elemento para ser rejeitado, e não para ser visto, olhado, investigado e compreendido. Aqui, o contato com o momento presente precisa ser, naturalmente, um contato de descoberta, de constatação, o que requer a presença da observação para aprender sobre isso.
Nós passamos uma vida inteira vivendo momentos de sofrimento, tendo diversas formas de sofrimento. Quando nós perdemos um ente querido para a morte, lá está o sofrimento; quando somos rejeitados, lá está o sofrimento; quando não conseguimos o que desejamos, lá está o sofrimento; quando o medo está presente, quando a raiva está presente, quando a preocupação está presente... É assim que nós temos funcionado.
Estamos funcionando nesse modo; o modo é "alguém" sofrendo. Essa é a forma, esse é o modelo dessa existência do "eu", dessa existência da "pessoa". E, no entanto, não sabemos lidar com o sofrimento, porque não aprendemos a verdade sobre o sofrimento. A verdade sobre o sofrimento é que a presença do sofrimento requer a presença desse sofredor.
É a forma como lidamos com a experiência que determina a presença de uma entidade aqui, nesse instante, em rejeição à vida como ela acontece, às experiências como elas surgem, então nós temos a presença desse sofredor. Aquele que sofre está sofrendo em razão da imagem que construiu sobre ele mesmo, sobre o que ele merece ou não merece.
Nossas frustrações, decepções, conflitos com as pessoas, com as situações são estabelecidas em nós em razão da presença dessa imagem, dessa autoimagem que o pensamento em nós construiu sobre quem nós somos - uma imagem construída pelo pensamento. Portanto, você como alguém presente é essa imagem.
Você é essa autoimagem, essa é a pessoa - a pessoa que se vê rejeitada, que se vê não amada, a pessoa que se vê perdida quando perde alguém que ama, a pessoa que se vê não merecedora, a pessoa que precisava vencer e não conseguiu, a pessoa que foi abandonada, esquecida, a pessoa de quem as pessoas não gostam, a pessoa com quem as pessoas também não querem falar. Então, a imagem que nós construímos sobre quem nós somos nos separa da experiência e nos coloca nessa condição de sofrimento.
Podemos eliminar, internamente, psicologicamente, em nossas mentes, dentro de nós mesmos, essa condição interna de autoimagem? Podemos olhar para aquilo que somos, sem a defesa de uma autoimagem? Tomando ciência daquilo que está presente nesse instante, sem a tentativa de proteger uma imagem que o pensamento tem construído? Essa é a forma real de entrarmos em um direto contato com o sofrimento, com esse aprender sobre nós mesmos, o que representa aprender sobre esse que sofre, sobre esse rejeitado, anulado, de quem não gostam, que perdeu as coisas, que foi abandonado.
Quando aprendemos a olhar para nós mesmos, sem esta autodefesa psíquica, sem essa ideia de alguém para ser protegido, defendido, sem a ilusão de alguém que não merece - aprender a olhar para si mesmo sem essa autocompaixão, sem essa autopiedade, sem essa auto comiseração -, eliminamos essa separação entre essa autoimagem e aquilo que é a causa da dor, que é a causa do conflito, que é a causa do sofrimento.
Quando não temos a separação entre essa imagem, essa autoimagem, e o sofrimento, ficamos diretamente em contato com a experiência sem o "eu", sem o experimentador, sem esse "ego", sem esse "mim", sem essa autoimagem, porque eliminamos esse espaço, eliminamos essa separação; e quando isso acontece, nós temos o fim para o sofrimento, porque temos o fim para essa autoimagem.
O seu encontro com a Vida requer a ausência da imagem e, portanto, requer a ausência do pensamento. Notem a importância disso! O que é o pensamento? O pensamento é essa estrutura de autodefesa psíquica, de imagem. São essas imagens que o pensamento tem construído, que tem colocado uma identidade presente se separando da experiência. Então, nós temos que descobrir a vida acontecendo aqui, sem o pensamento.
Nós precisamos do pensamento funcional, prático e técnico para lidarmos com assuntos bem objetivos na vida, como consertar uma máquina, encontrar a casa de alguém a partir do endereço - essa é a presença do pensamento -, ou se lembrar do nome desta ou daquela pessoa. Então, aqui está a presença do pensamento.
Mas não precisamos do pensamento que gira em torno dessa autoimagem, que produz apegos, desejos, medos, autocompaixão, autopiedade, a ambição, a inveja, o desejo de controlar, de possuir, de se agarrar, o pensamento que produz a dependência emocional, a dependência física, a dependência psicológica de ser aceita, de ser amada como "alguém", como uma "pessoa". Essa qualidade de pensamento está protegendo essa autoimagem, está nos posicionando na vida nessa ilusão, na ilusão da separação, na ilusão da dualidade.
Então, é o descarte do modelo do pensamento, esse elemento que vem do passado, que está alimentando essa ilusão, a ilusão dessa egoidentidade. Isso requer a presença de um contato com a Vida, dando uma resposta real para ela. Aqui estamos enfatizando com você a beleza desse encontro com a ação, com o sentir e também com o pensar - a verdade sobre o pensar.
O que é o pensar? O pensar é resposta inteligente a esse instante, sem o modelo do passado, sem o modelo do pensamento. Nós nada sabemos sobre a importância do real contato inteligente e livre com o momento presente, o que requer a presença de uma ação livre do "eu", de um sentir também livre do "eu", de um pensar livre do ego, livre dessa autoimagem. E é isso que nós estamos aqui explorando com você, aprofundando com você, tendo essa descoberta.
A Realidade de Deus, a Realidade da Vida, a Realidade deste Ser verdadeiro não é essa autoimagem, não é esse "mim", esse "eu", essa "pessoa". Podemos atender à vida como ela acontece, sem colocarmos a presença de um pensador, de um experimentador, desse elemento que vem do passado e olha para o mundo a partir das suas escolhas, predileções, aceitações e rejeições? Portanto, esse é o contato real, lúcido, verdadeiro, inteligente; estamos diante da Vida como de fato ela é, e não como o "eu", o "ego", esse "mim" deseja, espera, busca.
Portanto, a Verdade da Vida é a Verdade d'Aquilo que está presente quando o pensamento não está mais construindo histórias em torno de uma identidade que ele construiu. O seu contato com as pessoas a partir dessa autoimagem, o seu contato com objetos, com situações, com incidentes, com acidentes a partir dessa autoimagem é o contato da separação. Então está presente essa divisão entre você e a vida como ela acontece; e nesta divisão está estabelecido esse espaço de separação, e nesse espaço o conflito está presente, o sofrimento está presente, a desordem está presente.
Aqui, juntos, estamos olhando diretamente para tudo isso para irmos além dessa ilusão, investigando essa questão do "eu", desse "mim", dessa "pessoa". A Vida é Real quando não temos mais essa abstração de uma ilusória identidade que se vê separada dela, fazendo exigências, tendo escolhas e procurando se reafirmar, vez após vez, após vez.
Toda essa movimentação da autoimagem, desse centro, que é o "eu", que é o "ego", é a movimentação do isolacionismo egocêntrico; e se isso está presente, não importa o que o ser humano tenha realizado externamente, essa realização ainda está dentro da ilusão de uma identidade presente que acredita ter realizado, que acredita poder segurar, controlar, possuir, e, assim, não há Amor, não há Paz, não há Liberdade, não há Real Felicidade, porque o sentido ilusório de "alguém" separado da vida está presente.
Não existe esse "alguém"! Nós estamos diante da Vida; a Vida é essa Realidade Divina, e esta Realidade é a Verdade do seu Ser, esta Realização nesta vida é a Realização de Deus. É o que estamos trabalhando aqui com você nesses encontros on-line nos finais de semana. São dois dias juntos: sábado e domingo. Fora esses encontros on-line, temos encontros presenciais e, também, retiros. Se isso é algo que faz algum sentido para você, já fica aqui um convite.
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