terça-feira, 14 de novembro de 2017

A ilusão da busca da felicidade

Em geral, o olhar que você tem para o mundo, para a vida, para tudo à sua volta, é algo orientado por escolhas, desejos e medos, algo que você constantemente está tentando manipular; essa é a base do condicionamento humano. Nós não ficamos com a realidade do momento presente e isso significa que não ficamos com a verdade do que é, daquilo que está aqui. Assim, a totalidade dos eventos, acontecimentos, está sempre sendo interpretada mentalmente, ou seja, estamos constantemente interpretando a vida, a realidade, através do pensamento, das ideias. Estamos sempre tentando acertar, ajustar a totalidade dos acontecimentos, dos eventos. 

Não podemos nos aproximar da Verdade através do pensamento. Não há nenhuma realidade no pensamento, pois ele é apenas um fenômeno acontecendo, como qualquer outro, e não pode dar significado a nada. O pensamento não pode interpretar o que acontece, nem pode interpretar a vida, essa coisa tão vasta e misteriosa, e, no entanto, é isto que você tem procurado fazer através dele.

Todo o conhecimento e todas as informações sempre envolvem a noção de tempo, espaço e de um percebedor das coisas. Então, perceber as coisas está sempre nessa noção de tempo, espaço e um percebedor, com o pensamento e suas ideias sobre o que acontece. O que estou dizendo é que toda noção que você tem, por exemplo, sobre o relacionamento em família é algo que você, como um percebedor do que está acontecendo ou parece estar acontecendo, está sempre avaliando no tempo e espaço. Você está sempre criando uma história particular, pessoal, sobre tudo isso e, é claro, está muito envolvido com essa história.

A sua identidade pessoal está dentro dessa história. Você é o percebedor, no tempo e espaço, e isso falsifica completamente a realidade do fenômeno, desse simples acontecimento. Você está sempre julgando, comparando, aceitando ou rejeitando, e isso está produzindo sofrimento para este falso "eu" presente, porque é ele esse percebedor do tempo e espaço, dentro dos eventos e acontecimentos. Isso é completamente falso, pois não é possível você conhecer a totalidade dos acontecimentos, eventos, sendo um percebedor, identificado com a ilusão dessa falsa identidade.

Todas essas informações envolvendo tempo e espaço são somente uma criação do próprio pensamento e, consequentemente, essa representação mental que você faz termina sendo, necessariamente, dualista. Em outras palavras, ela está julgando o que é bom e o que é mau, o que é certo e o que é errado, e está dentro dessa coisa de gostar ou não gostar. Veja como isso é interessante: essa é a dualidade e é exatamente isso que sustenta a ilusão de um sofredor; e o sofrimento somente é possível quando existe um “sofredor”. Esse é o mundo que você conhece quando está perdido na mente, identificado com essa crença.

A mente cria um tempo e um espaço psicológicos — tenta evoluir dentro desse espaço e, para evoluir, ela precisa de tempo. Ela nunca está satisfeita com o que está surgindo neste instante. Ela está imersa em todo tipo de conhecimento, experiências, e tentando transformar "o que é" numa outra coisa. Então, ela cria todo tipo de ilusão, sendo a maior de todas elas a busca da felicidade; projeta uma “felicidade” que ela idealiza e vai em busca disso, através de uma realização pessoal, profissional, amorosa... Esse é o modelo supostamente lógico, verdadeiro, da realidade, no qual você foi educado para viver, mas, na verdade, é somente uma representação psicológica da vida, uma interpretação mental de uma realidade puramente subjetiva, imaginária. Agora, fica claro para você porque chamam isso de “estado de sono”, no qual o “sonho” da separação, de uma entidade separada de Deus, está acontecendo; como se houvesse você e Deus, você e a Verdade... Esse é o “sonho” acontecendo nesse "sono" da ignorância sobre quem você é verdadeiramente.

Há uma beleza nesse momento chamado Satsang, onde podemos discorrer sobre isso, não com palavras, mas através da investigação. Há algo que pode romper com tudo isso: uma vida de entrega e dedicação à investigação da Verdade. Você nasceu somente para isso. Nasceu para descobrir que não nasceu, que não há nenhuma entidade separada aí presente, nessa única realidade que é Deus.

Então, essa representação intelectual, verbal, mental, imaginária que temos do mundo, que se sustenta nessa crença de tempo, espaço e percebedor, é algo completamente falso. Isso termina induzindo ao surgimento desse estado de inconsciência, conhecido como “sono”. A base que sustenta tudo isso é a identificação com o pensamento.

Como é que você consegue acompanhar isso? Afinal, ouvir isso significa o que para você? Como isso o toca? Como é que lhe soa saber que você não é essa pessoal consciência, que não é quem acredita ser, que não existe um indivíduo presente nesse momento?

O pensamento sempre é a base do tempo e do espaço; a base para essa falsa identidade "se movimentar".


Ok, pessoal. Vamos ficar por aqui e até o nosso próximo encontro. Namastê.


*Transcrito a partir de um encontro online na noite do dia 18 de Setembro de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (GMT-2 Horário de Verão).

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

A Beleza Dessa Realização





Você não precisa aprender o que já sabe, precisa apenas se lembrar, mas você anda tão ocupado que não tem espaço para isso. O espaço está sendo tomado por atividades da mente e seus desejos, suas vaidades, seus caprichos, suas buscas… A mente está tomando todo o espaço que você tem para Ser. Então, você casa, tem filhos – ou ainda quer fazer isso – o que implica trabalho, necessidade de trabalhar, necessidade de construir uma vida para atender a todos os seus desejos. O desejo tem muitas consequências. Algumas podem parecer boas e outras não, mas essas consequências estão sendo boas ou ruins para este que está se ocupando e, quando você se ocupa, seu espaço e tempo são tomados. Assim, não há tempo e espaço para Ser, para a Felicidade, para a Realização, para a Completude, que é esse Amor, que é essa Liberdade. 

Quando você vem a Satsang, você se dispõe a se desocupar e a encontrar um tempo para Ser, para investigar a Natureza do Ser, a Natureza da Realidade. Porém, não se pode investigar a Natureza do Ser, a Natureza da Realidade, e se deparar com essa Totalidade, com essa Completude, com essa Liberdade, com esse Amor, com essa Felicidade, enquanto você estiver se ocupando com a “pessoa” e seus desejos – o desejo de ser pai, de ser mãe, de ser chefe de família, de realizar alguma coisa… A “pessoa” nunca terá tempo e espaço para outra coisa, a não ser para ela mesma, mas quando ela está, não há Verdade e, se não há Verdade, a ilusão opera, e ilusão é sofrimento. 

A ignorância não é real; a Verdade apenas não foi lembrada. A Verdade não é lembrada enquanto a ilusão da ignorância se mantém. A ilusão da ignorância é esse afastamento para outras coisas, as quais ocupam o lugar da Verdade, do Divino, de Deus, da Consciência, da Sabedoria, da constatação de sua Natureza Divina, de sua Natureza Real. Por isso, os sábios falam da importância de ir além do mundo, de renunciar o mundo. Agora, você compreende a implicação disso! Renunciar o mundo é viver sem conflitos que o desejo produz. Renunciar o mundo significa estar “morto”! 

Por isso que Satsang é assustador! Por isso que alguns vêm e depois desistem! Satsang é para todos, mas, na verdade, é só para alguns, porque, no fundo, ninguém quer morrer. Todos querem a Felicidade, a Paz, a Liberdade, a Verdade, o Amor, mas querem da forma que a mente deseja. Em suma, você quer ter tudo que adquiriu e tudo com o que se identifica, mas quer permanecer sem conflito. Então, a Felicidade é uma coisa impossível! 

Ser “alguém” significa ter coisas, o que faz com que você se sinta “vivo”, e “alguém vivo” não está em paz, porque lidar com o que se tem dá muito trabalho, muita preocupação, toma muito espaço e tempo. Entenderam a questão toda? Por isso se fala da renúncia… É de fato uma morte! Não é, basicamente, abandonar tudo do lado de fora, porque isso é relativamente fácil. Se você tiver coragem de dizer não a tudo e a todos, você pode conseguir isso. Alguns já fizeram! Mas a “morte” não está nisso! É algo muito mais radical! É uma coisa interna! 

Esse espaço e esse tempo que se fazem necessários para esse Despertar começam e terminam aqui e agora. Começam com a lembrança de que você não é corpo e que esse corpo não é seu, nem aquilo com que ele entra em contato – pessoas, objetos e lugares. Então, o cerne da questão é: “Quem sou eu?”. 

Percebam a beleza do Despertar, a beleza desse Florescer, a beleza dessa Realização… Não se trata do que está fora do corpo, nem do que está dentro da cabeça, mas dessa constatação de sua Real Natureza, dessa “Coisa” inata. O reconhecimento Disso, a lembrança Disso, é a morte da ilusão da ignorância, é a morte da “pessoa”, é a morte dos desejos e, quando os desejos terminam, o medo também termina. Eu não estou falando de uma morte real, mas de uma morte ilusória, porque só pode morrer aquilo que é uma ilusão. O que é real não morre! Só pode desaparecer aquilo que apareceu, e aquilo que apareceu vai desaparecer, isso é uma questão de tempo. Então, não importa o que você ama; não é seu! 

Reparem como é lindo isso! Não há nada que seja permanente, que permaneça imutável, intocável pelo desaparecimento. A impermanência é a natureza das aparições, porém há algo aí que não pode desaparecer, porque nunca apareceu! Você sabe que está aí, mas você nunca viu! Há algo que está presente, não pode ser negado, mas nunca vai ser encontrado, porque nunca vai ser visto! Isso é como os olhos: você sabe que estão aí, mas você nunca os viu. Para vê-los, você tem que olhar para o espelho. Mas, ao olhar para o espelho, você vê os seus olhos ou o espelho? Percebe? Você nunca vai ver os seus olhos! No máximo, você vai ver algo que reflete alguma coisa. Da mesma forma, o seu Ser não pode ser visto, a sua Natureza Verdadeira não pode ser vista, não pode ser capturada, apanhada, mas Ela está aí. Você se esqueceu de Ser, você se esqueceu do que você é, e agora está com objetos, está com espelhos. Você nunca vai saber quem você é! Lembrar é possível, saber não! 

A única coisa que você tem feito de forma equivocada, de forma errônea — e por isso está todo enrolado, sofrendo, confuso, desorientado, assustado, cheio de problemas — é se confundir com o que você não é, esquecendo quem, de fato, você é. Você está fazendo isso olhando para espelhos, encontrando coisas que você não pode segurar. Você não pode segurar suas riquezas materiais, suas riquezas emocionais, suas posses… Pessoas são posses psicológicas, imagens psicológicas e coisas são posses físicas, mas você não pode segurar isso. Não pode segurar o corpo, porque também é uma riqueza que não lhe pertence. Quando você adoece ou o corpo começa falhar, você fica muito desesperado, você fica muito assustado, mas o corpo vai desaparecer. Você tem que usar esse tempo e esse espaço para se lembrar de que você não é o corpo e que o melhor lugar para se estar é em Satsang, sobretudo quando o corpo está falhando, pois é onde você descobre que não é o corpo. 

Na Índia, é muito apreciada a oportunidade de estar diante de um Jnani, de um Sábio, de um Mestre, que é aquele que vive em totalidade, desidentificado do corpo e, consequentemente, do mundo e das aparições. Então, confia-se na Graça, na Presença, na Sanidade, na Santidade de um Mestre vivo, porque, talvez, um olhar seja suficiente para que se deixe a forma de modo sereno, sem gritos de desespero. Se você entrega a vida a Deus, então entregue também a sua morte a Ele! Você não controla a sua vida, portanto você não pode controlar a sua morte. Mas, se você entrega a sua vida, Deus cuida da sua morte. Por isso, o ponto aqui sempre será esse: Quem é você? 

Se você perguntar a um Sábio: “Você sabe quem você é?”, ele lhe responderá: “Não! Eu não sei quem sou… Eu Sou!”. Com essa Realização, quem fica para saber? Não fica nada! Podem perguntar: “Você é um Iluminado, um Realizado?”. Não sei! Eu só sei o que não sou: não sou o corpo, não sou a mente, não sou o mundo, não sou as experiências, não sou pai, não sou mãe, não sou avô, não sou nenhuma história atrelada a esse corpo. Então, se você disser que eu sou bonito, isso será uma questão sua e não minha; se você achar que sou feio, isso será uma questão para você e não para mim; se você me chamar de Guru, isso será uma questão sua; se você me chamar de fraude, também será uma questão sua e não minha. 

Simples, não é? Eu sou qualquer coisa que você quiser que eu seja neste momento, porque no momento seguinte você vai querer outra coisa e terá também essa liberdade de me ver da forma que você quiser. Eu não me importarei também, porque eu sei o que não sou; porque eu só sou o que Sou. 


*Trecho de uma fala em um encontro presencial na cidade de Cabedelo - João Pessoa - em Dezembro de 2016

terça-feira, 7 de novembro de 2017

A Meditação é o seu Estado Natural


Vocês precisam aprender a lidar com o corpo e a mente da mesma forma que conseguem lidar, com tranquilidade, com o carro de vocês. Você entra no carro, liga e dirige… Volante, pedais, marcha… Depois que chega ao destino, sai do carro, tranca-o e pronto. Depois que deixa o carro fechado, você não se comporta como se ainda estivesse dirigindo; o carro fica para trás.

Há milênios as pessoas procuram estar no controle dessa máquina, desse carro, chamado “corpo-mente”. Elas tentam isso através de uma prática chamada meditação e eu quero falar um pouco sobre isso, porque eu considero a Meditação como um assunto de extrema importância, se você está trabalhando o fim dessa ilusão – a ilusão da egoidentidade, da separatividade.

Há milhares de anos as pessoas tentam controlar a mente. Elas têm frases como: “Se você controla a mente, você controla o corpo!”. A questão é que, de fato, é essencial que você não se prenda à ideia “eu sou o corpo”. Todo problema humano está exatamente nisso: ele tem um carro e, quando o deixa fechado, continua se comportando como se estivesse dirigindo. Então, é claro que deve haver desordem na vida dessa forma. Esse é um comportamento completamente doentio; é o comportamento da egoidentidade.

Você está identificado com o corpo, assim como alguém está identificado com o carro depois que o desliga e não precisa mais dele. O corpo é só uma máquina, um instrumento da Consciência, mas quando ele fica a serviço dessa identificação, disso que chamamos de “mente egoica”, surge o problema.  Na hora em que a máquina está desligada, ela não está em uso, então você a deixa quieta. Se ela está em uso, ela está em ordem. Se ela não está em uso e, mesmo assim, você se comporta como se ela estivesse, então tem-se a desordem, a confusão, o sofrimento, a miséria e todo problema humano que conhecemos.

A tentativa de controlar a mente e o corpo através de uma técnica chamada meditação já tem sido feita há muito tempo e, até hoje, o máximo que se conseguiu foi um artificial controle sobre esse mecanismo através da meditação tradicional (uso de uma técnica de respiração, de repetição de mantras ou de determinadas posturas físicas).

Meditação é algo presente como Consciência, como seu próprio Ser. Seu eterno Ser é Consciência, é Meditação. Então, você não precisa obter isso – essa liberdade de deixar a máquina desligada quando ela não estiver em uso – porque isso já é inato, já está aí. Meditação é o seu Estado Natural. Tudo que você precisa é deixar a máquina desligada e não se comportar como se ela estivesse ligada. E como é que você se comporta assim? Pensando e produzindo o cultivo de sentimentos atrelados ao pensamento, quando o corpo só está parado, sem fazer nada.

Quando o corpo está ativo, fazendo alguma atividade como caminhar, comer, lavar pratos, cuidar da casa, escovar os dentes, você não precisa da mente envolvida nisso; a não ser que a atividade seja intelectual, que precise do uso de palavras. Nesses casos, o intelecto irá utilizar uma forma ordenada para trabalhar as palavras, como na escrita de um livro. Para isso, a sua atenção inteira permanece nas palavras que você está colocando no livro — você não fica tratando das contas que você tem para pagar, nem da malcriação que seu filho lhe fez, ou da raiva do marido, porque a atividade ali é só escrever o livro, nada além disso! Não se confunda com a desordem que o pensamento quer produzir.

Reparem que estamos abordando essa questão da Meditação como algo totalmente diferente de uma prática, um sistema ou uma metodologia. Isso já tem sido tentado e não tem dado certo. A Meditação é seu Estado Natural, de desidentificação do experimentador em dada experiência. Até mesmo para fazer uso de um pensamento, quando se faz necessário, não precisa de você ali como um pensador, como o autor das ações, ou como uma pessoa magoada, ofendida, ferida, ou mesmo entusiasmada, alegre (o que, na verdade, é puro excitamento mental). Na Índia, eles chamam de Sahaja Samadhi, isso que é você em seu Estado Natural.

No meu caso, eu não saio da Meditação. Sair da Meditação seria me comportar como se o carro ainda estivesse comigo, em vez de deixá-lo desligado, parado. Isso criaria desordem! Isso seria uma completa desordem! Seria como se eu estivesse no trânsito e saísse atropelando as pessoas, me chocando com elas, conflitando com o que é. Para isso, se fariam necessários o corpo e a mente, e eu não preciso colocar o corpo, a mente e tudo que ela representa (sentimentos, sensações, emoções) na experiência das relações… Isso seria a ilusão de uma máquina ainda ligada.

Vocês compreendem o que estou dizendo?

Se você está na ilusão de estar dirigindo um carro enquanto ele está parado, você está na ilusão da separação, do controle, do medo, do desejo, da confusão, vivendo toda a miséria que a mente tem construído. É preciso estar atento, porque isso é uma coisa muito viciada, cultural e socialmente aprendida—uma herança dos pais, dos avós, da sociedade, do mundo, da insanidade humana… Essa é a confusão de ser uma pessoa na experiência de falar, de se relacionar, de comer, de dormir, de andar, de trabalhar, de lidar com os outros…


Então, o que é Meditação? Meditação é você em seu Estado Natural, livre do conflito que a mente produz, ou procura produzir, o tempo todo, como alguém se passando por você na experiência, dirigindo um carro imaginário. Então, você fala demais, você pensa demais, você sente muito, se emociona o tempo todo e, é claro, se irrita muito, se aborrece muito, se contraria muito, se chateia muito…

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial na cidade de Cabedelo - PB - em Agosto de 2017 

sábado, 4 de novembro de 2017

Planeta dos Zumbis



A pergunta é: por que você não está lidando com a Realidade? Será mesmo necessário encontrá–La? Ou Ela é algo presente, mas seus ouvidos não estão atentos e seus olhos não estão abertos para Ela?

O que tenho notado à minha volta é um completo descaso com a Realidade. Não temos olhos nem ouvidos para Ela, e toda essa negligência se mostra como confusão. A mente é expert em criar confusões de todo tipo. Você não se encontra afastado da Realidade porque não possui olhos ou ouvidos, mas porque não tem interesse nisso verdadeiramente. E assim você tem conduzido a sua vida… uma vida aborrecida, tediosa, infeliz, cheia de conflitos!

Você diz: “Eu me esforcei tanto, me dediquei tanto, me sacrifiquei tanto por ele, por ela, e, no entanto, ele, ou ela, não me considera… Afinal, eu sou sua mãe, sou seu pai, sua namorada, seu namorado…” Dessa forma, há um constante conflito, um constante pesar, uma constante dor, um constante sofrimento. Tudo isso porque você está cultivando essa imagem, na qual você se sente rejeitado, manipulado, usado… É apenas uma imagem que se projeta em autoimportância nessa relação.

Tudo isso é muito simples! É simples ver o quanto você está agarrado a essa imagem que você tem do outro e de si mesmo. Reparem como o ego é simples e ao mesmo tempo complexo! O que estou dizendo é que você não tem nenhum problema quando não tem essa imagem de si mesmo, mas você aprecia muito isso! Viva livre da imagem, desse falso “eu”!

Você despreza a Realidade e fica com a ilusão. A ilusão é uma permanente fonte de vitalidade para esse “zumbi”. Vocês sabem o que é um zumbi? É uma criatura estranha. Ela não está viva e nem está morta, e tudo que ela faz é assustar. Esse falso “eu”, que alguns chamam de ego, é um zumbi. Não é uma coisa viva – não existe nenhum ego que seja real – mas também não é uma coisa morta, a ponto de se dizer que não está aparecendo.

Enquanto houver a fantasia, a ilusão, toda essa confiança que se dá aos pensamentos, aos sentimentos, às crenças, esse “morto-vivo” continuará assustando! Você vem ao Satsang e parece querer se livrar disso, mas, no momento seguinte, lá está você de volta, se levantando de um túmulo e procurando a quem assustar. Eu fico bastante impressionado. É muito assustador! Com um pouquinho mais disso, eu mesmo ficaria assustado (risos).

Afinal, por que você está em Satsang? Você quer mesmo se livrar dessa falsa identidade, desse personagem, dessa autoimagem? Quer exorcizar de uma vez por todas o zumbi? Então você tem que parar de alimentá-lo. Sabe como você alimenta isso? Mantendo essa crença sobre quem você é, no contato com o mundo, com a vida, com as pessoas, com as experiências.

Tudo em sua volta confirmará a crença que você tem acerca de si mesmo… Absolutamente tudo! Aquela mulher que vive com você dirá que você é o marido dela. As crianças pequenas que nasceram chamarão você de pai. Aquela senhora mais velha que o criou irá chamá-lo de filho, e você olhará para ela e a chamará de mãe. Aquele homem que vive com ela, você chamará de pai. Se aquela moça que mora com você, que o chama de marido, tiver um namorado, outros chamarão você de chifrudo.

Tudo confirma que você é alguém, porque todos o tratam como alguém para eles e esperam ser tratados como alguém por você. Isso é um complô! Conspiração seria a palavra mais correta. Toda a sociedade espera de você… Você tem uma imagem que a sociedade lhe dá, que o mundo lhe dá, que todos à sua volta lhe dão. E você adora isso! Faz uma questão enorme de ser considerado! As pessoas têm que lhe dar bom dia, boa tarde, boa noite… Você quer ser alguém respeitado, quer se sentir considerado, amado. Sua imagem não pode ser ferida, ofendida, magoada, discriminada, rejeitada, muito menos odiada, abandonada, traída. Dessa forma, o zumbi continua vivo.

Hoje, nós estamos no planeta dos zumbis. Esse é o estado da humanidade nesse momento, com um modo de viver completamente fútil, medíocre, infeliz, miserável… E tudo isso porque não se presta atenção, não se escuta e não se vê. É necessário estar atento nesse escutar e nesse ver, para que esse falso “eu”, essa falsa identidade, esse comportamento de zumbi, de um morto-vivo, desapareça. Este é o Despertar, a Iluminação, a Realização de Deus.

Enquanto você estiver mantendo essa imagem de si, você terá muitos à sua volta para apreciá-la e desprezá-la. Pela apreciação e pelo desprezo, eles alimentarão essa imagem que você tem de si mesmo e, assim, você permanecerá dentro da conspiração dos zumbis; continuará sendo parte desse filme. Esse filme é o sonho da ignorância, o pesadelo da ilusão. É necessário Acordar, Despertar! Pare de sustentar essa imagem! Pare de buscar apreciação, reconhecimento, satisfação, preenchimento, compreensão e aceitação no outro! Só então você poderá descobrir o que é ser livre. Claro que isto significa o fim do planeta dos zumbis — o seu mundo tem que ser destruído. Na realidade, é literalmente assim que acontece.

Você não encontrará Ramana Maharshi, Buda, Jesus, Osho e Krishnamurti fazendo parte desse mundo. São seres de outra espécie, não fazem parte da espécie dos zumbis. Por isso que chamavam isso de nascer de novo; e para nascer tem que morrer! Quando você morre, o mundo desaparece. Eu falo de uma morte real, para um nascimento real. Então, primeiro você morre de verdade e nasce de verdade. Assim, você não é mais um zumbi, não é mais uma espécie de criatura que nem está morta e nem viva. Compreende agora? O mundo não compreenderá isso. Um homem como Cristo caminha nesse mundo como alguém diferente, uma espécie diferente, um ser diferente… Há uma qualidade nova, uma fragrância, um perfume, uma leveza…


A Felicidade é a natureza, a qualidade, dessa Presença. Tudo isso simplesmente acontece quando essa imagem, esse sentido do “eu, essa ilusão, esse pesadelo com zumbis assustados e assustando, se desfaz.

*Transcrito de uma fala em um encontro online na noite do dia 1º de Setembro de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h - Para participar baixe o App Paltalk.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O Despertar para a Meditação



Em Satsang, nos deparamos com uma limitação, que é a limitação da linguagem, da fala. O propósito, nesses encontros, é que você vá além da fala, e, se ficarmos em silêncio, vá também além desse silêncio – isso porque tanto o silêncio quanto a fala não podem, de fato, ajudar.

Quando você aceita as limitações da linguagem, entende que nada do que está sendo falado aqui é, em última instância, algo verdadeiro, algo final. Contudo, ao mesmo tempo que as palavras podem nascer de uma teoria, de uma crença, elas também podem nascer de uma vivência, de uma experiência direta, e, em razão disso, ficam carregadas de um Poder, de uma Presença Real. Nesse sentido, as palavras se tornam mais do que meros apontamentos verbais; elas entram como bombas poderosas e podem ter um efeito completamente destruidor nessa estrutura do ego, que é todo esse condicionamento que todos trazem para dentro do Satsang. O mesmo acontece nesse silêncio, para aqueles que sabem ficar nesse silêncio, que sabem entrar nesse silêncio.

Nosso interesse aqui não está em estudar um sistema filosófico, espiritual. Aqui, não temos a preocupação de não errar. A Sabedoria não se preocupa com isso, a Verdade não se preocupa com isso, mas um sistema filosófico sim. Quando se adquire um determinado conhecimento, você tem a preocupação de se manter nele, naquilo que é só uma nova doutrina, um novo sistema de crenças, algo aprendido; isso não é Sabedoria.

Assim, o poder desse encontro não está exatamente na fala, mas no efeito que se encontra por trás dela, naquilo que pode ser sentido aí, nessa explosão que pode ocorrer aí, neste instante. Uma fala que nasce do Silêncio real, toca o Silêncio real; uma fala que nasce da Sabedoria real, toca a Verdade real presente dentro de você. Portanto, não se preocupe com o conhecimento aqui, nesse espaço. A Liberação, a Realização, a Iluminação, não nasce do conhecimento; Isso acontece com o fim desse sentido egoico, desse sentido de separação.

Nesse momento, você não está ouvindo alguém que sabe das coisas, que sabe de algo que você não sabe. Aqui o ponto é outro! Todo o meu propósito nesse encontro é lhe mostrar como viver sem conflito, sem sofrimento, e não lhe dar algum conhecimento novo. Eu quero lhe mostrar que é possível viver livre do sentido de dualidade, de separação, o que significa viver em Felicidade, que é quando não há mais medo, ilusão, sofrimento. Isso não tem nada a ver com conhecimento, com saber alguma coisa que outros não sabem, conhecer alguma coisa que outros não conhecem; não se trata disso! Trata-se, basicamente, de não se confundir mais com a mente, com as suas criações, com as suas crenças, com as suas ideias. Portanto, quando você estiver em Satsang, já tenha isso muito claro para você: não tente aprender algo aqui! Você está aqui exatamente para desaprender tudo! Trata-se do esvaziamento de todo esse conteúdo, de todas essas crenças, experiências… de absolutamente tudo!

Sabedoria é Meditação e Meditação é ausência de conteúdo. Isso é você em seu Ser, em seu Estado Natural. Estamos sempre diante de algo novo, desconhecido, da vida em seu movimento. Assim é a Sabedoria, a Verdade, e isso é Meditação! Um outro nome para Meditação é Amor. Na Índia, eles chamam isso de samadhi. Não é um transe, não é uma experiência mística, é você em seu Estado Natural. Nele, você come quando tem fome e dorme quando tem sono. Você tem uma vida normal. Externamente, você é como qualquer outra pessoa, mas não há mais “pessoa” aí, não há mais o “sentido de alguém” presente em uma ocupação profissional, tratando de negócios ou cuidando da rotina do dia.


Percebem que não há nada para aprender aqui? Você não aprende a Meditação, você desperta para Ela. Estou dizendo que você sai do sono e desperta! Você investiga a natureza da ilusão, entrega isso, e, assim, a Meditação floresce. Esta autoinvestigação, esta auto-observação, acontece com essa entrega, essa rendição. Isso é parte da devoção a Deus, à Verdade. Quando isso acontece, você desperta para a Meditação!

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online na noite do dia 30 de Junho de 2017 - Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h (horário de Brasília) - Para participar e só baixar o App Paltalk

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