domingo, 18 de fevereiro de 2018

A vida na mente é um sonho



Satsang é uma oportunidade de investigação da natureza da Consciência, da natureza da experiência, da natureza do Ser. Afinal, o que é essa experiência acontecendo aqui e agora? O que é essa Consciência aparecendo aqui e agora? Qual é a Verdade desse presente momento?  

Nós estamos tendo um contato com o mundo externo através dos sentidos. Desta forma, nossa percepção do mundo externo é uma percepção sensorial. Essa experiência de mundo é semelhante à experiência do sonho. É bastante interessante essa comparação, ela é perfeitamente adequada para esse tipo de investigação. No sonho, você tem um mundo semelhante a esse, um corpo semelhante a esse e você tem um contato com o mundo externo, com objetos através dos sentidos da mesma forma que você tem nesse momento, nesse estado que chamamos de “estado de vigília”.

Então, a sua experiência de sonho é semelhante à sua experiência no estado de vigília. Aqui, eu falo do ponto de vista do sentido de consciência e de experiência sensorial. No sonho, você pode ouvir, ver, sentir; toda experiência sensorial está presente lá e aqui. Da mesma forma que, durante o sonho, você se vê como um experimentador experimentando, você se vê aqui também, como experimentador experimentando. No sonho, você se separa da experiência exatamente como você faz nesse momento, no estado de vigília.

Assim, nós perguntamos: Qual é a natureza dessa experiência, qual é a natureza dessa Consciência que está presente nesses dois estados, exatamente da mesma forma? Qual é a natureza do Ser, qual é a Natureza do seu Ser? Onde você está de verdade? O que é que o faz ter tanta certeza de que esse estado de vigília é mais real do que aquele estado de sonho? Em que sentido ele é mais real?

Quando você sai do sonho e acorda pela manhã, você vê que o sonho não era real. Mas, enquanto o sonho acontecia, ele era muito real e não havia o estado de vigília, somente o estado de sonho. Assim, quem lhe garante que você está acordado nesse momento? Quem lhe garante que esse estado no qual você se encontra nesse momento é real, é o único e último estado de seu Ser? O “único” não pode ser, porque você sabe que o estado de sonho se apresenta também como uma experiência na sua vida, assim como o sono profundo. Portanto, esse não pode ser o seu último estado, assim como não pode ser o seu estado verdadeiro de Ser, uma vez que você também tem a experiência do estado de sonho e de sono profundo.

Ok! Mas, por que começamos falando dessa forma para você? Porque se você não conhece o seu Estado Real e Verdadeiro, em qualquer um desses três estados – vigília, sonho e sono profundo –, você é sempre incompleto. É incompleto porque esses estados não são reais, eles são mutáveis, aparecem e desaparecem. O estado de sono profundo é substituído pelo estado de sonho, que é substituído pelo estado de vigília, que, depois, é substituído pelo estado de sono profundo novamente. Assim, o que estou lhe dizendo é que esses três estados não são o seu Estado Real e Definitivo, seu Estado Natural. São simples estados experimentados pela mente.

É a mente que experimenta o sono profundo, na ausência do mundo e do experimentador; é a mente que experimenta o estado de vigília, com a presença do experimentador, da experiência, assim como do sonho também. A mente é uma constante nessas três experiências, nesses três estados. No sono profundo, ela mergulha no desconhecido; no estado de vigília e de sonho, ela sustenta o conhecido. Todos esses três estados estão acontecendo em sua Natureza Real, em sua Natureza Verdadeira.

Nós estamos chamando sua Natureza Real de Ser, Consciência, Verdade, Presença, mas reparem que ela não faz parte da vigília, do sonho e nem do sono profundo. Estamos dizendo que o mundo não é real, que o corpo é parte do mundo, que o mundo e o corpo são parte da mente e que, assim, a mente também não é real.

Eu estou levando você por um caminho que Ramana chamava de “Autoinvestigação”. Estamos investigando a Natureza do Ser, a Natureza da Consciência. Tudo que você pode relatar, contar, lembrar, recordar... nada disso é parte de sua Natureza Verdadeira. É apenas parte do sonho da mente, parte de uma de suas manifestações.

Quando você acorda pela manhã, sabe que todo aquele mundo do sonho estava dentro da mente, fazia parte apenas da mente, de uma ilusão pessoal, porque era um sonho pessoal. Repare que havia muitas pessoas durante o seu sonho, mas elas não estavam num mundo comum, estavam apenas nesse “seu” mundo particular. Agora, no estado de vigília, você acha que está num mundo comum a todos, então, acha que as pessoas que você vê nesse “seu” mundo, no estado de vigília, estão em um mundo comum. No entanto, isso é algo que pertence ao sonho. Sua esposa, marido, filhos, seu patrão, seu empregado, seus negócios... todos estão somente no mundo privado e particular deste “eu”.

Então, primeiro surge esse “eu” e depois surge o mundo desse “eu”, que não é um mundo comum a todos, porque não existe “todos”. Primeiro você aparece e, então, o seu mundo aparece... Mas, você é o seu mundo e o seu mundo é você - não existem “muitos”! Sendo assim, só existe a mente e não “muitas mentes”.  A mente é a base dessa ilusão, a ilusão do sonho desse “eu”.

Quando você se confunde com o corpo, você faz o mundo surgir como algo separado desse “corpo” que você acredita que é você. Na verdade, toda essa crença é somente a mente criando essa ilusão, criando esse jogo. Na Índia, eles chamam essa ilusão de Maya. Com o aparecimento desse “eu”, surge o outro, os objetos, as pessoas e o mundo - essa é a dualidade, essa é a ilusão da mente dual, é isso que sustenta a ilusão do sofrimento.  Eu disse exatamente isso: “A ilusão do sofrimento!” e agora você sabe exatamente por quê. Não existe tal coisa chamada “sofrimento”! Isso está na ilusão de um experimentador se separando da experiência de dor. Assim, não existe nenhum sofrimento psicológico, porque não existe nenhuma psique, não existe nenhuma mente como algo separado dessa experiência, do que está acontecendo aqui e agora.

A dor física é a dor do próprio corpo, não tem alguém nessa experiência. Então, isso não é sofrimento, é uma experiência neural, fisiológica. O que quer que esteja acontecendo ao corpo está acontecendo no sonho, em uma das formas de manifestação da mente, mas isso não é pessoal, não tem alguém para sofrer. O corpo pode estar com frio, com fome, com calor, com dor, mas essa é uma experiência neurofisiológica, sensorial, absolutamente natural. Não há alguém nisso! Então, é simples dizermos: “Ninguém nasce e ninguém morre... É só o corpo que parece aparecer e parece desaparecer!”.

Tudo que você busca é descobrir sua Real Natureza. Esse é o único desejo profundo que todos carregam dentro de si mesmos: o desejo de ir além do sofrimento e, portanto, o desejo de ir além do desejo. A Natureza última do desejo é o fim do desejo, é a Felicidade. É interessante dizer aqui que a Felicidade não é a "felicidade" de alguém, mas a Felicidade da Felicidade, é Deus à procura Dele próprio; é a Felicidade no encontro Dela mesma; é o Ser na busca do Ser, na procura do próprio Ser; a Consciência assumindo Consciência. Essa é a Natureza de Deus; essa é a sua Verdadeira Natureza: Ser, Consciência, Felicidade.

Esse é o seu momento de Realizar Isso – a única coisa que você está aqui para realizar! Na Índia, aquele que assume sua Real Identidade, sua Real Natureza, é chamado de Bhagavan... É um Jivamukti! Se você não assumir Isso aqui e agora, sua vida permanecerá semelhante à vida da barata, da formiga, do pássaro ou de uma árvore. Você aparece no cenário (com o assim chamado “nascimento”), cresce, trabalha, casa, se reproduz, adoece, envelhece e morre – exatamente como acontece na natureza. Talvez sofra um pouco mais que uma barata, um pássaro ou uma árvore, justamente e simplesmente, em razão dessa crença forte em uma entidade separada da Existência. Não sabemos até que ponto isso na natureza é tão bem delineado, como acontece com os seres humanos.

Quando você Realiza ou Constata sua Natureza Verdadeira de Ser, Consciência, Felicidade, você está além destes três estados, do qual falamos há pouco. Esse é o seu Estado Natural! Ramana chamava esse estado de “Quarto Estado”, “Turya”, o Estado do Ser, o Estado além da ilusão da separatividade. Então, não há mais a ilusão do experimentador em sua experiência e todo sentido de egoidentidade – que só é possível na mente dualista, no sonho da separação – se desfaz...

Ok pessoal, vamos ficar por aqui! Até o próximo encontro. Namastê!

*Transcrito a partir de um encontro online na noite do dia 22 de Novembro de 2017 - Encontros todas as segundas, quartas e sextas. Baixe o app Paltalk e participe! É livre!

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Qual é a natureza do Eu?


Satsang é um momento de investigação da natureza do EU – este EU que está ciente do que estou ciente. É isto que investigamos nesses encontros: “Qual a natureza do EU?” O EU que sabe que EU SOU e que está ciente que esse mesmo EU está presente e consciente.

Vocês compreendem isso?

Enquanto a natureza desse EU não ficar clara, a confusão ainda estará presente. Toda confusão está assentada na ignorância. Autorrealização é o fim da ignorância e, consequentemente, da confusão. Consciência é a Verdade sobre quem somos. Toda experiência ainda é a Consciência na experimentação, e essa é a natureza do Ser, a natureza da Verdade sobre quem somos, sobre nós mesmos.

A compreensão direta disso é Meditação. Mas isso não tem nada a ver com a postura que o corpo esteja assumindo em um dado momento, ou com uma determinada forma de respiração. Essa Consciência é tudo; é o Vazio Absoluto e, simultaneamente, o Todo Absoluto das aparições… Tudo é essa Consciência! Não existe nenhum objeto, nenhuma aparição separada ou fora dessa Consciência.

Todo erro, toda confusão, está na ilusão de que existe você e o mundo separado. Assim, você se vê dentro do corpo, o que é só uma imaginação do pensamento. Essa imaginação diz que existe um corpo, uma mente, um mundo e um “eu” dentro do corpo, controlando a mente! E você age nessa imaginação, dando verdade a isso!

No entanto, eu estou aqui, dizendo para você, que não existe nada disso, que tudo isso é só imaginação, é só um sonho que a mente tem produzido; estou dizendo que a mente nada mais é que imaginação, assim como o corpo e o mundo. A Verdade, a Realidade, Deus é onde a imaginação aparece. Mas o “deus” que a mente produz ainda é imaginação do pensamento, ainda faz parte do seu próprio mundo. Quando falamos da Verdade, da Realidade, de Deus, estamos falando da Natureza Real do EU – este EU que está ciente de que estou ciente, que é Aquilo que está sempre presente e consciente, que é essa única Realidade! Tudo mais é o sonho imaginário do pensamento, dessa mente, desse falso “eu”.

Vejam como isso é muito básico!

Esse EU Real, a Consciência, é algo além do vazio e de toda plenitude. Há sempre apenas a Consciência conhecendo a si mesma, e sendo em si mesma Tudo! É isso que os sábios, na Índia, chamaram de Advaita, a não-separação. Advaita significa que não há dois, não há sujeito e objeto; tudo é só o sujeito, inclusive o objeto; o verdadeiro EU, além de sujeito e objeto, além do vazio e da plenitude. Sempre existe somente a Consciência. Isso é indefinível, indescritível… Isso é Meditação, é esse espaço de pura Consciência! Agora é um momento no qual você está em Meditação, um momento de pura Consciência, de pura Realidade. Estamos sempre apontando para esta mesma “Coisa”. Aqui, nós devemos aceitar a limitação da linguagem, e sentir este momento, este instante, esta Graça, esta Presença. Não se preocupem com a fala – Isso não está na fala mesmo! Isso está em Você, como sua Natureza Verdadeira. Você é essa Realidade! Você é a Verdade!

Usamos a fala, no entanto, estamos sempre apontando para a sua limitação. Caso contrário, podemos ser vítimas do grande perigo de entrarmos num castelo intelectual, de mera compreensão intelectual da Advaita. Esse castelo é um grande refúgio para esse falso “eu”. Hoje em dia, isso está muito comum, estamos vivendo um momento assim. Não aprendam essas falas ou terminarão presos dentro desse castelo. Advaita não é uma questão de estudo. Advaita é não-dualidade, é não-separação; é uma questão de Realização e não de conhecimento intelectual. Assim sendo, é o Estado Natural de Meditação.

Há uma diferença entre a expressão intelectual desse conhecimento e a expressão verbal dessa Sabedoria – isso parece ser a mesma coisa, mas não é! A expressão intelectual desse conhecimento, nem de longe consegue arranhar a superfície da ilusão do “eu”; enquanto a expressão verbal dessa Sabedoria é como um poderoso míssil, carregando uma poderosa ogiva nuclear. Então, a palavra do Sábio é mais que palavra, porque ela vem do Silêncio, vem desse Poder.

Estar em Satsang é estar diante desta Presença, desse poderoso impacto de Poder e Graça, que é a expressão verbal dessa Sabedoria!



*Fala transcrita a partir de um encontro online na noite de 13 de Dezembro de 2017
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h.
Para participar baixe o Paltalk App em seu comptador ou smartphone, é gratuito.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Uma ação de Deus


Satsang é de fato um grande momento para estarmos juntos. Satsang significa estar em boa companhia, que é estar na companhia dessa Consciência, dessa Graça, na companhia do Satguru. Portanto, é estar diante dessa Graça, dessa Presença.
Você compreende isso?
Assim, não se trata das palavras, mas da própria Presença. Você não está aqui pelas palavras, e sim pelo que acontece quando estamos juntos. Quando você vai a um professor, vai aprender alguma coisa. Quando você se dirige a um Mestre vivo, vai para entrar em contato com o que importa realmente: seu Estado Natural de Meditação, de pura Consciência; isso porque não existe nenhuma separação entre o Guru interno e o Guru externo.
A mente não pode investigar a mente, nela mesma. Essa mesma Consciência é uma só Consciência, assim como a realidade de Deus. Na mente, Deus é apenas um conceito, um pensamento, uma crença. Porém, Deus é real em seu Ser, não como uma crença (ela é somente uma imaginação). Deus é real como Consciência. Deus é real, o Guru é real, o seu Ser é real. Quando um trabalho está acontecendo aí, o Guru é real.
Esse nosso encontro é sobre isso.
A mente pode acreditar em sua habilidade de ativar isso, mas isso é apenas uma crença, também, outra imaginação. O Despertar, essa autorrealização, é totalmente uma ação da Graça, da Consciência, do Guru. Na Índia, isso é muito claro – o Guru é quem lhe dá esse Despertar; é uma ação de Deus.
Esse é um momento de Silêncio, de Presença; é um momento de Deus na sua vida. Isso é Meditação. Esse é um maravilhoso momento.
Hoje em dia existe uma mensagem Neoadvaita por aí, que diz que você não precisa de um Guru; que você “já é o guru”. Porém, nas publicações, você vê que todos aqueles que tratam disso, de uma forma direta e real, compartilham a mesma coisa, na chamada Advaita. Todos eles falam da importância do Guru, falam em orar ao Guru, cantar para o Guru, como faziam Ramana, Nisargadatta e muitos outros.
É esse Guru interno que é despertado pelo Guru externo. Existe somente Um nessa sala. Existe somente um Guru interno nessa sala, e esse único é você – o real Guru; somente nesse sentido que você é o guru.
[Silêncio] ... Sinta essa Presença! Percebem isso? Sentem isso? Isso é algo do Coração, não é da cabeça.
Na mente, tem-se dificuldade em aceitar algo assim tão simples: existe somente Um, que é essa Consciência, essa Presença. Isso não importa se está na forma de Marcos Gualberto, ou Ramana Mahashi ou Buda, ou outro.
A rendição é o abandono dessa ilusão, que é a ilusão desse falso “eu”. O “eu” e seus julgamentos e crenças, sendo a crença mais complicada aquela de que você é uma “pessoa”, ouvindo uma outra “pessoa” falando pelo Paltalk. Se você já está fora da crença desse falso “eu”, não precisa mais da crença no Guru, também. Enquanto você se ver como uma “pessoa”, verá alguém sendo um Guru, também, como uma “pessoa”.
Existe uma realidade presente, e ela se revela a si mesma como discípulo e Mestre. Tudo é uma aparição dessa Presença, dessa Consciência, ou seja, o corpo, a mente e o mundo, todos aparecem nessa Consciência, a qual é você em seu Ser. Existem todos os objetos, mas eles são apenas aparições, que aparecem na Consciência, que é a Realidade de tudo isso. Mesmo essa crença da “pessoa”, é uma aparição nessa Consciência, assim como qualquer outra crença e outro pensamento. Iluminação é o fim dessa ilusão – a ilusão de alguma coisa separada dessa Realidade, da Verdade, dessa Presença. A única Realidade é essa Consciência.
Este “eu” e o “mim” são apenas crenças, pensamentos, objetos nessa Consciência. A Consciência é aquilo que permanece sozinha; é o que permanece sempre, sem qualquer objeto, sem qualquer coisa separada dela. Esse é o fim da dualidade, da separação. Vejam o quanto é precioso isso tudo, o quanto é preciosa essa constatação da Verdade sobre quem você é, o que você é. Aí está a suprema Verdade, a suprema Felicidade.
Então, quando está nessa sala, você não está para aprender uma lição. Cada encontro, nessa sala, é o encontro com o seu Ser, com a Presença, com essa Realidade que Você É. Eu tenho procurado tornar a minha Presença disponível para aqueles que estão, de fato, interessados profundamente nisso. Essa minha Presença é o Ser.

Ok, pessoal! Podemos ficar por aqui!

*Transcrito a partir de um encontro online na noite do dia 10 de Janeiro de 2018 - Encontros todas as segundas, quartas e sextas as 22h - para participar baixe o paltalk app

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

É necessário o amor pela verdade


Estamos juntos dentro de um real interesse pela Verdade. Se o interesse é honesto, verdadeiro, deve ser pelo pleno estabelecimento nesse Estado Natural. Na mente, tudo que se conhece é ansiedade, neurose, depressão, e tudo isso é fruto do medo. Na mente, você não vive o seu Estado Natural. Isso explica todo esse desconforto que você sente e essa busca constante por algo fora dessa condição, resultado do estado comum da mente, com os seus pensamentos, sentimentos, emoções, e suas corriqueiras atividades, que não é o seu Estado Natural.

Você já vive, há muito tempo, preso a esse modelo de condicionamento da mente, que é a pura identificação com hábitos mentais. Como resultado disso, em suas relações com pessoas, lugares, situações, você nunca consegue expressar o seu Ser. Essa não expressão do Ser, é o que chamamos de expressão da egoidentidade. Há em você essa Presença eterna, que, em nossas falas, denominamos Consciência, cuja natureza é Paz e Felicidade. No entanto, esses antigos hábitos de pensar e sentir, essas atividades da mente, não têm nenhuma relação direta com isso, porque as atividades estão relacionadas a objetos. Tudo o que a mente conhece é aquilo que ela mesma denomina. Assim, fica muito claro que tudo isso faz parte dela.

Toda experiência que você tem a partir do corpo, através dos sentidos, e a partir da mente, através de sensações, pensamentos, emoções, percepções, tudo isso faz parte da própria mente. Boa parte das atividades da mente, nas sensações, dependem do corpo, através dos sentidos, porém, uma grande parte dessas experiências, ou atividades da mente, acontecem completamente independentes das sensações, dos sentidos. Essa grande parte acontece nesse campo que o pensamento cria – um campo e um espaço imaginário. O passado, o presente e o futuro estão nesse espaço imaginário que a mente cria. Esse conjunto da obra nós chamamos de “pessoa”, “eu”, “mim”.

Nossa insistência continua sempre a mesma aqui, em Satsang: você não é real! Então, esse conjunto da obra é uma criação imaginária, um acontecimento misterioso; é, na verdade, uma grande brincadeira divina. Por isso, é muito importante o seu interesse pela Verdade, um desejo profundo e sincero, para deixar essa imaginação, e é isso que estamos fazendo em Satsang.

Uma coisa importante que temos para dizer, também aqui, é que o emprego da palavra é sempre limitado. Numa hora direi a você que é necessário um grande esforço nessa direção, noutra hora que nenhum esforço se faz necessário. É um grande esforço, mas não é realmente um esforço, porque não se trata de recuperar uma experiência que você perdeu. Para recuperar uma experiência que você perdeu, um grande esforço se faz necessário. Como aqui não se trata de uma experiência, mas exatamente o fim de todas as experiências, isso não é um esforço, é somente um reconhecimento. Agora, nos deparamos com o paradoxo dessa fala.

Um reconhecimento não requer nenhum esforço; tudo o que se faz necessário é a entrega dessa imaginação, desse falso “eu”, da crença nessa entidade separada. Todavia, essa é a rendição de velhos e antigos hábitos muito arraigados. Após cinco minutos de fala, diante de um cérebro bom, de uma pessoa relativamente equilibrada psicologicamente, a compreensão de tudo isso acontece. Então, a compreensão da necessidade dessa entrega é algo muito simples. Porém, essa entrega em si, em razão de hábitos muito arraigados, desse modelo muito bem estruturado, ao longo de milhares e milhares de anos – significando que a própria estrutura física, biológica, está profundamente condicionada –, torna-se um trabalho que não é fácil.

Estamos diante de algo simples, sem qualquer esforço, mas diante de algo nada fácil, que requer uma tremenda dedicação, entrega, rendição, e isso pode levar alguns minutos; alguns minutos para alguns, como temos isso relatado na história humana, ou pode levar algumas horas, meses, anos, uma vida toda, para outros. Mesmo assim, todos aqueles que se aplicam de verdade, nesse profundo e real interesse de se estabelecer em seu Estado Real, Natural, estão, absolutamente todos, no lucro. Isso porque a grande maioria passa todos os seus anos, que já não são muitos, sem nem mesmo suspeitar que estão dormindo, que não estão vivendo o seu Estado Verdadeiro de Ser, que eles não são quem acreditam ser; quem eles verdadeiramente são, eles nem de longe suspeitam.

Então, isso não é realmente um esforço, mas, sim, uma rendição amorosa de todos os velhos e antigos hábitos de sentir, agir, pensar; de se relacionar, com o próprio corpo, com o próprio movimento interno chamado “mente”, com os objetos externos, com as pessoas do seu círculo mais próximo e os mais distantes. Dessa forma, como resultado da entrega real desse falso “eu”, dessa forma de pensar, sentir e ser, é possível ir além dessa ilusão. Isso é algo que está ficando muito, muito conhecido. Estamos tendo, nesse momento da história humana, uma grande disseminação dessa possibilidade; pouco a pouco, todos estão ouvindo falar sobre Isso. É importante dizer, também, que esse não é um assunto como os outros, de conhecimento técnico, porque Isso não é algo que se aprende. Então, tudo o que você tem são indicações, apenas.

Quando olha para uma bússola, você vê nela um ponteiro, uma seta, sempre apontando em direção ao Norte; todas as indicações são assim. Você pode passar a vida inteira olhando para uma bússola, sem saber dizer para todos onde está o Norte; você não está lá, ainda. Então, você pode adquirir muito conhecimento sobre isso. As embarcações nos séculos passados se orientavam pelas estrelas, e depois surgiu a bússola; todas as bússolas antigas, também, apontavam para o mesmo Norte. Hoje em dia, esse instrumento ainda está em uso; são bússolas modernas, mas continuam apontando para o Norte.

Então, é possível que você, hoje, esteja tendo acesso a um conhecimento muito mais bem elaborado, numa linguagem bem acessível, porque há muitos professores espalhados por toda parte e, assim, há muitas “bússolas”, todas apontando para o “Norte”; há bússolas antigas e bússolas modernas. Se você estiver muito interessado em “bússolas”, estará interessado apenas no instrumento que indica o “Norte”. Assim, você pode ficar preso ao conhecimento ou a uma técnica que lhe agrade, ou a um professor espiritual – você vai estar agarrado à “bússola”.

Compreendem isso? Está claro isso?

O que eu estou dizendo é: vá além do conhecimento, além da indicação. Então, é possível estar no “Norte”, aqui e agora. Eu quero repetir: não se trata de uma experiência a ser alcançada, mas dessa constatação de que você não é o corpo, nem a mente. O que estamos lhe dando nesses encontros, é uma amostra do que significa o “Norte”, não o “ponteiro da bússola” para você ficar olhando para ela. A Verdade é algo que se revela experimentalmente, aqui e agora; é, na realidade, o experimental do que É. Você não pode ficar aí, em seu falso “eu”, porque assim não haverá espaço para essa Realidade.


Ok? Podemos ficar por aqui. Até o próximo encontro. Namastê

*Transcrito a partir de  um encontro online ocorrido na noite do dia 27 de Novembro de 2017 
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas as 22h (horário de Brasília).
Baixe o App Paltalk e participe!

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O que é iluminação?



O que você chama de destino é apenas aquilo que está acontecendo, que já aconteceu ou acontecerá ao corpo. Isso já está programado. Então, o dia em que você nasceu já estava marcado para a aparição deste corpo. O dia da sua morte, do desaparecimento desse corpo, também já está determinado, bem como o dia do sepultamento. Tudo pelo qual esse corpo está determinado a passar é o que você poderia chamar de destino. Isso é uma coisa… Outra coisa é o Despertar, que é a consciência de que isso que é chamado de destino é só um sonho associado a esse mecanismo, a esse corpo-mente, a essa máquina. Então, são duas coisas distintas.

Se você não desperta para sua Real Natureza, você passa essa assim chamada “sua vida” na completa ignorância sobre quem, de fato, você é, confundindo-se com o corpo e, naturalmente, sendo vítima do destino, porque o destino não está no seu controle. Você não controla absolutamente nada! Tudo isso só acontece como um fenômeno da Consciência, chamado de destino, mas não tem você nisso! Você não faz os olhos piscarem, a digestão da comida, o coração bater… Não tem você! Da mesma forma, não tem você nascendo, não terá você morrendo e não tem você pensando – o pensamento só acontece também. Tudo só acontece, e esse é o destino da forma, do corpo-mente, dessa máquina. Se você passar a vida inteira só nisso (que é o que acontece com a grande maioria), da mesma forma que você nasceu (sem consciência), você também morrerá.

Você não sabe quem você é, porque se confunde com o corpo e a mente, com esse mecanismo, com os acontecimentos relativos a essa estrutura e, claro, você sofre! Esse sofrimento é a consequência da resistência a esse movimento da vida, é a tentativa de mudar o que é, a tentativa de mudar o que já está escrito.

Alguém disse: “Todos estão destinados a essa Realização!”. Isso não é Verdade! A Realização não é uma destinação; Ela está além do destino. O destino está em nascer, crescer, procriar, adoecer, envelhecer e morrer – esse é o destino de todos. A Realização é um “luxo” – vamos colocar assim. Isso é ser salvo dessa situação, o que é algo ainda raro nessa chamada humanidade. Além disso, a Realização não é uma destinação por outro aspecto também: Isso já é assim! Você não alcança Isso! A dificuldade está nesse paradoxo da Verdade: você já é O que É, e nunca vai deixar de ser, no entanto, se você não toma consciência Disso, você é só um zumbi, um morto-vivo que nasce, cresce, namora, casa, tem filho, adoece, envelhece e morre… dormindo! Morre sem a menor ciência da Felicidade de Ser, que é Pura Consciência, em que não há identificação com o nascimento e a morte. Isso, na linguagem Cristã, seria a salvação em Cristo, salvação no Ser, na Consciência, na Verdade, em Deus! Isso é a Realização de Deus e é um “luxo”!

Você pode, precisa e nasceu para realizar Isso, mas também pode continuar vivendo essa assim chamada “sua vida” da mesma forma e morrer como todos, sem nenhuma ciência de quem é Deus. Saber quem é Deus é saber quem você é, porque não tem Deus separado do que você é, e isso é um “luxo”.

Isso não tem nada a ver com destino, mas com ir além dele, além desse movimento de causa e efeito, além do assim chamado karma. A Bíblia também tem uma expressão nesse sentido, quando diz: “Aquilo que o homem semeia, ele também colhe!” – causa e efeito, o mesmo princípio do karma, na Índia. Por tudo que você faz, você responde. Essa é a ideia do juízo final, do julgamento. Quem passa pelo juízo final, quem passa pelo julgamento, é quem se identifica com o corpo. Esse passa pelo julgamento, que é receber as consequências de seus bons ou maus hábitos. Tudo isso está na dimensão do ego, na dimensão da ilusão, desse sentido de identidade.

O que você faz aqui é deixar esse “senso de fazedor”; você se abandona no Divino, que é o Ser. Então, você não mais está nessa posição de causa e efeito. O corpo continua como um relógio, ao qual foi dada corda, e ele vai até quando terminar a corda, mas você já sabe que não é o corpo, já sabe que o que acontece ao corpo não está acontecendo a você, sabe que o que acontece ao mundo não é assunto seu, sabe que você não tem pai, não tem mãe, não tem filho, não tem marido, não tem cão, não tem gato, não tem casa, não tem conta bancária, não tem nome, não tem forma… Não tem, não tem, não tem…

Você não é nada disso e não tem nada disso! Você é puro Ser, pura Consciência, pura Inteligência, pura Liberdade, pura Felicidade, pura Alegria! Um dia, Cristo disse: “Eu vos dou a minha Alegria, para que Ela esteja em vós!”. Não é a alegria que o mundo dá! Então, vocês têm a minha Alegria! Ela permanece em vós e nada pode tirá-la de vós! Essa é a Alegria da Natureza de Deus, da Natureza da Consciência, da Natureza do Ser.

Na Índia, eles chamam essa Alegria de Ananda. A sua Natureza Real é Ser, Consciência e Felicidade. Por natureza, você está aqui apenas para viver Isso! Consciência não é um sonho. Sonho é inconsciência, é ignorância, é mente em projeção. É difícil, a princípio, você aceitar que está sonhando; que não há essa “sua vida”, mas apenas um sonho acontecendo, o qual não é seu, porque não tem você… É só a mente sonhando. Nesse sonho, a mente está fazendo aparecer personagens, os quais você acredita que estão do lado de fora, mas eles estão dentro da própria mente. O primeiro personagem, que é o mais atrevido, é o “eu”. Quando você diz: “Eu”… Pronto! Já faz aparecer o outro, o mundo e tudo mais.

Tudo começa nessa ilusão principal: “eu”. Não tem “eu”, só tem a mente sonhando. Então, quando você acorda e vê isso, você está livre do sonho, está livre do bem e do mal, do certo e do errado, do que é santo e do que é profano, do nascer e morrer, do diabo e desse “Deus” que a mente concebe. Portanto, você está fora da dualidade, está fora dessa ilusão, e isso é Iluminação, é a Realização da Sanidade. Sanidade é viver como pura Consciência — esse é o estado do Santo. O Santo está além do mundo! A palavra Santo significa completo, íntegro, total, sem emendas, sem rasuras, sem pedaços. Essa é a Natureza da Consciência! Não tem nada a ver com o corpo e seu destino. Assim que acaba a “corda”, o corpo é descartado, mas sua Natureza Real permanece.

Ou você realiza Isso agora ou não realiza. É por isso que a Bíblia diz: “Basta ao homem nascer uma vez, depois disso vem o juízo!”. Basta resolver isso agora! Basta nascer uma vez para resolver isso! Se você não resolve, vem o juízo, que, como acabei de falar, é consequência da identificação com a mente. Se você não realiza Isso, o sonho continua: você vai para o céu, para o inferno, para o purgatório… Alguns podem ir para colônias espirituais, se preferirem, mas não tem ninguém lá também! É o mesmo sonho daqui! Então, nesse sonho, você pode estar no céu, porque acredita que morreu. Isso vai de acordo com a crença da mente, com o fundo de condicionamento que cada um traz. Isso é como mudar de casa: você morava em Fortaleza e foi morar em Gravatá… Você acha que mudou alguma coisa, não é? Mas não mudou nada! A mente carrega suas projeções para onde quer que ela vá, e lá não está Você, porque Você está além da mente, além do tempo, além do espaço, além do nascer e do morrer, além do céu e do inferno, do purgatório, etc.

Essa Realização é a rendição do “eu”, desse falso “eu” que está muito “feliz” onde se encontra. Ele está no seu mundo, dentro do conhecido. Por isso, ele não vai soltar esse “osso” facilmente. Em outras palavras: tem algo dentro de você que quer essa Liberdade, mas também tem algo  aí que não tem nada a ver com essa Liberdade, mas apenas com esse mundo. “Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele!”. Amar esse mundo significa amar o conhecido. Isso é mais certo, mais seguro do que esse salto no desconhecido, do que não ser nada nem ninguém, não ter nome, não ter mais certeza e nem garantia de nada.

Acordar é uma questão de tomada de Consciência, que é o reconhecimento de sua Identidade Verdadeira. É necessário que o falso seja visto como falso. É basicamente isso! Não é uma construção; é uma desconstrução da ilusão. Então, quando eu falo para você: “Vamos olhar para isso agora?”, e você diz: “Eu quero olhar para isso, mas chegou o Natal e eu não quero olhar para isso no Natal… Eu vou tomar vinho… Tem a questão dos meus parentes, também, e eu já estou toda programada!”. Aí eu falo: “Tem a virada do ano também…”, e você responde: “Não! Na virada do ano também não dá, porque tem mais parentes para chegar. Eu vou fazer isso em janeiro ou no carnaval”. Mas, daqui até o carnaval vai acontecer tanta coisa! Você nunca sabe se ainda estará interessado nisso até o carnaval, porque você vai sendo absorvido por esse “eu”, por tudo que ele tem como bom, prazeroso e certo.

Assim, você vai colocando Deus por último, ou seja, o Amor do Pai não está em você, o Amor da Verdade não está em você, você não está “queimando” por Isso. Quando você está queimando de Verdade, você não tem mais nada para fazer, você só tem Isso, e é isso que determina o trabalho.

Eu conheci um homem que estava “queimando” por Isso. Ele largou tudo aos 18 anos. Queriam casá-lo, mas ele não aceitou. Com 18 anos, ele se colocou aos pés de Ramana, porque ele estava “queimando” por Isso… E ele resolveu isso rápido: 40 anos depois! Annamalai Swami.

Sem essa Realização, você é só uma marionete da fatalidade. É como se Deus tivesse um tabuleiro e você só fosse uma peça infinitamente sem importância. O movimento dessa peça, que é você, algo infinitamente sem importância, é o movimento dessa “mão” chamada destino. Sem Realização, você é só uma marionete, uma peça nesse grande tabuleiro. Com a Realização, você é o dono do tabuleiro! Você está vendo o jogo todo e, o melhor: você está se divertindo com ele, porque você está vendo como são fantásticos, como são extraordinários os grandes feitos do Senhor, o absoluto Poder da Verdade, a absoluta Soberania da Verdade, a absoluta e extraordinária Grandeza da Verdade. Quem não deixar tudo por Isso, não sairá desse jogo; quem não ignorar completamente o movimento do destino e toda sua história, não sairá do tabuleiro. Permanecerá lá dentro!

Participante: Na Índia, isso é chamado de roda de Samsara! Você não sai de lá enquanto não se realizar.


Mestre: Pronto, é isso! A roda de Samsara é o nome do tabuleiro. Por isso eu disse para vocês que a Realização é um “luxo”: Ela é só para os fortes! E os fortes são aqueles que se tornam um nada por amor a Deus, à Verdade, à Realidade. Por isso tem que perder tudo: para ganhar tudo; por isso tem que morrer: para imortalizar-se. Tem que descobrir que nunca nasceu, que isso era só um jogo para essa Imortalização, para esse Natural Estado de ausência de tempo e espaço. Isso é realizar o Cristo, é realizar o Buda, é realizar a Verdade de sua Natureza Essencial. Então, seus olhos permanecem fixos no Divino; estão olhando para Ele! Ele é o mais desejado, o único desejado, e, então, você canta para Ele!


*Trecho de um encontro presencial em Fortaleza



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