Quando vocês perguntam sobre esse encontro com Deus ou qual é o significado real disso, é necessário termos, aqui, uma aproximação diferente desse assunto. Em geral, a ideia de encontrar Deus é para se livrar do desespero, da dor, do sofrimento, desse vazio existencial. Então, em meio a essa dor da solidão, angústia, depressão, ou em meio a alguma forma de sofrimento, o pensamento constrói em nós a ideia de um refúgio que seja permanente.
Nós já temos tentado escapar de diversas formas e não tem funcionado. Todo o movimento do ser humano em direção a busca de conquistas ou realizações externas, nessa ideia de encontrar a felicidade, o amor, a liberdade, a paz, há por detrás disso todo esse movimento de escape de uma dor que ele traz, que ele carrega dentro dele.
Nós já temos tentado isso; o ser humano já vem tentando isso há muito tempo. E quando ele cansa, ele agora começa a ter ideias, aspirações religiosas por aquilo que ele idealiza, projeta, planeja dentro desse, assim chamado, encontro com a vida espiritual ou o encontro com Deus. Então, esse idealismo é só mais uma forma, também, de fuga, de escape da dor.
Aqui, com você, nós estamos aprofundando essa questão desse real encontro com Deus; mas esse encontro com Deus é um contato possível quando a Verdade de Deus se aproxima. Você não vai até Deus sendo a pessoa que você acredita ser. A Realidade de Deus se Revela quando essa pessoa é compreendida. A Verdade de uma aproximação com Deus é Deus se Revelando, e Deus se Revela quando aprendemos a olhar para aquilo que somos, sem fugir, sem escapar.
O que as pessoas não compreendem é que estamos lidando com uma imaginação, com uma construção do pensamento, mas não é uma construção tão simples, ela é muito bem elaborada, de extrema complexidade. Essa é a condição da consciência humana, da consciência egoica, dessa consciência do "eu".
Toda essa complicação, desordem, confusão e sofrimento presentes precisam ser vistas. Você deve se aproximar de si mesmo; esta aproximação de si mesmo irá lhe revelar que esse elemento presente nessa aproximação é a ideia de alguém, é apenas uma crença, um modelo de pensamento formulado de uma forma especial, se separando do conjunto, que são os diversos pensamentos que temos.
É exatamente como quando você olha para uma fogueira. Quando você olha para uma fogueira, você não está vendo só o fogo, você está vendo também fagulhas, centelhas se desprendendo daquela fogueira. Quando você está diante de uma fogueira construída por gravetos, por madeira, por lenha, você escuta o som do fogo e, também, presencia fagulhas saltando do fogo. A presença desse "eu" é um pensamento especial, é uma fagulha que se desprendeu da fogueira; ele é um pensamento que se desprendeu de todo esse conjunto de pensamentos.
Esse pensamento que se separou é o "eu", é o "mim", é a "pessoa". Ele se vê assustado com o resto da fogueira, ele se vê amando o resto da fogueira, ele se vê gostando ou aterrorizado com o resto da fogueira. Esse sentido do "eu", esse "mim", se vê como um elemento separado, nele mesmo, dele próprio, porque o pensamento é o próprio "eu". Esse "eu" é o pensador. Esse pensador não se separa do pensamento, ele é parte do pensamento, mas se imagina como um elemento separado.
A fagulha da fogueira, a centelha da fogueira, é parte do fogo. Assim, o "eu" é parte do pensamento. Esse pensamento é o pensador, esse pensador é o "eu". Não há qualquer separação entre o pensador e o pensamento. Por que é fundamental uma compreensão disso? Porque essa clara visão da ilusão da separação entre esse "eu" e o "não eu", entre esse pensador e o pensamento, entre esse que observa e aquilo que ele está observando, é a compreensão de que nós estamos diante de uma ilusão, que é a ilusão da dualidade, que é a ilusão da separação, que nos aproxima de uma Real visão de Deus.
Nessa visão de Deus é Deus ciente, cônscio, real, é a única Realidade presente desse instante, sem qualquer separação; e Isso presente, não há mais problemas, não há mais sofrimento, não há mais busca, não há mais esse "encontrar Deus". É a Realidade que está presente aqui e agora, fora do futuro, fora dessa necessidade de um encontro amanhã. Esse manhã é mental, esse amanhã é uma imaginação do pensamento, esse amanhã é o futuro da mente.
No momento em que você aprende a observar suas reações sem se separar delas, porque há uma plena compreensão de que não existe tal coisa como essa dualidade, essas reações se dissolvem. Repare a pergunta: por quanto tempo você consegue sustentar a tristeza sem o pensamento sobre aquilo que lhe entristeceu? Por quanto tempo você consegue sustentar a raiva, que é a lembrança de alguém que você tem, quando esta lembrança é desfeita?
A lembrança é o elemento que sustenta a raiva de alguém de quem você tem raiva. Sem a lembrança de alguém, o que ocorre com a raiva? Sem a lembrança daquilo que lhe deu tristeza, que lhe produziu tristeza, o que ocorre com esse sentimento, essa sensação, essa emoção que envolve a presença dessa dor, que denominamos de tristeza?
Assim, qual será a verdade sobre o sofrimento? Descobrir a verdade sobre o sofrimento é o fim para o sofrimento, e é quando o sofrimento termina que fica claro que não existe alguém para sofrer; e se não há alguém para sofrer, Algo está presente, e esse Algo não faz parte do sofrimento, esse Algo é a Realidade desta Ser. Observe que quando você quer se livrar do sofrimento, todo o movimento que você faz é para tentar fazer algo contra o sofrimento. Essa é a ideia de se livrar.
Você não quer se livrar daquilo que está lhe dando prazer, você quer mais do que está lhe dando prazer. Ao querer mais do que está lhe dando prazer, você sustenta a continuidade de alguém no desejo. Ao querer se livrar daquilo que está lhe provocando sofrimento ou dor, você alimenta alguém presente no medo, na rejeição, na resistência.
O que dá continuidade a esse sentido do "eu", desse alguém, é exatamente o movimento de reação: de reação positiva na busca por mais ou de reação negativa no rechaçar, no recusar, no tentar se livrar. Então nós temos a presença de um elemento que está separado da condição de prazer que deseja ou da condição da dor que quer se livrar. Esta separação é a continuidade do "eu", é a continuidade do "ego". É essa separação que sustenta a autenticidade de um movimento egocêntrico, de um movimento separatista, de um movimento em dualidade. Se isso está presente, não é possível a Realidade Divina se revelar.
Assim, a busca por Deus é a projeção de uma entidade que se vê separada de Deus. Essa busca, enquanto se sustentar, existirá esse elemento na busca, na procura: essa é a continuidade do "ego", essa é a continuidade do "eu". Além disso, todo esse movimento de busca é só um movimento de fuga da dor. Reparem que quando você é feliz, não há pensamento em você. No instante da Felicidade, no instante daquela Alegria, daquela intensidade de êxtase, de Liberdade, de Graça, de Quietude, há Algo presente além dessas palavras que acabamos de colocar.
A Realidade do estado não é nenhuma dessas palavras. E quando a Realidade desse estado está presente não existe esse elemento para se separar, para dizer: "Mas como sou feliz", "Que coisa maravilhosa é essa paz". Quando algum tipo de pensamento desses surge, é porque esse estado já não está mais. Veja que coisa importante nós temos aqui.
O real contato com o momento presente, com a experiência é a ausência de um experimentador, de um elemento que se separa da experiência e, neste momento, não existe o "eu", não existe o "ego", não existe esse buscador de Deus, esse que está buscando prazer, esse que está tentando se livrar da dor.
Assim, é o contato com o momento presente, com a vida como ela acontece, quando o elemento "eu" não está, a presença de uma Realidade fora do conhecido, fora do modelo das palavras, do modelo do pensamento, fora desse futuro para alcançar ou desse futuro para se livrar. Isso ocorre porque não existe qualquer separação entre o pensamento e o pensador, o observador e a coisa observada, o experimentador e a experiência.
Podemos lidar com esse momento sem colocarmos o pensamento sobre esse momento, sem colocarmos a ideia sobre esse momento? Podemos lidar com esse estado sem chamá-lo de dor ou prazer? Essa é a real aproximação do Autoconhecimento. A presença do Autoconhecimento termina com essa dualidade, termina com essa separação. A presença do Autoconhecimento revela um completo esvaziamento de todo esse conteúdo psicológico de palavras, de crenças, de ideias, de conceitos, de conclusões, e isso elimina esse sentido do "eu".
Assim, quando aprendemos a verdade da importância do Autoconhecimento, que é olhar para o que está aqui sem se envolver, sem colocar esse elemento que se separa para gostar, não gostar, concordar, discordar, pensar a respeito, tirar conclusões, quando não colocamos mais esse elemento, nós temos um esvaziamento total de todo esse conteúdo do "eu", de todo esse conteúdo da separação, da dualidade; é quando nos aproximamos da Verdade da Meditação.
Aquilo que Revela a ciência de Deus é a aproximação da não-dualidade, pelo Autoconhecimento, nessa real aproximação da Meditação. A Verdade da Meditação é algo que está se revelando nesse instante, quando há essa aproximação do momento sem o modelo do pensamento, sem o modelo desse observador se separando da coisa observada.
Reparem, o observador é a coisa observada. Essa separação é uma separação estabelecida em nós pelo pensamento. É quando esse observador se separa, que ele idealiza, no futuro, Deus como um elemento separado dele, o Amor como um elemento separado dele, a Paz como um elemento separado dele, o prazer como um elemento separado dele, o fim do medo ou do sofrimento, no futuro, algo para ser alcançado amanhã. Não existe tal coisa, porque não existe esse amanhã psicológico.
Assim, a verdade desse encontro com Deus reside na Revelação deste Ser não-dual, que está presente aqui e agora como sendo a Natureza de Deus: essa é a Natureza do seu Ser, essa é a Natureza da Verdade sobre cada um de nós, Aquilo que está presente quando o "ego" não está, quando esse pensador não está, esse observador não está, esse experimentador não está.
É isso que estamos, com você, aqui aprofundando. É isso que estamos, com você, trabalhando aqui nesses encontros. Nós temos encontros on-line nos finais de semana, onde estamos sábado e domingo juntos, aprofundando esse assunto aqui com você - são dois dias. Além desses encontros, temos encontros presenciais e, também, retiros. Se isso é algo que faz algum sentido para você, já fica aqui um convite.