quarta-feira, 15 de junho de 2016

O aroma e o sabor da Liberdade




Quando você está em um polo, o outro sempre está presente. Se você estiver vendo um lado, não se preocupe, o outro estará lá. É que é só um lado, mas esse lado está ocultando o outro. Na mente, a alegria que é conhecida é o oposto da tristeza; o amor que é conhecido, que é uma forma de prazer sentimental, emocional, que não é amor real, é só o oposto da decepção, da dor, da raiva, do ódio. Tudo isso está no reino mental, tudo isso está nesse conteúdo da mente, que são crenças.
A liberdade de não estar preso, embolado, misturado, se confundindo com a mente, é o que nós chamamos de estar desidentificado — desidentificado da história, das crenças, dos pensamentos, da satisfação e da insatisfação, do prazer e da dor que o outro ou o mundo (que são só imagens) me causam.
Não tem uma fórmula de como se manter desidentificado, é uma coisa que você precisa descobrir dentro de você. Você precisa saber quando é que você está nessa posição embolada com a mente, que significa todo esse conteúdo de imagens, pensamentos e crenças, e quando você não se embola, não se confunde com isso. O que eu posso lhe dizer, apesar de não poder lhe dar uma fórmula para isso, é que o aroma é completamente diferente, e o sabor também. O aroma de estar identificado é um, e, desidentificado, é outro.
Identificado significa embolado com a mente e com o conteúdo dela, significa estar circunstancialmente, sentimentalmente e emocionalmente envolvido, tanto em nível de pensamento como de comportamento. O sabor e o aroma são bem peculiares quando você está desidentificado disso. O sabor e o aroma são a liberdade; a liberdade da história, a liberdade das crenças. Crenças, como por exemplo: “como minha filha é linda!”; “como pode? Eu faço tudo por ele e ele não reconhece”; “como pode? Eu dou tudo para ela e ela não reconhece”; “como pode ela gostar mais de fulano do que de mim”. Crenças desse tipo…
Então, o sabor e o aroma são bem típicos, e já bastante conhecidos, quando essa identificação está presente. Quando ela não está presente, fica clara a liberdade da crença, a não necessidade dessa preocupação acerca do que o outro pensa ou espera de você, ou do que você espera dele.
A desidentificação não tem história e não tem você (você com essa imagem que tem de si mesmo quando está embolado, identificado). Desidentificado, não tem você, alguém ou alguns. Desidentificado, você não é uma pessoa, não é parente, não é amigo, não é vizinho, não é filho, não é mãe, não é pai... Desidentificado, você é Liberdade! Desidentificado, você não tem traços de julgamentos e opiniões, portanto, não há conclusões. Desidentificado, não há conflito; não há prazer nem dor. Não é a sua história, é só uma história. Está claro isso, assim? Desidentificado, não existe pessoa, portanto, não tem frustração pessoal, não tem decepção pessoal. Desidentificado, não tem alguém aí esperando alguma coisa do outro ali do lado. Desidentificado, qualquer pensamento que tenha esse suposto “você” não tem importância, pois o que quer que o pensamento acredite que ainda exista são crenças lá, não são crenças desse “desidentificado”.
Esse é o aroma e o sabor. Viver assim é possível, mas não para essa autoimagem que você alimenta de mãe, de marido, de filho, de namorado, de namorada… Viver assim é possível, mas isso não alimenta prazer. Então, isso não é possível para esse ilusório sistema desmembrado pelo pensamento, que nós chamamos de “eu”, “mim”, “pessoa”.
Viver assim é a vida na alegria de Ser, mas é uma alegria que não tem o oposto. Ela não é resultado da excitação prazerosa que o pensamento constrói, nessa euforia que ele chama de alegria. Não é isso, é outra alegria. É uma alegria sem causa, sem motivo e sem alguém, então, é só a Alegria. É uma alegria com um artigo definido na frente: “a Alegria”. Se tem a Alegria, então o odor, o aroma e o sabor são diferentes.
Falem de algo de dentro e a partir dessa não limitada Presença que Você é. Essa fala vai nascer desse estado natural, livre dessa salada mista de emoções, sensações, sentimentos, imagens, história, conceitos, diferenças… Fale algo agora a partir desse “lugar” onde a pessoa não está. O que quer que seja dito, será dito a partir desse Silêncio, desse Vazio, dessa Presença, que é pura Alegria, uma Alegria que não é sorriso, que não é “saltinho”, “pulinho”, que não é preenchimento pessoal, que não é satisfação pessoal, que não é prazer pessoal. Fale-me a partir dessa desidentificação… olhe, sorria, chore, coma, brinque e namore a partir daí. A partir daí, tudo é normal, tudo é natural.
No estado natural não há tristeza, pois tristeza vem de imagens, de imaginações, de condicionamentos, de um “eu” ferido, de um “eu” magoado, de um “eu” ofendido, de um “eu” aborrecido, de um “eu” decepcionado, de um “eu” frustrado. Todos esses adjetivos estão ligados a esse sujeito fantasioso que o pensamento criou e deu o nome de “mim”, “eu”.
Enquanto houver a máquina (corpo), é possível haver emoções. A raiva, por exemplo, é uma coisa neurológica, fisiológica, um movimento até de autoproteção dessa máquina, que não tem nada a ver com você; é o estado natural operando na máquina. Se você perguntar a um médico, ele vai dizer que o choque elétrico produz raiva. Você leva um choque elétrico e isso abala seu sistema nervoso central, que produz uma emoção na máquina, uma raiva sem história. O sentimento precisa de história, mas a emoção, não. Vocês não devem confundir emoção com sentimento.
A raiva é uma emoção, mas a raiva que o ego conhece é um sentimento; um sentimento que se apropria da máquina. Chamamos essa raiva de emoção, mas trata-se de outro sentimento, pois precisa da imaginação. A raiva é uma expressão muito perigosa quando tem um conteúdo de história. Assim, ela se direciona para algum propósito. Portanto, a raiva no “eu” é uma coisa muito perigosa, porque ela vai contar uma história, e a historia é: “mate-a”, “mate-o”, “destrua o que lhe causa raiva”. Contudo, a raiva, em si, é uma coisa belíssima. Uma irritação nervosa é raiva, mas quando uma história cria um sentimento, que cria uma irritação nervosa, que é a raiva,  essa ilusão de um “eu” presente é impulsionada a matar ou destruir aquilo que lhe provocou a raiva. A raiva não vai fazer isso.
Participante: Isso vale para o medo também?
Mestre Gualberto: Isso vale para o medo também, porque o medo é uma emoção, mas o medo como o ego conhece não é uma emoção, é uma ilusão criada por esse sentimento da imaginação que o pensamento produz. Então, o medo no ego é 99,9% das vezes pura imaginação. Um medo muito real só para o ego não tem verdade nenhuma.
Há um medo real, como uma emoção, diante de um perigo, quando o corpo se protege usando mecanismos de defesa. O objeto vem em direção aos seus olhos e os olhos fecham por medo. Um movimento de escape, de fuga. O medo pode fazer as pernas saírem correndo ou ficarem paralisadas, dependendo de como a máquina reagir diante de um perigo, mas esse é um medo natural. Contudo, há um medo criado pelo pensamento, pela imaginação; um medo com história. É o medo de andar de elevador, o medo de altura, de avião, de lugares fechados, de se casar, de se relacionar, de falar em público, e por aí vai… Tudo isso é puro ego! Tudo isso são imagens que criam esse assim chamado medo.
Você não vê que coisa mais absurda é o medo da morte? Você tem que imaginar muito para ter medo da morte, tem que fazer um esforço muito grande. Agora mesmo ninguém tinha medo da morte, mas quando eu falei “medo da morte” vocês já começaram a se perguntar: “será que eu tenho?” Você tem que começar a imaginar para saber se tem. É só quem tem tempo para pensar que pode imaginar e temer a morte.
Quando a morte vem, ela é instantânea, ninguém teme, não há espaço para o medo da morte, é uma coisa fulminante. Agora, se alguém disser “você está morrendo”, a mente vai construir um pós-morte e vai criar um medo. Mas o medo da morte é uma coisa absurda, como esses medos de elevador, de altura, etc. Tudo imaginário!
Estamos falando ainda sobre a identificação com o conteúdo da mente, que tem esse aroma e esse sabor bem específicos. Quando há isso, não existe essa liberdade. Nessa desidentificação, nessa liberdade, qualquer emoção é possível, mas, sem história, ela é natural. A raiva pode ser algo assim, o medo pode ser algo assim… mas dá para contar nos dedos o que seria uma emoção no estado natural. Contudo, não dá para contar nos dedos o que significam sentimentos e emoções para essa ilusão de uma identidade presente, que é essa crença de ser alguém, esse “mim”, esse “eu”, esse ego.
É por isso que quando você está diante do Sábio, diante do Guru, diante da Presença, você não vê essa onda, você não vê esse mar cheio de ondas de emoções, de sentimentos, de sensações. Você não vê essas reações tão caóticas. Você vê emoções, mas você não vê essa coisa caótica. Essa coisa caótica é uma coisa superficial, não tem profundidade nenhuma, não é real, é algo criado pelo pensamento.
O ego vive nesse vai e vem de alegria, tristeza e dor. Com uma velocidade extraordinária sai da alegria para a tristeza, da tristeza para a raiva, da raiva para o medo, do medo para o desespero, do desespero para a ansiedade, da ansiedade para a coragem, da coragem para a ousadia… Não é bem assim?
Identificado com o ego, tudo é circunstancial. O sentido de um “eu” se move circunstancialmente: o elogio o deixa alegre; uma critica o deixa triste, com raiva, ofendido ou com vontade de matar, porque além da raiva vem a vontade de matar aquele que o feriu.
Na verdade, está tudo acontecendo aí dentro, não tem nada acontecendo lá fora. Está tudo dentro desse mesmo conteúdo, que é o conteúdo da mente. A mente se autoprovocando — sendo provocada e reagindo à provocação — procurando culpados e vivendo todos esses dramas. É um caso perdido, sem salvação. O ego é um estado miserável de uma complexidade imprestável.
*Transcrito de um encontro presencial na cidade de Fortaleza em maio de 2016
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2 comentários:

  1. Gratidão, Mestre por esse estado de Consciência, por poder enxergar a miséria que é essa vida de desejo.

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  2. A lembrança do que fomos não nos permite sair da prisão.
    Por quanto tempo?

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