sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Paltalk Satsang - Não tem alguém quando há amor.



Temos aqui o propósito de descobrirmos, constatarmos Aquilo que somos, Aquilo que verdadeiramente nós somos, Aquilo que está por detrás, que é anterior à essa “pessoa” corpo-mente. Uma coisa que nós temos visto é a facilidade com que todos nós nos embolamos com essa coisa, com essas afirmações filosóficas ou esotéricas. Alguns afirmam categoricamente que nós construímos ou somos capazes de construir a nossa própria realidade. Quando olhamos para essa assim conhecida vida que temos, a impressão é que ela foi construída por nós, construída como resultado dos nossos pensamentos. Então, segundo essa base filosófica, espiritual ou esotérica, nossos pensamentos criam nossa realidade no mundo.
O que nós não percebemos é que essa assim chamada realidade de mundo dessa “pessoa” corpo-mente é apenas um sonho. E a ideia de uma identidade principal nessa realidade é ainda parte desse sonho. A única realidade não é a realidade do sonho, mas é a realidade aonde esse sonho acontece. Esse sonho “pessoa-corpo-mente-mundo”. Essa realidade é anterior à “pessoa”, é anterior ao corpo, à mente e ao mundo. É evidente que a sensação da mente é a sensação da criação de sua própria realidade, mas essa realidade é a realidade do sonho. É a realidade de uma pseudo identidade dentro dessa coisa. Isso também ainda é o sonho.
Esse sonho, ele tem a realidade que a mente produz, que o pensamento produz. Essa realidade que o pensamento produz, que a mente produz, é a realidade mental. Apenas na mente essa realidade é possível. Eu continuo afirmando que isso é apenas uma aparição fenomênica, uma aparição que aparece como uma brincadeira divina. Essa brincadeira divina será sempre um mistério, a única coisa que podemos falar sobre ele é que é uma brincadeira mesmo, uma brincadeira divina. Não há qualquer propósito nessa brincadeira. É o próprio divino, é a própria Presença, é o próprio Ser, é a própria Consciência Nela mesmo se expressando. Ela aparece como a substância e como a testemunha, como aquilo que é observado e aquilo que observa. Mas aquilo que observa e aquilo que é a testemunha se mantém como anterior a qualquer fenômeno, a qualquer aparição, a qualquer sonho.
Você é essa Presença. Ciente dessa Presença, o sonho é só um sonho. Não há qualquer realidade separada aí. A realidade “pessoa-mente-corpo-mundo” é o sonho nessa realidade que é você. Não há “corpo-mente-mundo” como algo separado dessa Consciência, dessa testemunha, dessa realidade. Assim sendo, você não pode na mente ser “alguém” criando a realidade para essa assim chamada “sua vida”. Essa “sua vida”, que é um sonho, não é você. Você é a Vida anterior a essa “sua vida”.
Sua Consciência, sua Presença, é anterior ao seu nome, ao seu corpo, à sua forma e ao seu mundo. É anterior a essa “sua vida”. A mente manifesta sua própria realidade, depois ela diz que é capaz de criar sua própria realidade. A mente no sonho dizendo ser o sonhador, dizendo ser “alguém” sonhando. A mente não cria nada. Ela confirma sua própria aparição. Termina dizendo que está criando sua própria realidade. Você não é “alguém” criando sua realidade de vida. Essa “sua realidade de vida” é uma produção da mente, isso não tem nada a ver com você. É só um fenômeno, só uma aparição. Se desidentifique desse fenômeno. Se desidentificar desse fenômeno significa não se confundir com ele.
O trabalho de autoinvestigação, de meditação e de entrega a essa Verdade que é a Consciência é o fim dessa identificação com a mente, que nada mais é que esse sonho “pessoa-mente-corpo-mundo” como “alguém” nisso. Então, a brincadeira do sonho continua, mas não há mais a ilusão de um sonhador criando sua própria realidade. Você não é “alguém” criando sua realidade. Você é a realidade livre desse “alguém”. Não há “alguém”. Essa realidade é Ser, Consciência, Deus, Brahman. Essa realidade é Sat-Chit-Ananda, como se diz na Índia. Essa realidade Sat-Chit-Ananda não é o sonho, não é uma realidade que o pensamento cria, que a mente cria, que a mente sonha.
P – O que é compaixão? O “eu” pode ser compassivo, solidário e fraterno?
M – A ilusão é a ilusão de “alguém” sendo alguma coisa. Quando a ilusão de ser “alguém” está presente, esse “alguém” pode ser qualquer coisa. Esse “alguém” pode ser violento, agressivo, medroso, piedoso, compassivo, solidário e também fraterno. Enquanto houver o sentido de ilusão de “alguém” na ação, esse “alguém” pode ser qualquer coisa.
Ser é Consciência, Ser é Presença. A natureza do Ser é Amor, é Paz, é Silêncio, é Verdade, é Felicidade. É onde entra essa assim chamada compaixão nisso. Compaixão é só uma palavra. O Amor não trata com pessoas. Para o Amor, que é Consciência, só há Consciência. E essa Consciência se reconhece. A Graça de um Mestre vivo, que alguém chama de compaixão é a pura expressão desse Amor que é Consciência se reconhecendo. Isso é compaixão. Mas não é compaixão pelo “outro”. Isso é Graça, isso é Amor. A Presença é Amor. Esse Amor em expressão é Graça, é Consciência.
P – A Presença é Amor, mas não amor por “alguém”?
M – Não. Amor é a natureza desta Presença, que é o cerne, o coração de qualquer experiência. O coração, a essência, a natureza desse encontro aqui, essa é uma experiência. Não há um experimentador dentro dela, há só o experimentar, não é o experimentar de “alguém”, não é a experiência de “alguém”. A essência desta experiência – e essa é a experiência única – é amor, não há “alguém” nisso. A experiência dessa Consciência é amor. Amor não é prazer, não é sentimento, não reconhece direção, não vem de um ponto em direção a outro ponto. É essa onipresença, que é Consciência, sem forma, sem objetos, sem imagens. Não há “eu” e “você”. Não há ele, ela, nós, eles.
A questão é que nós estamos sempre reduzindo qualquer experiência a essa crença de uma identidade por trás dela. Então, há sempre o sentido de “alguém” nessa coisa, “alguém” capaz de amar, “alguém” capaz de receber esse amor. Não tem “alguém” quando há amor. Quando há amor, o sentido de “alguém” é impossível. Quando há o sentido de “alguém” amando, não há amor. “Alguém” é sempre uma crença do pensamento por detrás da experiência do prazer, da alegria, da satisfação, do conforto, do carinho, que é o que nós chamamos de amor por “alguém”.
É como a liberdade, é como a paz. Não tem “alguém” na paz. Quando a paz está presente, o sentido de “alguém” não pode estar presente. Quando surge o sentido de “alguém” temos a crença da paz. A paz é impessoal, o amor é impessoal, a liberdade é impessoal. É a natureza da Consciência, é a natureza do Ser, é a natureza da experiência, sem o experimentador nela. Eu falo dessa experiência agora, sem qualquer descrição, relato, sem qualquer ideia sobre isso, sem qualquer avaliação, comparação, sem qualquer pensamento. Essa Presença, que é Silêncio, que é Paz, que é Consciência, que é o cerne dessa experiência, é Amor. Não tem “alguém” nisso.
Não tem “alguém” em nada, em nenhuma parte, nenhum lugar. Só tem Ele, Aquilo, a Presença.
P – Estou achando a Verdade tão subversiva, caótica, anárquica e louca...
M – Perfeito. Estou perfeitamente de acordo com você. Não há nada tão subversivo, caótico, anárquico e louco quanto a Verdade para a mente. É para a mente que a Verdade é isso. Ela simplesmente é o que é. Mas é natural que ela pareça assim. É uma bela aproximação. Se pudermos nos livrar da mente, estamos diante do que É. E o que é pode ser qualquer coisa. Pode ser caótico, pode ser anárquico, pode ser louco, pode ser subversivo. Mas isso são só aparições.
P – Como olhar para a realidade como você olha, Marcos?
M – Desapareça . Não tem outro jeito. Enquanto houver a ideia de que você está aí, esse olhar é impossível. Esse olhar já é seu, o problema não é a falta desse olhar, o problema é não confiar nesse olhar por se acreditar ser capaz de olhar. A vida se apresenta exatamente assim, aparentemente caótica, anárquica, louca e subversiva. Mas se podemos deixar essa própria ideia de aparição de lado, ficamos simplesmente com o que é, e esse não é o olhar de uma “pessoa”, é o olhar dessa Consciência, dessa Presença, que é Liberdade, que é Paz, que é Amor, que é Felicidade.


Paltalk transmitido no dia 13 de Janeiro de 2014

2 comentários:

  1. Essa auto investigação,essa entrega a verdade é me ver como realmente sou,e não aquilo que está me aparentando.Aliás não tenho parentes.
    Nada que pode ser percebido,pode ser aquilo que sou.
    Parece egoismo estar só dentro de um mundo de aparências.
    O mundo só existe,quando existo como um alguém no mundo.
    Esse é o jogo do sofrimento,a ideia de alguém existindo relacionado com outros iguais.

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  2. Marcos Sem o sonhador os sonhos terminam? Ou continuam sem alguém identificado com eles.A forma com que o mundo se apresenta,sem o sonhador é a Consciência como ela se apresenta ou uma aparição ainda na forma de sonho?Se é uma aparição,aparição para quem? Aí entra novamente a questão:pode o sonho acontecer sem o sonhador?

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