sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Isso é uma dança divina



Quando nos encontramos, eu nunca tenho nada para dizer a você. Eu também fico surpreso junto com você. Na verdade, eu nunca estou dizendo nada. Eu não tenho nada para dizer mesmo, nada que você já não saiba, que você já não tenha aí dentro de você. Isso não é como ir a um professor e aprender alguma coisa. Satsang, para mim, não é um trabalho; isso é uma dança divina! Estar com você, para mim, não é um trabalho; é estar numa parceira, numa dança.

Eu nunca tenho nada para dizer a você, mas eu amo essa dança. E dança só é bom acompanhado, sabe? Dançar é muito bom, mas acompanhado. Estar com você é como estar numa dança. Isso é a minha "praia". Eu não sou um professor falando de um assunto que estudei, aprendi. Aqui, eu estou compartilhando o que Eu Sou, mais uma vez me reconhecendo naquilo que Você É. Então, isso fica muito simples para mim. É muito natural estar com você, querer você por perto, porque, no fundo, eu sei que você não tem outro lugar para estar; não há nenhum lugar fora de você mesmo para você estar.

Para onde você vai? Para onde você pode ir? Repare que todas as vezes em que você foi para um outro lugar, você sempre se deu mal. Sim ou não? Não é isso? O meu enfoque, a minha abordagem é essa: volte para si mesmo, volte para casa. Às vezes, você fica meio encantando com alguma coisa do lado de fora, como um garoto, uma garota, uma carreira profissional... É mais uma vez a questão do trabalho ou do relacionamento. Sempre as velhas e antigas questões que a gente bate, martela o tempo todo, mas a mente só conhece isso: coisa velha, velharia. É a mesma repetição, como foi com os seus pais. Você acha que eles não ficaram também encantados com o mundo do lado de fora? Olhe para a história do seu pai, da sua mãe. Eles também ficaram encantados com o mundo do lado de fora, o mundo dos relacionamentos, dos objetivos, das conquistas e realizações do lado de fora. Isso é quando você sai de si mesmo... Sai de "casa", vai para fora e se encanta com alguma coisa. Depois a mente diz: “Não é isso, é outra coisa. Também não é aquilo, é uma outra coisa”. Fica assim: de objeto a objeto, a objeto, a objeto...

Eu sei que você, a princípio, quando vem me ouvir, vem trabalhar isso comigo, fica um pouco revoltado, porque, no fundo, você queria que eu alimentasse a sua esperança. No fundo, você gostaria que eu alimentasse essa sua esperança, de que, apesar de não ter dado certo com aquele objeto, dará certo com outro; de que, apesar daquele não lhe ter dado felicidade, o outro lhe dará. Não é assim? Mas, um dia, se permanecer no trabalho, você ficará grato a mim por ter caído fora dessa coisa, ter visto a fraude disso. 

A princípio, a mente está muito encantada com isso, porque é uma questão de programação. Você está condicionado a acreditar que alguém, ou alguma coisa, vai lhe dar felicidade; que alguma realização vai lhe dar isso. Então, a minha abordagem é sempre essa: volte para casa. Pare de flutuar na mente, nas imaginações, nos desejos, nos motivos, nas intenções e nos projetos dela. Compreende o que eu quero dizer? Está dentro de você. Do que é que você precisa? De nada, de ninguém, de coisa nenhuma. A Felicidade está dentro de você. O “objeto do prazer” não é o objeto do prazer. O prazer é uma pequena lembrança da Felicidade, que está dentro, e você está preso a objetos. Não é o "objeto do prazer", pois o objeto é só um objeto, e o prazer é uma lembrança, bem longe, de uma Felicidade que já está aí dentro.

Você pode me dar qualquer exemplo. O que é que lhe dá prazer? Tomar um milkshake? Cheirar cocaína, por dar esse efeito químico na máquina [corpo], tocando em alguma região de prazer no cérebro? Isso é com o milkshake, com a cocaína, ou com uma picada de heroína. Essa lembrança, esse prazer, é uma lembrança muito longe da Felicidade de sua Natureza Real. Sua Natureza Real é pura Felicidade. Não é o objeto que lhe dá prazer. O prazer é uma lembrança de sua Natureza Real, mas a mente, que é só esse movimento de memória, presa na ideia de uma identidade presente na experiência, diz que é o objeto. Resultado: essa ilusão, a ilusão de uma identidade presente na experiência, fica presa ao objeto. Aí, quando aquele objeto já não dá mais, ele passa para outro objeto, depois para outro objeto, outro objeto... E você está perdido, distante de "casa", de sua Natureza Verdadeira, que é a Felicidade Real.

Alguns objetos podem parecer dar mais prazer do que outros, mas isso é de acordo com o que o cérebro calcula. Ele fica a serviço do ego, dessa suposta entidade presente nessa experiência, e calcula o que lhe dá mais prazer e menos prazer. Porém, você está dentro de uma armadilha egoica, porque Felicidade não é prazer e não está ligada a objetos, nem a experiências. Estar ao lado de quem você gosta, por exemplo, lhe dá muito prazer, mas repare o que o ego fez e faz deste prazer: uma dependência, o que, na verdade, é sofrimento, é medo.

Você não precisa estar ao lado de quem você gosta, você só precisa descobrir o Amor de sua Real Natureza, e, assim, estará ao lado de todos aqueles de quem você gosta. Se você descobrir o Amor de sua Real Natureza, já estará ao lado de todos de quem você gosta e ninguém será especial. Quando alguém é especial para você, você é muito especial — esse é o sofrimento. Mas, quando o Amor está presente, tudo é Amor, mas nada é especial.

Você descobre o lugar que tem o prazer quando já não precisa dele, não é mais dependente dele, e quando não há mais o sentido de "alguém" na carência desse ou daquele prazer. O prazer é neurofisiológico, a Felicidade não. Por ele ser neurofisiológico, antes da realização Daquilo que você é, o sentido de um "eu" presente, de um ego, de uma ilusória identidade aí, valoriza esse prazer e se agarra a ele, produzindo sofrimento. Você não separa, nunca, prazer do sofrimento, nem o prazer neurofisiológico de sofrimento psicológico. Não tem como separar isso, a não ser no caso do Jnani.

No caso do Jnani, como não tem mais essa ilusão do sentido de separação, do sentido de "alguém", do sentido do ego, o prazer é somente prazer fisiológico. Ele está presente? Sim. Não se trata de conciliar nada. Prazer e dor é algo neurofisiológico. A Felicidade está fora da fisiologia do corpo. O Amor está fora da fisiologia do corpo. Por exemplo, na expressão "tem uma química", que vocês repetem como papagaios, essa “química” é ego, é uma coisa neurofisiológica, biológica, bastante animal ainda, e com uma boa pitada de sentido egoico, coisa que, no animal, é bem mais suave. Nos, assim chamados, seres humanos, isso é bem mais protuberante, violento e miserável. 

Portanto, quando estiverem numa relação de prazer, com algo ou alguém, alguma coisa ou alguém, não confundam isso com Amor. É muito fácil verificar isso. O que acontece se o outro trair você, for embora, não quiser mais vê-lo? Se o outro não quiser mais vê-lo, vai ter sofrimento? Se sim, então não é Amor. No Amor não há carência, não há dependência, não há imagens... No amor não há prazer. É preciso a investigação, cuidadosa, paciente e pelo tempo que se fizer necessário, de como se processa aí dentro de vocês. 

Onde é que está esse "eu"? É por isso que se requer tempo para o Despertar — uma “Coisa” que não requer tempo nenhum, porque é a sua Natureza Verdadeira agora, aqui. Mas todo esse modelo de repetição, de programação, de condicionamento, de hábitos, durante muitos anos, precisa desaparecer, e isso leva algum tempo. 

*Transcrito a partir de uma fala no Ramanashram Gualberto, na cidade de Campos do Jordão em um encontro intensivo, novembro de 2016.

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