terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Permaneça aqui



Esse momento é sempre aquele momento de estarmos fazendo a coisa certa. O que será essa coisa certa? 

Se você entrou na sala e está aqui para ouvir uma palestra, você não está diante da coisa certa a ser feita. A coisa certa a ser feita nessa sala não é ficar atento a uma fala. Estamos em mais esse encontro para fazermos a coisa certa! Ouvir um orador, ouvir um palestrante, ouvir um conferencista, ouvir alguém que sabe algo que você não sabe, que vai lhe explicar algo que você precisa compreender, não é a coisa certa a ser feita; não nessa sala! Isso não é uma proposta real. Então, eu volto a dizer: esse momento, é um momento em que você pode fazer a coisa certa. E essa coisa certa é estar assentado neste Silêncio, diante deste Silêncio. A coisa certa a se fazer nesse encontro, em todos os encontros nesse formato, é se assentar neste Silêncio, é ficar diante deste Silêncio. 

Não há nada a ser ensinado, explicado, e não há nada para se aprender. No entanto, neste Silêncio, algo completo se revela. Aquilo que se revela neste Silêncio é essa Verdade, a Verdade do que realmente pode ser comunicado dentro desse espaço chamado Satsang. O que pode ser comunicado dentro desse espaço é o Nada. É isso mesmo o que você ouviu: apenas o Nada pode ser comunicado dentro desse espaço. Nada para ouvir, nada para aprender, nada para descobrir… Este Silêncio representa apenas isso: esse Nada. Toda a Verdade está neste Silêncio, e este Silêncio, que é a Verdade, é algo tão simples assim. Esse Nada revela tudo; esse Nada se mostra como a única coisa que importa; esse Nada se mostra como a única coisa necessária; esse Nada é a Natureza de Deus, é a natureza Essencial do Vazio, Aquilo que Buda descobriu debaixo da Árvore Bodhi, Aquilo que Cristo constatou no deserto. Buda, após trinta dias debaixo daquela árvore; Cristo, após quarenta dias no deserto.  

A única revelação que importa para a sua vida é a revelação desse Vazio, é a revelação desse Nada. Esse Nada é a Totalidade, é a Completude, é o fim do sofrimento, é a entrada do Reino dos Céus. Essa é a linguagem de Jesus. Jesus costumava dizer que aquele que não nascer de novo, aquele que não vivenciar diretamente esse novo nascimento, não poderá entrar nesse Reino. 

Na linguagem de Buda, não há como ir além do Samsara, além de Maya, além da ilusão de ser alguém, de ser uma entidade, de ser uma pessoa, sem esse Vazio, sem adentrar nesse Vazio, sem adentrar no Nirvana. Isso é o fim! É o fim do conhecido, da ilusão, desse medo que é sempre constante, que é uma constante nessa vida quando a ilusão da separação está presente, quando o desejo está presente. Na linguagem de Buda, o sofrimento está presente quando o desejo está presente. O desejo é sofrimento, é um outro lado dessa moeda. O medo está presente quando o desejo está presente. Então, nós temos dois lados de uma moeda: em um lado, nós temos o desejo; no outro lado, nós temos o medo. E a vida humana caminha dentro dessa dualidade. Na verdade, essa dualidade da mente está presente em diversos aspectos dessa vida egoica, dessa vida mental. Desejo e medo são só um dos aspectos dessa dualidade. 

Não se trata de aprender sobre isso, de estudar sobre isso, de falar sobre isso. A única coisa dentro desse trabalho é tomar plena consciência desse movimento e se desfazer dele, deixá-lo cair, deixá-lo desaparecer. Esse é o movimento de crenças e pensamentos, que significa ter a vida sempre orientada por desejos, mantendo o medo como algo sempre presente. Não é possível a Liberação enquanto isso se mantém; não é possível o fim do sofrimento enquanto isso se mantém; não é possível essa entrada no Reino de Deus, no Reino da Verdade, no Nirvana, ou qualquer nome que nós queiramos dar para Isso. Na Índia, a expressão é Samadhi — o Estado além de todos os estados, Aquilo que está além do conhecido, além dessa limitação de uma vida pessoal, de uma vida dentro desses limites de tempo, desses limites do pensador, de uma história pessoal. 

Todos acompanham isso? Está claro isso? Está estranho? Está assustador? Está louco demais? Como soa isso para você? 

Portanto, aqui se trata de soltar o conhecido, de soltar essa limitação do tempo, que é desejo, medo, pensamento e história. Nós temos dado muito valor à história. A história se tornou muito importante. Ela é sempre importante para alguém. A importância dela surge com a memória, com essa necessidade egoica de autoexpressão. Quando precisamos nos configurar no tempo como uma entidade presente, precisamos dessa história e, assim, firmamos constantemente a memória, valorizamos constantemente o pensamento para sustentar isso. É necessário ver a importância de ir além do tempo, ir além do conhecido, da história, da memória… Isso significa o fim desse passado. Quando o passado termina, o futuro não tem importância, já não é mais valorizado. É sempre a ilusão de alguém presente aqui, aguardando algo… algo melhor, comparado a tudo aquilo que já aconteceu. Então, você cria o futuro, porque você se reporta ao passado. Você está sempre pensando em si mesmo como uma entidade presente, só porque você valoriza a ideia do passado. Você valoriza a memória e projeta o futuro com base nela. Não sei se está claro isso… 

Você está sempre se configurando no tempo como uma entidade presente. Você sempre está dizendo: “Ontem foi assim, mas poderia ter sido diferente”; “Eu não consegui ontem, mas eu vou conseguir amanhã”; “Amanhã será diferente do que foi ontem”. Quando você faz isso, você sempre se reafirma como alguém... sempre tendo esperança, sempre aguardando que as coisas mudem. Na verdade, o seu futuro não será diferente do que foi esse seu passado. Isso por quê? Porque o ego é só isso! Ego é esse movimento no tempo, é a ilusão de uma entidade presente que se repete no tempo. O tempo é uma ilusão, mas essa entidade assume ser real e se repete, e a sua repetição é só memória — ainda é passado, ainda é pensamento, ainda é a imaginação, é essa suposta pessoa que você acredita ser. 

Está claro isso? Não sei se estou colocando muito rápido… 

Você é um conjunto de memórias, um conjunto de crenças, um conjunto de imaginações... Apenas isso: uma fraude, uma ilusão. Esse é o ego, o sentido do “eu”. Apenas isso se repete, apenas isso tem continuidade no tempo. Essa continuidade é o próprio tempo, e esse tempo é só essa imaginação. Reparem que estamos usando várias palavras, mas estamos sempre dizendo a mesma coisa. Intercambiando com palavras, mas apenas falando uma coisa.  

Tudo isso são apenas pensamentos. Eu tenho frisado muito sobre a importância de não se dar importância aos pensamentos. A mente egoica precisa do pensamento. Você, como uma entidade separada, não é real sem pensamentos. Como uma entidade separada, você só é “real” em razão dos pensamentos. Então, se você está disposto a ir além da ilusão, dessa suposta realidade de ser alguém, você precisa deixar de confiar nos pensamentos, precisa estar assentado nesse Silêncio. 

Por isso eu comecei a fala dizendo que a coisa mais importante a ser feita neste encontro é estar aqui, neste Silêncio. Diante do Silêncio, em silêncio. Livre do passado, livre do futuro, da memória, da imaginação, do tempo. Isso significa Meditação! Meditação é uma outra palavra para Consciência, que é uma outra palavra para Samadhi, para Nirvana, para Reino dos Céus… O Reino dos Céus é Isto que está agora, neste instante, se mostrando fora do tempo, fora do conhecido, fora da particularidade do “eu”. O Reino dos Céus é o Reino de Deus, é algo fora da história. O Reino de Deus é o Reino livre da imaginação e, portanto, livre do pensamento, livre da pessoa.  

É necessário se reconhecer como Samadhi, como Silêncio, como Consciência, como Nirvana, como Reino dos Céus, como Deus! Isso significa que não há pessoa! Isso significa que o pensamento não é importante! Nós temos agora o uso da fala, e a fala é a verbalização de pensamentos, mas isso não está tratando dessa “Coisa” em si, é apenas uma sinalização, um apontar, porque essa Coisa em si é o Silêncio, é Samadhi, é Consciência, é Ser!   

Algo mais? Alguma pergunta sobre isso? 

Participante: Mestre, é simples quando estou aqui o escutando, sinto até uma “liberdade de ser ninguém”, mas chega no outro dia, tudo volta! 

Mestre: Então, permaneça aqui! Não vá para o outro dia! Por que vocês precisam dar esse passo para o outro dia? Quando você acredita que existe outro dia, você está de volta ao tempo. Quando você acredita que existe outro dia, você se move desse instante para um espaço imaginário chamado tempo, e é nesse tempo que está o futuro, e é nesse futuro que está o “eu”, essa ilusão de ser alguém. O “eu” sempre se situa no passado ou no futuro e vê esse presente como um portal. Do lado esquerdo está o passado, do lado direito está o futuro, e esse “eu” se situa nesse, assim chamado, presente, o portal que está sempre trazendo a existência do tempo. 

Então, eu lhe recomendo a abandonar o tempo. Isso significa: não vá para o dia seguinte, permaneça Agora! O presente, como esse portal, vai ser uma grande tentação para você ir para a esquerda ou para a direita, para o passado ou para o futuro. Estou lhe dizendo: permaneça Agora! Assentado no Silêncio, nesse Silêncio que é Consciência, que é Presença, que é Samadhi, que é SER. No Silêncio não há pessoa, não há futuro, não há passado, não há história. 

Não se preocupe com a questão do tempo para realizar Isso; Isso não está no tempo. Isso significa que toda essa “sua vida”, que pode, nesse tempo cronológico, levar mais trinta, quarenta ou cinquenta anos, é completamente irrelevante. Esse, assim chamado, tempo cronológico ainda não é o tempo. Isso não está no tempo. Coloque esse, assim chamado, tempo cronológico, ou tempo do relógio, à disposição desse não-tempo, dessa Realização atemporal. O que estou dizendo, em outras palavras, é: você tem a vida inteira para constatar Isso. Você tem todo o tempo do mundo para descobrir que não há nenhum tempo.  

Portanto, coloque o seu coração inteiramente Nisso; coloque sua vida inteiramente Nisso. Essa sua vida é essa única Vida atemporal. Então, não se preocupe com o tempo. Quando não há mais essa preocupação, não existe mais a ideia da Iluminação. Quando não há mais essa preocupação, não existe mais a ideia de chegar a algum lugar, de chegar a esse ou àquele estado. Você está agora, aqui, com seu coração inteiro dedicado ao fim dessa ilusão, que é a ilusão do amanhã, que é a ilusão do tempo, que é a ilusão do ontem, que é a ilusão do passado, que é a ilusão do futuro. Então, você está fazendo a coisa certa, que é estar nesse Silêncio, aqui e agora!

*Transcrito a partir de uma fala via Paltalk na noite de 12 de Agosto de 2016  
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