domingo, 11 de dezembro de 2016

Como é o Estado Natural?




A Consciência não está no tempo, a mente está no tempo. Tempo é sinônimo de mente, e tempo, que é sinônimo de mente, são pensamentos. A Consciência é o seu Estado Natural; na Índia, eles chamam isso de Liberação, Moksha, que é o Estado de Consciência autorrefulgente, resplandecente. É como quando você olha para o céu, vê nuvens e vê a lua entre as nuvens... É ainda um amanhecer e o sol está começando a despontar, a brilhar no horizonte, mas a lua está lá e as nuvens também, e o sol começa a brilhar e se espalhar pela Terra. O sol vai subindo, e a lua, que estava tão brilhante, começa a ficar pálida... vai empalidecendo, empalidecendo… Então, você olha e diz: Cadê? O brilho do sol é tão grande que a lua desaparece, mas ela está lá e já não faz mais nenhuma diferença. 

O Estado Natural é algo semelhante a isso: a mente está presente; todas as funções da mente, as funções naturais, como sentir, pensar, se emocionar, raciocinar, deduzir, concluir, falar. No Estado Natural a mente está presente, todas estas funções mentais estão presentes, mas, como o "Sol" está brilhando, ela já não tem importância. O Sol é a Consciência e a mente "é a lua". Uma vez estabelecido nessa Consciência, uma vez que o "Sol" já esteja em pleno meio dia, a lua faz o trabalho dela, sem tirar o brilho do Sol. Então, a mente opera em suas funções naturais, mas não toma o lugar da Consciência. O Estado Natural é assim. 

No estado não natural, que é o estado do homem comum, "a lua está tomando o lugar do Sol", está tentando "fazer o trabalho do Sol". Então, quando a lua tenta fazer isso, ela mistura suas funções naturais, que é raciocinar, concluir, deduzir, explicar, conhecer, experimentar, pega isso e cria a ilusão de um experimentador controlando essas funções. Assim, a mente passa a assumir um controle que não é dela, tenta assumir o lugar da Consciência... A lua tenta roubar o brilho do Sol, pois ela não se contenta somente em refletir o brilho do Sol; quer roubar o brilho total do Sol; quer ser um Sol à parte - Isso é o sentido da separatividade. 


É isso que as escrituras chamam de queda de Satã, de Satanás. Na Bíblia, no livro de Isaías tem umas palavras assim: "Subirei a mais alta nuvem e me tornarei semelhante ao Altíssimo". Tem toda uma linguagem figurada, desse sentido de uma identidade no controle, real, uma identidade verdadeira, senhora de tudo, e isso produz a ilusão do espaço e do tempo para essa suposta entidade presente. Então, essa mente que tem suas funções naturais, pensar, sentir, deduzir, concluir, em razão dessa ilusão da separatividade, cria o sentido de um "eu" na experiência corpo/mente/mundo, surgindo aí a ilusão do ego. 


A mente, em si, não é má, pois pensar, sentir, concluir, deduzir, aprender, lembrar, esquecer, tudo isso, é bem natural, mas a serviço de uma suposta "entidade" presente nisso, a serviço de um "eu" separado, complica tudo. Aí é que surge o Satã (Satã em hebraico; diabo ou diabolus no grego). A noção de tempo e espaço surge para essa identidade, não pra mente, mas nós chamamos esta suposta "entidade" de mente egoica. Colocando de uma forma didática, nós chamaríamos isso de mente egoica, mas a mente, em si, é só a lua num céu, onde o rei é o Sol... A lua apenas reflete o brilho do Sol, sem problema. 


Por isso é que, nas falas, você me vê usando a expressão "mente", às vezes falando dessa "mente egoica", e às vezes estou falando só da "mente", não da "mente egoica". Você pode observar, nas falas, que eu faço um intercâmbio entre a mente e a mente egoica. Às vezes estou falando "mente", tratando da mente egoica; outras vezes, estou falando "mente" e estou tratando só das funções naturais da mente. O corpo não tem funções naturais?! A mente, também, tem funções naturais. O que chamamos de mente, nesta máquina [corpo], é isso que opera numa unidade inseparável do próprio corpo; então, na verdade, a gente fala "mente", mas corpo é mente e mente é corpo. Nos referimos somente às funções não físicas, mais sutis, da máquina, como o sentir, o perceber, o movimento do pensamento, a razão e assim por diante. 


Agora é espaço para o atemporal, que é o Sol em sua refulgência, em sua glória. Uma vez estabelecido como Consciência, uma vez essa Consciência estabelecida nesse mecanismo, organismo, a mente assume as funções naturais dela. O resultado disso é: o Agora, que não é o agora do tempo, momento presente, é somente o Agora atemporal, que é Consciência, que  assume o lugar dela. Então, fica irrelevante o passado ou o futuro. Já que esta suposta "entidade" ilusória não está mais presente, é possível se lembrar do passado, como se lembra de um filme, sem aquelas antigas sensações do momento em que você assistiu ao filme. Repare que, no momento em que está assistindo a um filme, você passa por várias sensações, sentimentos, e as imagens e os sons causam impressões. Mas, depois, quando se lembra do filme, você ri, porque é "um filme" que não causa mais nenhum impacto para você, porque não é um filme, é só uma lembrança sem importância. 


Então, o passado é essa lembrança sem importância, que, na verdade, está acontecendo agora só como parte, também, de uma imaginação, porque não tem nada, de fato, acontecendo... Agora, não.  Quando Isso está resolvido, é visto assim. Quando Isso não está resolvido e o filme volta, que é o passado, ele ainda volta com uma carga, toda aquela carga de impressões imaginárias que são sentidas agora, aqui. Então, os traumas são assim, mas não somente os traumas; toda e qualquer lembrança egoica opera desta mesma forma. É só uma imaginação aparecendo neste momento e tomando uma impressão de realidade, porque encontra uma reverberação nessa ilusão de uma "entidade" presente, ainda, carregando esse passado, que é só memória, imaginação. 


O ego é isso: a ilusão de uma "entidade" presente, agora, que sentindo um trauma, uma culpa, um remorso, um arrependimento, é essa ilusão. A depressão é isso. A ansiedade é isso, só que ela joga com uma memória imaginativa de um futuro, a imaginação de um futuro imaginário. Então, é o mesmo processo: sempre a ilusão de uma identidade agora, aqui, sentindo. Não tem nada aqui para sentir isso, nada, absolutamente nada, somente a ilusão de que "você é real dentro do corpo", e que essa imaginação é sua, desse "alguém" que você acredita ser. 


O Estado Natural é a consciência desse instante, mas é uma Consciência Real, não é a visão do momento presente, não é o momento presente, é a Consciência desse instante. Nela pode aparecer a memória do passado, a imaginação de um futuro, mas isso é só um acontecimento neste instante, como um pensamento sem nenhuma validação, sem nenhuma verdade. Então, não altera em nada O que é. Isso raramente acontece, mas se acontece uma lembrança, uma imaginação, não tem importância. Isso é como o feno no fogo forte: ele vem e, enquanto você o está vendo cair, ele já foi. A mente do Sábio funciona assim: quando o pensamento aparece, ele já é consumido nessa Consciência; então, não se estabelece o tempo, o passado ou o futuro. A Consciência é essa Presença agora.

*Transcrito a partir de uma uma fala ocorrida no Ramanashram Gualberto em Setembro de 2016 na cidade de Campos do Jordão

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