quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Viciados em adquirir informações




Satsang significa se deparar com aquilo que está presente! 

O pensamento aí não faz isso. O pensamento é algo presente, às vezes sim, às vezes não, mas ele não se depara com o que está presente. O pensamento é só uma aparição, como qualquer outra aparição (como o som da chuva, agora). Toda experiência, todo conhecimento e todos os conceitos e crenças são apenas pensamentos. Nada disso é a Verdade, porque não se depara com o que está presente... Nada disso. Isso também é algo que aparece aí, que vem e vai, vem e vai... 

Assim, todo conhecimento, toda experiência, toda forma de ideologia, de crença, de conceitos, não é a Verdade. Aparece na Verdade, mas não é a Verdade. A Verdade é aquilo que está presente e que não muda, não existindo nada dentro do conhecido que seja assim. O corpo não é assim, nem a mente, e nem as sensações, as emoções, os pensamentos, ou qualquer forma de conhecimento e de experiência.

Então, o que é Satsang? Satsang é deparar-se com Aquilo que está presente, no qual isso tudo aparece e desaparece, e onde o presente também aparece. O presente não é a Verdade. A Verdade é Aquilo no qual o presente aparece.  O presente momento não é a Verdade, pois ele se torna o momento “que foi” para o pensamento, que, também, não é o mesmo.

Então, o que é Satsang? Satsang significa deparar-se com a Verdade. É o encontro com a Verdade, que está fora do tempo; está fora do passado, do futuro e do presente. A Verdade está fora da história, dessa história da “pessoa” aí, porque essa “pessoa”, também, não é o que está presente e sim aquilo que aparece Naquilo que está presente. Toda consciência que você tem do mundo não é a Verdade, porque essa consciência, também, ainda não é a Verdade. A Verdade está quando “você” e o “seu” mundo não estão.

Você não pode encontrar a Verdade. Em outras palavras: você não pode encontrar Deus. Você não pode encontrar a Liberação, a Salvação, a Realização, porque “você” é o obstáculo. Você só aparece com o seu mundo. Sem o seu mundo você não aparece, não é absolutamente nada. Você sem a sua história não é absolutamente nada, então, sem a sua história, não tem “você”. Quando não tem você, esse “absolutamente nada” é o que nos interessa investigar aqui, porque esse “absolutamente nada” é absolutamente O Todo, que não é você, “eu”, “ela”, “ele”, “nós”.

Às vezes você tem um vislumbre Disso, mas isso vem e vai embora. Você tem um breve vislumbre de que não tem “alguém” aí, até que o próximo pensamento surja. Quando o pensamento surge, você se embola com ele e começa a fazer afirmações pessoais, e, mais uma vez, você está dentro da história. Dentro da história você tem o “seu” mundo, dentro dele você é “alguém”, além de ter “alguns”, vários, à sua volta. E aí está você de novo perdido, em maya (ilusão), na ilusão do “eu”, do sentido de “alguém”, é claro, com problemas. “Alguém” sempre tem problemas, porque “alguém” sempre tem escolhas, desejos e, portanto, tem medo.

Percebem como é simples isso?

Basta o primeiro pronome, “eu”, para tudo mais surgir. Você não quer se deparar com O Que é, porque Isso significa o fim do “seu” mundo, do corpo, da mente, do mundo, da história, da “pessoa”.

O que é isso que agora está caindo do céu? O que é isso? Agora, por exemplo, o que está acontecendo? Como é que a gente chama isso que cai do céu? Chuva! Mas o que é basicamente isso? Quando sai de uma rocha, como é que vocês chamam? Nascente! Quando faz um caminho entre uma trilha, você chama de riacho. Quando aprofunda e abre espaço, esse riacho atinge certo volume de água e você chama de rio; quando ele chega ao final desse grande volume e alcança um volume muito maior de água, você chama de mar. Repare que os nomes vão mudando. Quando cai do céu é chuva, quando sai de uma rocha é nascente, quando segue uma pequena trilha é riacho, quando alarga um pouco mais e aprofunda é rio e quando esse rio se perde num volume muito maior de água você chama de oceano, mar. Mas qual é o nome disso que está caindo do céu? Água...

Isso é como o seu nome: o seu nome é diferente do nome dela, que é diferente do nome dele, assim como a mesma água é chamada de chuva, rio, riacho, nascente e oceano. Você tem um nome, ela tem um nome, ele tem um nome, cada um tem um nome diferente, e, assim, os nomes são diferentes, as formas são diferentes. Na chuva, a água cai do céu; na nascente, a água sai da rocha; no riacho, ele segue uma pequena trilha e vai crescendo; quando chega ao rio ele aprofundou e tem um volume maior; quando chega num espaço muito maior é o mar. Os nomes e as formas vão mudando para a mesma “coisa”.  A mesma “coisa” vai mudando de forma. O nome vai mudando, mas é a mesma coisa sempre. A água é sempre água.

O Ser é sempre O Ser. Tem a forma de menino, de menina, de flores, de árvores, de macaco, de pássaro, de aves, de peixes, mas é o mesmo Ser, a mesma Realidade, a mesma Verdade com nomes diferentes. É como o ouro que, em algum momento, é um brinco, no outro é um colar, no outro é uma pulseira, no outro é uma estátua, mas é ouro. Então, só mudam as formas e os nomes, mas não tem nome, porque ele é a gente que dá. A gente chama de água essa coisa líquida, transparente, incolor, sem odor, no seu estado natural. Depois a gente chama de vapor, gelo, etc., ou seja, começa a dar nomes para as formas que ela assume. Os nomes, somos nós que damos, e isso é coisa que o pensamento inventa, mas o pensamento não é a Verdade.

Quando você realiza, quando constata a sua Natureza Real, você vê que são somente nomes e formas para a mesma Verdade, que é Você, porque só tem Você. Agora você não se confunde mais com um nome, com a forma, porque sabe que você é Deus... Porque só tem Ele.

Essa multiplicidade, essa separação entre formas, é criada pelo pensamento, numa necessidade da mente egoica de dar explicações, criar conceitos. Vocês estão viciados em adquirir informações, para se sentirem seguros, no ego, de que sabem alguma coisa. Contudo, a única coisa, que você realmente pode saber, “você” não pode saber. “Ser” não é possível saber. “Ser” é possível Ser, mas não é possível saber. Então, se você sabe alguma coisa, é um tolo e está preso, ainda, a um conjunto de ideias, de crenças, de pensamentos, de nomes (nomes para as formas). Quando faz isso, você está perdido na ilusão da separatividade, está na ilusão do sentido de um “eu”, que é somente um nome, também. Então, você diz: eu sou Isabel, eu sou Cristina, eu sou Margarida, eu sou Selma, eu sou Célia, eu sou João, eu sou Marcos, eu sou Paulo, eu sou... E aí você se identifica com uma história, que é a história de uma menina, de um menino, de uma “pessoa”, de um “ser humano”. Não há ser humano, como não há ser animal, ser vegetal, ser mineral... Não existe isso... É como dizer: água-chuva, água-rio, água-fonte, água-mar... Não existe água assim; água é água.

O reconhecimento Disso, da sua Natureza Real, é o fim da dualidade, o fim do sentido de separação. Isso é Felicidade, é Amor, é o fim do sofrimento. Por não existir mais nada importante, por você não ser importante, nada pode fazê-lo sofrer, porque não há “alguém” aí para sofrer por alguma coisa; não há alguma coisa pela qual “alguém” aí ainda possa sofrer, porque não tem “alguém” aí. Só tem a Vida. Isso é Iluminação, esse é o Estado de Buda, é o Estado de Cristo, esse é o Estado Natural. Esse é um Estado que não é um “estado” (que muda para outro “estado”). Isso não é um “estado”, é Você. Isso é Sabedoria, é Amor, é Verdade, é Liberdade, é Sanidade, é Santidade, é ser Deus, é Ser somente O que Você nasceu para ser.

Observem que Nisso não há graduação, que, também, é criada pelo pensamento. Não é possível estar mais perto ou mais longe de Deus. Esse “mais longe de Deus” ou “mais perto de Deus” é como a água em estado de vapor, que, se pudesse dizer, diria assim: “eu sou quase água, eu não sou líquido, mas eu sou quase água”; ou como se o gelo pudesse dizer: “eu sou quase água, mas estou muito petrificado, ainda”. Não existe isso, que é somente coisa de filosofia, de religião, que vocês aprenderam. Isso de que você está mais perto ou mais longe de Deus, que o pecado o afastou de Deus, não existe. O pecado é só a ilusão de que “você não é” O que Você É, de que “você é alguma outra coisa”. A confiança no sentido de separatividade, que você é um e Deus é outro, este é o pecado. O único pecado possível é essa heresia de achar que você não é Deus... Este é o pecado. A ilusão da separatividade, esse “conhecer” o bem e o mal é o pecado. A idéia de ser “alguém” cercado de muitos, olhar e se ver como “alguém” olhando para “alguém”, esse é o pecado (a ilusão da separação).

O pecado é o ouro acreditar que é a forma do brinco, ou do cordão, e ficar dizendo para todos: “eu sou o cordão”, “eu sou o brinco”. É o ouro, mas ele está dizendo que é o brinco, que é o cordão. É pior quando ele diz “eu sou o cordão” e, olhando para outro, diz: “você é um cordão também”... Ele vê um montão de cordões e de brincos em volta dele. O “ouro” esqueceu que é ouro, que só tem ouro, que ele só está vendo ouro, porque ele vê somente o que foi condicionado para ver, pela religião, pela filosofia, pela cultura, pela sociedade, pelos pais, pelo mundo em volta dele. Ele vê como todo mundo vê, porém todo mundo vê como o cego vê, ou seja, não vê nada; imagina tudo e não vê nada, mas imagina que está vendo. É tudo condicionamento, tudo crença, tudo ilusão. 

Quando vem ao Satsang, você vem estar comigo, que é estar com Você mesmo, porque só há EU aqui, que é Você. Se você souber ficar da forma que eu preciso que você fique aqui, você vai se encontrar... Vai parar de ficar dizendo que é cordão, que é “brinco, pulseira, estátua ou alguma peça feita de ouro”. Você vai parar de dizer que é “gelo, vapor”; que é... 

Estar em Satsang significa estar nessa intimidade, que é a intimidade de sua Real Natureza... Ter uma oportunidade de ir além da ilusão do “eu”.

*Transcrito a partir de uma fala ocorrida no Ramanashram Gualberto em Outubro de 2016 na cidade de Campos do Jordão.

2 comentários:

  1. A mente pode relutar,fazer afirmações que neguem Satsang.
    Mas como não se encantar!
    É Deus!

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