domingo, 6 de novembro de 2016

Sozinho você é a plena felicidade




Intelecto não significa nada, absolutamente nada. Realização não requer intelecto. Na verdade, Realização requer o fim do intelecto, pois o intelecto ainda é egoico. O intelecto está na estrutura do ego. A Consciência não é intelectual; está além disto. O intelecto está no ego, assim como a emoção, o sentimento, a sensação, o prazer, o desejo, o medo; está tudo na estrutura egoica. Isso é basicamente a estrutura do ego. 

Se você nasce e a sua inclinação é voltada para isso, então você é uma pessoa, você é uma egoidentidade, está preso ao Samsara. Se para você comida é tudo, sexo é tudo, livro é tudo, entendimento é tudo, conhecimento é tudo, você está preso a uma egoidentidade, a um experimentador; está preso aos sentidos, à experiência “eu sou o corpo”. Se você nasce e os desejos são poucos, significa que a referência de busca de prazer para essa estrutura do ego, já não é tão forte, ou seja, a busca de sensação já não é tão forte para essa egoidentidade. Isso é um sinal de desprendimento do Samsara, do mundo. 

Interessante que na existência todos os seres sencientes partilham isso, como a árvore que deseja ter "filhos"; deseja produzir frutos, para ter "filhos". As árvores sob as quais Ramana ficava embaixo na montanha perdiam esse desejo; elas paravam de produzir frutos, paravam de querer ter "filhos". Frutos são filhos da árvore e ela não está preocupada em dar um fruto para você comer; ela está preocupada em se multiplicar, em continuar, e para isso ela tem que "ter filhos". Aí ela tem que dar flor e o fruto, para aquele fruto se tornar uma nova árvore, para fazer o mesmo, e assim por diante. 

O princípio é o mesmo que nós temos hoje aqui: você está sozinho, e sozinho você é a plena Felicidade. Você como Consciência sempre está só, e, neste estar só, você é a Felicidade Absoluta, não precisa de nada. Mas a egoidentidade cria o corpo, que precisa de comida, de abrigo, de bebida, de sensações, e vai buscar as sensações em comer, em beber, em sexo. Isto fortalece o sentido de uma identidade na experiência corpo-mente-mundo, e aí começa o conflito. Como Consciência você é Sat - Chit - Ananda, Ser - Consciência - Felicidade. 

Mas o pensamento surge, o desejo surge, com o desejo a sensação, com a sensação a presença do corpo para sentir. Por isso que é miserável morrer nessa ilusão, porque o sonho,  o desejo continuam; a ilusão de querer ser, de buscar ser, de ter, continua. Atrelada a isso, está essa continuidade no tempo e no espaço, para mais e mais sensações de prazer, mas o prazer carrega a dor, sempre . Você conhece algum prazer que se separa da dor? Prazer é somente um lado da dor, porque o que lhe dá prazer é também dor; o outro lado é dor. 

Vamos dar exemplos aqui. Quem gosta de chocolate? Dá prazer, ou não, comer chocolate? Agora eu vou colocar aqui uma caixa de chocolate para você comer. Quando você acabar, eu vou colocar uma outra caixa, depois uma outra caixa. O que vai acontecer? Enjoar... Então?! Não se transforma em dor? Qualquer prazer não se transforma em dor? Por maior que seja o prazer, se continuar... Ele não tem que ter um intervalo para vir uma recuperação? Sim, porque, se não, a dor estará ali. 

A estrutura de prazer que é a "máquina", o corpo, é dor, já é dor; ela não suporta o prazer, ela já carrega a dor. Então, não existe um prazer que não se transforme em dor. O prazer é dor, é um outro lado do prazer, e a dor é um outro lado do prazer. Toda experiência de prazer do corpo-mente-mundo se transforma em dor. Tem que haver um espaço, um descanso. Nesse descanso, que é a ausência do prazer e, também,  ausência da dor, é onde a Felicidade pode ser encontrada. Mas o ego não está interessado neste descanso, porque no descanso ele não existe na experiência, não existe para experimentar. 

Então, onde está a Felicidade? Neste intervalo, no descanso, está a Felicidade. Este intervalo é a ausência do prazer, é a ausência da experiência e do experimentador. O ego tem interesse nisso? Não! Por que o ego não tem interesse nisso? Porque não há sensação, não há o experimentar, não há o experimentador. Assim, ele não existe, desaparece, e, quando ele desaparece, existe a possibilidade do Samadhi, da pura Consciência, que não experimenta e está além do corpo, da mente e do mundo. 

A Felicidade, para quem não conhece o Samadhi, existe no sono profundo. Você despreza qualquer prazer que tem por um sono profundo. Você está dormindo ao lado de um homem muito bonito, ou de uma mulher muito bonita, mas cansou; vira para o lado e entra no sono profundo, onde você desaparece e deixa o outro, o corpo, a mente, o mundo. Assim, você entra na delícia do sono profundo, onde não tem ninguém. Isso é a Presença. 

Presença é Consciência, e Consciência é fora do tempo! É onde Você é O que é, puro Ser... Aí você desfruta de plena Felicidade. Você sai do sono profundo e acorda do lado do seu namorado, ou namorada, e o conflito surge, porque tem dois. A mente diz "quero experimentar" e, quando ela diz isso, o desejo surge; quando ele surge, surge o sofrimento, porque começa a dependência de que "o outro me dê". Isto é dualidade, é ego, é sofrimento. 

Isto é o desejo da felicidade, uma felicidade que já estava no sono profundo, mas não era desejada; já estava lá. A mente transforma e traduz a felicidade em prazer sensorial, e assim o outro e o corpo se tornam importantes. Quando isso se torna importante, o sofrimento está presente, porque isso é medo, é sofrimento, é dependência. Assim, uma série de consequências surgem só porque você deixou sua Natureza Essencial, que é Felicidade, para se identificar com o corpo.

Felicidade não existe na dualidade. Eu Sou é Felicidade, acompanhado ou sozinho. A Felicidade que Eu Sou não depende da relação com nada à minha volta. Esta é a proposta que você tem em Satsang. Felicidade é Ser, e Ser está além da dualidade.

O Amor é a sua Natureza Real! Sendo a sua Natureza Real, não é prazer, não é falta, não é afago, não é carícia, não é sexo, não é desejo. Amor é Amor! Amor é a natureza da Felicidade! A natureza da Felicidade é Consciência, que é Ser, que é Samadhi. Vá além de toda a dependência, indo além dessa ilusão do sentido de "alguém" na experiência – isso é o resumo, o cerne, o centro de tudo o que eu falo. Vá além da necessidade do experimentador, além do mundo.

Em sua Natureza Real cada coisa assume o lugar que tem que assumir, não o lugar que você deseja, porque não há mais "alguém" que deseja nada. Se há Felicidade, não tem mais desejo, não tem "alguém". Quando há Amor, seu olhar é o mesmo olhar para todos os lados, lugares, para todas as coisas, para todas as pessoas, para todos os objetos, porque não há desejo, porque nada é especial, maior, menor, grande, pequeno... Essa é a sua Natureza Real, a sua Natureza Verdadeira, Paz, Liberdade, Amor, Felicidade. 

*Transcrito a partir de uma fala de um encontro presencial na cidade de Fortaleza em Setembro de 2016

2 comentários:

  1. Uma felicidade que não dependa de condições... Só o Mestre, por sua Graça, permite essa visão!

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