segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Sua vida: um rabisco de desenho animado




Nesses dias, eu estava vendo um desenho animado e vi uma coisa que acontece também em Satsang. Aqueles que aparecem em movimento, no desenho animado (os personagens do desenho animado), “sentem-se” muito vivos, para que, em algum momento, desconfiem que a vida deles é semelhante à vida de qualquer outro objeto, também, ali desenhado. A vida do personagem do desenho animado, esse movimento e vivacidade desse personagem, é muito convincente para o personagem, para ele, em algum momento, parar e observar uma árvore, ou uma pedra, ou uma montanha, e ver que tudo isto é constituído do mesmo material, do qual eles são feitos. Todos são desenhos, riscos. Alguns ganham vida, em razão do movimento, e outros não têm vida porque estão estáticos, parados, mas todos são, basicamente, riscos coloridos; todos são desenhos.

Nós temos uma dificuldade, em Satsang: é aceitar também que “essa vida” é como o movimento dos personagens, que chamamos de seres animados; que “essa vida” é a mesma vida dos seres inanimados, tal como das árvores, das pedras, dos rios e das montanhas. A dificuldade que nós temos aqui, que é uma dificuldade que qualquer personagem em desenho animado tem, é aceitar que toda essa manifestação é, também, uma manifestação cinematográfica e que a matéria de todos é a mesma. Lá no desenho animado, a matéria prima são os riscos, são os desenhos - desenhos compostos de riscos. A matéria prima nesse mundo que nós conhecemos, neste filme que conhecemos, é o pensamento. O seu corpo é pensamento e o corpo de todos à sua volta são pensamentos. A cadeira onde você está sentado é pensamento. A comida que você comeu é pensamento. O pensamento que você pensou e o sentimento que você sente também são pensamentos. É assim, também, com a emoção e com a sensação. O pensamento está criando para você a ilusão de que “você é o corpo”, de que está no mundo e de que está vivo, enquanto as pedras estão mortas; de que você tem uma “vida pessoal”, o outro tem uma vida pessoal e de que as árvores, apesar de terem vida, não têm vida pessoal... As plantas e as pedras não têm vida pessoal, mas você tem uma “vida pessoal”, assim como as pessoas à sua volta. No desenho animado, o personagem jamais vai desconfiar que ele não é real. Aqui, se não for alertado quanto a isso, você jamais vai desconfiar que a “sua vida”, também, não é real e que a matéria em tudo é a mesma matéria; tudo é de uma mesma qualidade e nenhuma coisa tem mais valor, nem menos valor. Há um só material que compõe tudo, que manifesta tudo.

Como no filme animado, nesse “filme” aqui há Algo por trás tornando tudo isso possível, toda essa aparição ter o formato que tem e assumir um formato temporário de “quem eu sou”. O que eu quero dizer é que, naquele desenho animado, o personagem está tendo dificuldades, tendo problemas, e neste “filme”, aqui, você está tendo dificuldades e problemas, também. Naquele filme, de desenho animado, o personagem está buscando uma realização. Neste “filme”, você como “alguém”, também, está buscando uma realização. Naquele desenho animado, aquele personagem jamais deixará de ser o que ele é, pois é só um personagem, por mais realizado que ele se encontre, por fazer alguma coisa ou acontecer a ele alguma coisa grandiosa.

Neste “filme”, acontece a mesma coisa. Naquele desenho animado, o personagem não tem consciência de que tudo é só um filme, só um desenho animado. Aqui, se não constata a Verdade sobre si mesmo, você jamais vai descobrir que isso aqui, também, é só um “filme”. Compreendem?
Eu quero que você, em Satsang, comece a desconfiar que o que você está vivendo não é “você” vivendo, mas, sim, algo maior do que você acontecendo, tornando essa aparição possível... É, por sinal, uma aparição em que você, como personagem, não é mais importante que qualquer outro personagem; não é mais importante que os animais, as plantas, as pedras, o sol, a lua, estrelas, o mar... Qualquer coisa.

A natureza do pensamento é a mesma em tudo! A natureza do desenho, num desenho animado, é a mesma em tudo... Riscos... Riscos coloridos. Alguns desenhos têm mais cores ou mais movimentos que outros, que são os personagens, e a gente diz que eles estão vivos, lá. Você sabe que é um desenho, mas os personagens não sabem que são apenas um desenho. Você sabe que eles não estão vivos, mas eles não sabem que não estão vivos. Quando você escuta essas falas, que espécie de desafio é esse que você tem diante de si? Cada personagem, seja neste “filme” aqui ou naquele filme lá, sente-se ímpar, único, conduzindo a sua “própria vida”, desfrutando ou sofrendo as consequências de suas ações tomadas e escolhidas. Mas, neste “filme” aqui ou naquele filme lá, isso é verdade?

Participante: Não!

Mestre Gualberto: Então, por que, quando assistem a um desenho animado, vocês conseguem aceitar que o autor de toda aquela história desenhou aqueles personagens e está fazendo o que quer com eles, mas aqui não aceitam? É porque aqui tem essa sofisticação do pensamento que confunde. E a sofisticação do desenho? Qual é a diferença entre a sofisticação do desenho e a sofisticação do pensamento? Tem alguma diferença? Há uma sofisticação de desenhos “lá” e uma sofisticação de pensamentos aqui, mas qual é a diferença?

Participante: O desenho não é com a gente, não é comigo, não é pessoal.

Mestre Gualberto: Mas o personagem do desenho, também, pode dizer “a vida de vocês seres humanos não é comigo”. Eu acho que é isso que torna algo pessoal, não é? Quando você diz “isso não é assunto meu, é assunto dele”. Isso não é pessoal? Quando você faz isso, o que é que você fez?

Participante: Quando faz isso assume a realidade desse “eu”.

Mestre Gualberto: Quando você faz isso você assume que é uma entidade separada. Onde? “Neste filme”. Então, por que vocês vão continuar fazendo isso agora, depois que foram alertados quanto a isso. Quem tem problemas aqui, ainda? Todos?

Quando você diz “eu tenho um problema”, não é semelhante a um personagem do desenho dizendo a mesma coisa, não é? O que este personagem está dizendo, neste “filme” aqui, ou naquele filme lá? Está dizendo basicamente o que? Está dizendo “eu tenho uma ilusão”, “eu existo”, “eu existo como um problema”. Quanto a seu nome, sua família, seus bens, móveis e imóveis, a saúde do corpo ou a doença, a saúde ou a doença financeira, a saúde ou a doença emocional, psicológica, etc., é possível você dizer que isso é “seu”? Percebem como é claro, que dizer isso é assumir algo que não é seu?!


*Transcrito do trecho de um Satsang Presencial na cidade Cabedelo - Praia de Intermares - João Pessoa; em Outubro de 2016

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