segunda-feira, 10 de outubro de 2016

A arte de se reconhecer





Ramana veio e expressou belamente essa Presença, essa Verdade Suprema, essa Verdade Divina, e libertou milhares dessa ilusão da separatividade. Nós estamos tendo essa oportunidade em razão dessa Graça, da Graça de Ramana. Alguns de vocês são novos, estão chegando agora neste trabalho, precisam ter bastante paciência e um coração voltado para essa aproximação. De outra forma, não será possível para você.

Este trabalho investiga a natureza da Verdade, algo do qual não podemos, com nossas ideias, crenças, opiniões e conclusões, ter qualquer aproximação real. É necessária uma abordagem nova. Abordagem nova é aquela que o coração pode fazer e a mente não pode, o pensamento não pode. Essa aproximação da Sabedoria é uma aproximação da Verdade que trazemos, é algo inerente ao nosso Ser. Sabedoria é a nossa própria natureza verdadeira, é a nossa própria natureza real, e essa é a natureza da Verdade, é a natureza de Deus.

Assim sendo, não é algo sobre o qual nós podemos discutir, debater, analisar, tecer ideias... Assim como a natureza do peixe é respirar na água, sua natureza real é a Sabedoria. No entanto, todos nós nascemos e aparecemos nesse cenário “mundo-corpo-mente” com uma bela dosagem de condicionamento. Deparamo-nos com isso desde que nascemos. Estamos cercados deste condicionamento, isso está em toda parte à nossa volta. Com isso, temos nos confundido, nos desviado; estamos perdidos, desorientados, sendo guiados pelo pensamento, sendo guiados por ideias, por crenças, conclusões, deduções, por toda essa programação tão comum.

Em Satsang, você aprende a arte de se reconhecer... de se reconhecer como a sua verdadeira natureza, de se reconhecer como Consciência, como Verdade, como Sabedoria. A beleza disso é o fim desse condicionamento, é o fim dessa prisão que a mente tem produzido para ela mesma, tem vivido nela mesma, à qual tem se submetido. A beleza disso é a visão da vida tão simples e natural, sem as distorções que as imaginações produzem — essas imaginações sobre o que deveria ser, sobre o que foi ou que pode vir a ser. 

Todos vocês conhecem muito bem isso, o quanto a mente produz em seu sonho, em uma vida que jamais é real, em uma existência que jamais acontece. Tudo que a mente pode produzir, tem produzido e produzirá, ainda é parte dela mesma. A mente, essencialmente, é conflito, divisão, separação, imaginação. Ela se sobrepõe; ela permanece como um véu ocultando a natureza simples da Realidade, a simples natureza da Verdade.

Essa vida, como ela é, é tão simples… É onde tudo acontece porque acontece; onde tudo acontece como acontece; onde tudo acontece exatamente onde deve acontecer. Contudo, o pensamento dentro de você diz outra coisa; o condicionamento dentro de você diz outra coisa. É isso que eu quis dizer em “ser guiado pelo pensamento”; foi isso o que eu quis dizer quando disse que você tem sido conduzido, guiado, orientado pelo pensamento. 

Essa atitude é algo muito comum à sua volta, não importando o país em que você tenha nascido. Nós, agora, estamos falando diretamente da Índia. Esse país há milênios vem produzindo Sábios. Sábios são aqueles que despertam. Despertar, aqui, é estar fora deste padrão de condicionamento, fora dessa identificação com essa mente que é puro conflito, com essa mente que é pura desordem. Mas mesmo num país como este, você chega aqui e percebe quanta coisa a mente tem produzido, especialmente quanto à religião. Você sabe que a mente coloca o tempero dela em tudo, e a religião é algo assim também, que a mente tem colocado o seu tempero. 

A palavra religião significa voltar para casa. Vem de “religare”, que significa estar de volta em casa, se voltar para casa. Isso é algo que a mente não conhece, então ela produz alguma coisa no lugar desse “voltar para casa”. Então, o que ela tem feito? Ela construiu os templos, colocou ali as imagens, os deuses, os sacerdotes... Então, a religião se tornou algo, também, do pensamento. Portanto, essa “volta para casa” não é uma real volta para casa. Isso descambou para rituais, cerimônias, práticas externas, tudo em nome dessa “volta para casa”. Esse país, a Índia, está cheio disso, talvez mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Aqui você encontra tudo isso. 

A Realidade, a Verdade, é algo além do pensamento, portanto, é algo além de rituais, cerimônias, práticas, deuses, templos e sacerdotes. Em Satsang, o nosso interesse está na constatação dessa Verdade presente. Algo que está agora, aqui, fora de tudo isso, distante de tudo isso; algo presente como a sua natureza essencial, como a sua natureza real, como a Verdade do seu Ser, como aquilo que Você é. Sendo aquilo que Você é, nada pode lhe tirar isso, e nenhum sacerdote ou ritual pode lhe dar isso.

Então, basicamente, a coisa é essa: voltar para casa. Você sabe que a fala é uma expressão do pensamento, seja ela oral ou escrita. Tudo o que podemos fazer na fala é expressar ideias, imagens, simbolizadas através de letras, palavras. Isso também é, ainda, parte do pensamento. Então, essa fala, naturalmente, é algo limitado, porque é algo, também, do pensamento. No entanto, estamos falando sobre algo além dele, algo que se encontra no Silêncio. E o Silêncio, aqui, não é a ausência de som, é a constatação da natureza intrínseca, da natureza essencial, da essência, do cerne, do coração de tudo. É neste Silêncio que está a constatação da Verdade.

Quando eu trato com você desse “voltar para a casa”, eu trato da verdadeira religião. Nesse sentido, Satsang é religião. Um homem que realiza Deus é profundamente religioso — e aqui realizar é constatar esse Silêncio. Mas isso não significa a presença de alguém, significa a presença do Todo; a presença dessa Consciência naquela forma humana. Isso é de uma beleza, de uma singularidade bastante ímpar. 

Tratamos do Sagrado nesse espaço chamado Satsang; tratamos dessa inédita e singular beleza: a beleza do coração religioso. Esse é o sentido real do Sagrado, da religião, da Verdade, do Encontro. Reparem que falei Encontro e não busca. A mente, em sua busca, criou todo esse aparato, toda essa parafernália externa de símbolos e imagens. Meu convite a você, em Satsang, é ao Silêncio, e Silêncio é Meditação, e Meditação é Consciência, e Consciência é Felicidade, que é Sabedoria, que é Liberdade.

Isso é o fim do “eu”, do “mim”; é o fim dessa ilusão do “ter”, do “possuir”. Quando a ideia do “meu” aparece, a ilusão aparece, porque o “eu” apareceu. Você sabe bem o que é esse “eu”, esse “mim”? É aquele que diz “meu”. Quando o pensamento usa essa expressão e sente isso, quando a mente aparece e diz “meu”, ela está tomando alguma coisa do Senhor. O Senhor é a Consciência, o Senhor é esse Silêncio, o Senhor é essa Verdade, o Senhor é essa Presença.

Quando a mente diz “meu”, ela está tentando roubar isso do Senhor, de Deus, do Silêncio, dessa Consciência, dessa Presença, dessa Verdade, desse Todo. Ela tenta particularizar como uma propriedade algo que não é dela. Você precisa ir além do “eu”, que é quando você está além do “meu”, e, quando você está além do “meu”, não há você. Quando você está além do “eu”, não há este “mim”, então só fica Aquilo que é dono de tudo. Você tem tantas coisas… e não tem a Si mesmo.

Participante online: Eu gostaria de estar aí com vocês.

Mestre Gualberto: Você diz que gostaria de estar aqui conosco. Você está no Brasil… E por que ainda não foi até o Ashram? A mente é algo assim, ela quer a coisa mais mirabolante, mais complicada. Vir à Índia não significa nada. A Índia é só um país, é mais um lugar. Você não tem que vir à Índia, você precisa encontrar a Si mesma. Levar para casa alguma coisa da Índia e não ter a Si mesma é uma grande bobagem, é uma coisa completamente inútil. Você não precisa estar aqui, você só precisa estar aí. 

Eu não tenho a resposta se algum de vocês me fizer esta pergunta: “Então, o que estamos fazendo na Índia?” Eu não sei. Talvez mais uma dessas bobagens que a gente faz durante a vida inteira, achando que está indo a algum lugar, para encontrar alguma coisa, para ver alguma coisa, para pegar alguma coisa e levar conosco para o nosso antigo lugar. Isso não tem a menor importância. O que importa é Ser... Ser o que Você é, aqui e agora! Isso está além do corpo, além da mente. Eu vou esperá-la em Campos do Jordão, pois está muito mais perto de você do que ter que cruzar o oceano num voo de mais de 20 horas. 

Se você me encontrar, encontrará a sua Índia; se você se encontrar, encontrará toda a Índia, mas encontrará também o Egito, o Ceilão, o Paquistão, o Japão, a China... toda a Ásia! Encontrará também todos os países da América Latina, todos os países da Europa, todo o planeta Terra, todos os cantos e recantos deste planeta, até aquela morada oculta e desconhecida daquela pequena formiga. Você encontrará o nosso sistema solar, com todos os seus planetas. Encontrará a Via Láctea! Esta galáxia e todas as galáxias! Encontrará todo o Universo e, aí, você rirá de tudo isso. 

Aí, você rirá de todo esse sonho de estar em algum lugar, ou de sair de algum lugar, ou de encontrar algum lugar... Assim como rirá do sonho de estar com alguém, de se separar de alguém, ou de encontrar alguém; de estar com um objeto, de se separar de um objeto, ou encontrar um objeto. Basicamente, a mente, em seu sonho, só trabalha com essas imagens de coisas, lugares e objetos. Não há nenhum pensamento acontecendo ou aparecendo que não esteja tratando disso; é sempre disso: coisas, pessoas, lugares, objetos. 

Quando a mente faz isso, externaliza o mundo como sendo algo real — uma pessoa, um objeto ou um lugar como sendo reais. Quando a mente faz isso, mais uma vez você se esquece de onde isso aparece e onde isso desaparece. Em Satsang, estamos tratando deste Espaço — que não é um espaço — desta natureza essencial, o cerne, o Coração dessas aparições, e isto não está no tempo. Por exemplo, aqui estamos numa terça-feira, às sete e meia da manhã, e vocês aí estão numa segunda-feira, às onze da noite. Essa Verdade da qual tratamos não trata do tempo. O tempo é essa ilusão que aparece quando a ilusão do espaço e da distância aparece. A ilusão da distância cria a ilusão do tempo. É preciso a ilusão do tempo para se percorrer uma distância.

Aqui, não tratamos dessa ilusão, tratamos do fim dela. Também não tratamos dessa ilusão do espaço, então, não tratamos da importância de estar no espaço. Essa é a ilusão do corpo no tempo, do corpo no espaço; da mente no tempo, da mente no espaço. É a mente em sua ilusão que produz tudo isso. Satsang termina com isso tudo. Isso é o Despertar! Isso é o fim do “mim”, do “ego”, do “eu”, do sofrimento; é o fim do nascer e morrer; é o fim da ilusão “eu estou aqui”, “eu estive lá”, “eu estarei em algum lugar”. Então, essa Sabedoria, essa Verdade, está presente como sua natureza real, como sua natureza essencial. 

*Transcrito a partir de uma fala via Paltalk transmitido de Tiruvannamalai, Índia em 06 de Setembro de 2016

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário

Compartilhe com outros corações