segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Não confie em pensamentos





Todos os conflitos são sinais de resistência à vida. Conflito na vida é resistência à vida. A vida em conflito é sinal do sentido de alguém presente nesse experimentar. A vida, em si, não carrega conflito; a pessoa, em si, não vive sem conflito. Esse alguém a experimentar é a pessoa. Todas as vezes que você se deparar com a vida, você não terá conflito se não houver resistência. Quando não há resistência, não há conflito, quando, então, você é a própria vida. Mas todas as vezes que você se deparar com a vida e houver conflito, você é o conflito nessa vida pessoal.

O sinal do conflito é a presença da pessoa. Esse sentido de ser e ter é o que cria essa mente, esse “eu”, esse “mim mesmo”. Esse é o sentido da vida que jamais deixa de carregar conflito, porque você estará lá sempre resistindo ao que É, àquilo que acontece. A primeira coisa é que nada está acontecendo porque você está presente. Tudo que parece acontecer é só a vida se expressando, e a vida não é pessoal. Não é essa presença desse “você” que determina as coisas que acontecem, ou que as controla, ou que as pode mudar. Essa presença desse “você” é a resistência, é a ilusão de uma vida pessoal na Vida única, na única Realidade que é a Vida como ela é.

A ciência, ou a arte da felicidade, que é viver sem conflito, é “viver a vida” como ela é! Isso significa uma profunda confiança naquilo que acontece, como sendo Deus acontecendo, a Vida acontecendo, a Verdade acontecendo. Isso significa não ser importante, o que significa não resistir, não ser pessoal, não ser o experimentador nessa experiência que é a vida. Todas as vezes que você estiver sofrendo, é porque há a ilusão de alguém presente podendo bater de frente ou confrontar com aquilo que a vida manifesta, com aquilo que a vida é, com Aquilo que É!

Não há nenhum sofrimento, não há nenhum conflito, não há nenhum problema quando não há resistência, que é quando não há o “eu”, que é quando não há essa mente egoica, que é quando não há esse movimento separatista que cria essa dualidade: eu e a vida; eu e aquilo que acontece. Nessa separação você tem o conflito, porque nessa separação você tem a resistência.

Viver sem ego é simples; viver no ego é que é complicado! Viver no ego requer muita coisa! Para ser feliz, basta Ser! Para ser infeliz, basta ter qualquer coisa: ideias, crenças, conclusões, opiniões, julgamentos, comparações, coisas, pessoas... Resistência! Você não precisa de nada para ser feliz, porque ser feliz é a sua natureza como Ser. Agora, você precisa de qualquer coisa para ser infeliz, porque essa não é sua natureza como Ser. É a natureza da mente dualista, é a natureza da mente ilusória, é a natureza do sentido de alguém presente, tentando ajustar, consertar, reformar, controlar, determinar…

Não é simples isso?

O que é que você espera? O que você espera é a ilusão; estar nessa separação entre você e o que vai acontecer. Essa ilusão é o conflito. Isso é ser uma “pessoa”, o que, basicamente, é uma ilusão, porque não há pessoa. É só um movimento de pensamentos com o qual você se confunde, de crenças com as quais você se identifica, de opiniões, julgamentos e desejos com os quais você se identifica. Você passa a existir separado para “ser alguém” e, é claro, para sofrer. Ego não pode viver sem isso! É por isso que encontro poucos interessados no que tenho para compartilhar, porque todos querem “ser alguém”. Todos querem ter, alcançar ou realizar algo. Todos querem resistir, como se estivesse faltando alguma coisa agora! Como se estivesse faltando o controle, ou aquela coisa, ou aquela outra, ou aquele lugar, ou aquela… para serem felizes. A mente, o ego, cria isso: essa ilusão da pessoa que precisa de algo.

Está claro isso?

No dia em que não houver mais essa imaturidade aí, esse posicionamento baseado no desejo de ser algo, de ter algo, de fazer algo, ou de poder realizar algo, de chegar a algum lugar, de chegar a alguma coisa... No dia em que isso não estiver mais presente, pronto! Aí a existência toda se derrama e nada mais lhe falta. Nada mais lhe falta quando você não deseja. Na verdade, a única forma de você ser verdadeiramente milionário, multimilionário, é não desejar nada, porque nada lhe falta. A maneira de ser pobre e profundamente miserável é ter desejos. Os pobres querem ser ricos, os ricos querem ser milionários e os milionários querem ser multimilionários. Todos são pobres! Nessa resistência, a pobreza se mantém. A pobreza é essa miséria dessa alienação de sua verdadeira natureza, que é Riqueza, Plenitude, Completude, Felicidade. Essa alienação é a verdadeira miséria, é a verdadeira pobreza, e ela se encontra em cima dessa resistência.

O que está faltando? Qualquer coisa que esteja faltando o torna miserável. Qualquer coisa! Não importa o quanto milionário, bilionário, você seja. Se tem algo faltando, você continua pobre, continua um pedinte. Mas se você não tem desejos, você é um príncipe, você é um rei.

Buda andava como um rei depois que deixou tudo, toda sua riqueza, os seus três palácios... Tudo! Toda essa sua riqueza que o tornava miserável! Depois que ele abriu mão de tudo, de toda sua riqueza e não era mais rei, não tinha mais três palácios, não tinha mais reconhecimento público como rei, ele, então, se tornou um rei. Quando “acordou”, quando foi além do desejo, ele andou e viveu como um rei. Buda foi assim: viveu como um rei!

Ramana Maharshi também viveu como um rei. Teve um período de sua vida em que ele pedia comida em todas as casas. Ele disse que passou por todas as ruas de Tiruvannamalai, que, na época, era uma cidade muito pequena. Ele não repetia as casas. Ele ia em uma casa e pegava uma refeição; o que dessem para ele, ele comia. Era um rei! Não tinha outra necessidade, não havia nenhum outro desejo! Foi um período em que ele viveu como um sadhu, mas já não era um sadhu, era um sábio! Aí, depois da refeição, voltava para a gruta lá na montanha.

Jesus também! Uma vez, ele disse: “As raposas têm covis e as aves têm ninhos, mas o filho do homem não tem nem onde reclinar a cabeça”. Mas ele viveu como um rei! Em outra ocasião, quando Pilatos lhe perguntou se ele era um rei, Jesus respondeu: “Para isso nasci e para isso vim ao mundo, a fim de dar o testemunho da Verdade. O meu reino não é deste mundo”. Ele era um rei!

Quando você é um Buda, quando você é O que Você É, você é um rei! Quando você acredita na mente, quando confia em pensamentos, você esquece que é um rei. Você continua sendo um rei, só que se esquece disso. Você está vivendo fora do reino. Na verdade, a miséria egoica é a ilusão do sentido de ser alguém, não é a verdade do sentido de ser alguém. Não há verdade nisso! Só há essa ilusão, mas ela é muito real para a mente que confia nisso. Por isso, a minha dica para você é: não confie em nenhum pensamento, em absolutamente nenhum! Todo e qualquer pensamento vai aliená-lo desse reino de Suprema Beatitude, de Suprema Liberdade, de Supremo Amor, de Suprema Felicidade. Qualquer pensamento vai fazer você deslizar para a “realidade” do tempo e do espaço, onde a pessoa vive. E pessoa sempre é miséria! Qualquer pensamento em sua cabeça não é real, é só um pensamento. São os pensamentos que criam as necessidades, que criam as crenças, os conceitos, os desejos e os medos.

Está claro isso?

Meu Guru me mostrou isso há muito tempo. Não confie em pensamentos! Se você confia em pensamentos, passa a viver como uma pessoa. Você perde esse seu olhar de realeza, esse seu porte de realeza, esse seu andar de realeza, esse sorriso de realeza, essa compaixão de realeza. Repare que o rei não tem necessidades, então, ele não olha como um pedinte, ele não age como um pedinte, ele não se comporta como um pedinte, não se senta com um pedinte, ele não se vê miserável… Ele é um rei! Ele tem um porte silencioso, majestoso; não é um sofredor… não pode ser um sofredor! Se é um sofredor, não é um rei, é alguém que sente falta de algo.

Buda descobriu isso quando era rei. Ele era um rei desses reis do mundo, um desses multimilionários. Chegou uma hora que, como multimilionário, ele descobriu que ainda estava desejando alguma coisa, ainda estava faltando algo. Então, ele olhou e disse: “Mas eu ainda sou miserável, mesmo tendo tudo! Tem que haver um reino diferente desse, porque nesse reino aqui ainda falta alguma coisa… ainda está faltando algo para mim”.

Quando ele descobriu que podia adoecer, envelhecer e morrer, ele disse: “Não! Não é possível que até eu terei que passar por isso?” Então, alguém respondeu para ele: “Sim, majestade. O senhor também irá adoecer, envelhecer e morrer!” Ele disse: “Não é possível! Então, eu não sou um rei de verdade! Eu tenho que descobrir algo além desse envelhecer, adoecer e morrer!” Foi quando ele abriu mão do seu reino, onde ele era multimilionário, e se despiu dessa ilusória riqueza.

Parece que esse é o caminho proposto nessa Realização. Você tem que se despir dessa sua riqueza, dessas suas crenças, opiniões, julgamentos, desejo de controle, de possuir, de dominar, de ter coisas… Parece que você tem que se despir também do seu reino, não é? Você é, de uma certa forma, multimilionário. Um miserável multimilionário! Você tem que se despir de tudo, inclusive da ideia “eu sou o corpo”, “eu sou uma menina”, “eu sou um menino”… Despir-se de tudo atrelado a isso, à ideia, à história desse alguém. Aí você pode entrar no Reino de Deus. Jesus disse: “Quem não deixar tudo que tem, não pode entrar no Reino de Deus!” Ou seja, quem não deixar tudo não pode ser rei dessa Realidade, dessa Verdade, que é o Divino, que é o fim da pobreza, da miséria que toda essa “riqueza” do mundo dá. Um dia, ele disse para um jovem: “Vai, vende tudo que tens, dá aos pobres e me segue!” Diz o texto bíblico que aquele jovem era dono de muitos bens. Ele ficou triste e não quis mais voltar a Satsang. Virou as costas e foi embora. Ele tinha muito a perder. Ou seja, ele tinha a ilusão de que tinha muito!

Não é interessante isso?

Então, o caminho de Buda é o seu caminho; o caminho de Cristo é o seu caminho; o caminho de Ramana Maharshi é o seu caminho. Paradoxalmente, o seu caminho é o seu caminho, não é o caminho deles. O seu reino, do qual você tem que abrir mão, não é o reino que eles tiveram que abrir mão. É o seu reino! E, aqui, não se trata de abrir mão, mas de soltar a ilusão de que há alguém aí. Então, esse reino ilusório cai e o reino real se mostra presente.

Não é simples isso? É simples…

*Trecho de uma fala ocorrida em um encontro presencial na cidade de Fortaleza em setembro de 2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A questão é: Quem é você?




Esse convite em Satsang é um convite para deixarmos essa ilusão da separatividade. Onde existir qualquer divisão, qualquer separação, deve necessariamente haver conflito e conflito é sofrimento. A expressão “acordar” sinaliza isso. A questão aqui é acordar, é o fim do sentido de separatividade, é o fim da separação, é o fim dessa ilusão de um "eu" presente no mundo (eu e o mundo) - essa antiga e bastante conhecida sensação de "ser alguém" experimentando o mundo. 

Esta é a ilusão da separatividade: “você e o mundo” - você dentro do corpo e o corpo dentro do mundo; você dentro, o corpo fora e o mundo mais distante ainda. Ou seja, é a separação entre mente/corpo/mundo, e aí nós colocamos um elemento a mais, que é Deus; então é mente, corpo, mundo e Deus. Mas, com toda essa multiplicidade de aparições, são apenas aparições. 

É como quando você deita e alguns minutos depois está despencando, rolando, caindo de uma montanha, eu apareço ao seu lado e digo: "espere, não se preocupe, isso não está acontecendo, é só um sonho". A sua experiência de mundo é uma experiência de queda, queda de uma montanha, em direção ao abismo e o medo é muito... muito assustador. Eu apareço e digo: "Relaxe. Isso não é real, é só um sonho; isso não está acontecendo, você acabou de deitar e está tendo um sonho". A sua experiência de vida, de mundo, é exatamente assim. Eu não falo isso de uma forma metafórica, mas, sim, de uma forma literal; literalmente, é assim. Você está exatamente em um sonho, e nesse sonho coisas boas acontecem, mas também coisas ruins. Elas acontecem para você. 

A questão é: quem é você? Eu afirmo que você é uma ilusão dentro do sonho. Você é esta entidade presente neste sonho, é a pessoa presente no mundo, caindo de uma montanha. A sua experiência é essa. Afinal, qual é a sua experiência do mundo? Se você acorda desse sonho, o que acontece com este mundo? Você pode até se lembrar do sonho, mas sabe que é um sonho, que aquilo tudo foi um sonho. No sonho você nasce, torna-se uma criança, cresce, torna-se adolescente, jovem, namora, casa, tem filhos, depois tem netos, e até tem bisnetos, se o corpo continuar neste sonho por algum tempo. Enquanto você passa por tudo isso, a experiência é a experiência do sonho. Eu apareço do seu lado e digo: "Relaxe. Isso não está acontecendo, parece que está mas é só um sonho, você acabou de deitar na cama". 

Assim, esse sonho se processa dentro do sentido de dualidade: "eu e o mundo", "eu e o outro", "eu e a vida". Esse é o sonho dessa, assim chamada, "minha vida", essa vida comum à mente. Nesse sonho, onde tem eu, o corpo, o mundo e Deus, você vê tudo acontecendo a partir do ponto de vista de uma entidade presente nesta experiência corpo/mente/mundo/Deus. Da mesma forma, você está preso às experiências sofridas, amargas, duras, difíceis; às experiências de sofrimento, como a pobreza e doença, ou a perda daquilo que este "eu" aprecia, como a morte dos parentes e entes queridos. Então, há muito medo. O medo é a nota tônica, a nota principal, nesta música chamada dor da separatividade, dor da ilusão da separação.

Você está preso a si mesmo, à ideia desse "si", desse "mim", desse "eu", e fica preso a conceitos, como: saúde e doença, o bem e o mal, felicidade e infelicidade, alegria e tristeza, prazer e dor. Mas, na verdade, tudo isso são apenas conceitos. Você está preso a estes conceitos, à pessoa, ao conceito de vida no mundo; preso ao sonho, a essa ilusão da "pessoa"; preso às outras pessoas, a lugares, a coisas; preso às experiências, a esses conceitos de saúde e doença, alegria e tristeza, e assim por diante.

Eu apareço ao seu lado, como uma voz dentro desse sonho, e digo: "Relaxe. Isso é só um sonho. Apenas observe. Observe à sua volta. Não se prenda a si mesmo, a esse 'mim'. Apenas observe o que acontece, não dê identidade a essas experiências. Vá fundo nessa investigação, nesse mergulho em sua Real Natureza. Acorde. Saia do sonho". Eu Sou essa voz que aparece em seu sonho, para tirar você desse sonho, tranquilizá-lo quanto ao sonho e ajudá-lo a perceber que isso é só uma crença, uma prisão de conceitos. 

Eu apareço e digo para você: "Essa felicidade e infelicidade, esse prazer e dor, essa saúde e doença, esse ganhar e perder, essa noção de parentes, amigos, propriedades, casas, móveis, imóveis, tudo isso é parte desse sonho; não leve isso muito a sério, não dê valor a isso. Vá além disso, desse sonho. Acorde. Compreenda Aquilo que Você é. Compreenda a si mesmo!"

Compreenda que você não é o autor, não é o fazedor, não é o senhor, o controlador; não é aquele que está no comando... É só um sonho. Assim, como você não comanda o sonho à noite, você não comanda este sonho agora, durante o dia, este sonho de vigília. Você não está nesse controle. Este sonho é só um sonho divino, não é um sonho da "pessoa"; é um sonho onde a pessoa é parte desse sonho. A pessoa é somente parte desse sonho, mas não é a "pessoa" que controla o sonho.

Então, pare e observe, não se confunda com isso, não se prenda a essas experiências, não se identifique com isso, não dê identidade a isso. Isso está só como uma aparição, não é real e não está acontecendo separado da mente. Na mente, isso está acontecendo, mas não está acontecendo separado dela. A mente presente está produzindo esse fenômeno. Na Consciência, em sua Real Natureza, isso é só um fenômeno, como uma aparição. Uma aparição não está acontecendo, mas para a mente está acontecendo. Para a Consciência, tudo é Ela mesma. A própria Consciência é essa expressão e, como não está separada, tudo está acontecendo para Ela... E Ela é você.

Está claro isso? Vou repetir de novo. Aquilo que acontece, acontece quando tem um observador que percebe aquilo que acontece, e eu estou convidando você a observar isso que acontece. Quando faz isso, você se desidentifica do que acontece. Assim, isso desaparece enquanto um acontecimento separado daquilo que Você é como Consciência, e deixa de ser real, pois a mente desaparece. Então, não há dualidade, não há separação, não existe "alguém" observando isso, não existe o experimentador e a experiência, não existe "eu" e o mundo, não existe o sonho e a mente sonhadora. 

É uma única Presença, uma única Consciência. Não existe nada separado da Consciência, inclusive essa aparição a que você está dando realidade, quando se vê separado dela. Quando você se vê separado dela, a dualidade está presente. Quando você para de se ver separado dela, ela desaparece, como um sonho. A Consciência, que é essa Presença, que é você em sua Real Natureza, é tudo o que acontece ou tudo que parece acontecer. Mas, como não há separação, não há conflito, sofrimento, conceitos e ideias sobre isso; não há dualidade. 

Isso se torna muito importante, porque a mente dá importância a isso, como algo que ela separa, nela mesma, para se ver diferente. Quando ela faz isso, quando se separa, ela se assusta, mantendo e sustentando o medo. Então, ela mantém e sustenta essa existência separada, essa vida separada, a ilusão da separação, da separatividade, portanto, todo o medo, todo o conflito, todo o sofrimento.

No fim dessa ilusão da separação, da ilusão da separatividade, da ilusão de um sonho e de "alguém" presente nessa experiência de mundo, a Verdade e a Felicidade estão presentes; não o conceito de felicidade, mas a real Felicidade. A Paz também está presente; não o conceito de paz, mas a Paz. Mas primeiro você precisa estar livre dessa noção equivocada de "eu sou o corpo", "eu sou alguém", "eu sou o fazedor", "eu estou fazendo", "eu estou no controle".

Todo o problema é só um conceito, um conceito para "alguém". Quando essa ilusão, que é essa ilusão de "alguém", não está, não há problema, porque o conceito desaparece. Quando o conceito entre o que é e o que não é, o certo e o errado, o bem e o mal, o que deve ser e o que não deve ser, quando esses conceitos caem não há problema. Isso cai quando a ilusão do "eu" cai, a ilusão desse que está vivendo isso, valorizando isso como um experimentador, desaparece. 

É necessário ir além dessa ou daquela experiência. Tudo o que você pode viver, valorizando suas crenças e a ideia de "alguém" presente aí, está vivendo dentro destes conceitos, e isto é problema, é conflito. Tudo isso está dentro da ilusão da separação, da separatividade, da dualidade. Poderíamos falar muito mais coisas sobre isso, mas nós estamos colocando isso de uma forma mais direta, porque precisamos falar muito sobre isso. 

A questão é: "Para quem tudo isto está acontecendo? Para quem estes pensamentos, por exemplo, que passam aí na cabeça, estão acontecendo? Estes pensamentos, que passam aí, estão acontecendo para quem?" Reparem onde começa todo o jogo, todo o sonho, todo o sentido de separação. Estes pensamentos, que estão aparecendo aí, para quem acontecem? Qual é a sua resposta? Estes pensamentos aí estão acontecendo para o seu vizinho ou para você? Você tem a sensação de que estes pensamentos estão acontecendo aí nessa cabeça, para o seu vizinho ou acontecendo para você? 

Participante: Para mim...

Mestre Gualberto: Exatamente: para “mim”. Agora, o que é esse mim? Por exemplo, os pensamentos aí são pensamentos do vizinho ou pensamentos específicos desse "mim", desse "eu", dessa "pessoa", aí? Os pensamentos dentro dessa cabeça, aí, são pensamentos da história do vizinho ou da história dessa "pessoa", aí? Exatamente: para “mim”. 

Aqui começa todo o sonho, todo o truque da mente. Pois, se você continuar confiando nisso, vai continuar pensando, vai continuar se ocupando com pensamentos. Aí está o começo desta dualidade. O conceito principal é: "eu" estou aqui. Então os pensamentos são para "mim", a vida é para "mim"; o que acontece, acontece para "mim"; o que acontece de bom é para "mim"; o que acontece de ruim é para "mim". Então, a partir deste centro ilusório, surge o mundo. Quando surge o mundo, tem "eu e o mundo" - esse é o sonho; essa é a ilusão; esse é o sentido de separatividade; essa é a dualidade.

A dualidade é algo muito simples de ser percebido: eu e qualquer outra coisa aparecendo (o pensamento, o sentimento, a sensação,  a experiência...) Assim, o outro só surge depois de "mim", assim como o mundo e o sonho surgem somente depois de "mim". Estou dizendo que só há Realidade, Verdade, Consciência, Presença, não existe sonho. Ou tudo que parece acontecer é essa Consciência, porque não há separação, porque não há dualidade, não existe o mim e o outro, o mim e o mundo, o mim e a experiência, não existe a mente e a Consciência. 

Na realidade não há nenhuma mente, como não há nenhum mundo, como não há nenhum eu. É somente o pensamento que produz isso. Você está tão viciado em se identificar com estes pensamentos e tão acostumado a se ver como o corpo, sendo "alguém" dentro dele, que você cria este mundo. Você está tão viciado na ideia deste "mim", deste "eu", que está criando esta ilusão. O detalhe é que essa ilusão é só uma aparição sem qualquer importância. O que dá a essa ilusão a “verdade”, a “realidade”, é o hábito; é esse vício de valorizar pensamentos, sensações, sentimentos, experiências, e colocar tudo isso dentro de uma ótica pessoal, acontecendo para "mim". 

Por isso a pergunta é: quem é você? 

Ok, pessoal. Vamos ficar por aqui. Namastê.

*Fala transcrita a partir de um encontro online na noite de 3 de Outubro de 2016 via Paltalk 
Encontros todas às segundas, quartas e sextas às 22h - Participe!

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Pare de valorizar uma ego-identidade





A fala é algo que acontece dentro desses encontros, e nós a acompanhamos, mas, na verdade, você não necessita dela. Esse poder do Silêncio, essa Presença, é tudo o que nós precisamos nestes encontros. A relevância da fala está nesse Silêncio. Eu não tenho nada novo para dizer a você. Minha fala é apenas uma confissão desse Silêncio. Eu tenho simplesmente uma confissão de sua realidade, de minha realidade. Portanto, não é um ensino. Se fosse um ensino, necessitaríamos de palavras.  

Nesses encontros, nós temos apenas essas colocações. A relevância dessas falas é aquilo que é visto diretamente do Silêncio. Essas colocações não possuem nenhuma relevância verbal, em nível de palavras. Estamos dizendo coisas que você precisa, por si mesmo, confirmar, mas não intelectualmente. Não é possível confirmar estas falas no âmbito do intelecto. Essas falas são uma confissão; uma confissão de sua própria realidade.  

O que você parece ser não é a Verdade. Você não é o corpo e não é a mente. Eu só posso colocar isso como uma confissão. Não tenho como lhe provar isso intelectualmente, você precisa descobrir por si mesmo. Quando eu digo que você não é quem você pensa que é, você tem que confirmar isso, descobrir isso por si mesmo. É necessário que você veja isso diretamente, não intelectualmente. Essa é a minha confissão, mas isso não serve para você, porque ainda é só uma crença, até que você vá além da mente.  

Se você vai além da mente, aí já é a confissão de sua realidade, já não é algo particular, não é uma crença particular, não é uma experiência de uma pessoa . Isso é simplesmente assim, Você não precisa acreditar em mim! A minha experiência é que você é “Ser-Consciência-Felicidade”. Esse Silêncio, que é Consciência, revela isso, não as palavras. Se você entra fundo em si mesmo e dá um salto para fora da mente, então fica claro que há algo além do corpo, além da mente, além das experiências dos sentidos. Enquanto você se confunde com a mente, a sua experiência é puramente mental; enquanto se confunde com o corpo, a sua experiência é sensorial.  

Afinal, o que é este mundo? A experiência deste mundo é como a experiência do sonho. Você tem um sonho e quando acorda se lembra do mundo do sonho. E essa é uma experiência “corpo-mente-mundo”: no sonho, você está indo a algum lugar, está se casando, tendo filhos, envelhecendo, está doente ou em algum perigo… e, quando você acorda, percebe que aquilo só estava dentro da sua cabeça. Essa é a sua experiência de sonho que, enquanto acontece, é muito real. Tudo o mais é assim, está apenas em sua mente, em sua cabeça. Então, você acorda e vê que era só um sonho. 

Essa sua vida “mente-corpo-mundo” é algo semelhante a isso, e você se identifica com essa história. Isso não acontece mais no estado natural. Quando você está livre dessa identificação com o sentido de um “eu” experimentador, você está livre da ilusão de que esta vida é real. Esse é o estado do Despertar ou Iluminação, como você queira chamar isso. Tudo continua acontecendo, mas não tem mais aquela importância que antes o ego dava. O ego dá muita importância às suas experiências. 

Então, comece a trabalhar isso. Desconsidere, abandone a valorização dessa ego-identidade presente nessa experiência de pai, de filho, de marido, de mãe, de patrão, de empregado, de estar saudável ou doente, de ser isso ou aquilo, de ter dinheiro ou não, de ter um nome e uma história... Tudo fantasia! Alguém sonha que é um rei e outro sonha que é o bobo da corte desse rei. Ambos se encontram no mesmo sonho, e, quando acordam pela manhã, descobrem que são só amigos de colégio, nem um é rei nem o outro é bobo da corte desse rei. Portanto, não se preocupe, nada pode acontecer a você. Você se apega a essa experiência de sonho, e eu digo para você: não se preocupe. Por isso, chamam de Acordar, de Despertar, esse estado natural, que é exatamente isso: sair desse sonho, desse estado hipnótico. 

Deus é a única realidade. Existe só um Ser e todos nós somos Isso. Então, quem é que sofre? Não é o corpo que sofre, é a mente, é esse sentido do “eu” que sofre; a ideia de alguém presente...


*Transcrito a partir de uma fala de um encontro online na noite de 28 de Setembro de 2016 
Encontros todas às segundas, quartas e sextas às 22h - Baixe o app Paltalk e participe!

Compartilhe com outros corações