sábado, 20 de agosto de 2016

Como não necessitar de respostas?


Qual é a pergunta? Tenho para mim que a pergunta ideal é: “Como ir além da necessidade de fazer perguntas, de procurar respostas?” Para mim, esta é a pergunta ideal. A natureza da mente é encontrar respostas para as perguntas que ela mesma formula. Toda pergunta é um problema! Em uma prova, você se depara com problemas. Foram quantas as questões da prova? Ou seja, quantos problemas caíram na prova? Você foi testado por quantas questões? Por quantos problemas? Não é assim? Mas a vida não é um exame, uma prova, um teste. Para a mente, a vida é um teste, uma prova. Por isso a mente está constantemente se deparando com problemas. 

A vida foi transformada, pela mente, num problema, no maior de todos os problemas, de todos os testes, na mais difícil de todas as provas. Para o Sábio, não há problema! Então, a vida para Ele não é um teste, não é uma prova; para o tolo é, portanto, um grande problema. Não é a vida o problema, o teste, a prova… A mente é o problema! É a mente que transforma a vida num problema, ao se meter em um assunto que não é dela. A vida não é um assunto para a mente, para o ego, para o “mim”, para o “eu”. A mente se mete nesse assunto chamado vida e faz do viver e de todas as relações um grande problema. Sem mente, sem problema. A vida continua, mas não tem problema. Ela permanece como sempre foi, mas sem problema.

Uma história Zen: 

Um abade de um grande mosteiro pediu aos seus monges que fizessem um poema, expressando sua compreensão dos ensinamentos de Buda. O chefe dos monges, muito querido e respeitado pelos mais de mil companheiros, escreveu solenemente: “O corpo é a árvore bodhi e a mente é como um espelho brilhante. Cuide para mantê-la sempre limpa, não permitindo que o pó se assente”. 

Um jovem semialfabetizado, que ajudava separando a palha do arroz, viu o poema na parede e pediu para que alguém o lesse, exclamando depois: 

— Não é isso! Então, pediu a um monge letrado que escrevesse seu poema: “O corpo não é a árvore bodhi e a mente não é como um espelho brilhante. Se não há nada desde o princípio, onde o pó se assenta”?

Esse foi o poema de um jovem semialfabetizado que ajudava na cozinha, separando a palha do arroz. Ele viu o poema e nem conseguiu lê-lo! Pediu que alguém o lesse para ele. Ele disse: “Não é isso!” E pediu para um monge letrado escrever para ele, devido à sua dificuldade de escrever, também. 

Qual é o mais profundo ensinamento? Qual é o mais simples? Qual dos dois ensinamentos não ensina nada? Dos dois, o segundo é o único que não ensina nada. Não há nada para se aprender com o segundo. Com o primeiro, você pode aprender. Você não pode viver o que foi dito, mas aprender você pode. Você pode fazer uso de tudo o que você aprendeu, mas você não pode viver isso. Realização não é uma questão de aprender, é uma questão de vida. Por que vocês se encontram em dificuldades quando se deparam com uma situação, um desafio, uma questão, um problema? Vocês se veem em dificuldade porque sabem o que fazer, e, no entanto, não fazem. Sabem porque aprenderam! A sabedoria não é saber, a sabedoria é viver! Nós passamos muito tempo aprendendo, aprendendo, aprendendo… Parece que vamos passar muito mais tempo ainda. Esse aprender não é vivencial. Se não é vivencial, não é a Verdade. A Verdade não se aprende, é vivencial. 

Vocês não estão em Satsang para aprender, porque isso não serve para nada. Aprender é discorrer sobre perguntas e respostas, soluções de problemas aprendidos... Claro, intelectualmente! Isso não serve. Em Satsang não se propõe ensino; propõe-se Sabedoria, que é Liberação, é Vida! Vida real! Vida real não tem problema, não tem ego. Ego é problema, é mente. Aprendizado é mente. Sabedoria não é mente, é Vida! Sabedoria não tem ego, não tem problemas. O Sábio não tem problemas, a Vida não tem problemas, mas a mente tem. A Sabedoria é Vida, Consciência, Verdade, Presença, Liberdade; é “não problema”, portanto, é “não conflito”, é “não sofrimento”. A Vida não conhece sofrimento, mas a mente conhece apenas sofrimento, porque ela é isso. A mente é miséria! Por favor, compreendam isso! Vocês estão aqui para realizar a Verdade e não para aprender alguma coisa. A realização da Verdade está na vida da Verdade. A não realização da Verdade está em aprender sobre o que é a Verdade. 

Então, qual é a pergunta? A pergunta é: “Como não necessitar mais de respostas?” ou “Como não ter mais perguntas?” Esta é a pergunta! Não haverá mais perguntas… Não haverá mais perguntas.

As perguntas terminam quando você volta à Fonte, que é de onde elas surgem. A Matriz, a Fonte, a Nascente das perguntas, não tem perguntas. Você tem que voltar à Nascente, porque a Nascente das perguntas é a mesma das respostas. Ela está além da mente e é Nela que a mente aparece. A mente só aparece quando as perguntas começam a aparecer. A mente faz as perguntas e ela mesma traz as respostas, mas Aquilo que está antes dela — onde a mente aparece e desaparece — não tem perguntas, não tem respostas. Não precisa de respostas! Como não precisa de respostas, não tem perguntas. É muito simples! Como não necessitar de respostas? Voltando para a Fonte, para Aquilo além da mente. Eu disse "Aquilo" porque não dá para definir o que é Isso. Isso é indefinível! Podemos chamar de “não conceitual Consciência”... Não conceitual, mas já sendo conceituada, porque está além de todos os conceitos. Então, como viver sem problemas? Vivendo sem a necessidade de respostas. Assim, você vive sem a necessidade de fazer perguntas; vive em seu Estado Natural, além da mente, onde não há problemas. Como não há problemas, não há perguntas. Como não há perguntas, também não há repostas. E agora? O que fica? O que fica? Tome uma xícara de chá!


*transcrito a partir do encontro de João Pessoa em Julho de 2016

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