terça-feira, 30 de agosto de 2016

Onde houver dependência haverá sofrimento


Onde houver qualquer forma de dependência, haverá sofrimento. Qualquer que seja a forma de dependência presente (eu falo dessa dependência psicológica, interna, aquela que o pensamento produz), haverá sofrimento. Do que ou de quem você depende? O que, exatamente, se fosse tirado de você, o faria sofrer? O que exatamente? O que lhe produziria dor (dor emocional, dor interna, dor psicológica, dor no "eu")? 

Participante: Para mim, é o trabalho, Mestre. 

Mestre: Se o trabalho é, assim, tão importante, é porque você tem a valorização da "pessoa" que você acredita ser nele. A valorização do "eu" está nisso. Isso do qual você depende, pelo qual você sentiria dor se lhe fosse tirado, se lhe faltasse, é aquilo que preenche você como "alguém". Nós temos muitas formas de dependência, que acontecem, aparecem, em diversos níveis de nossa existência. Mas essas diversas formas de dependência são uma só: a dependência da autoimportância; é aquilo ou aquele ou aquela que valoriza essa autoimportância. Então, não importa qual seja o nível da dependência, é nela que você é "alguém". Você não tem Liberdade enquanto se mantém nessa programação. A sua Liberdade está presente quando você não está e você não está quando não existe mais essa programação. Somente então se pode falar de Liberdade.  

O "eu" é uma relação com pessoas, coisas, lugares, imagens. Sempre coisas, pessoas, lugares e imagens produzem essa autoimportância para esse "mim", esse "eu", que surge e se sustenta nessa relação. Isso é, basicamente, medo! 

Isso é sofrimento! Você precisa assumir sua Natureza Essencial, sua Natureza Real. Em sua Natureza Real, você é incondicionalmente livre... Livre de coisas, pessoas, lugares e imagens. 

Repare que a sua mente (quando eu digo "sua mente", refiro-me à mente egoica; então, não estou falando de algo particular, embora, seja, particularmente, algo muito próximo dessa "pessoa", aí, que você acredita ser) é, basicamente, pensamentos. O seu dia é preenchido por pensamentos, que são as coisas, as pessoas, os lugares e as imagens. 

Aqui, vamos ao cerne, ao coração da Liberdade! É sobre a Liberdade esta fala, hoje... O cerne, o coração da Liberdade é a ausência dessa suposta necessidade de pensar, de pensamentos “povoando” sua cabeça. 

Tem uma pequena história: Havia uma rua onde as meninas de programa, as prostitutas, trabalhavam. Um dia, naquela rua, apareceu um homem santo, um pregador da santidade... Ele parou diante de uma daquelas casas e começou a dizer, bem alto, em sua pregação: "Arrependam-se, pecadoras!". Em sua fala, ele estava, claramente, mostrando todo o pecado do mundo, inclusive o pecado daquelas meninas que trabalhavam naquelas casas. A história conta que uma delas, todas as vezes que aquele homem chegava na rua pela manhã e começava fazer sua pregação, abria a janela, olhava para ele e começava chorar. Em seu coração, ela dizia para Deus: "Oh, Deus! Perdoa meus pecados, perdoa minhas ações! Tudo que esse homem está dizendo é a pura verdade... Eu sou uma pecadora! Tu me conheces! Desde menina eu vivo nessa vida!".  Ela ainda dizia: "Eu não sou como aquele homem santo que está ali, sem pecado!". 

Diz a história que aquela mulher, todos os dias, abria a sua janela, ficava ouvindo aquele pregador e, em seu coração, permanecia inteiramente voltada para Deus. Os anos se passaram, o pregador envelheceu, aquela mulher também envelheceu e ambos morreram; chegaram no céu com a diferença de alguns minutos. 

São Pedro os recebeu e disse para aquela mulher: "Dê-me um abraço, minha filha!". Após abraçá-la, disse: "Entre!". Quando levantou sua mão esquerda, as portas do céu se abriram e ela entrou no céu, para seu próprio espanto. O homem santo, o pregador, que acabara de chegar, viu aquela cena e já foi, apressado, tentando entrar, também, pelos portões. São Pedro falou: "Pare! Você vai aonde?" Ele respondeu: "Estou entrando no céu e... (ainda foi brigar com São Pedro) por que essa senhora está entrando aí, também? Como o Senhor me explica uma coisa dessas?" O homem foi brigar com São Pedro... 

O Ego é assim mesmo... Ele ainda quer brigar com Deus e mostrar seus direitos. São Pedro disse: "Meu filho, a questão é a seguinte: eu estive observando você todos esses anos. Vi o quanto foi arrogante, apontando o pecado de todos e pedindo para que eles se arrependessem, enquanto você mesmo jamais se arrependeu da sua arrogância, de ver pecado em todo mundo. O seu lugar não é este, é aquele lá". Então, levantou a mão direita, a porta do inferno se abriu (a turma já estava esperando o homem lá), e continuou: "Essa mulher, diferente de você, durante toda sua vida, em seu coração, estava profundamente voltada para a Verdade".  São Pedro ainda disse: "Deus não julga os atos. Deus tem muito interesse em observar o coração". Assim termina a história.  

Você, em sua Natureza Real, em sua Natureza Verdadeira, não é a mente, não é o corpo, não pode se manter dessa forma, confundindo-se com aquilo que o preenche, nessa ilusão de "ser alguém". O cerne, o coração da Liberdade, é não se confundir com aquilo que mais povoa o seu dia, com pensamentos sobre a importância de pessoas, coisas, lugares e imagens. Você deve trabalhar isso, neste instante. Você deve trabalhar isso! Trabalhar essa entrega, a sua Liberdade... A Liberdade de sua Natureza Essencial, do seu Ser, dessa Consciência da Verdade. Você deve trabalhar isso! Trabalhar a não identificação com aquilo que preenche você, como sendo "alguém" (como aquele pregador, que se preenchia com a ideia de ser mais santo que os outros, de merecer o céu). Cristo, em suas palavras, dizia: "Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Não acumuleis na terra"!  

Olhe para o ego! Ele se preenche acumulando realizações afetivas, realizações de bens (móveis e imóveis), realizações profissionais, familiares e em relacionamentos. O ego está sempre ocupado, porque ele está sempre acompanhado, e isto é o seu preenchimento, a realização dele. 

O cerne da Liberdade é o Vazio! Isso está na contramão de tudo aquilo que o ego quer. O ego não quer o Vazio... O ego quer a plenitude, que é o preenchimento que as coisas, as pessoas, os espaços e lugares lhe dão; que as imagens, imaginações, também, lhe dão. O cerne da Liberdade, o Coração, a Liberação, é você em seu Estado Natural, que é ausência de toda forma de preenchimento. Este é o fim da ilusão dessa suposta necessidade de pensar. 

A natureza da Liberdade é o Vazio, o Silêncio, a Consciência, a Meditação. Então, mantenham a mente fora dessa ideia de "sua mente"; mantenham-se no Silêncio, sem produzir imagens! São essas imagens que estão produzindo esses conflitos todos dentro de vocês. As minhas falas não se dirigem a alguém em particular, porque, para mim, não existe alguém em particular. A minha fala se dirige a você! Você, para mim, não é uma pessoa! Para você, você é uma "pessoa" e, por isso, está em apuros, tem problemas. Um sinal desses problemas que você tem, um sinal claro, é esse desejo de manter a continuidade dos pensamentos, dentro da sua cabeça, criando essas imagens.  

Você vê? Todo esse sofrimento que você está vendo hoje, aqui, de ontem para hoje, não é o sofrimento de "alguém", mas sim o sofrimento da ilusão de "ser alguém". Todo o sofrimento que você vive no seu dia a dia, como todo o sofrimento de hoje, é assim; o de ontem foi assim e o de amanhã será assim... Sempre o sofrimento de "alguém"... Essa ilusão de "alguém" presente, que é esse volume de imagens passando aí, dentro da sua cabeça, dizendo coisas e você confiando nos sentimentos, que os próprios pensamentos produzem ou confirmam. Na verdade, o sentimento vem sem o pensamento aparente, que está oculto apenas, mas está lá; depois, o pensamento vem confirmando o sentimento. A ideia é de que o sentimento chegou antes, mas não! O sentimento chegou porque o pensamento já estava lá. Então, vejam que o vilão é sempre o pensamento! Compreendem isso, que o vilão é o pensamento? 

Você sabe o que agrava mais? É a ilusão de que existem sentimentos bons e sentimentos ruins, pensamentos bons e pensamentos ruins. Isso agrava mais o seu quadro quando você vai buscar ajuda de um terapeuta, de um médico, de alguém que, supostamente, manja de toda essa coisa... Ele trabalha isso, com você, substituindo o negativo pelo positivo, a alegria no lugar da dor. Ele entusiasma, motiva, incentiva você, tornando-o uma "pessoa" mais positiva, e isso agrava ainda mais o quadro - é "alguém" que melhora você. Porém, alguém que trabalha a melhora da sua autoestima está lhe dando uma prisão enfeitada, cheia de bolinhas e balõezinhos coloridos, e um bolo com uma cereja em cima, no meio da cela. Isso agrava mais!  

Por que eu digo que agrava mais? Digo porque nada melhor para aproximar vocês da investigação da ilusão, que é o pensamento (como ele se manifesta, a importância e valor dele), do que a dor, a rejeição, a ansiedade, o trauma, o medo, a depressão, a solidão e o desespero de perceber que tudo aquilo que vocês, durante a vida inteira, trabalharam para cultivar e manter, a fim de preenchê-los, era uma ilusão (pessoas, coisas, lugares e imagens). Se vocês encontrarem alguma coisa fora desse circuito, me comuniquem. Para mim, basicamente (eu já falei isso outras vezes), as palavras são essas: coisas, pessoas, lugares e imagens, que, basicamente, são pensamentos. 

Quando você está numa situação delicada de dor, em dor profunda, tem aí a possibilidade de perceber a fraude, a mentira, o engodo que foi sua vida assentada nessas coisas. Para mim, alguém que vai trabalhar com você vai indicar-lhe isso, mas, se não indicar o que eu estou indicando para você, não tem ideia do que está fazendo; é "alguém" também, ainda, perdido numa gaiola, talvez mais colorida e enfeitada que a sua. A minha indicação para você é: liberte-se! Assuma sua Liberdade, torne-se livre das pessoas, das coisas, dos lugares e das imagens. Aqui, se inclui o trabalho, a família, o relacionamento, além de incluir a ideia básica "eu estou aqui", "eu sou alguém".  

Reparem nisso que eu vou dizer agora. Primeiro surge isso: "eu estou aqui"; "eu sou alguém". Depois surge a "pessoa" lá, do lado de fora, da qual eu dependo, preciso, necessito;  a "pessoa" que eu quero ter junto, a qual me valoriza, compreende, e a qual eu posso dominar, controlar... Primeiro surge a ideia "eu estou aqui", depois surge o lugar onde eu quero estar para me sentir bem "comigo mesmo"; o lugar em que eu quero viver, morar, estar. Primeiro, surge a ideia "eu aqui" e, depois, surgem as coisas que eu vou conseguir para me preencher, para que eu me sinta pleno. Primeiro, vem a ideia "eu estou aqui", depois surgem as ideias, as imagens, os pensamentos, sobre onde e com quem eu deveria estar, o que eu deveria estar fazendo, qual seria um momento melhor que este. Primeiro, "eu tenho que estar aqui", depois a ideia de que "eu deveria estar em outro lugar, com outras pessoas, ou fazendo outras coisas ou tendo outras coisas". Então, a prisão é essa! A prisão não é a ausência da sua Liberdade, mas a ilusão de que "você" está aí. 

A falta da Liberdade não é a presença de uma prisão na qual você se encontra. A falta de Liberdade é a ilusão de que você precisa, como "alguém", ser livre. A Liberdade não é sua; é a Liberdade da ciência de que não há 
"alguém" para ser livre. Assim sendo, a Liberdade é a própria Liberdade! Não é assunto seu! Não é algo pessoal!  

Você viu o seu problema agora? É a "pessoa"!  Vá curtindo esse momento! Curtir esse momento com a pessoa que você tem 
próxima... Curtir esse momento no lugar onde você está... Curtir esse momento com o objeto ou a coisa mais próxima que você tem, mas deixando isso solto e não transformando isso num objeto de preenchimento egoico; não transformando esse lugar, nem aquela pessoa, numa coisa de preenchimento egoico. Quando faz isso, você deixa de ser importante... 

Quando você deixa de ser importante, você é a Liberdade. Você é a Liberdade, é a Natureza de Deus, é a Natureza da Consciência, é a Natureza do Ser, esta é a sua Natureza Real, seu Estado sem ego e sem a ilusão de um "eu" presente. Sem esse "eu" presente, não há separatividade. Sem esse "eu" presente,  não existe o outro, o objeto e o lugar, nem existem as imagens. Então, não existe o "problema do trabalho", pois o trabalho é problema para quem está trabalhando. A pessoa é um problema para outra pessoa. O lugar é um problema, quando você está se confundindo com a ideia de estar ali, então ele é um lugar bom ou ruim. As imagens, também, só são problemas porque você faz disso um problema. Se são só imagens, ok! Mas se você valoriza isso, se isso o torna "alguém", 
fazendo de você "alguém especial", valorizando a "pessoa" que você acredita 
ser, preenchendo você e lhe dando importância, o ego surge... O sentido de um "eu" surge.  

Não ficam claras essas falas? Não ficam? Então, como é que alguém pode dizer que não está conseguindo ver e trabalhar isso. Eu sou tão ruim assim, em comunicar isso? Talvez, as palavras fossem até dispensáveis, porque, no fundo, você já sabe isso. Acho que o problema não é a falta da palavra chegando a você; o problema é que você gosta muito da mentira. Você quer culpar o mundo, como esse pregador da santidade... Culpar o mundo do seu pecado! Mas você está no maior de todos os pecados, porque está vendo o problema do lado de fora. Você está se vendo muito especial, que não merece o que tem ou não merece ter falta do que deseja ter ou não merece não continuar tendo. Ego, em autoimportância, é sempre ingrato! Não é assim? Ou estou exagerando? Hein? Ele não é ingrato? Se você está aqui, em Satsang, você está diante de alguém que, efetivamente, não está interessado em ser alguém e em manter esse "alguém" que você acredita ser. Então, se você está em Satsang, você está diante do único e real desafio da sua vida.

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial de João Pessoa em Julho de 2016

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