sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Vida é essa Presença Singular




A Iluminação não é uma coisa tediosa. Não tem “alguém” para ter tédio, nem a repetição do tempo e a necessidade de saber. Você está sempre nesse “não saber”. Aquele que está em sua Natureza Real não sabe, porque não há nada para saber, mesmo.

Não há algo para saber e não há “alguém” para saber algo. Então, você está diante do Mistério, como Aquilo onde Ele acontece. Você é o Mistério! A gente vai com a palavra até onde dá e, depois, se desliga dela e fica só com o darshan, com o olhar de Deus. Na Índia, isso é muito precioso: olhar nos olhos Daquele que está livre do sentido de separação.

Você está se vendo... Está diante de Si mesmo, Daquilo que Você é, da Singularidade, da Naturalidade, da Liberdade, da Verdade, da Vida, desse Mistério. Há algo de singular Nisso, nessa “Coisa” desconhecida que é Ser… Só Ser. Esse é o mergulho do qual ninguém consegue voltar. Por isso não tem alguém iluminado, só tem a Iluminação; não tem “alguém” que sabe, conhece.

Alguém disse, nesses dias: ¨Desde que me iluminei, estou no céu". Isto não é possível! Não tem “alguém” que se ilumina! Essa singularidade é o Estado Natural. Deus não é espiritual! A Verdade não é algo espiritual; é algo natural. Nós separamos o material do espiritual e dizemos que o espiritual torna-nos especiais. A própria ideia de poder evoluir é a ideia de ser especial, porque você deixa muita gente para trás, e Iluminação não é isso. Você não se torna especial. A Iluminação não faz de você um ser especial, nem um ser singular; é somente a manifestação da singularidade de Ser, mas isso não é de “alguém”, não fica “alguém” - é só a Vida!

A Vida não é pessoal, ela não trata com a pessoa. A pessoa é uma fraude! Eu falo isso desde o primeiro dia em que pisei aqui em Fortaleza. Não é uma fraude porque a pessoa é fraudulenta e, sim, porque não há pessoa. Só tem a Vida, e a Vida é essa Presença singular; Ser é essa Presença singular.

A arte, a música e a dança podem lhe dar vislumbres dessa singularidade de Ser, mas isso não termina com essa questão. O que termina com essa questão é o fim do sentido de separatividade. Enquanto você está na dança, ou ouvindo música, ou diante de um quadro maravilhoso, diante de uma inspiração artística, você é invadido por algo desconhecido, pela singularidade do Ser, e, aí, o sentido do “eu” vai embora. É o que você tem na dança, o outro tem na música, na escultura, na pintura, mas isso não resolve a questão. Então, você vai dançar até os 99 anos e viver até os 110, mas vai continuar, fora da dança, carregando o peso do sentido de “ser alguém”.

Não dá para realizar a Verdade sobre si mesmo dançando, pintando quadros, fazendo esculturas, ou através das artes marciais, como o Aikido. O fim do sentido de separatividade requer a entrega dessa ilusão.

Pergunta: Mas esses movimentos que fazem com que a gente fique mais entregue não são um exercício?

Mestre Gualberto: Sim. Esses movimentos são um exercício, mas tem “alguém” fazendo esse exercício. Aqui, “o buraco é mais embaixo”. Se você conversar com algumas pessoas que fazem voos de asa delta, elas dirão que veem Deus na hora daquilo. Os esportes radicais são extraordinários para você dar um salto para fora do “eu habitual”, desse “eu cotidiano”, entediado, frustrado, complicado, preocupado com relacionamentos, vivendo uma vida de conflito. Então, há várias atividades em que acontece um momento de rompimento com esse sentido de separação, mas quanto tempo isso dura? Logo o “eu” volta de novo.

A prática de meditação faz isso também. Quem faz meditação há bastante tempo consegue, através de uma técnica, através de um exercício, abster-se do mundo, do sentido do “eu” no mundo, da experiência “eu-corpo-mente-mundo”, e, aí, tem um vislumbre, também, mas isso ainda não resolve a questão.

Você precisa de algo diferente… Você precisa de uma entrega! Precisa se entregar! É isso que o Guru faz: ele “destrói” você; ele “arranca” a sua cabeça! Isso, a curto, médio ou longo prazo, começa a ser muito assustador, porque você começa a sair do controle. Na dança, na meditação, você tem o controle, porque escolhe a hora, o momento… É algo aprazível, confortável. Mas, a morte do ego não é confortável.

*Transcrito a partir de um encontro presencial na cidade de Fortaleza em Junho de 2016

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