terça-feira, 30 de agosto de 2016

Onde houver dependência haverá sofrimento


Onde houver qualquer forma de dependência, haverá sofrimento. Qualquer que seja a forma de dependência presente (eu falo dessa dependência psicológica, interna, aquela que o pensamento produz), haverá sofrimento. Do que ou de quem você depende? O que, exatamente, se fosse tirado de você, o faria sofrer? O que exatamente? O que lhe produziria dor (dor emocional, dor interna, dor psicológica, dor no "eu")? 

Participante: Para mim, é o trabalho, Mestre. 

Mestre: Se o trabalho é, assim, tão importante, é porque você tem a valorização da "pessoa" que você acredita ser nele. A valorização do "eu" está nisso. Isso do qual você depende, pelo qual você sentiria dor se lhe fosse tirado, se lhe faltasse, é aquilo que preenche você como "alguém". Nós temos muitas formas de dependência, que acontecem, aparecem, em diversos níveis de nossa existência. Mas essas diversas formas de dependência são uma só: a dependência da autoimportância; é aquilo ou aquele ou aquela que valoriza essa autoimportância. Então, não importa qual seja o nível da dependência, é nela que você é "alguém". Você não tem Liberdade enquanto se mantém nessa programação. A sua Liberdade está presente quando você não está e você não está quando não existe mais essa programação. Somente então se pode falar de Liberdade.  

O "eu" é uma relação com pessoas, coisas, lugares, imagens. Sempre coisas, pessoas, lugares e imagens produzem essa autoimportância para esse "mim", esse "eu", que surge e se sustenta nessa relação. Isso é, basicamente, medo! 

Isso é sofrimento! Você precisa assumir sua Natureza Essencial, sua Natureza Real. Em sua Natureza Real, você é incondicionalmente livre... Livre de coisas, pessoas, lugares e imagens. 

Repare que a sua mente (quando eu digo "sua mente", refiro-me à mente egoica; então, não estou falando de algo particular, embora, seja, particularmente, algo muito próximo dessa "pessoa", aí, que você acredita ser) é, basicamente, pensamentos. O seu dia é preenchido por pensamentos, que são as coisas, as pessoas, os lugares e as imagens. 

Aqui, vamos ao cerne, ao coração da Liberdade! É sobre a Liberdade esta fala, hoje... O cerne, o coração da Liberdade é a ausência dessa suposta necessidade de pensar, de pensamentos “povoando” sua cabeça. 

Tem uma pequena história: Havia uma rua onde as meninas de programa, as prostitutas, trabalhavam. Um dia, naquela rua, apareceu um homem santo, um pregador da santidade... Ele parou diante de uma daquelas casas e começou a dizer, bem alto, em sua pregação: "Arrependam-se, pecadoras!". Em sua fala, ele estava, claramente, mostrando todo o pecado do mundo, inclusive o pecado daquelas meninas que trabalhavam naquelas casas. A história conta que uma delas, todas as vezes que aquele homem chegava na rua pela manhã e começava fazer sua pregação, abria a janela, olhava para ele e começava chorar. Em seu coração, ela dizia para Deus: "Oh, Deus! Perdoa meus pecados, perdoa minhas ações! Tudo que esse homem está dizendo é a pura verdade... Eu sou uma pecadora! Tu me conheces! Desde menina eu vivo nessa vida!".  Ela ainda dizia: "Eu não sou como aquele homem santo que está ali, sem pecado!". 

Diz a história que aquela mulher, todos os dias, abria a sua janela, ficava ouvindo aquele pregador e, em seu coração, permanecia inteiramente voltada para Deus. Os anos se passaram, o pregador envelheceu, aquela mulher também envelheceu e ambos morreram; chegaram no céu com a diferença de alguns minutos. 

São Pedro os recebeu e disse para aquela mulher: "Dê-me um abraço, minha filha!". Após abraçá-la, disse: "Entre!". Quando levantou sua mão esquerda, as portas do céu se abriram e ela entrou no céu, para seu próprio espanto. O homem santo, o pregador, que acabara de chegar, viu aquela cena e já foi, apressado, tentando entrar, também, pelos portões. São Pedro falou: "Pare! Você vai aonde?" Ele respondeu: "Estou entrando no céu e... (ainda foi brigar com São Pedro) por que essa senhora está entrando aí, também? Como o Senhor me explica uma coisa dessas?" O homem foi brigar com São Pedro... 

O Ego é assim mesmo... Ele ainda quer brigar com Deus e mostrar seus direitos. São Pedro disse: "Meu filho, a questão é a seguinte: eu estive observando você todos esses anos. Vi o quanto foi arrogante, apontando o pecado de todos e pedindo para que eles se arrependessem, enquanto você mesmo jamais se arrependeu da sua arrogância, de ver pecado em todo mundo. O seu lugar não é este, é aquele lá". Então, levantou a mão direita, a porta do inferno se abriu (a turma já estava esperando o homem lá), e continuou: "Essa mulher, diferente de você, durante toda sua vida, em seu coração, estava profundamente voltada para a Verdade".  São Pedro ainda disse: "Deus não julga os atos. Deus tem muito interesse em observar o coração". Assim termina a história.  

Você, em sua Natureza Real, em sua Natureza Verdadeira, não é a mente, não é o corpo, não pode se manter dessa forma, confundindo-se com aquilo que o preenche, nessa ilusão de "ser alguém". O cerne, o coração da Liberdade, é não se confundir com aquilo que mais povoa o seu dia, com pensamentos sobre a importância de pessoas, coisas, lugares e imagens. Você deve trabalhar isso, neste instante. Você deve trabalhar isso! Trabalhar essa entrega, a sua Liberdade... A Liberdade de sua Natureza Essencial, do seu Ser, dessa Consciência da Verdade. Você deve trabalhar isso! Trabalhar a não identificação com aquilo que preenche você, como sendo "alguém" (como aquele pregador, que se preenchia com a ideia de ser mais santo que os outros, de merecer o céu). Cristo, em suas palavras, dizia: "Onde estiver o vosso tesouro, aí estará o vosso coração. Não acumuleis na terra"!  

Olhe para o ego! Ele se preenche acumulando realizações afetivas, realizações de bens (móveis e imóveis), realizações profissionais, familiares e em relacionamentos. O ego está sempre ocupado, porque ele está sempre acompanhado, e isto é o seu preenchimento, a realização dele. 

O cerne da Liberdade é o Vazio! Isso está na contramão de tudo aquilo que o ego quer. O ego não quer o Vazio... O ego quer a plenitude, que é o preenchimento que as coisas, as pessoas, os espaços e lugares lhe dão; que as imagens, imaginações, também, lhe dão. O cerne da Liberdade, o Coração, a Liberação, é você em seu Estado Natural, que é ausência de toda forma de preenchimento. Este é o fim da ilusão dessa suposta necessidade de pensar. 

A natureza da Liberdade é o Vazio, o Silêncio, a Consciência, a Meditação. Então, mantenham a mente fora dessa ideia de "sua mente"; mantenham-se no Silêncio, sem produzir imagens! São essas imagens que estão produzindo esses conflitos todos dentro de vocês. As minhas falas não se dirigem a alguém em particular, porque, para mim, não existe alguém em particular. A minha fala se dirige a você! Você, para mim, não é uma pessoa! Para você, você é uma "pessoa" e, por isso, está em apuros, tem problemas. Um sinal desses problemas que você tem, um sinal claro, é esse desejo de manter a continuidade dos pensamentos, dentro da sua cabeça, criando essas imagens.  

Você vê? Todo esse sofrimento que você está vendo hoje, aqui, de ontem para hoje, não é o sofrimento de "alguém", mas sim o sofrimento da ilusão de "ser alguém". Todo o sofrimento que você vive no seu dia a dia, como todo o sofrimento de hoje, é assim; o de ontem foi assim e o de amanhã será assim... Sempre o sofrimento de "alguém"... Essa ilusão de "alguém" presente, que é esse volume de imagens passando aí, dentro da sua cabeça, dizendo coisas e você confiando nos sentimentos, que os próprios pensamentos produzem ou confirmam. Na verdade, o sentimento vem sem o pensamento aparente, que está oculto apenas, mas está lá; depois, o pensamento vem confirmando o sentimento. A ideia é de que o sentimento chegou antes, mas não! O sentimento chegou porque o pensamento já estava lá. Então, vejam que o vilão é sempre o pensamento! Compreendem isso, que o vilão é o pensamento? 

Você sabe o que agrava mais? É a ilusão de que existem sentimentos bons e sentimentos ruins, pensamentos bons e pensamentos ruins. Isso agrava mais o seu quadro quando você vai buscar ajuda de um terapeuta, de um médico, de alguém que, supostamente, manja de toda essa coisa... Ele trabalha isso, com você, substituindo o negativo pelo positivo, a alegria no lugar da dor. Ele entusiasma, motiva, incentiva você, tornando-o uma "pessoa" mais positiva, e isso agrava ainda mais o quadro - é "alguém" que melhora você. Porém, alguém que trabalha a melhora da sua autoestima está lhe dando uma prisão enfeitada, cheia de bolinhas e balõezinhos coloridos, e um bolo com uma cereja em cima, no meio da cela. Isso agrava mais!  

Por que eu digo que agrava mais? Digo porque nada melhor para aproximar vocês da investigação da ilusão, que é o pensamento (como ele se manifesta, a importância e valor dele), do que a dor, a rejeição, a ansiedade, o trauma, o medo, a depressão, a solidão e o desespero de perceber que tudo aquilo que vocês, durante a vida inteira, trabalharam para cultivar e manter, a fim de preenchê-los, era uma ilusão (pessoas, coisas, lugares e imagens). Se vocês encontrarem alguma coisa fora desse circuito, me comuniquem. Para mim, basicamente (eu já falei isso outras vezes), as palavras são essas: coisas, pessoas, lugares e imagens, que, basicamente, são pensamentos. 

Quando você está numa situação delicada de dor, em dor profunda, tem aí a possibilidade de perceber a fraude, a mentira, o engodo que foi sua vida assentada nessas coisas. Para mim, alguém que vai trabalhar com você vai indicar-lhe isso, mas, se não indicar o que eu estou indicando para você, não tem ideia do que está fazendo; é "alguém" também, ainda, perdido numa gaiola, talvez mais colorida e enfeitada que a sua. A minha indicação para você é: liberte-se! Assuma sua Liberdade, torne-se livre das pessoas, das coisas, dos lugares e das imagens. Aqui, se inclui o trabalho, a família, o relacionamento, além de incluir a ideia básica "eu estou aqui", "eu sou alguém".  

Reparem nisso que eu vou dizer agora. Primeiro surge isso: "eu estou aqui"; "eu sou alguém". Depois surge a "pessoa" lá, do lado de fora, da qual eu dependo, preciso, necessito;  a "pessoa" que eu quero ter junto, a qual me valoriza, compreende, e a qual eu posso dominar, controlar... Primeiro surge a ideia "eu estou aqui", depois surge o lugar onde eu quero estar para me sentir bem "comigo mesmo"; o lugar em que eu quero viver, morar, estar. Primeiro, surge a ideia "eu aqui" e, depois, surgem as coisas que eu vou conseguir para me preencher, para que eu me sinta pleno. Primeiro, vem a ideia "eu estou aqui", depois surgem as ideias, as imagens, os pensamentos, sobre onde e com quem eu deveria estar, o que eu deveria estar fazendo, qual seria um momento melhor que este. Primeiro, "eu tenho que estar aqui", depois a ideia de que "eu deveria estar em outro lugar, com outras pessoas, ou fazendo outras coisas ou tendo outras coisas". Então, a prisão é essa! A prisão não é a ausência da sua Liberdade, mas a ilusão de que "você" está aí. 

A falta da Liberdade não é a presença de uma prisão na qual você se encontra. A falta de Liberdade é a ilusão de que você precisa, como "alguém", ser livre. A Liberdade não é sua; é a Liberdade da ciência de que não há 
"alguém" para ser livre. Assim sendo, a Liberdade é a própria Liberdade! Não é assunto seu! Não é algo pessoal!  

Você viu o seu problema agora? É a "pessoa"!  Vá curtindo esse momento! Curtir esse momento com a pessoa que você tem 
próxima... Curtir esse momento no lugar onde você está... Curtir esse momento com o objeto ou a coisa mais próxima que você tem, mas deixando isso solto e não transformando isso num objeto de preenchimento egoico; não transformando esse lugar, nem aquela pessoa, numa coisa de preenchimento egoico. Quando faz isso, você deixa de ser importante... 

Quando você deixa de ser importante, você é a Liberdade. Você é a Liberdade, é a Natureza de Deus, é a Natureza da Consciência, é a Natureza do Ser, esta é a sua Natureza Real, seu Estado sem ego e sem a ilusão de um "eu" presente. Sem esse "eu" presente, não há separatividade. Sem esse "eu" presente,  não existe o outro, o objeto e o lugar, nem existem as imagens. Então, não existe o "problema do trabalho", pois o trabalho é problema para quem está trabalhando. A pessoa é um problema para outra pessoa. O lugar é um problema, quando você está se confundindo com a ideia de estar ali, então ele é um lugar bom ou ruim. As imagens, também, só são problemas porque você faz disso um problema. Se são só imagens, ok! Mas se você valoriza isso, se isso o torna "alguém", 
fazendo de você "alguém especial", valorizando a "pessoa" que você acredita 
ser, preenchendo você e lhe dando importância, o ego surge... O sentido de um "eu" surge.  

Não ficam claras essas falas? Não ficam? Então, como é que alguém pode dizer que não está conseguindo ver e trabalhar isso. Eu sou tão ruim assim, em comunicar isso? Talvez, as palavras fossem até dispensáveis, porque, no fundo, você já sabe isso. Acho que o problema não é a falta da palavra chegando a você; o problema é que você gosta muito da mentira. Você quer culpar o mundo, como esse pregador da santidade... Culpar o mundo do seu pecado! Mas você está no maior de todos os pecados, porque está vendo o problema do lado de fora. Você está se vendo muito especial, que não merece o que tem ou não merece ter falta do que deseja ter ou não merece não continuar tendo. Ego, em autoimportância, é sempre ingrato! Não é assim? Ou estou exagerando? Hein? Ele não é ingrato? Se você está aqui, em Satsang, você está diante de alguém que, efetivamente, não está interessado em ser alguém e em manter esse "alguém" que você acredita ser. Então, se você está em Satsang, você está diante do único e real desafio da sua vida.

*Transcrito a partir de uma fala em um encontro presencial de João Pessoa em Julho de 2016

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Você não é uma entidade humana





Satsang tem uma proposta diferente. Não é uma aula e não tratamos aqui de explicações, mas de pura e direta investigação, o que não significa o fim das perguntas, mas sim o fim do perguntador. A mente é uma eterna perguntadora. A mente egoica está sempre produzindo questões, perguntas, e nós podemos passar a vida inteira formulando perguntas. Quando a mente formula perguntas, ela mesma encontra respostas; dá respostas a suas próprias perguntas. Satsang é o encontro com a Realidade, com a Verdade. A Verdade não está no campo das ideias e, portanto, não está dentro do campo das palavras. Assim sendo, explicações não significam a Verdade. Quanto mais explicações a mente tem, mais perguntas ela produz. É a natureza da mente produzir perguntas e encontrar as suas próprias respostas, para depois formular novas perguntas.

Essas questões são investigadas em Satsang com o propósito de terminar não com as perguntas, mas com o próprio perguntador, com a própria mente egoica, separatista e questionadora, que compara, avalia, julga e tem a curiosidade dessa procura de descobertas. Porém, o que ela descobre está dentro do próprio campo dela e essas descobertas reclamam novas descobertas, assim como essas respostas reclamam novas perguntas. Isto é um jogo sem fim, com a mente girando em torno dela mesma, no seu velho círculo vicioso, dentro do qual a conhecida vida humana segue. É um círculo vicioso onde são constantes a insatisfação, a autopreocupação, o movimento de separatividade e, naturalmente, os problemas e conflitos. Os problemas são essas questões, dilemas, com os quais o ego se depara todos os dias; problemas esses criados pelo próprio ego, pelo sentido de separatividade. 

Em Satsang, estamos investigando a natureza ilusória da mente, dessa mente egoica separatista, questionadora, insatisfeita e infeliz. A Realização é o final dessa ilusão da separatividade, da ilusão da mente egoica, da ilusão do sentido de “alguém” presente no movimento do pensamento. O conflito, o sofrimento e toda miséria humana estão nessa confusão, nessa identificação com esse movimento do pensamento, que agora estamos chamando de “mente egoica”, que é quando o colocamos como sendo “nós mesmos” (o que eu chamo de “estar identificado com a mente”). O Despertar é o fim dessa ilusão, é o final do sentido de separação, que é essa dualidade fictícia, com o sentido de um “eu” experimentando, sentindo, amando, odiando, gostando, não gostando, aceitando ou rejeitando a vida e o outro. Essa ilusão é a ideia de um “eu” presente, vendo e experimentando um mundo do lado de fora; de um “eu” presente fazendo perguntas e procurando respostas do lado de fora; de um “eu” presente insatisfeito com a forma de como a vida se mostra, se apresenta.

Todos os conflitos que você tem estão dentro dessa limitação autoimposta. A mente se impõe essa limitação e se vê nela, projetando-a como sendo a sua realidade, e você se confunde com isso. Quando você se confunde com a limitação, você está nessa ilusão do “eu”, do “mim”. Não importa se esse “eu”, se esse “mim”, se essa “pessoa” presente aí, que é só uma ilusão, tem profundas experiências, inclusive experiências espirituais, místicas, esotéricas, religiosas, nem se está vivendo essas experiências, profundamente interessada, e crescendo nelas. Essa “pessoa”, esse “mim”, esse “eu”, ainda continua nessa limitação, que é o sentido de separatividade, sentindo-se “alguém” no mundo - um mundo de coisas, de pessoas, em qualquer lugar que se encontre.

A mente cria a ilusão do tempo — passado, presente e futuro — no qual esse “eu” viveu, vive e viverá. Esse “eu” viveu no passado, experimentou muitas coisas, vem com uma carga de passado para esse momento presente e está vivendo nesse momento presente caminhando para o futuro. No futuro há vários projetos de realizações, desde projetos materiais a projetos espirituais, como uma vida de realização afetiva, profissional, emocional e, também, espiritual, mística, religiosa, filosófica. Então, esse sentido do “eu” cria o tempo: o passado, que são as memórias; o presente, que é quando esse “eu” tem a oportunidade de se lembrar do passado— e essa lembrança, na verdade, é só uma imaginação do que ele acredita ter experimentado ontem, ou há alguns anos que já se foram; e o futuro, onde ele tem algo para alcançar, ainda, inclusive a felicidade, material ou espiritual. 

Assim, o “eu” vive nessa ilusão do tempo e, também, na ilusão do espaço, porque ele acredita estar no corpo, em determinado lugar (morando em determinada casa, num determinado bairro, numa determinada cidade, num determinado país). Então, a noção de tempo e espaço criada pelo pensamento é algo muito comum ao “eu”, a esse “mim”, a essa “pessoa” que você acredita ser. Nesse tempo/espaço está se desenrolando a história de uma entidade, de uma suposta entidade, chamada Carlos ou Sílvia ou Fernando ou Lúcio... Muitos nomes para a mesma ilusão – a ilusão de “alguém” presente nessa experiência “corpo-mente-mundo”, no tempo passado, presente e futuro. Nela, "alguém” no espaço (numa determinada região, em determinado local ou lugar no planeta) se confunde com o corpo, que, nesse lugar, nesse espaço, é um corpo de sonho, num mundo e numa história de sonho. Na ilusão de "alguém”  presente nessa experiência, esse "alguém” usa sempre o pronome “eu”, quando se refere a si mesmo, e “ele”, quando se refere a uma suposta pessoa diante dele, ou “eles” referindo-se a um grupo. Entretanto, na verdade, tudo é somente uma única Consciência presente, aparecendo nesse formato, no sonho "corpo-mente-mundo"... Uma única Presença, uma única Consciência. 

De fato, não existe tal coisa como uma entidade presente, como um ego. O ego é simplesmente uma ideia, que encontra substância real no nível do corpo, como sentimentos, sensações, emoções, prazer e dor; e, no nível da mente, como pensamentos, imagens, imaginações e memória. Essa Presença, essa Consciência, é a única realidade, que não tem qualidades que possam ser observadas ou descritas. Quanto a qualidades descritas e observadas, estas são qualidades da mente, pois somente ela tem qualidades que podem ser descritas e observadas. Você é pura Consciência, puro Ser. 

É necessário ir além dessa ilusão para a real constatação do Amor. O Amor não é uma experiência humana. Essa experiência que nós chamamos de amor, que pode ser observada e descrita, é só uma experiência, ainda, no campo da mente, no terreno de um experimentador. Esse assim chamado “amor” ainda é sentimento; é o gostar. Este “amor” se transforma em qualquer outra coisa, com muita rapidez. Não é deste amor que estamos falando, mas sim do Amor além da dualidade. O “amor” que a mente conhece se transforma em ódio, ressentimento, mágoa, raiva e desamor; é algo que pode ser descrito. O Amor não é uma experiência humana. Na realidade, não existe nenhuma entidade chamada “humana”. Aquilo que chamamos de "entidade humana" está dentro dessas experiências, no campo da mente, no campo desse ilusório experimentador, que sente ódio e amor, alegria e tristeza. A Liberdade real, assim como o Amor real, não é uma experiência, nem é algo desses, assim chamados, “seres humanos”. Isso é a natureza da Consciência, é a sua Natureza Real. Você não é uma “entidade humana”. Você é a Consciência e, sendo Consciência, o Amor é a sua Natureza Real. 

Porém, o que você conhece, explica e traduz como amor, na experiência humana, está presente como prazer, preenchimento, gostar, querer bem, mas isso tem o seu oposto. O "amor" que conhecemos é muito confuso, uma confusão de muitos sentimentos: desejo, apego, prazer, gostar... E o Amor não é isso. O Amor é, precisamente, a dissolução de todo o sentido de separação, de separatividade. O Amor só está presente quando o sentido do “eu”, do “ego”, do “mim”, bem como esse, assim chamado, "ser humano, com seus conflitos, dilemas, frustrações, decepções, não estão... Quando isso tudo termina. Então, o Amor é a dissolução de tudo isso. O Amor é essa Consciência e está nesse Despertar.  

 *transcrito a partir de um encontro online na noite de 1º de Agosto de 2016
Encontros online via Paltalk todas às segundas, quartas e sextas às 22h
Baixe o Paltalk e participe!

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Por que me vejo no corpo?



O Silêncio é Consciência, é Presença. O que aqui chamamos de Presença, Consciência e Silêncio é essa Verdade que nós somos, Aquilo que está aí, presente além da mente. Quando colocamos a palavra Consciência, estamos tratando Daquilo que está ciente das  experiências. Consciência significa o que quer que esteja aí, presente, consciente das  experiências. Consciência é algo diferente da mente. A mente é aquilo que significa pensamentos e imagens, em que, dentro das nossas falas aqui, incluem-se os sentimentos e as sensações, assim como as percepções. Tudo isso é parte da mente.

Em Satsang, estamos dentro de um trabalho de investigação, mas não é de investigação da mente, o que seria a investigação da história; é, sim, a investigação dessa ilusão da mente e não da própria mente. O conteúdo da mente são pensamentos, imagens, sentimentos, percepções, sensações, e tudo isso é parte da história. Nós não investigamos a história, mas a ilusão dela. Assim, não investigamos a mente, mas a ilusão que ela é. Nós deixamos essa questão da investigação da mente para os especialistas, como os psicólogos, terapeutas e aqueles que tratam a mente. Aqui, nós apenas investigamos a ilusão da mente, não investigamos a mente; não investigamos o conteúdo, pois ele é a história. Vocês percebem essa diferença?

Enquanto a Consciência é algo sempre presente, a mente é algo intermitente, sempre. Essa Consciência é como uma tela onde as imagens, que são intermitentes, aparecem. A Consciência é essa tela sempre presente. Reparem que as imagens aparecem, mas depois desaparecem, enquanto a tela permanece. Essas imagens são feitas, também, de tela, mas elas são intermitentes. Então, pensamentos, sensações, emoções, percepções, experiências, são aparições intermitentes, mas há algo que permanece imutável: a tela, a Consciência. 

Nossa Natureza Real, Verdadeira, é algo sempre presente; é essa Consciência sempre presente. É maravilhoso isto: não mais se confundir, se perder e se identificar com a mente. Se você entra fundo na natureza do pensamento, da emoção, da sensação, da experiência, não encontra nenhuma distinção, pois tudo o que você encontra é essa Consciência, porém Ela permanece imutável. Enquanto a mente está mudando (ela muda o tempo todo), fica claramente compreendido que não é algo diferente da Consciência. Então, a imagem, a aparição presente, ainda é essa Consciência. 

Não é a mente que percebe que está consciente. A mente é essa experiência de pensamentos, mas há algo que percebe. Esse algo que percebe é a Consciência. Ela percebe, enquanto a mente é aquilo que é percebido, que é somente uma aparição. Esta é a chave de permanecer não identificado. Tudo aparece nesta Consciência, tudo é feito desta Consciência, tudo surge e desaparece nesta Consciência. Você permanece sempre como esta Consciência, embora você possa se confundir com a história, que é o que a mente sempre faz. Quando você se identifica com a mente, ela se confunde com a história e assume essa ilusão. 

Participante: "Por que me vejo no corpo, apesar de estar bem claro isso que o senhor fala?" 

Mestre Gualberto: Você não se vê no corpo, ele é apenas visto. Há um pensamento sobre o que é visto e com o qual você se confunde. Então, você assume essa ilusão de ser esse pensamento “eu sou o corpo”, ou “estou no corpo”, mas é somente um pensamento. Alguma coisa tem que acontecer, para que o corpo chame a atenção da mente e o pensamento apareça dizendo: “eu sou esse braço, eu sou essa mão”... “Essa mão que dói sou eu”. Isso é só um pensamento, uma ideia, mas o corpo chama a atenção da mente, o pensamento aparece e a mente se identifica com esse pensamento e diz: “eu sou esse pé, eu sou esse braço que dói, eu sou esse corpo”. 

Em sono profundo, não há nenhuma ideia desse tipo, como no desmaio, também, e, quando não há nada errado com o pé, você não tem qualquer consciência da presença dele como sendo você. Mas se houver um espinho no pé, se um dos dedos estiver doendo, o corpo chama a atenção. Você tem um estômago, mas somente se houver algo errado com ele você vai tomar consciência de que tem um estômago; e essa consciência é só um pensamento de que você tem essa parte do corpo aí, presente. Porém, se não tiver nada de errado com o estômago, você nunca se lembrará dele, isto porque, na verdade, ele não existe para você - você não é este estômago; este estômago, de fato, não é seu. 

Se houver algo errado com o seu olho esquerdo, você vai tomar consciência de que tem um olho esquerdo. Mas, se estiver tudo bem com ele, você não terá nenhuma ideia da presença dele, que estará aí funcionando por conta própria. O corpo é assim: funciona por ele mesmo e não tem nada a ver com você. É uma apropriação indevida querer que seja seu o que, na verdade, não é seu; ou seja, o pé não é seu e o olho também não. O corpo é da existência, é da vida, é da natureza, é da terra, mas não é seu. É somente quando a lembrança, o pensamento, surge que você tem coisas; todos os problemas estão, exatamente, baseados nisso. 

É curioso, porque Aquilo que percebe está desidentificado; a mente é que assume uma identificação. Aquilo que percebe a presença do corpo está desidentificado do corpo. A mente é que assume, através do pensamento, uma identificação ilusória com o corpo. Não é a mente que percebe, que está consciente, mas sim essa Consciência ciente, percebendo, sempre. A crença de que a mente percebe, de que ela está consciente, não faz o menor sentido, porque a mente é uma coisa percebida; ela não percebe. Somente a Consciência está ciente... ciente da mente e do corpo. 

É sempre essa Consciência que conhece ela própria, que se reconhece, mesmo como uma aparição. O corpo e a mente são uma aparição, mas é sempre essa Consciência se reconhecendo o tempo todo. Na verdade, todo e qualquer objeto é apenas a mente aparecendo, também. Se você não fica preso, não permite essa mente se prender em alguma coisa, não há mente. Se você não está se prendendo a nenhum objeto, não há mente e, quando não existe mente, fica a Liberdade. Nosso trabalho aqui é sair desse sonho, é Despertar. Quando você vê qualquer forma, nome ou objeto e se identifica com eles, isso é apenas um sonho. É melhor Despertar. Quando eu caio no sono, eu sonho que sou casado, que tenho filhos, que tenho casa, corpo, mente... 

Participante: “Mestre, como parar de me identificar com a mente? Cada vez que tento ficar em silêncio, mais e mais pensamentos aparecem”.

Mestre Gualberto: É claro, porque tem sempre alguém fazendo isso aí. O Silêncio não é algo que a mente produz. O silêncio que a mente produz é aquele que alguns conseguem realizar através da prática da meditação, mas, logo que saem dela, tudo continua na mesma, porque é um silêncio artificial, praticado pelo pensamento. Você pode descobrir técnicas de silenciar a mente, mas é a mente silenciando a mente. A Realização não é a mente silenciada, é o fim dessa ilusão, que é essa identificação com o movimento do pensamento.

*Transcrito a partir da fala de um encontro online na noite do dia 27 de Julho de 2014 - Encontros todas as segundas, quartas e sextas às 22h baixe o Paltalk e participe.

sábado, 20 de agosto de 2016

Como não necessitar de respostas?


Qual é a pergunta? Tenho para mim que a pergunta ideal é: “Como ir além da necessidade de fazer perguntas, de procurar respostas?” Para mim, esta é a pergunta ideal. A natureza da mente é encontrar respostas para as perguntas que ela mesma formula. Toda pergunta é um problema! Em uma prova, você se depara com problemas. Foram quantas as questões da prova? Ou seja, quantos problemas caíram na prova? Você foi testado por quantas questões? Por quantos problemas? Não é assim? Mas a vida não é um exame, uma prova, um teste. Para a mente, a vida é um teste, uma prova. Por isso a mente está constantemente se deparando com problemas. 

A vida foi transformada, pela mente, num problema, no maior de todos os problemas, de todos os testes, na mais difícil de todas as provas. Para o Sábio, não há problema! Então, a vida para Ele não é um teste, não é uma prova; para o tolo é, portanto, um grande problema. Não é a vida o problema, o teste, a prova… A mente é o problema! É a mente que transforma a vida num problema, ao se meter em um assunto que não é dela. A vida não é um assunto para a mente, para o ego, para o “mim”, para o “eu”. A mente se mete nesse assunto chamado vida e faz do viver e de todas as relações um grande problema. Sem mente, sem problema. A vida continua, mas não tem problema. Ela permanece como sempre foi, mas sem problema.

Uma história Zen: 

Um abade de um grande mosteiro pediu aos seus monges que fizessem um poema, expressando sua compreensão dos ensinamentos de Buda. O chefe dos monges, muito querido e respeitado pelos mais de mil companheiros, escreveu solenemente: “O corpo é a árvore bodhi e a mente é como um espelho brilhante. Cuide para mantê-la sempre limpa, não permitindo que o pó se assente”. 

Um jovem semialfabetizado, que ajudava separando a palha do arroz, viu o poema na parede e pediu para que alguém o lesse, exclamando depois: 

— Não é isso! Então, pediu a um monge letrado que escrevesse seu poema: “O corpo não é a árvore bodhi e a mente não é como um espelho brilhante. Se não há nada desde o princípio, onde o pó se assenta”?

Esse foi o poema de um jovem semialfabetizado que ajudava na cozinha, separando a palha do arroz. Ele viu o poema e nem conseguiu lê-lo! Pediu que alguém o lesse para ele. Ele disse: “Não é isso!” E pediu para um monge letrado escrever para ele, devido à sua dificuldade de escrever, também. 

Qual é o mais profundo ensinamento? Qual é o mais simples? Qual dos dois ensinamentos não ensina nada? Dos dois, o segundo é o único que não ensina nada. Não há nada para se aprender com o segundo. Com o primeiro, você pode aprender. Você não pode viver o que foi dito, mas aprender você pode. Você pode fazer uso de tudo o que você aprendeu, mas você não pode viver isso. Realização não é uma questão de aprender, é uma questão de vida. Por que vocês se encontram em dificuldades quando se deparam com uma situação, um desafio, uma questão, um problema? Vocês se veem em dificuldade porque sabem o que fazer, e, no entanto, não fazem. Sabem porque aprenderam! A sabedoria não é saber, a sabedoria é viver! Nós passamos muito tempo aprendendo, aprendendo, aprendendo… Parece que vamos passar muito mais tempo ainda. Esse aprender não é vivencial. Se não é vivencial, não é a Verdade. A Verdade não se aprende, é vivencial. 

Vocês não estão em Satsang para aprender, porque isso não serve para nada. Aprender é discorrer sobre perguntas e respostas, soluções de problemas aprendidos... Claro, intelectualmente! Isso não serve. Em Satsang não se propõe ensino; propõe-se Sabedoria, que é Liberação, é Vida! Vida real! Vida real não tem problema, não tem ego. Ego é problema, é mente. Aprendizado é mente. Sabedoria não é mente, é Vida! Sabedoria não tem ego, não tem problemas. O Sábio não tem problemas, a Vida não tem problemas, mas a mente tem. A Sabedoria é Vida, Consciência, Verdade, Presença, Liberdade; é “não problema”, portanto, é “não conflito”, é “não sofrimento”. A Vida não conhece sofrimento, mas a mente conhece apenas sofrimento, porque ela é isso. A mente é miséria! Por favor, compreendam isso! Vocês estão aqui para realizar a Verdade e não para aprender alguma coisa. A realização da Verdade está na vida da Verdade. A não realização da Verdade está em aprender sobre o que é a Verdade. 

Então, qual é a pergunta? A pergunta é: “Como não necessitar mais de respostas?” ou “Como não ter mais perguntas?” Esta é a pergunta! Não haverá mais perguntas… Não haverá mais perguntas.

As perguntas terminam quando você volta à Fonte, que é de onde elas surgem. A Matriz, a Fonte, a Nascente das perguntas, não tem perguntas. Você tem que voltar à Nascente, porque a Nascente das perguntas é a mesma das respostas. Ela está além da mente e é Nela que a mente aparece. A mente só aparece quando as perguntas começam a aparecer. A mente faz as perguntas e ela mesma traz as respostas, mas Aquilo que está antes dela — onde a mente aparece e desaparece — não tem perguntas, não tem respostas. Não precisa de respostas! Como não precisa de respostas, não tem perguntas. É muito simples! Como não necessitar de respostas? Voltando para a Fonte, para Aquilo além da mente. Eu disse "Aquilo" porque não dá para definir o que é Isso. Isso é indefinível! Podemos chamar de “não conceitual Consciência”... Não conceitual, mas já sendo conceituada, porque está além de todos os conceitos. Então, como viver sem problemas? Vivendo sem a necessidade de respostas. Assim, você vive sem a necessidade de fazer perguntas; vive em seu Estado Natural, além da mente, onde não há problemas. Como não há problemas, não há perguntas. Como não há perguntas, também não há repostas. E agora? O que fica? O que fica? Tome uma xícara de chá!


*transcrito a partir do encontro de João Pessoa em Julho de 2016

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Você sabe o que, basicamente, significa relacionamento? Controle.





Sabedoria é a expressão da Verdade, simples e natural; não há nada de inteligente na Sabedoria. A inteligência do inteligente é a expressão da perfeita lógica e complexidade, coisa que o intelecto faz muito, muito, muito bem.  Mas, Sabedoria não é inteligência. Sabedoria é essa natural simplicidade de ver as coisas como são, não de explicá-las. Explicar fica para a inteligência e ver fica para o Sábio! Quando o Sábio vê, esta é a Real Inteligência. Quando o inteligente explica, esta é a tão conhecida inteligência da qual estou falando, que está a uma distância enorme da Sabedoria. Essa inteligência que explica, ao explicar, torna a coisa muito complexa, enquanto que a visão do Sábio, como não explica, só vê, fica muito clara, sendo natural e simples. 

O meu convite em Satsang é à Sabedoria e não à inteligência. Eu falo dessa inteligência dos inteligentes, porque há uma Inteligência que o inteligente não conhece. Esta Inteligência é a Sabedoria, não a inteligência que explica, que torna complexo o que é simples e natural. Saber é sempre "sem saber"; ser capaz de explicar é ser capaz de controlar. O Sábio não se preocupa com controles, por isso ele não se importa com explicações. 

A dificuldade de permanecer em Satsang, diante da Presença da Sabedoria, é que ou você abre mão dessa inteligência dos inteligentes e se abre à Inteligência do Sábio, ou seja, abre mão das complexas explicações que o inteligente produz para se sentir seguro e no controle, o que significa assumir que você não sabe e que não se importa em saber (controlar e explicar) — ou, então, você não permanece em Satsang. Satsang é o encontro com a Verdade, não é o encontro com as explicações. É o encontro com a Vida, não é o encontro com o que significa a Vida. O Amor é uma coisa assim.

Sabe quando foi que você destruiu a presença do Amor em suas relações? Quando você transformou isso em relacionamento. Você sabe o que, basicamente, significa relacionamento? Controle. O controle está sempre baseado em quê? Explicações. Por isso que tem a tal da “DR” (discutir relacionamento).  Não há nenhuma necessidade de DR quando há Amor.  Há muita necessidade de DR quando há controle, e, quando há controle, não há Amor. O Amor é imponderável, é leve, é suave, é intocável! O Amor nunca está presente quando o controle está e explicações são exigidas. O Amor sempre estará presente quando “você” não estiver. “Você” é controle; explicações são cobranças.

Eu compartilho com você um ensino que não o faz aprender nada, porque não lhe dá explicações. Eu sinalizo, aponto, indico, mas eu não explico, e, pelo fato de não explicar, o controle não é exigido. Pelo controle não ser exigido, por não haver explicação neste contato comigo, o Amor está presente. Portanto, eu nunca entro num relacionamento com você. Ou você abraça, acolhe essa relação – isso é Amor – ou, então, você cai fora; mas seu amigo, confidente, cúmplice de conceitos, ideias e crenças, eu não posso ser. Apesar de toda exigência que você tenha, eu não aceito esse jogo, porque não faz parte da minha natureza... A minha Natureza é Amor. Eu não controlo e nem aceito o controle, porque Eu Sou Liberdade... Eu Sou a Liberdade! Eu não trato de controle. Eu trato de entrega, que é outra coisa. Entrega é rendição – rendição, exatamente, do controle, desse poder, que você acredita ter, de controlar. Isso sim eu trato com você. Eu não lhe dou espaço para você estar no controle, mas não é o controle que estou pedindo, é a entrega. Entretanto, estou pedindo exatamente a entrega desse controle, porque você sempre esteve no controle com todos que você se relacionou, transformando essa relação num relacionamento. 

Nesse sentido, eu sou implacável, e é por isso que, se eu pudesse fazer o jogo, eu estaria dentro dele. Mas, como eu não posso fazer o jogo, você tem que abrir mão. É quando você se afasta deste trabalho, porque tem que abrir mão de mim, por não poder abrir mão do seu controle. Eu não entro no jogo, então a gente não se relaciona no nível de relacionamento; a gente tem só uma relação, e, nessa relação, não tem “alguém”, nem aí e nem aqui. Para o que aparece aí como “alguém”, eu tenho sempre uma "foice bem amolada", ou uma "espada de samurai bem treinada", para "arrancar" a cabeça, quando ela aparece.  

O Amor tem seus riscos, carrega os seus perigos, é algo vivo como a própria Vida. A Vida é algo vivo e não tem nada mais perigoso do que a Vida. O Amor é algo assim, sempre novo, fresco, não cai na rotina. Tudo o que você destruiu, o fez por controle, tornou rotineiro, e fez isto com todas as suas relações, inclusive com a relação íntima, que é a tal da relação amorosa, que de Amor não tem nada, ou quase nada,  para eu não ser tão extremista. Eu diria que o Amor está presente, sim, em toda sua totalidade, refazendo a minha fala agora, mas ele está fora do que se conhece. O Amor está presente até na relação de uma pedra com outra pedra, que estão juntas ali na estrada, ou uma sobre a outra. O Amor é sempre algo presente, até entre as pedras, mas é como se ele não existisse nas relações, quando estas são relacionamentos entre "pessoas"; isto porque "pessoas" são, basicamente, fraudes, mentiras, desejo, vaidade, orgulho, presunção, posse, domínio, controle, medo. 
 
É isso ou não é isso? Exagerei um pouco?

O Amor é como o céu, os relacionamentos são como nuvens. O céu permanecendo por detrás, sem aparecer, imutável, inamovível, intocável. As nuvens passeando, perambulando, mutáveis, passageiras, mudando as suas colorações, indo de um branco de pureza ímpar, de um brilho iluminado pelo sol,   até   uma  escuridão   total,   um   breu  total;  desde  uma  leveza e uma suavidade luminosa até as nuvens mais negras, pesadas, densas que têm que desabar em forma de chuva — são os relacionamentos. Vocês, no ego, só conhecem isso: relacionamento. Fora do ego, você é o céu; no ego, você está dentro desse métier de relacionamentos. 

Quando você vem a Mim, Eu lhe dou o céu... Esse “Mim” que Eu Sou, que é esse “Eu Sou” que Você É, é o céu. Isto não muda. Você que está há mais tempo aqui comigo, o mais antigo do grupo, quando foi que você me viu mudar? Você me vê mudando? Mudando com você? Por que não? Porque Eu não estou em relacionamento. Não vejo você como uma "pessoa", não o trato como uma "pessoa", no entanto, é você quem se trata desta forma e sofre as consequências dessa ilusão. É você quem me vê como pessoa, o que é, de fato, um desperdício. Mas, nesse contato, eu sou o céu. Não vejo nuvens e não estou mudando de uma pequena forma luminosa brilhante, branca de um azulado claro, até uma grande forma escura, densa, pesada, carregada, pronta a desabar e sendo cortada por raios e trovões – uma dessas nuvens assustadoramente   escuras.   Quando   não      mais   controle,   não   se exigem mais explicações. Quando não há mais a necessidade de explicações, são irrelevantes essas aparições com formas e colorações diversas, que vêm e vão no "seu céu". O que eu lhe dou é o céu... Eu o convido ao céu.

*trecho de um encontro ocorrido na cidade de Fortaleza em Julho de 2016

Compartilhe com outros corações