quinta-feira, 14 de julho de 2016

O que é upadesa e o que é Advaita?






Na Índia, eles chamam de upadesa o ensino, a instrução do Guru. Você não pode aprender o que o Guru está mostrando, mas você pode ser ensinado acerca do que ele está tratando. A prática da upadesa é a sadhana, que é a prática que o Guru lhe dá. Vocês já me ouviram falar diversas vezes que não há prática, pois ela é uma coisa que se torna mecânica. É como aprender — isso se torna mecânico, meramente verbal. Alguns têm aprendido essas palavras, conseguem escrever e falar sobre isso, mas não têm a prática. A prática, quando não é uma vivência, é uma coisa mecânica, é como uma coisa aprendida, não é real. É como aquela coisa que você faz porque aprendeu e praticou, não é natural.

Na espiritualidade, vive-se a prática porque se aprende, mas não é natural. Quando você é ensinado porque recebe do Guru a upadesa e a coloca em prática, essa prática é vivencial, mas você a recebe como um ensinamento não como um aprendizado. Podem parecer sinônimos, mas aqui não podem ser colocados como sinônimos. Eu recebi do meu Guru a upadesa e coloquei em prática o ensinamento do Silêncio. Esse ensinamento que veio do Silêncio me deu as dicas do que eu precisava, na prática, soltar.

Então, eu tinha que soltar a autoimagem, as escolhas, a determinação de fazer ou de não fazer, a decisão; eu tinha que soltar a minha vontade, render a minha vontade a uma vontade maior que a minha, desse “mim”; eu tinha que render essa vontade à Vontade de Deus, do Divino. Assim, ou eu ouvia a própria mente, ou ouvia o ensino do Guru. Se você aceita esse ensino, isso é upadesa, essa é a sadhana.

Você pode dispensar o aprendizado dessas palavras. Aliás, se não dispensar isso, você vai aprender essas palavras e elas vão servir para você assim como miar ou latir. Aprender Advaita é como aprender a miar ou latir. O que é que você vai fazer com isso? A prática do ensino dado pelo Guru, essa upadesa, traz a vivência da Realização, e essa Realização é Advaita, é a não dualidade, é a não separatividade.

Então, do que é que eu trato com vocês todos os dias? Advaita. Eu trato de Advaita, mas eu não estou ensinando Advaita, porque o meu ensino é upadesa. Eu não posso ensinar Advaita. Advaita é não dualidade, como é que eu posso ensinar isso? Você pode seguir o meu ensino e, na prática, descobrir o que é Advaita. Isso seria uma vivência direta sua, mas repetir palavras “advaitas” não é Advaita. O que é que eu não tenho dito para você? O que é que eu não tenho compartilhado com você, mostrado para você, dentro desse ensino? Você não atinge Advaita, a não dualidade, de uma forma direta; é sempre de uma forma indireta. Advaita é o estado natural de não dualismo, de não separatividade. Você não atinge isso verbalmente, teoricamente, não há ensino que possa lhe dar isso.

É como tentar lhe dar a Presença, o Ser, a Consciência. Não dá para atingir Isso, então nós temos que ter uma aproximação diferente, descartando o que não é Isso, o que não é Advaita. A dualidade não é Advaita. A separação entre você e o outro, criada pelo pensamento com base nessa imagem de “eu sou um e você é outro”, é dualismo. Você descarta isso e, então,  você realiza Advaita, seu estado de não dualismo. Assim, o meu trabalho é todo indireto, é para que você descarte, aí, a dualidade, o sentido de separação, vendo, enxergando onde ela aparece.

Eu não posso lhe dar o sentido de não separação, a ausência do sentido de separação — pelo menos não de forma verbal — mas eu posso lhe mostrar o que Isso não é. Isso não é, por exemplo, esse comportamento baseado em imagens, essa coisa feia que o ego faz. Isso é dualismo, é dualidade. É tudo eu e Deus, eu e o outro, eu e o mundo, eu e o Guru, eu e o companheiro da Sangha, eu, a Sangha, o Guru e Deus. Tem eu, tem a Sangha, tem o Guru e tem Deus… e tem o mundo, o meu marido, a minha esposa, a minha filha, o meu filho que morreu, o qual eu não quero esquecer, não posso esquecer… Isso é o que não é Advaita, isso é dualismo puro, ego, sentido de separação. Essa ilusão eu posso investigar com você e, ao vê-la,  você a descarta, e quando você a descarta, fica claro o fim da dualidade.

Então, o ensino, a upadesa, tem esse propósito. Esse ensino é vivencial e ele desperta! É nesse sentido que o Guru não vem para ensinar, ele vem para despertar, porque o Guru não é um professor. Você desperta para a realidade não dual do seu estado natural, então, o Sábio, o conhecimento espiritual, desperta! Jnana, o conhecimento nele mesmo, é o que a gente chamaria de conhecimento espiritual; é o puro conhecimento. Conhecimento puro é a Consciência, é a Presença, é a Percepção, é o estado não dual de Ser, que é Sabedoria, que é Jnana, pura compreensão, Silêncio da não dualidade, da não separatividade, ausência do “eu”, ausência do mundo, ausência de Deus. Isso é meditação!

Alguns devem ficar completamente loucos, doidos, ao ouvir isso. Isso é Satsang! Quando eu digo Satsang, quero dizer Meditação, e Meditação é Consciência, Consciência é Presença, Presença é Ser, Ser é o estado natural, que é percepção pura, que é Deus. Eles ficam loucos quando escutam isso, mas é isso. Satsang é você em seu estado natural: Samadhi, Consciência, Presença, Ser, Verdade, Liberdade, não dualismo.

Isso não se aprende, mas é possível viver isso em seu estado natural; isso é você em seu estado natural. O que acontece quando o fogo se aproxima de um objeto, ou um objeto se aproxima do fogo? O que prevalece? O que permanece? O fogo vai ser alterado? Vai ser extinto? Vai perder o calor, a luminosidade? Mas o que acontecerá com o objeto? O objeto vai virar fogo! Essa é a resposta! O objeto não se extingue, ele vira fogo! Ele muda de forma, mas ele está no fogo, ele agora é fogo. Não dá para separar o objeto do fogo, porque não há objeto separado do fogo, mas você não pode negar a existência do objeto. Na natureza é assim, nada se perde. O fogo é essa Consciência. O que é o ego na Consciência? Dá para pegar aquele objeto e separá-lo do fogo? Ele vai servir para alguma coisa? Não! O ego vai servir para alguma coisa? O objeto é real separado do fogo? O ego é real separado da Consciência? Então, o que é real? A Consciência. O que é real? O fogo. Seu estado natural é Consciência e nele não há ego. Não se pode separar o ego do seu estado natural como não se pode separar o objeto do fogo. O que prevalece, o que permanece, o que se mantém de forma inalterada, sempre, é a sua Natureza Real.

Quem ainda aí se ofende, se aborrece, se magoa, se entristece, se chateia, se preocupa, se aflige, teme? Quem aí é real? Qual é o seu nome? Qual é a sua história? Nasceu quando? Qual é o nome de seus pais, avós, bisavós? Nasceu em que país? Qual o regime de governo de seu país? Essa é a história — uma história sendo contada com um nome, com uma nacionalidade, desde o nascimento até a morte. Vocês sabem o que não são. Sabem que não são esse nome, que não são essa história, que não são pais, que não têm amigos. Um amigo vira seu inimigo, uma amiga vira sua inimiga. Então, já sabem que isso não é (a não dualidade), e, portanto, não terão mais crise de insônia, de contrariedade.

É preciso viver isso, e viver isso é upadesa, é o ensino do Guru. O Guru está lhe ensinando a viver isso, mas, se você não o vive, não faz o dever de casa; se não faz o dever de casa, é porque você não quer nada com o professor e com as aulas dele. Você tem que assumir agora ser aluno, assumir entrar nessa prática que recebe como ensino, como upadesa. Você pode saber, mas se você não trabalha isso, você não sabe verdadeiramente. 

*trecho de um encontro presencial ocorrido na cidade de Fortaleza em  Junho de 2016

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