terça-feira, 17 de maio de 2016

Realização: O fim do sentido de separatividade







Realização, Iluminação ou Despertar são palavras que são usadas, geralmente, como sinônimos desse Estado livre da mente egoica. Esse é um Estado, simplesmente, livre da mente egoica. Não tem nada a ver com a presença ou a ausência do corpo. 

A Realização, o Despertar, a Iluminação, não é, necessariamente, o fim do sonho dessa aparição corpo-mente, mas é o fim da ilusão do sentido de separatividade. O que termina não é o corpo; a única coisa que termina é o sentido de separatividade. O corpo está bem no lugar dele. A mente, no sentido de memória, cognição, intelecto, também está bem no lugar dela. A única coisa que termina é o sentido de separatividade. Esse sentido de separatividade é aquilo que representa toda miséria, todo sofrimento, toda essa ilusão da ignorância. Não há ignorância, assim como não há sofrimento! O sofrimento, assim como a ignorância, está dentro dessa ilusão da separatividade; mais do que isso: é pura fantasia! O corpo e a mente são só aparições. 

A realidade Divina, a realidade de Deus, é essa realidade da não-separatividade, da não-dualidade. Dualidade, aqui, implica a ideia, a crença, a imaginação de um “eu” presente na experiência “corpo-mente-mundo”. Então, a ilusão de uma identidade chamada “mim”, “eu”, nesta experiência “corpo-mente-mundo” é a dualidade. Assim, existe o “eu” dentro do corpo, o mundo fora do corpo e o corpo como parte do mundo — essa é a dualidade. E, acima desse “eu” e do mundo, está Deus. Deste modo, essa separatividade, esse sentido de separação, é a ilusão da dualidade. É basicamente isso. É só isso que termina. Nada mais muda! Você não se torna um ser especial, maravilhoso, com poderes miraculosos. Nada disso! 

O corpo não é o problema, ele é só uma aparição, assim como à noite você tem a aparição do mundo no sonho e um corpo para viver isso. E esse corpo também não é você, porque logo que você acorda pela manhã descobre que aquilo era só uma imaginação — tanto o seu corpo quanto seu mundo no sonho. E olha que a experiência do sonho, para você, é muito real! Se você está tomando banho no rio, no sonho, a água é bastante fria; se você está andando debaixo de um sol, ele é bastante quente; se tem sede, no sonho, a água do sonho mata a sua sede. Assim, você tem um corpo, tem um mundo e tem uma experiência neste mundo específico de sonho. Essa experiência é a experiência de um sonhador, e esse sonhador é só a ilusão de uma identidade presente no sonho.

Então, a experiência de ser humano também é a mesma coisa. Na mente egoica, você se vê como um ser humano. Você vê pedras, animais, plantas, rios, mares, florestas, desertos, sol, lua, estrelas, etc. Você vê isso tudo como um ser humano, como algo separado de você, e isso está só na imaginação também, está só no movimento mágico da mente. Esse é o sentido de separatividade, e é só isso que termina no Despertar, na Realização. Parece muito pouco, mas eu não sei se dá para medir o volume dessa “coisa”, se dá para aferir medidas nisso. O fim da dualidade, que é o fim dessa separatividade, é o fim de todo o mundo, de todo esse “seu mundo”. 

Participante: E quanto às experiências extraordinárias que nos contam? 

Mestre Gualberto: Não são os sábios que contam essas experiências extraordinárias. Não há nenhuma experiência extraordinária no Despertar. O Despertar é o fim de todas as experiências. Enquanto houver um experimentador, haverá experiências, e, quanto mais sutil e espiritual for o experimentador, mais sutis e mais espirituais serão suas experiências.


Participante: E os satoris, samadhis? 

Mestre Gualberto: Satori é uma palavra Zen, e, se você observar, você vai descobrir que, dentro do Zen, satori é o fim da experiência, não é bem uma experiência. Samadhi também é o fim da experiência, não é uma experiência. Satori e samadhi remetem ao seu Estado Natural. Nesse seu Estado Natural, Deus não é espiritual. Falo dessa Realidade Divina que é você, em sua Natureza Real. Você é Deus, em sua Natureza Real, e isso não é espiritual; isso é bem natural. Não é ordinário, no sentido que empregamos essa palavra, não é algo comum, mas é bem natural. 

O estado livre da mente egoica, livre da mente separatista, dessa mente que divide, que compara, que avalia, que julga, que prejulga, que deseja, que teme o seu fim, que tem relances DISSO, “insights” DISSO, podemos chamar de satori ou samadhi. Mas, se isso também não assenta no organismo, nesse mecanismo corpo-mente, aí passa a ser, também, só mais uma experiência da qual a mente se recordará, se lembrará. Isso não é real nela, e aí o que ela faz? Ela relata isso como uma experiência. Ela só pode contar isso como uma experiência, mas esse não é o Despertar. No Despertar não existe mais o experimentador. Sem o experimentador, não há mais experiência, então não fica "alguém" para contar algo. 

Quando a Paz, a Liberdade, a Felicidade, o Amor, o Divino, a Consciência, Deus, ISSO está, não há experimentador. ISSO é o fim desse “você”, que você conhece. 

Hoje, nós estamos falando diretamente do Ashram, neste espaço aqui em Campos do Jordão. Nós temos cerca de trinta participantes conosco aqui no salão do Ramanashram, e temos vocês aqui nessa sala virtual do Paltalk. Somos mais de dez aqui, então nós estamos em cerca de quarenta pessoas. Isso parece ser assim, mas não é verdade também. Essa é a magia, essa é a mágica desse mundo Divino, desse mundo da Graça, desse mundo de Deus.


As aparições são aparições Naquilo que não aparece nunca, Nisto que não aparece nunca, que não se separa, que não se divide em meninos e meninas, em homens e mulheres, plantas, animais, céu, estrelas, lua, salas virtuais e salas não virtuais. 

Esse trabalho não exige de você uma compreensão técnica especializada. Não é como estudar Química, Física ou Medicina. Você não precisa de um conhecimento especializado. Na verdade, o lado inusitado deste trabalho é que aqui se trata de desaprender tudo o que você aprendeu. Aqui, se trata de uma desconstrução de tudo que tem sido construído ao longo de todos esses anos, ao longo de toda história, de toda cultura, de toda civilização, de toda espiritualidade, enfim, de tudo isso. Aqui, o Despertar, que é o florescer da Sabedoria, que é o desabrochar da Felicidade, que é o reconhecimento da Verdade Suprema de Deus, é só o constatar de sua Real Natureza. Não tem nada a ver com especialização, com formação, com capacitação, absolutamente. Você aqui desaprende! Quando você desaprende tudo, o Sábio floresce!

O Sábio está na contramão. Todos estão indo numa direção e o Sábio está voltando. Por um bom tempo, todos vocês foram treinados a caminhar em uma direção. Quando Satsang chega (Satsang significa “encontro com o que É”, uma palavra indiana para “encontro com a Verdade”) nós recebemos um convite interno para a constatação dessa Realidade que somos, e isso significa voltar. Há todo o nosso condicionamento caminhando para uma direção e agora o convite é voltar; nós temos que fazer o caminho de volta. Tudo isso foi só um afastamento, e agora a gente tem que voltar... voltar para Casa. Nos afastamos de Casa com nossos projetos, nossos sonhos, nossos desejos, nossas buscas, nossas conquistas, nossos acúmulos… A ideia era "ser alguém", e agora estamos voltando para Casa; estamos desaparecendo. Estamos desistindo dessa empreitada, desse empreendimento; estamos percebendo o equívoco de tanto esforço para ser, esquecendo de ser. Todo esforço para "ser" o afasta de Ser. Toda procura da felicidade é o próprio impedimento da constatação da Felicidade que não se procura. A busca e a procura de uma realização o afasta do reconhecimento de que tudo está no lugar e já está pronto. Não há nada para ser realizado, muito menos por "alguém". Então, você termina fazendo um caminho contrário. Você agora está voltando para casa, voltando para sua Natureza Real, que é Consciência, que é Presença, que é Deus, que é Verdade. Se você não gostar de uma dessas palavras, pode riscar uma delas. Não vamos precisar de nenhuma delas mesmo. 

Um dia, alguém me disse que gostava muito das minhas falas, mas que não ficava à vontade quando eu usava a palavra “Deus”. Aí, eu fui bem generoso com ele: todos os encontros eu só usava a palavra “Deus”. No lugar das palavras “Consciência”, “Presença”, “Ser”, eu falava “Deus”, “Deus”, “Deus”, “Deus”. Ou você desiste de mim ou  desiste de você com seus preconceitos. 

Neste trabalho, todos vocês precisam ir além de toda a configuração da mente egoica. Isso tem uma extensão, uma dimensão e uma complexidade que vocês não fazem ideia. Só começam a ter uma leve noção disso em Satsang. Leve, porque é preciso ir devagar, em dosagens homeopáticas. A mente egoica carrega tanto peso, tanto condicionamento... um condicionamento milenar! Você talvez só tenha três decênios. Há alguns aqui na sala, no Ashram, e também aqui na sala virtual, pelo Paltalk, que talvez tenham três decênios, quatro, cinco, seis ou sete. Isso não é nada! Sete decênios não são nada! Oito, não é nada! Estamos falando de milhões de anos. Desde quando você era uma ameba, um ser unicelular, já estava aprendendo, descobrindo o lado externo, e começando a sua viagem para o lado de fora, fisiologicamente e psicologicamente. 

Não subestimem as plantas, nem mesmo as pedras. Todas têm mente e consciência. Você não pode esquecer que, quando falamos de consciência, não estamos falando de habilidade de cognição, de julgamento, de comparação. Isto está dentro apenas do intelecto desse, assim chamado, ser humano, e de algumas espécies animais. Quando falamos de consciência, estamos falando de experimentação, do poder de experimentar e de "se separar". Quando isso está muito avançado, como acontece no ser humano, essa consciência se experimenta nessa ilusão de "ser o agente", o autor das ações. É aí que surge o sentido do “eu”, de um experimentador na experiência, de uma forma muito “clara”, muito “precisa”, muito “responsável”. Mas isso é para um outro Satsang. Por enquanto, basta apenas ficarmos aqui, nesse momento, tomando consciência de todo esse movimento, sem nos identificarmos com ele, sem darmos a ele essa singularidade de um experimentador, de um observador, de um autor presente dentro disso. Chamamos isso de Meditação. 

Meditação é essa liberdade de ser. A experiência fica só como experiência, sem "alguém" dentro dela. O pensamento fica só como pensamento, sem "alguém" responsável por ele. O sentimento fica só como sentimento, sem "alguém" responsável por ele. Assim, também, é com a emoção. 

Eu me sinto muito à vontade nessas falas, porque eu não me sinto responsável por sua capacidade de compreendê-las, pois eu também não compreendo nada. Aqui, a coisa mais importante é ouvir.

Se nós pudéssemos enquadrar a Sabedoria dentro do entendimento razoável do nosso intelecto, a Sabedoria não seria o que Ela é; o intelecto não seria o que ele é. Mas, como só se pode ter uma coisa e não outra, não dá para ficar com as duas.


Esse canal aqui, pelo Paltalk, é uma oportunidade que vocês têm para a gente ter um primeiro contato. A coisa para valer acontece no presencial mesmo. Eu sei que é muito confortável estar agora sentado no sofá, na sua casa, ouvindo essa fala, tomando um suco, ou um copo de refrigerante, mas é necessário sair dessa zona de conforto e vir a Satsang, estar em Satsang presencialmente.

Nós estamos falando sempre de uma mesma Presença, de uma mesma Realidade. Essa é uma bela oportunidade, uma oportunidade de estarmos juntos nesse Silêncio.


O “eu” é uma tremenda ilusão, uma grande ilusão, a única ilusão, como foi colocado agora há pouco aqui. 

Participante: Mestre, se o “eu” é ilusão, o que, ou quem, busca a autorrealização, a auto-transcendência? 

Mestre Gualberto: É uma boa pergunta que você precisa fazer para si mesmo: “quem sou eu?” Se você entrar a fundo na investigação desse elemento que busca essa autorrealização ou transcendência, você vai descobrir que esse elemento não existe. Então, a gente se encontra diante de um paradoxo. Essa é a beleza da Verdade! Essa Consciência presente, sempre presente, não se importa com essa ilusão da separatividade, não reconhece isso como sendo real. Essa ilusão da separatividade, essa suposta entidade separada, não existe. Então, como ela pode buscar essa verdade do fim dela mesma? Logo, não há resposta para a pergunta “quem sou eu?”, mas há um fim para essa pergunta: o fim da ilusão de "alguém" para perguntar isso  o fim do perguntador. Aquele que faz a pergunta não é real, por isso não pode encontrar uma resposta, e aquele que faz a pergunta não tem a quem perguntar, então não há resposta para ser encontrada. 

Essa autoinvestigação, na verdade, não é autoinvestigação; é só investigação, sem um investigador, sem nada para investigar. Aí ficou mais fácil! (risos) 

Na realidade, o mundo, ou a experiência “eu no mundo”, é só aparente. Essa é que é a chave! Não estamos lidando com a realidade, porque nós não existimos. A realidade é que está lidando com tudo isso... uma grande brincadeira cósmica... uma grande brincadeira! O Despertar revela isso! Tudo isso é uma grande brincadeira, um grande jogo Divino! 

Vamos ficar por aqui. Até o nosso próximo encontro. Namastê!


*Transcrito a partir de uma fala de um encontro online no dia 06 de Maio de 2016 
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22 - Participe!
 

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