quarta-feira, 4 de maio de 2016

Por que buscamos relacionamentos?






Você sempre se basta como Consciência! Essa necessidade de preenchimento egoico é só uma fantasia, é uma ilusão. Nessas escolas de psicologia, de esoterismo, de terapias dizem que é necessário encontrar a autoestima, encontrar a alma gêmea, encontrar o outro, que isso é uma necessidade. Isso não é uma necessidade! Mas falar dessa necessidade de ter alguém, de ter um companheiro, de ter amigo, de viver em sociedade é uma coisa comum, uma coisa social, educacional, uma coisa de padrão egoico, de padrão do mundo, de afirmações de supostos conhecedores da mente humana, do ego humano.

As relações sempre serão importantes, mas os relacionamentos nunca. Importância zero! Relações são aquelas que você tem com o padeiro, com o motorista de táxi; é o que você tem com o filho quando você não é um jogo na mão dele. Quando ele manipula você, não é relação, é relacionamento.

Então, relação sempre acontecerá. A vida é pura relação, a vida está em relação! Está em relação com o ar, com as árvores, com a água, com o garçom, com o advogado, com o médico, com o padeiro, com o caixa do banco, com o namorado, com a namorada... Mas é só isso.

A afirmação de uma identidade na relação é relacionamento. E essa afirmação é uma negação de sua Real Natureza, de sua Verdadeira Identidade, de sua Natureza Real. Essa é uma afirmação de relações entre imagens e não há vida em relações assim. Entre imagens, as relações são imaginações, algo como um mundo paralelo ao mundo que É... O mundo que É e o mundo paralelo, imaginado pelo pensamento, por esse movimento de imagens – imaginações. Aí está todo o conflito. Aí está toda miséria humana, todo sofrimento humano.

Eu digo todo sofrimento humano porque, na Natureza, esse padrão de comportamento é inteiramente desconhecido. Eu não diria que isso é desconhecido por liberdade da Natureza, mas por inconsciência na Natureza. Com o aparecimento do homem, aparece uma consciência inconsciente, mas ainda sim, uma inconsciência presente nessa única Presença. Então, o conflito não aparece – ou não de forma tão evidente – como acontece entre esses assim chamados seres humanos. Esses assim chamados seres humanos podem realizar sua Verdadeira Natureza. Essa sua Verdadeira Natureza é a Pura Presença. A mesma Presença por detrás de toda Natureza.

A sua relação com a mente e o corpo deve ser a sua relação com pessoas e com o mundo. Uma relação é essa Consciência desidentificada da experiência do viver. Quando Isso está presente não há conflito, não há sofrimento, porque não existe esse elemento psicológico que se firma e se afirma constantemente em imagens.

Participante: Tanto negando ou rejeitando as coisas, como muito eufórico porque é do jeito que você quer. A mente também tem isso: ou está muito feliz ou está reclamando porque não está do jeito que ela quer.

Mestre: Imaginações. Percebam que é sempre uma relação entre imagens. Assim a mente egoica se porta, se coloca, se relaciona com o corpo, com a mente, com as pessoas e com o mundo: dentro dessa imaginação. E isso é sofrimento, isso é conflito.

Eu estou dizendo para você, em Satsang, que essa ideia da necessidade de estar nesse movimento de relacionamento com a vida, com o corpo, com a mente, com pessoas e com o mundo é uma crendice. Tudo que se faz necessário é a relação. A vida é relação porque tudo está num estado de relação com uma outra coisa. Mas, mais importante que o sentido da palavra “relação” ou “relacionamento” é o sentido disso, é a Consciência presente livre de imagens. A Consciência presente livre de imagens é o que eu chamo de relação.

Você transforma o objeto que aparece na relação quando um sujeito aparece. Ou melhor, você cria um objeto na relação quando um sujeito lhe aparece. Aí, isso é transformado em relacionamento e todo o peso do relacionamento aparece implicado nesse momento. E está implícito, nesse movimento, o medo. Essa fala é para tornar claro para você que, se não há relacionamento nesse instante, nesse momento, não há objeto e não há sujeito.

Isso é a morte de uma identidade psicológica, o colapso dessa ilusão de uma identidade nessa experiência. Isso é o fim do “eu”, o fim do “mim”. Se o “eu” termina, o “outro” termina. Se o “mim” termina, o “meu” termina: meu namorado, meu marido, meu filho, minha mãe, meus avós, minha casa, meu carro... O fim do “mim” é o fim do “meu”; o fim do “eu” é o fim do “outro”. Fora isso, qualquer outra coisa, é só um movimento de pensamento criando uma história nesse mundo paralelo, nesse suposto mundo real, que é o mundo da imaginação, o mundo da miséria, o mundo de “dukkha”, como se diz no budismo – o mundo do sofrimento.

A morte é algo presente somente quando algo termina. No ego, você jamais conhece a morte; o ego representa continuidade. Se ele não continua nesse mecanismo aí, ele continua em outros mecanismos. Não há pensamento na morte. Eu falo dessa morte onde não há imaginação, eu falo dessa morte do movimento do pensamento e da imaginação. Se essa morte está presente, o movimento do pensamento não acontece. E quando ele não acontece, imagens não se movem, e então, não existe imaginação – as ações de imagens. E quando isso não está presente, só fica o que É, e no que É, não há conflito, não há qualquer sofrimento.

Acompanham isso, heim?

Estamos falando da vida sem “você”. Eu chamo isso de “deixar o mundo em paz”. Se você deixa o mundo em paz, o mundo não te perturba. O único mundo que pode perturbar é o mundo da imaginação, o mundo que o pensamento cria e você, nessa ilusão de ser alguém, sustenta. Sustentar isso, é um esforço muito pesado. O que eu estou dizendo é que não há esforço em viver desidentificado do ego. Mas há muito esforço para sustentar a imaginação de ser alguém num mundo imaginário criado pelo pensamento.

Em outras palavras, Felicidade não requer esforço, infelicidade requer muito trabalho. Para ser feliz, basta a Felicidade; para ser infeliz, basta desejar, procurar, buscar a Felicidade. Aí está o esforço, aí está a imaginação de algo a ser encontrado por alguém que acredita poder encontrar. Enquanto essa crença se mantém, aquilo que está presente nesse instante – e que nunca está ausente – nunca será constatado. Então, aquilo que está agora, aqui, entra no tempo, é jogado num futuro imaginado pelo próprio pensamento.  Está tão patentemente claro, é inegável, presente, constatável, aqui e agora... Mas vai para uma dimensão nesse mundo imaginário do pensamento que jamais será presenciado, jamais será demonstrado, jamais será reconhecido.

Ouviram isso?

Você não dá um salto para fora da mente, você não entra no presente momento. Simplesmente, você se desidentifica do pensamento. E o futuro, esse tal futuro inalcançável, inatingível, que nunca será demonstrado, tudo isso termina imediatamente, na totalidade desse instante. É aqui que todos os relacionamentos terminam. Nessa Consciência não há relacionamentos. Isto é sua Natureza real, atemporal, inominável, não conceitual, sua única expressão.

Sua Natureza Real é a expressão do Silêncio que é plenitude. Nada falta, de nada precisa, nada reconhece separado Dela. Essa é a minha canção! Alguns estão ouvindo a minha música! Vocês estão ouvindo?

Ouvir essa sinfonia do Silêncio, descobrir aqui que não há nada lá!

É isso aí! 


*Trecho de uma fala de um encontro presencial ocorrido na cidade de Fortaleza em abril de 2016 - 
Encontros presenciais mensais, confira na agenda.

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