quinta-feira, 26 de maio de 2016

O sentido de ser alguém: uma ilusão, uma fraude, uma cópia.




Mestre Gualberto: O que é que vocês estão buscando, o que vocês estão buscando? O que de fato a gente está procurando?

Participante: Se conhecer melhor.

Mestre Gualberto: Isso significa o que para você? Porque se conhecer melhor? Não está tão bom como está?

Participante: Mas sempre falta alguma coisa.

Mestre Gualberto: É isso? Sempre falta alguma coisa, não é? E o que é isso que está faltando? É um namorado, um casamento, filhos, três ou quatro filhos?

Tudo o que você procura na vida é a Felicidade. Qualquer coisa que você esteja fazendo no momento, fará no futuro ou já fez no passado, é para se sentir em paz, internamente feliz, imperturbado. O que todos buscam é um amor, uma paz, uma liberdade, uma felicidade imperturbada. E a gente encontra isso em um namorado, em um marido, não encontra? A gente encontra isso em uma profissão, em uma realização profissional, não é? Não? Porque continua faltando alguma outra coisa depois disso, não é? Você diz ”puxa lutei tanto para chegar aqui mas, agora que consegui, ainda está faltando alguma coisa... O que está faltando?”.

Esse trabalho que eu proponho a vocês é um trabalho de, na prática, você reconhecer que todas as suas teorias não deram e não darão certo, porque elas estão assentadas em uma base equivocada, que é a ilusão sobre quem, de fato, Você é. Se você não sabe quem Você é, o que quer que você realize não é Você, e não pode completá-lo no seu lugar. O que Você é se completa, mas nada fora Você vai completá-lo ocupando esse lugar.

A grande maioria não sabe disso e passa uma vida inteira em uma grande procura – em uma ilusória procura, na verdade. Elas estão à procura delas mesmas, mas elas não sabem porque o modelo educacional, social, cultural que nós temos está voltado para uma realização do lado de fora. Os modelos que nós temos de pessoas felizes são daquelas realizadas em algumas áreas específicas da vida, mas isso não abarca o todo da existência delas. No fundo, elas também estão em apuros.

Todo dia – ontem mesmo me veio a notícia de alguém famoso encontrado morto com suspeita de overdose – todos os dias nós nos deparamos com isso. As pessoas como as quais gostaríamos de ser não estão bem. É claro que elas têm uma imagem pública que deve corresponder ao que elas representam para o mundo, para aqueles que a cercam – a imagem de uma pessoa feliz. Mas no privado, no particular, na vida de família, no seu dia-a-dia, quando estão longe dos palcos, longe da multidão, quando estão sozinhas, elas estão com problemas. Para fugir desses problemas, elas viajam, se envolvem com muito sexo, drogas, bebidas... É assim ou não é? Eu não sei se é bem assim... Mas a gente tem uma notícia assim todo dia: os mais famosos, os mais bem sucedidos, os mais ricos, sempre viram notícias desse tipo.

É porque isso que buscamos não está fora, está dentro de você. É aquilo que está aí dentro daquilo que Você é, e não o que você pensa sobre si mesmo.

Não há nenhum pensamento que não seja social, que não seja cultural. Me dê um exemplo de pensamento que não seja cultural, me apresente uma ideia original sobre algum aspecto da vida, alguma coisa. Qual modelo que você tem? De mulher, de marido, de pai, de mãe, de filhos, de pessoa bem sucedida...

A pergunta é: sua história é Você? Ela representa de fato quem Você é? Essa que é a pergunta. O seu nome é Você? Os pensamentos que passam na sua cabeça são seus? Isso vem de Você? Quem é Você? Se Você não é essa história, não é esse nome, não é esses pensamentos que passam ai, quem é Você?

Os pensamentos são da cultura: se você tivesse nascido na África, seus pensamentos seriam os pensamentos de um africano; na Ásia, seria um pensamento asiático; se você tivesse nascido nos Estados Unidos, seria um pensamento americano. Você nasceu em uma família, você pensa bem parecido com seus pais, com seus avós, com seus primos, você carrega uma parte de preconceito, de medo que eles também têm. É como essa questão do DNA que você traz deles. O que você tem de original? O que a gente traz representa a nossa cultura. Por exemplo, esse pessoal que nasce aqui no nordeste – eu fico vendo quando vamos para Fortaleza – é outro esquema. Você está em Fortaleza, no Ceará, e vê que o cearense tem um perfil de condicionamento social bem específico. Aí, você vem aqui para Recife ou para João Pessoa e já encontra outros padrões. Se você for para Bahia ou para o Rio de Janeiro já é diferente também. Isso é bem local, bem social. Mas a pergunta aqui é: quem é Você no meio desse jogo todo?

É isso que nós chamamos de “o sentido de ser alguém”: uma ilusão, uma fraude, uma cópia. Não há Liberdade, e se não há Liberdade não há Felicidade. Se você não sabe quem de fato Você é, se está seguindo um modelo, se está copiando, se não é original, como pode ser feliz? Suas emoções estão no mesmo patamar: o que a ofende, a magoa, a entristece, a aborrece, a chateia também é condicionamento, é como você responde a determinada situação, a determinado momento, a determinada circunstância. Isso determina o quanto você fica chateada ou não, triste ou não, com raiva ou não. Observe se não é isso, se não é bem assim. Uma coisa que chateia você também o chateia? Não. Uma coisa que entristece você, também o entristece? Não! São padrões egoicos, padrões por condicionamento cultural, social, espiritual.

As pessoas também ficam muito chateadas quando elas vêm me ouvir, porque elas tinham tanta certeza de tudo e eu questiono isso... Meu trabalho é esse. Primeiro, você tem que saber que não sabe ou que o que sabe não resolveu porque não é seu, não é original. Aí depois, a gente dá outro passo que é olhar para dentro e descobrir se tem alguma coisa original aí. Tem alguns que ficam só na primeira etapa, que antes da gente ir fundo nessa coisa, já não conseguem dar esse salto para dentro, esse salto para algo inédito, para algo desconhecido – que não é tão desconhecido assim, pois é a sua Natureza Real mas você não sabe o que é Isso.

E agora, você sabe que não é real, que não é nada original pensar como todo mundo, falar como todo mundo, sentir como todo mundo, odiar como todo mundo, ser feliz como todo mundo, infeliz como todo mundo, precisar de ajuda como todo mundo, acreditar que pode ajudar como todo mundo... Crenças, crenças, e crenças... Todo mundo complicado.

Em seu Ser, Você é único. Eu não digo que você é único no meio de uma multidão onde todos são únicos. Não é isso. Estou dizendo que, em seu Ser, Você é único, só tem Você em todo o universo, toda manifestação. E aqui, se trata de constatar isso, essa completude que Você já é. Não se trata de obter, de conseguir, de chegar lá, de alcançar, de realizar isso, seguindo um modelo e chegando em algum objetivo do lado de fora, alcançando algum objetivo lá fora. Você já é, Você é único!

Sabe qual momento em que você está completo? Quando não há nenhum sentido de pessoa presente. Vocês todos têm momentos assim. Por que você gosta de ir para a praia? Por que você gosta de viajar? Por que você gosta de estar em lugares novos, em situações bem específicas, onde você está afastada de tudo, de sua rotina? Porque naquele momento o sentido do ego preso em suas obrigações, deveres, desapareceu. Aquele momentozinho pode durar apenas alguns segundos, mas é o suficiente para você esquecer que tem filho, mulher, marido, contas, documento para despachar...

Naquele momento, sentado em uma pedra diante do mar, acabou. Aquele momento, olhando para o mar, as águas cintilando embaixo do sol brilhando, a linha do horizonte lá no fundo e esse olhar perdido de tudo... Uau! O impacto daquele instante varre completamente seu ego até surgir o próximo pensamento: “tenho uma conta para pagar segunda-feira”, “como será que está fulano agora?”, “onde ela está?”, “ela está com quem?” Mas naqueles três segundos onde não havia tempo –  tempo é memoria, é pensamento, é sociedade, é cultura, é história – não havia nada disso! O corpo pode estar doente, mas ali, por três segundos, não tem corpo doente; você tem o diagnóstico terminal, mas por três segundos você é imortal porque você não existe como ego com um corpo, com uma história, com um nome.

É isso que vocês estão buscando, viu menina? Você está buscando algo além desse mundo, além desse corpo, dessa história, desse nome que sua mãe ou seu pai deu – é só um nome. Mas você não sabe que está querendo isso porque ninguém o informou. Eu estou aqui para informá-la disso: você nasceu para realizar Deus, para realizar essa coisa do outro mundo que não é do outro mundo, essa “Coisa” onde o mundo aparece e desaparece. Aqui você descobre essa Felicidade! Vocês estão vendo essa foto? Esse é meu Guru, o meu Mestre, aquele que me deu essa visão! Foi ele que me fez ver Isso, ele me fez ver que eu sou Felicidade!

Lá naquela pedra, sentada olhando o mar, a sua felicidade não estava do lado de fora. O impacto daquele panorama sobre seu ego foi tão forte que o desalojou temporariamente. Isso que é Meditação: quando seu ego está desalojado, desempregado, aposentado. Quando você está livre de você é que você é feliz, porque você é um problema sério para si mesmo. Quando você está fora de si, você está no Ser, você está na Consciência, está com Deus, está na Verdade, nessa imensidão atemporal. Isso que é Meditação! Ela sinaliza esse lugar, esse estado real de Ser no qual você não está. Você e sua história, você e sua cultura, você e esse medo, tudo isso é uma grande balela, uma grande ilusão.

Vocês conhecem poço, né? Cidade interiorana tem muito poço. Você quer água, então, vai ao poço tirar água de lá. Se ele fica abandonado por algum tempo e você vai voltar a usá-lo, você precisa esvaziá-lo. Mas na medida em que você vai tirando a água velha, uma nova água vai brotando, então você tem que tirar bem rápido. Depois que você tira toda a água velha, ai então, você fica tranquilo porque a água que vem é totalmente nova. O conteúdo da mente é um conteúdo velho como a água de poço abandonada: só tem bobagem (para não dizer lixo!). Você tem que esvaziar esse poço.

Um dia, eu ouvi a expressão “isso parece uma lavagem cerebral” e concordei, porque, realmente, é algo bem parecido. Na mente, só tem besteira, só tem lixo, não tem uma coisa nova, fresca, limpa, é só velharia, recalque, traumas, medos, lembranças, dores, é só passado traumático, é só lixo. Não há um olhar novo, um sentir novo, um pensar novo. Pensamento é sempre velho, não existe uma nova maneira de pensar, de sentir, de viver, de sorrir, de chorar, de amar. Seu choro é falso, seu riso é falso, o seu amar é falso, o seu odiar e a sua raiva também são falsos. Eu sei que é desanimador, mas é assim: no ego tudo é falso.

Quem é Você? A grande maioria não está preocupada com isso, com essa pergunta. O que elas querem é o que todos querem. As pessoas crescem, recebem uma sugestão dos pais para uma linha de estudos, para se formarem em alguma coisa, para trabalharem em uma profissão, para seguir uma carreira, casar, ter dois filhos ou meia dúzia, comprar um apartamento, um carro, ganhar na loteria... as pessoas querem isso! E depois morrer, é claro. Então, fazem um plano de saúde pois sabem que, infelizmente, terão que morrer, mas dá para tentar adiar. É isso! É só isso que as pessoas querem, que todos querem...

É interessante porque, para alguns, isso não basta. Na verdade, eles estão revoltados com essa história: “não é possível que seja só isso, tem que ter algo além disso!” Mas, se você não está preocupada com isso, essa fala não faz sentido nenhum! É como você oferecer um comprimido para dor de cabeça para quem não está sentindo dor. Essas falas são assim: para que elas façam algum sentido, é preciso ter alguma coisa aí dentro de você que já esteja enfastiada, que perceba que está faltando alguma coisa.


*Transcrito a partir do trecho de uma fala de um encontro em João Pessoa em Abril de 2016

Um comentário:

  1. Quanta Verdade nessas palavras. Que coisa magnifica!Gratidão, Mestre!

    ResponderExcluir

Deixe aqui o seu comentário

Compartilhe com outros corações