domingo, 29 de maio de 2016

Há algo em você que não quer o fim do sofrimento



No fundo, você não quer o fim do sofrimento, e é com isso que o ego joga. Há algo em você que não quer o fim do sofrimento, porque isso valoriza você como pessoa. A felicidade não valoriza você como pessoa. 

Você não se torna o centro das atenções — dessas atenções que os outros dão a você quando você está com problemas. Ninguém se importa com alguém feliz, e é estranho, porque alguém feliz é impossível. Alguém alegre é possível; alguém feliz, não. Alguém alegre não chama a atenção, mas alguém triste, sim, porque a tristeza lembra a infelicidade, e infelicidade é a coisa mais querida do ego; é ser miserável, ser sofredor. 

O ego está disposto a entregar tudo, menos a infelicidade, porque se ele fizer isso, ele desaparece. Então, tem um elemento em você que não quer o que você quer. Você quer a liberação do sofrimento, você quer essa completude, mas tem um elemento em você que não quer isso e esse elemento é muito forte, já está há milênios acompanhando a humanidade e, aí no seu corpo, está há três, cinco, seis decênios. No fundo, esse elemento não quer que você sacrifique essa infelicidade, esse sofrimento; ele vai ficar segurando isso até o fim.

Você sabe que quando vem a Satsang e se depara comigo, eu me torno muito desconfortável para esse elemento. Então, ele cria imaginárias dificuldades para segurá-lo. Ele diz: “você não tem tempo”; “você não tem dinheiro”; “você tem aquele trabalho que não acabou de fazer”; “você vai deixar a sua filha?”; “você vai ficar dois dias lá?”. Ele vai inventar qualquer coisa para segurar você, porque, quando você chega aqui, esse elemento não tem forças. Ele é combatente e, é claro, não desiste fácil, mas a força dele aqui não é como quando você está longe.

Nós estamos desalojando um inimigo muito antigo de dentro de sua estrutura psicológica, que é esse elemento que estranha por completo essa fala; não vê nada nela. Então, esse trabalho desaloja esse elemento daí. É claro que esse elemento estranho, que campeia na mente egoica, não vai deixar você chegar em Satsang, porque aqui eu não alimento seu ego, eu "alimento" Você. Eu estou interessado no que Você é, não em “você”, no sentido das histórias desse “alguém”. Então, o ego não vai deixar você chegar aqui.
       
Eu já falei muitas vezes para vocês: o ego não quer ganhar um metro, ele quer ganhar um milímetro. Um milímetro, para ele, já está bom. Gurdjieff falou isso claramente. Ele disse que a coisa mais difícil é o ego abandonar o sofrimento. Isso é muito claro! É um investimento muito grande! O ego está investindo nisso há milênios e não vai abrir mão disso facilmente.

Então, como é que pode deixar de haver essa incompletude dentro de você, se você não encara isso, não bate de frente com essa ilusão, não desmascara isso da sua vida, dessa estrutura, desse mecanismo, desse organismo corpo-mente? Se você não se desfaz dessa estrutura, ela se mantém se passando por você constantemente, e isso é um preenchimento extraordinário! É o preenchimento do “eu”. De vez em quando, vem uma saudade de alguma coisa que está faltando, mas na maior parte do tempo você está preenchido por comida, bebida, sexo, passeios, festas, etc. De repente, vem um vazio e você pensa: “está faltando alguma coisa”. Aí você troca de carro, troca de namorado, faz uma viagem... e, enquanto você está lá, está tudo bem, mas quando retorna, tudo volta de novo.

O problema não é esse mundo, é essa cabeça, é essa mente egoica, essa mente perturbada. A vida, a existência, é maravilhosa, mas a mente é a opressão. 

*Trecho de uma fala transcrita a partir de um encontro ocorrido na cidade de João Pessoa em Abril de 2016 
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h

 

Um comentário:

  1. Sem mente só fica o amor. E isso só é possível diante do Mestre!

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