terça-feira, 10 de maio de 2016

Em Satsang, somos um rio que flui...





Quando um rio ou um lago congelam, eles não deixam de ser um lago ou um rio, mas eles não fluem. A Vida é uma coisa que flui, está sempre fluindo. A estrutura psicológica é um congelamento desse movimento corrente, vivo, desse movimento de fluir. A mente egoica funciona como um congelamento que distorce a coisa toda. Você não é um rio congelado, Você não é um lago congelado. Mas, na mente, você é assim: um lago congelado, um rio congelado porque a mente egoica cria essa situação, congela a coisa.

Satsang é uma arte, a arte da Felicidade, e Felicidade é fluir com esse instante, com esse momento, é estar nele sem estar congelado. A mente funciona assim: Você está presente agora aqui, mas a mente não está agora aqui; ou ela está no passado ou está no futuro; é um rio congelado que não flui. A mente está sempre transitando entre o passado e o futuro e o presente é só uma porta através da qual a mente atravessa completamente desinteressada. Ela não tem qualquer interesse no presente. O interesse que ela tem no presente é ter o seu passado confirmado ou seu futuro realizado e, quando o passado é confirmado no presente, a mente mais uma vez está buscando em sua convicção, em sua ¨certeza¨, em sua arrogância, um novo passado para confirmar. Ela não tem qualquer interesse nesse instante, nesse momento presente. Esse momento presente não é capturável pelo pensamento, pela imaginação. E mente é basicamente isso: imaginação.

Me relate o que aconteceu há dois minutos atrás. Você pode me trazer o que aconteceu há dois minutos atrás? Alguém pode? Não. Esse seu relato que você chama de lembrança, que você chama de memória é só uma imaginação que a mente acredita ter capturado, mas a mente não está no presente. Então, ela não pode capturar esse momento e daqui a dois minutos falar dele. Olhe como isso é interessante, escute com atenção. A mente não pode capturar esse momento. A mente não funciona como uma máquina fotográfica que registra a imagem do instante. Tudo que ela está fazendo é traduzir, interpretar, avaliar, julgar ou ver confirmado o seu passado ou ter essa breve realização do futuro como um desejo se concretizando nesse momento. É só o que ela pode fazer. É isso que eu estou chamando, aqui, como congelamento. Isso é como quando você pega alguma coisa e coloca no congelador para conservar, para ter a ilusão de que aquilo ainda está fresco, só porque está frio, gelado – e, é claro, uma coisa congelada não estraga rápido.

Os relacionamentos que nós temos são exatamente assim. É a tentativa da mente de congelar alguma coisa que está fluindo para não perder. Uma coisa viva se torna congelada para não perder o frescor, mas quando a mente faz isso ela destrói a coisa. Eu tenho falado com vocês sobre a beleza em estar em relação mas jamais transformar em relacionamento, exatamente por isso. A Vida é esse presente nesse presente, e ela não pode ser capturada, não pode ser congelada pelo pensamento. Quando você está na mente, você está no congelamento. A Consciência continua em sua Liberdade, mas você está congelado.

É basicamente isso: congelado no tempo. Tempo que é passado, tempo que é presente, tempo que é futuro. Todo medo que o ego tem do novo é porque, no novo, ele não está no controle. O novo é algo que está fluindo muito vivo, muito imprevisível, muito inseguro, e isso é uma palavra que o ego tem muito medo porque ele ama a segurança do congelamento.

Meditação é Satsang, e Satsang é a arte da Vida que é Felicidade. Mas é um rio que flui, nada é certo, nada é conclusivo, nada é seguro. A beleza disso é o perigo disso, mas o perigo disso – que é essa forma sem forma que a Vida assume nesse fluir – é a única real possibilidade da Felicidade. Meditação é Satsang, é Vida. E Vida só é Vida se não há ego. Sem ego a natureza da Consciência é Felicidade, é Liberdade. Viver sem expectativas, viver sem esperança. A esperança vai estar presente e o desespero estará oculto, mas ambos estarão lá. A coragem vai estar presente, mas o medo estará lá. A defesa estará presente – e nessa defesa, a resistência – mas a insegurança vai estar lá. Sempre quando você tem um lado, você tem o outro. Tudo que você segura já está solto, tudo que você prende, te prende. Tudo que você protege, lhe apavora, fica oculto, mas estará lá. Então, congelar alguma coisa é tentar dar uma estrutura fixa ao que não tem estrutura fixa. A Vida é algo assim, a Liberdade é algo assim, o Amor nas relações é algo assim.

Quando se congela o Amor nas relações, ele se transforma num relacionamento; é um amor presente que é só o oposto do ódio. Tudo isso quem faz bem? A mente egoica. Quando alguém lhe jura amor abriu um par de algemas para você, compreende o que eu quero dizer? O Amor não jura, o Amor não dá certeza nenhuma, não faz nenhum contrato e pede para você assinar lá embaixo. Sabe o que acontece? A mente cria contratos e você assina sem ler. Congelar o que não se pode congelar.

Há muita miséria no mundo, mas uma miséria que só existe na mente. O mundo não é miserável, a Vida não é miserável. A Vida é esse rio que flui. O mundo é perfeito, completo, íntegro; a mente é que criou isso tudo, um mundo paralelo dentro de um mundo imutável em sua tremenda beleza, em sua tremenda Graça. Toda miséria é a miséria do homem, não é a miséria da Vida. E toda miséria do homem é a miséria da mente, não é a miséria de Deus. É aquilo que se torna possível quando se procura tornar tudo fixo, tudo estabilizado, tudo seguro, tudo imóvel, é puro medo na miséria da mente. Sem medo não há miséria; tudo é Amor, tudo é Beleza, tudo é Graça, tudo é Verdade, tudo flui em Liberdade.

Não tente possuir as coisas, não tente segurar as coisas, não tente mantê-las com você. Esse par de algemas, você está abrindo apenas para si mesmo, não para o outro. Você pode e precisa estar bem aí exatamente onde você está. Não é estando em outro lugar nem tendo outras coisas. Você já tem tudo que precisa ter, você já está no lugar em que precisa estar, e esse lugar é o lugar onde a Vida flui como um rio profundo e caudaloso, flui como um rio largo, amplo e de grande profundidade, com tremendas correntezas.

Como a história daquele homem muito rico e famoso, que vivia na “terra da liberdade”, na América. Este homem era rico e famoso, mas vivia numa angústia muito profunda. Ele foi à procura de ajuda com os melhores terapeutas do seu país; consultou psicanalistas e os mais famosos médicos para ajudá-lo em sua angústia, em sua dor existencial. Até que, finalmente, depois de muitos anos, ele se deparou com alguém que lhe disse: “meu amigo, o seu caso não tem ajuda aqui; você precisa viajar para um país bem distante, você tem que cruzar o mar; vá para Ásia, vá para o Tibete, lá tem um sábio que pode ajudá-lo.” E assim ele fez. Era a única esperança que ele tinha. Chegando ao Tibete, ele foi à procura desse sábio; ele só tinha o nome do sábio, mas não tinha o seu endereço. Três meses depois, um ano depois, dois anos depois, quando ele não sabia mais o que fazer, o desespero era grande, e ele prestes a desistir, finalmente alguém lhe disse: “aqui está o endereço.” Ele já tinha batido em tantas portas e não o tinha encontrado. Ele foi e,  ao chegar numa casinha simples, bateu à porta, abriram para ele, ele entrou e de fato estava ali diante do sábio. O sábio estava mexendo em algumas coisas e não prestou atenção nele, nem levantou os olhos e apenas perguntou: “o que você quer?” Ao que ele começou a responder: “mestre, a minha história…” Então, o mestre interrompeu: “pare, pare, eu quero saber o que você quer, qual é a sua pergunta?” Ele começou a contar novamente, e o mestre fez um sinal: “me faça logo sua pergunta.” E ele, então, perguntou: “mestre, eu quero saber, por favor me responda, qual o significado da vida? Afinal, qual é o significado da vida?” O mestre levantou os olhos e disse: “a vida é um rio, um rio que flui.” E, então, baixou os olhos novamente. O homem colocou as mãos na cabeça: “mas mestre, não é possível! Eu viajei tanto tempo à procura de uma resposta e o senhor está me dizendo só isso?” O mestre olhou para ele e, com os olhos cheios de ódio, alteou a voz e perguntou para ele: “e você quer dizer que não é isso?”

Eu acho isso bastante curioso, isso acontece aqui também em Satsang. Eu estou lhe mostrando uma coisa tão direta e você está me desafiando o tempo todo a lhe dar um caminho, uma fórmula. Solte, desista, pare de acompanhar suas crenças, pare de confiar em todo condicionamento que você tem, porque é só uma coisa aprendida. Você precisa do Silêncio, da Consciência, da Liberdade!

Você está condicionado filosoficamente… A preocupação que você tem, hoje em dia, com os OVNI’s, com os extraterrestres, é uma coisa assombrosa! Pessoas gastam fortunas para terem visões, para ver disco voador que está aparecendo em alguma cidade. Aí, você viaja para lá, vê o disco voador e, depois você continua o mesmo, não tem mudança nenhuma aí, só o desejo de ver mais um disco voador... São assim as realizações espirituais, nessa procura, nessa conquista... Tudo isso é inútil. Nada disso vai lhe dar o Amor, a Felicidade.

Ramana dizia que o problema está em desejar a felicidade, está em procurar a felicidade fora de você. Então o problema não está na busca da realização, o problema está em acreditar que esta realização está em algum lugar fora de você. Portanto, essa proposta constante que lhe é apresentada em Satsang é a proposta de desistir de toda forma de condicionamento que você recebeu, que você vem recebendo desde que você é criança. Resistir a toda forma de condicionamento, deixar de ser uma cópia dos seus pais significa ser um rio que flui. Isso requer de você uma aplicação, um envolvimento, um coração voltado para isso de verdade. É isso que fazemos em Satsang, é isso que somos em Satsang: um rio que flui.

É dentro de você, mas não é dentro da cabeça. É no seu coração que está a resposta. Você sabe o que é que um mestre faz? Ele faz a figura de uma porta. Você vê e quer aproximar dessa porta; a princípio, você olha de longe e ela está fechada, mas quando você se aproxima, quanto mais se aproxima dessa porta mais ela se abre. Um mestre vivo é algo assim. Quando você está bem próximo da porta, você percebe que ela está completamente aberta. Mas é você que se aproxima e é você que atravessa essa porta. Um mestre vivo é uma porta: fechada para aqueles que tem olhos e não podem ver; aberta para quem tem olhos e pode ver. Uma porta que, ao atravessar, você descobre nunca ter existido. Era você mesmo atraindo, facilitando essa entrada em si mesma, em si mesmo. Nada mais congela, nada mais pode envelhecer ou se estragar. Nada mais...

Vamos cantar?


*Fala transcrita a partir de um encontro presencial na cidade de João Pessoa - PB em Abril de 2016  
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h - Participe! 

 

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