terça-feira, 31 de maio de 2016

Você é Deus e só há Ele





Nem presente do lado de dentro nem do lado de fora. O que você tem presente mesmo é essa Realidade, que não está dentro e não está fora. Essa Realidade, nós podemos chamar de Graça, de Consciência, de Presença, de Deus... É algo sempre presente, fora de toda a noção de espaço e de tempo.

A referência do pensamento é a referência das formas. Assim, vocês aprenderam que Deus está dentro, e eu estou aqui questionando isso. Não está dentro, não está fora. Dentro e fora são sempre da perspectiva do pensamento e não da Realidade. A Realidade é essa Presença presente sempre, aqui e agora.

É essa Realidade que faz os pássaros, lá fora, cantarem, faz as flores desabrocharem, faz as ondas baterem contra as rochas, faz o seu coração bater, faz essas nuvens flutuarem nesse espaço azul, que nós chamamos de céu, correrem de uma forma suave ou de uma forma mais veloz...

Essa Presença sempre presente, sempre aqui, sempre presente... aqui. Não está dentro, não está fora.

Sabe por que eu convidei você? Para lhe mostrar que você é essa Presença! Esse tem sido o meu convite a todos que vêm. Alguns estão no momento de receber esse convite e acolhê-lo, e recebê-lo profundamente no coração. E outros não estão no momento. Mas a minha mensagem ao mundo, o meu recado é: Você é Amor, Você é Felicidade, Você é Beleza, Você é Silêncio, Você é Deus!

Tem sido amargo, tem sido duro, tem sido difícil, porque você troca O que É pelo que não é. Você substitui, artificialmente, essa Realidade presente por esse ilusório movimento do pensamento no tempo, que joga você para o passado e para o futuro, que cria essa noção de dentro e fora, que faz você confiar nessa ilusão da pessoa – dessa pessoa que é só uma crença. Isso é uma ilusão.

Você é a Felicidade que Eu sou. Eu sou a Felicidade que Você é. Tempo, espaço... é só uma imaginação. Corpo, mente... só uma ideia. Dentro e fora também.

Não há necessidade de viver nessa ilusão, na ilusão criada, alimentada, fomentada pelo pensamento. Você pode ser livre! E essa Liberdade só pode ser realizada, vista, demonstrada a você como sendo Você para Você mesma, aqui, agora! É por isso que eu estou convidando você a abandonar o ego, a abandonar o sentido de ser alguém que se posiciona numa relação ilusória com o mundo.

Um exemplo disso são os nossos relacionamentos chamados afetivos, amorosos – todos baseados no medo, no desejo de ser alguém para alguém, ou de ter alguém para esse alguém que você acredita ser.

A Verdade não é isso! A Verdade é essa Realidade presente que faz os pássaros cantarem, as flores se abrirem, cada uma com a sua singularidade, com seu perfume, que faz cada nuvem no céu ser única, cada gota de orvalho, cada flor que se transforma num fruto, em uma árvore, e cada um desses frutos sendo únicos. No entanto, uma só Realidade presente, além dessa forma, desse nome, dessas cores, desses sabores, desses aromas...

Em Satsang, eu estou lhe dando uma escolha, que sempre foi negada a você. Toda a escolha que você conhece é a escolha que o pensamento engendra, algo imaginário. Isso significa andar em círculos, o que, de fato, não é uma escolha. Viver no ego não é uma escolha, é um andar em círculos.

Todas as suas conquistas, realizações, toda satisfação, prazer e preenchimento nessas relações – que você acaba transformando em relacionamentos egoicos, onde o ego se divide em dois, em observador e coisa observada, em amado e aquele que ama – sempre terminam num círculo vicioso de dor de sofrimento.

Estou lhe dando uma escolha – a única possível, a única real. Essa escolha significa deixar de escolher, deixar de estar no tempo como uma entidade separada. Significa estar no coração de tudo e ter o coração de tudo dentro de você. Significa abandonar a noção de dentro e fora para ser tudo e nada, para estar aqui e em toda parte.

Satsang é isso: o encontro com O que É, o encontro com a Realidade, o encontro com você mesma, com você mesmo.

Você é Deus! Deus se vendo, Deus se olhando, Deus em namoro consigo mesmo. Deus se encontrando. Só aqui existe o que ama e o que é amado, Deus e o devoto, o Guru e o discípulo. É nesse sentido que o Guru é fundamental, porque é o Guru que lhe mostra isso.

Você olha para uma roseira e observa que algumas flores já não são mais botões, elas desabrocharam. Algumas ainda estão em botão, e outras estão em toda a sua Graça, em toda a sua Glória, em toda a sua expressão de rosa. O Guru é uma rosa que desabrochou. O discípulo é uma rosa em botão. Mas é uma promessa, uma bela, linda, indescritível, extraordinária promessa. Já está tudo aí! Não há separação na roseira! É uma só roseira, a mesma Vida! O toque na roseira é o toque da mesma Graça, da mesma Presença! Uma só Vida, uma só seiva, um só Ser!

O Despertar, a Iluminação, a Realização, o nome que você quiser dar para isso, significa o florescer de sua Natureza Real, inata, O que Você é, agora, aqui. Por isso, vocês estão vindo. Outros virão também.

A música da minha flauta encanta o coração! E, quando você vem, se reconhece, estando na roseira, sendo parte disso, sendo isso, sendo tudo isso!

Você nasceu para ser o que Você é! Nada além disso, nada menos do que isso! E isso significa ser Deus! Só há Ele! A única roseira, a única rosa, todas as rosas! Os espinhos também fazem parte. Tudo faz parte. A rosa não se fere com os espinhos, eles não fazem mal à rosa, nunca atingem as suas pétalas, o seu perfume, a sua dança ao vento quando ele sopra, a sua delicadeza... nada disso, os espinhos ferem.

O Guru chega primeiro, mas, aqui, o primeiro e o último não têm relevância. Uma flor que desabrocha antes não faz dela um ser separado, um ser diferente, um ser especial. O Guru é importante, não porque ele é especial, mas porque, Nele, podemos ver Aquilo que somos, podemos sentir o perfume que nós também temos, podemos ver como é bela a dança que a roseira faz quando o vento sopra, e ver também que os espinhos estão ali, mas que tudo faz parte dessa roseira.

Eu quero isso, esse é meu único interesse: que você abandone a ilusão da escolha, a ilusão de estar no tempo, indo para algum lugar para ser feliz lá, ou para estar em completude. Meu único interesse é que você abandone a ilusão de estar buscando isso fora, de tentar isso dessa forma.

Deus é a única necessidade, é Aquilo que não pode ser substituído, é Aquilo que não está fora, que não está no poder, na riqueza, em relacionamentos, em conquistas pessoais... Absolutamente! Ele está aí, olhando para mim agora, atrás desses olhos!

É isso! E é só isso!


*Transcrito a partir de um vídeo gravado em um encontro no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão em Abril de 2016 - Encontros online todas às segundas, quartas e sextas às 22h via Paltalk - Baixe e Participe!

domingo, 29 de maio de 2016

Há algo em você que não quer o fim do sofrimento



No fundo, você não quer o fim do sofrimento, e é com isso que o ego joga. Há algo em você que não quer o fim do sofrimento, porque isso valoriza você como pessoa. A felicidade não valoriza você como pessoa. 

Você não se torna o centro das atenções — dessas atenções que os outros dão a você quando você está com problemas. Ninguém se importa com alguém feliz, e é estranho, porque alguém feliz é impossível. Alguém alegre é possível; alguém feliz, não. Alguém alegre não chama a atenção, mas alguém triste, sim, porque a tristeza lembra a infelicidade, e infelicidade é a coisa mais querida do ego; é ser miserável, ser sofredor. 

O ego está disposto a entregar tudo, menos a infelicidade, porque se ele fizer isso, ele desaparece. Então, tem um elemento em você que não quer o que você quer. Você quer a liberação do sofrimento, você quer essa completude, mas tem um elemento em você que não quer isso e esse elemento é muito forte, já está há milênios acompanhando a humanidade e, aí no seu corpo, está há três, cinco, seis decênios. No fundo, esse elemento não quer que você sacrifique essa infelicidade, esse sofrimento; ele vai ficar segurando isso até o fim.

Você sabe que quando vem a Satsang e se depara comigo, eu me torno muito desconfortável para esse elemento. Então, ele cria imaginárias dificuldades para segurá-lo. Ele diz: “você não tem tempo”; “você não tem dinheiro”; “você tem aquele trabalho que não acabou de fazer”; “você vai deixar a sua filha?”; “você vai ficar dois dias lá?”. Ele vai inventar qualquer coisa para segurar você, porque, quando você chega aqui, esse elemento não tem forças. Ele é combatente e, é claro, não desiste fácil, mas a força dele aqui não é como quando você está longe.

Nós estamos desalojando um inimigo muito antigo de dentro de sua estrutura psicológica, que é esse elemento que estranha por completo essa fala; não vê nada nela. Então, esse trabalho desaloja esse elemento daí. É claro que esse elemento estranho, que campeia na mente egoica, não vai deixar você chegar em Satsang, porque aqui eu não alimento seu ego, eu "alimento" Você. Eu estou interessado no que Você é, não em “você”, no sentido das histórias desse “alguém”. Então, o ego não vai deixar você chegar aqui.
       
Eu já falei muitas vezes para vocês: o ego não quer ganhar um metro, ele quer ganhar um milímetro. Um milímetro, para ele, já está bom. Gurdjieff falou isso claramente. Ele disse que a coisa mais difícil é o ego abandonar o sofrimento. Isso é muito claro! É um investimento muito grande! O ego está investindo nisso há milênios e não vai abrir mão disso facilmente.

Então, como é que pode deixar de haver essa incompletude dentro de você, se você não encara isso, não bate de frente com essa ilusão, não desmascara isso da sua vida, dessa estrutura, desse mecanismo, desse organismo corpo-mente? Se você não se desfaz dessa estrutura, ela se mantém se passando por você constantemente, e isso é um preenchimento extraordinário! É o preenchimento do “eu”. De vez em quando, vem uma saudade de alguma coisa que está faltando, mas na maior parte do tempo você está preenchido por comida, bebida, sexo, passeios, festas, etc. De repente, vem um vazio e você pensa: “está faltando alguma coisa”. Aí você troca de carro, troca de namorado, faz uma viagem... e, enquanto você está lá, está tudo bem, mas quando retorna, tudo volta de novo.

O problema não é esse mundo, é essa cabeça, é essa mente egoica, essa mente perturbada. A vida, a existência, é maravilhosa, mas a mente é a opressão. 

*Trecho de uma fala transcrita a partir de um encontro ocorrido na cidade de João Pessoa em Abril de 2016 
Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22h

 

quinta-feira, 26 de maio de 2016

O sentido de ser alguém: uma ilusão, uma fraude, uma cópia.




Mestre Gualberto: O que é que vocês estão buscando, o que vocês estão buscando? O que de fato a gente está procurando?

Participante: Se conhecer melhor.

Mestre Gualberto: Isso significa o que para você? Porque se conhecer melhor? Não está tão bom como está?

Participante: Mas sempre falta alguma coisa.

Mestre Gualberto: É isso? Sempre falta alguma coisa, não é? E o que é isso que está faltando? É um namorado, um casamento, filhos, três ou quatro filhos?

Tudo o que você procura na vida é a Felicidade. Qualquer coisa que você esteja fazendo no momento, fará no futuro ou já fez no passado, é para se sentir em paz, internamente feliz, imperturbado. O que todos buscam é um amor, uma paz, uma liberdade, uma felicidade imperturbada. E a gente encontra isso em um namorado, em um marido, não encontra? A gente encontra isso em uma profissão, em uma realização profissional, não é? Não? Porque continua faltando alguma outra coisa depois disso, não é? Você diz ”puxa lutei tanto para chegar aqui mas, agora que consegui, ainda está faltando alguma coisa... O que está faltando?”.

Esse trabalho que eu proponho a vocês é um trabalho de, na prática, você reconhecer que todas as suas teorias não deram e não darão certo, porque elas estão assentadas em uma base equivocada, que é a ilusão sobre quem, de fato, Você é. Se você não sabe quem Você é, o que quer que você realize não é Você, e não pode completá-lo no seu lugar. O que Você é se completa, mas nada fora Você vai completá-lo ocupando esse lugar.

A grande maioria não sabe disso e passa uma vida inteira em uma grande procura – em uma ilusória procura, na verdade. Elas estão à procura delas mesmas, mas elas não sabem porque o modelo educacional, social, cultural que nós temos está voltado para uma realização do lado de fora. Os modelos que nós temos de pessoas felizes são daquelas realizadas em algumas áreas específicas da vida, mas isso não abarca o todo da existência delas. No fundo, elas também estão em apuros.

Todo dia – ontem mesmo me veio a notícia de alguém famoso encontrado morto com suspeita de overdose – todos os dias nós nos deparamos com isso. As pessoas como as quais gostaríamos de ser não estão bem. É claro que elas têm uma imagem pública que deve corresponder ao que elas representam para o mundo, para aqueles que a cercam – a imagem de uma pessoa feliz. Mas no privado, no particular, na vida de família, no seu dia-a-dia, quando estão longe dos palcos, longe da multidão, quando estão sozinhas, elas estão com problemas. Para fugir desses problemas, elas viajam, se envolvem com muito sexo, drogas, bebidas... É assim ou não é? Eu não sei se é bem assim... Mas a gente tem uma notícia assim todo dia: os mais famosos, os mais bem sucedidos, os mais ricos, sempre viram notícias desse tipo.

É porque isso que buscamos não está fora, está dentro de você. É aquilo que está aí dentro daquilo que Você é, e não o que você pensa sobre si mesmo.

Não há nenhum pensamento que não seja social, que não seja cultural. Me dê um exemplo de pensamento que não seja cultural, me apresente uma ideia original sobre algum aspecto da vida, alguma coisa. Qual modelo que você tem? De mulher, de marido, de pai, de mãe, de filhos, de pessoa bem sucedida...

A pergunta é: sua história é Você? Ela representa de fato quem Você é? Essa que é a pergunta. O seu nome é Você? Os pensamentos que passam na sua cabeça são seus? Isso vem de Você? Quem é Você? Se Você não é essa história, não é esse nome, não é esses pensamentos que passam ai, quem é Você?

Os pensamentos são da cultura: se você tivesse nascido na África, seus pensamentos seriam os pensamentos de um africano; na Ásia, seria um pensamento asiático; se você tivesse nascido nos Estados Unidos, seria um pensamento americano. Você nasceu em uma família, você pensa bem parecido com seus pais, com seus avós, com seus primos, você carrega uma parte de preconceito, de medo que eles também têm. É como essa questão do DNA que você traz deles. O que você tem de original? O que a gente traz representa a nossa cultura. Por exemplo, esse pessoal que nasce aqui no nordeste – eu fico vendo quando vamos para Fortaleza – é outro esquema. Você está em Fortaleza, no Ceará, e vê que o cearense tem um perfil de condicionamento social bem específico. Aí, você vem aqui para Recife ou para João Pessoa e já encontra outros padrões. Se você for para Bahia ou para o Rio de Janeiro já é diferente também. Isso é bem local, bem social. Mas a pergunta aqui é: quem é Você no meio desse jogo todo?

É isso que nós chamamos de “o sentido de ser alguém”: uma ilusão, uma fraude, uma cópia. Não há Liberdade, e se não há Liberdade não há Felicidade. Se você não sabe quem de fato Você é, se está seguindo um modelo, se está copiando, se não é original, como pode ser feliz? Suas emoções estão no mesmo patamar: o que a ofende, a magoa, a entristece, a aborrece, a chateia também é condicionamento, é como você responde a determinada situação, a determinado momento, a determinada circunstância. Isso determina o quanto você fica chateada ou não, triste ou não, com raiva ou não. Observe se não é isso, se não é bem assim. Uma coisa que chateia você também o chateia? Não. Uma coisa que entristece você, também o entristece? Não! São padrões egoicos, padrões por condicionamento cultural, social, espiritual.

As pessoas também ficam muito chateadas quando elas vêm me ouvir, porque elas tinham tanta certeza de tudo e eu questiono isso... Meu trabalho é esse. Primeiro, você tem que saber que não sabe ou que o que sabe não resolveu porque não é seu, não é original. Aí depois, a gente dá outro passo que é olhar para dentro e descobrir se tem alguma coisa original aí. Tem alguns que ficam só na primeira etapa, que antes da gente ir fundo nessa coisa, já não conseguem dar esse salto para dentro, esse salto para algo inédito, para algo desconhecido – que não é tão desconhecido assim, pois é a sua Natureza Real mas você não sabe o que é Isso.

E agora, você sabe que não é real, que não é nada original pensar como todo mundo, falar como todo mundo, sentir como todo mundo, odiar como todo mundo, ser feliz como todo mundo, infeliz como todo mundo, precisar de ajuda como todo mundo, acreditar que pode ajudar como todo mundo... Crenças, crenças, e crenças... Todo mundo complicado.

Em seu Ser, Você é único. Eu não digo que você é único no meio de uma multidão onde todos são únicos. Não é isso. Estou dizendo que, em seu Ser, Você é único, só tem Você em todo o universo, toda manifestação. E aqui, se trata de constatar isso, essa completude que Você já é. Não se trata de obter, de conseguir, de chegar lá, de alcançar, de realizar isso, seguindo um modelo e chegando em algum objetivo do lado de fora, alcançando algum objetivo lá fora. Você já é, Você é único!

Sabe qual momento em que você está completo? Quando não há nenhum sentido de pessoa presente. Vocês todos têm momentos assim. Por que você gosta de ir para a praia? Por que você gosta de viajar? Por que você gosta de estar em lugares novos, em situações bem específicas, onde você está afastada de tudo, de sua rotina? Porque naquele momento o sentido do ego preso em suas obrigações, deveres, desapareceu. Aquele momentozinho pode durar apenas alguns segundos, mas é o suficiente para você esquecer que tem filho, mulher, marido, contas, documento para despachar...

Naquele momento, sentado em uma pedra diante do mar, acabou. Aquele momento, olhando para o mar, as águas cintilando embaixo do sol brilhando, a linha do horizonte lá no fundo e esse olhar perdido de tudo... Uau! O impacto daquele instante varre completamente seu ego até surgir o próximo pensamento: “tenho uma conta para pagar segunda-feira”, “como será que está fulano agora?”, “onde ela está?”, “ela está com quem?” Mas naqueles três segundos onde não havia tempo –  tempo é memoria, é pensamento, é sociedade, é cultura, é história – não havia nada disso! O corpo pode estar doente, mas ali, por três segundos, não tem corpo doente; você tem o diagnóstico terminal, mas por três segundos você é imortal porque você não existe como ego com um corpo, com uma história, com um nome.

É isso que vocês estão buscando, viu menina? Você está buscando algo além desse mundo, além desse corpo, dessa história, desse nome que sua mãe ou seu pai deu – é só um nome. Mas você não sabe que está querendo isso porque ninguém o informou. Eu estou aqui para informá-la disso: você nasceu para realizar Deus, para realizar essa coisa do outro mundo que não é do outro mundo, essa “Coisa” onde o mundo aparece e desaparece. Aqui você descobre essa Felicidade! Vocês estão vendo essa foto? Esse é meu Guru, o meu Mestre, aquele que me deu essa visão! Foi ele que me fez ver Isso, ele me fez ver que eu sou Felicidade!

Lá naquela pedra, sentada olhando o mar, a sua felicidade não estava do lado de fora. O impacto daquele panorama sobre seu ego foi tão forte que o desalojou temporariamente. Isso que é Meditação: quando seu ego está desalojado, desempregado, aposentado. Quando você está livre de você é que você é feliz, porque você é um problema sério para si mesmo. Quando você está fora de si, você está no Ser, você está na Consciência, está com Deus, está na Verdade, nessa imensidão atemporal. Isso que é Meditação! Ela sinaliza esse lugar, esse estado real de Ser no qual você não está. Você e sua história, você e sua cultura, você e esse medo, tudo isso é uma grande balela, uma grande ilusão.

Vocês conhecem poço, né? Cidade interiorana tem muito poço. Você quer água, então, vai ao poço tirar água de lá. Se ele fica abandonado por algum tempo e você vai voltar a usá-lo, você precisa esvaziá-lo. Mas na medida em que você vai tirando a água velha, uma nova água vai brotando, então você tem que tirar bem rápido. Depois que você tira toda a água velha, ai então, você fica tranquilo porque a água que vem é totalmente nova. O conteúdo da mente é um conteúdo velho como a água de poço abandonada: só tem bobagem (para não dizer lixo!). Você tem que esvaziar esse poço.

Um dia, eu ouvi a expressão “isso parece uma lavagem cerebral” e concordei, porque, realmente, é algo bem parecido. Na mente, só tem besteira, só tem lixo, não tem uma coisa nova, fresca, limpa, é só velharia, recalque, traumas, medos, lembranças, dores, é só passado traumático, é só lixo. Não há um olhar novo, um sentir novo, um pensar novo. Pensamento é sempre velho, não existe uma nova maneira de pensar, de sentir, de viver, de sorrir, de chorar, de amar. Seu choro é falso, seu riso é falso, o seu amar é falso, o seu odiar e a sua raiva também são falsos. Eu sei que é desanimador, mas é assim: no ego tudo é falso.

Quem é Você? A grande maioria não está preocupada com isso, com essa pergunta. O que elas querem é o que todos querem. As pessoas crescem, recebem uma sugestão dos pais para uma linha de estudos, para se formarem em alguma coisa, para trabalharem em uma profissão, para seguir uma carreira, casar, ter dois filhos ou meia dúzia, comprar um apartamento, um carro, ganhar na loteria... as pessoas querem isso! E depois morrer, é claro. Então, fazem um plano de saúde pois sabem que, infelizmente, terão que morrer, mas dá para tentar adiar. É isso! É só isso que as pessoas querem, que todos querem...

É interessante porque, para alguns, isso não basta. Na verdade, eles estão revoltados com essa história: “não é possível que seja só isso, tem que ter algo além disso!” Mas, se você não está preocupada com isso, essa fala não faz sentido nenhum! É como você oferecer um comprimido para dor de cabeça para quem não está sentindo dor. Essas falas são assim: para que elas façam algum sentido, é preciso ter alguma coisa aí dentro de você que já esteja enfastiada, que perceba que está faltando alguma coisa.


*Transcrito a partir do trecho de uma fala de um encontro em João Pessoa em Abril de 2016

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Você Nasceu para Ser Livre - Satsang




Você nasceu para ser livre! Absolutamente, inegavelmente, irrefutavelmente, incondicionalmente livre. E essa Liberdade é a única realidade para você, a única coisa real para você. Nada menos que isso vai lhe deixar confortável, vai ter algum significado para você.

Essa estrutura que mantém o sentido de separação – onde "você" aparece dentro de um cenário, onde há lugares pessoas e coisas – é uma estrutura ilusória. Todo sentimento e pensamento de inadequação, de insatisfação, de limitação, de prisão, precisa desaparecer. Os pensamentos em sua cabeça estão girando em torno dessa estrutura. Todo e qualquer pensamento aí está representando um lugar, um objeto com uma forma e um nome, e uma pessoa. Pensamento gira em torno de imagens. Essas imagens estão dando voltas, e são pensamentos girando nessa estrutura de separatividade  uma coisa produzida pelo pensamento, imaginada pelo pensamento. 

É necessário romper com essa estrutura, se desfazer dessa estrutura. É necessário abandonar todas as imagens: se ver em um espaço – que é um lugar – desfrutando de um objeto ou sendo acolhido num relacionamento com pessoas; essa forte necessidade de estar dentro de um contexto, dentro de uma estrutura criada pelo pensamento, aquilo que nós conhecemos por sociedade ou mundo. Tudo isso está dentro dessa estrutura, é essa estrutura. E nós nos separamos disso, quando nos vemos também como uma entidade presente nessa vivência, nesse modo de atuar, nesse modo de pensar e de sentir. Aqui está essa estrutura ilusória, na qual esse "eu" se assenta.

Essas aparições não criam, necessariamente, um apreciador delas. Esse apreciador que se relaciona com essas aparições não se faz necessário. E esse apreciador não é, necessariamente, criado por essas aparições. No entanto, quando essas aparições surgem, surge a ilusão da necessidade de um apreciador, de um "eu" se relacionando com essa experiência de lugares, coisas e pessoas... Aqui, estão incluídos todos os lugares, todos os objetos, tudo aquilo que tem nome e forma, e todas as pessoas, com as quais você, na ilusão de "ser alguém", está em contato, está numa apreciação.

Não existe esse elemento que aprecia as aparições. Não existem essas aparições como algo separado desse elemento. É algo que, como uma mágica divina, aparece junto: aquilo que é visto e aquele que vê; aquilo que é observado e aquilo que observa; eu e o não eu. O outro, aqui, pode ser uma cidade, ou pode ser a sala de estar, ou a sala de jantar da sua casa. Esse outro pode ser um objeto como uma caneta, uma folha de papel, ou um carro, ou um cenário. Esse outro pode ser aquilo que você chama de filho, ou de namorado. Essa estrutura é ilusória. Eu não digo a aparição em si. A aparição em si é uma aparição que não se separa dessa "Coisa", que não tem nome, que aqui eu poderia chamar de Consciência. Estamos apenas diante de experiências sensoriais. Nós temos o tato, o olfato, a visão, a audição, o paladar, mas essa própria experiência não se separa do corpo em sua experimentação. Mas o corpo também é um objeto. Quando você aprecia o corpo, como objeto separado, você se vê dentro dele.

Estamos, constantemente, lidando com uma fantasia, com uma imaginação. Não há "alguém", agora, aí me ouvindo. Não há "alguém" aqui falando. Essa única manifestação é só uma aparição fenomênica, que o pensamento traduz como uma experiência pessoal.

Você relaxa em seu Ser e se reconhece em sua Natureza Real, nessa Liberdade incondicional, quando não há mais essa estrutura. Esse é o Estado sem ego. Naturalmente, quando não há separação, não há conflito. Se não há conflito, não há sofrimento. Quando não há separação, não há medo. O medo precisa de um experimentador, de um observador, de um imaginador; precisa desse senso de um "eu".

A Vida é essa Liberdade e ela está acontecendo sem "você" dentro dela. Você permanece anterior a todas as experiências. Você permanece anterior a toda essa estrutura, onde o mundo, o corpo e a mente aparecem nessa ilusão como coisas distintas e separadas. Você permanece anterior a tudo isso. Estamos falando a partir dessa Realidade Absoluta, não a partir de um ponto de vista relativo. Dentro de um ponto de vista relativo, "a experiência e o mundo" é razoável, mas a partir do Absoluto não há nenhum ponto de vista. Então, não existe uma experiência, ou melhor, só existe essa única experiência, que é a Consciência, que é o Absoluto, que é essa incondicional Liberdade. Na Índia, eles chamam de Sat-Chit-Ananda. Eu falo desse seu Estado Natural  a Única Realidade, que sustenta todas as aparições, e não reivindica, não reclama um experimentador dentro disso, um observador para observar essas aparições, um apreciador para essas aparições. O velho e antigo hábito do pensamento é se mover nessa antiga, repetitiva e complicada estrutura – a estrutura que mantém esse sentido de separatividade. 

Você está aqui para realizar Isso! Nada mais! Tudo que está acontecendo, aconteceu e acontecerá não é assunto seu! Esse mecanismo aí, esse corpo-mente que você chama de "meu corpo", pode estar envolvido nessa Coisa, mas não é assunto seu; é assunto da Natureza. É um assunto dessa única Consciência, que não é "você" sendo "alguém". No entanto, é Você sendo o Todo e o Nada. Isso se torna fundamental: abandonar o ponto de vista relativo, no qual essa estrutura está se expressando, aparecendo e sendo importante.

Agora, aqui, nesse instante, quem é você? Quem somos nós? Quem somos nós agora, aqui?

Em seu Ser, permaneça livre de pensamentos! Se não tem pensamentos, não tem imagens! Se não tem imagens, não tem coisas, lugares, pessoas... E o que permanece? Esse Espaço! Apenas 10 segundos, apenas 5 segundos sem pensamentos, sem palavras, sem imagens, sem espaço, sem tempo; apenas 3 segundos sem história. Aí está o colapso dessa estrutura... uma estrutura construída pelo pensamento.

Compreendem isso? Para onde estamos apontando?

É quando fica o olhar, o ouvir, esse sentir da temperatura do ambiente. É quando o corpo responde sensorialmente àquilo que lhe é solicitado, mas sem uma interpretação do pensamento. Não há tempo... Não há espaço... Não há "eu" e o mundo – um "eu", dentro do corpo, na experimentação de um mundo através do corpo. Então, aqui permanece Você, agora, como esta Liberdade, como esta incondicional Liberdade!

Então, a Paz, o Amor, a Felicidade, não é algo que pode ser encontrado dentro dessa estrutura. Ela está presente quando essa estrutura entra em colapso. A Felicidade, o Amor, a Paz é essa Liberdade incondicional, é a Vida! Ou o nome que você queira dar para ISSO, pois não tem nome, mesmo. Chame de Deus! Realização de Deus! Sua Natureza Real! Você, antes de nascer. Você, depois que o corpo desaparece. Você, sem corpo, sem mente, agora, já, aqui!


*Transcrito a partir de um vídeo de um encontro presencial no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão - SP Encontros online todas as segundas, quartas e sextas às 22
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