sexta-feira, 18 de março de 2016

A experiência mente-corpo e o Estado Natural



A Vida é essa realidade agora, aqui, nesse instante. Ela tem esse dinamismo de estar acontecendo independente de você. Ela não acontece para você. Ela simplesmente acontece como acontece, e não considera você como uma presença dentro Dela.

Deixe-me fazer algumas colocações aqui para você.

À noite, durante o sono, quando acontece o sonho, você jamais questiona que a existência da sua vida seja real, que essa sua vida do sonho seja real. No entanto, quando você acorda pela manhã, percebe que era apenas à noite, e durante a noite, o sono, e durante o sono, o sonho. E, nesse sonho, havia uma experiência semelhante à essa experiência que estamos tendo agora, aqui – essa experiência de vida que você tem nesse estado de vigília, onde você é alguém e considera a vida acontecendo para você. Da mesma forma que, durante o sonho, você nunca questiona se aquilo é real ou não, você também não questiona se aqui, no estado de vigília, isso é real ou não.

Então, é importante que você veja isso. É importante que você questione agora, aqui – coisa que você não faz durante o sonho – a verdade dessa experiência, onde você caminha, fala, se relaciona, compra, vende, onde essa sua vida "real" está acontecendo.

Eu só nego uma coisa: estou negando você como sendo real, estou questionando você como sendo real, estou duvidando de você como sendo real nessa experiência pessoal, agora, aqui, nesse estado acordado, nesse estado de vigília.

Pela manhã, quando você acorda, percebe que não havia alguém real em seu sonho e que nesse sonho, apesar de parecer real enquanto acontecia, você não estava lá.

Nós estamos dando realidade a um "eu" dentro desse estado acordado, de vigília, aqui, agora. E estamos também, enquanto sonhamos, dando realidade a um "eu" durante o estado de sonho.

Quando você acorda pela manhã, percebe que a mente produziu o seu mundo sonhado. Mas, agora, aqui, nesse momento, você não questiona esse mundo, a verdade desse mundo, para um "eu" que experimenta esse mundo. Por não fazer isso, você está em conflito com este mundo, assim como, no sonho, você também está em conflito com o mundo do sonho.

A Verdade diz! E Ela diz sendo percebida como Ela É. Não como um teoria, não como uma crença, não como uma ideologia... Ela diz que esse estado acordado, aqui, agora, no qual você é uma pessoa numa relação direta com o mundo, não tem nenhuma realidade.

A Consciência do que Você É – e não disso que você acredita ser – é a Verdade clara, é a Verdade incontestável. Essa tem sido a experiência única de todos os sábios: constatar que o seu sonho, assim como o seu estado de vigília, não é seu, para uma entidade aí presente. Isto é a Liberação!

Diante disso, Você em seu Ser, em sua Natureza Verdadeira, se depara com a única Realidade que é esse Silêncio, essa Presença, essa Consciência. Isso está além do estado de sono profundo, do estado de sonho e do estado de vigília. Isso é algo Real!

Nessa constatação real, toda experiência acontecendo, seja em sonho, seja no estado de vigília, continua acontecendo sem alguém dentro disso, o que significa o fim do seu mundo, nesse fim do seu "eu".

A ideia de ser alguém cria o mundo para esse “alguém”.

O que eu estou dizendo é que toda a sua experiência de vida pessoal é imaginária: seus inimigos são imaginários, seus amigos são imaginários, seus amores são imaginários, seus detratores são imaginários, seus adversários são imaginários! Assim é a sua culpa, assim é o seu senso de responsabilidade: está tudo em cima desse sentido de ser alguém, agora, aqui, nessa experiência de vigília.

Então, o ego presente no sonho ou no estado de vigília, curiosamente, não aparece no sono profundo, curiosamente, também não aparece no desmaio, curiosamente, também não aparece em alguns breves momentos, quando o relaxamento é profundo – diante do impacto de um panorama, ou de um momento como um pôr do sol, ou um momento de nascer do sol, ou assentado em um banco de praça vendo algumas crianças brincando, ou assentado sobre uma rocha olhando, na linha do horizonte, o sol surgindo ou se escondendo no mar...

No sono profundo, no desmaio ou em momentos como esses – nesse relaxar, quando a mente é varrida, jogada para fora de sua posição comum – há um completo esvaziamento de todo o sentido de alguém naquela dada experiência. E nesse completo esvaziamento, aquilo que aparece no estado de sonho, que aparece no estado de vigília, com esse sentido de alguém, ali não está!

Então, a experiência de ser pessoal é algo que vem e vai. É algo que flutua. Enquanto que essa ausência, esse vazio, esse silêncio, essa quietude desse poder de Consciência – uma Consciência livre de um "eu" pessoal nessa experiência – é algo que está presente sempre. Presente como esse Silêncio está presente quando você não mais se perde com identificações da mente, quando você não mais se perde como uma pessoa se identificando com pensamentos.

A sua Natureza Real não é pessoal. A pessoa não tem verdade nesse silêncio, que é essa Consciência que Você É. Esse estado de vigília, no qual uma pessoa está presente, não é real. Esse estado de sonho, no qual uma pessoa está presente, não é real. Esse estado de sono profundo, no qual a pessoa está ausente, não é real.

A única realidade é essa Presença, que é esse Silêncio no qual esses estados aparecem e desaparecem!

*Transcrito de um encontro ocorrido no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão no mês de Janeiro de 2016

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