segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma nova direção




Olá, muito boa noite! Este é mais um encontro, um momento, uma oportunidade, onde nos encontramos com essa possibilidade, que é algo que se configura como uma perfeita, íntegra, completa resposta a tudo aquilo que nós buscamos como seres humanos. Nós estamos falando desta Realidade, da Verdade sobre nós. Isso é Satsang: o encontro com esta possibilidade. Assim, é realmente fascinante o fato de estarmos juntos. É com bastante alegria que temos feito esses encontros aqui, porque, a nosso modo de ver, isso é algo muito prático, funcional, real, para cada um de nós, e que precisamos ter, verdadeiramente, em nossas vidas. Precisamos ter o encontro com esta possibilidade, porque aqui nós temos o florescer desta potencialidade que trazemos: aquilo que está dormente, latente, aguardando exatamente esse encontro para que possa se manifestar, surgir, aparecer. Assim, é com alegria que, de fato, nós nos encontramos nesse instante, nesse momento, com essa possibilidade. 

Por muitos e muitos anos nós sentimos falta disso. O ser humano sente que algo está faltando na sua vida, só não sabe explicar o que falta. Aquilo de que sente falta, ele termina procurando pelos caminhos conhecidos, que são os caminhos de sua própria mente. Assim, empurrado pelo pensamento, ele termina se deslocando da sua real possibilidade de encontro, nesse encontro com a verdade dele próprio, porque  termina se afastando de si mesmo. É preciso compreendermos que aquilo que nós buscamos, procuramos, já está nesse instante, nesse espaço, nesse vazio, diante de cada um de nós, exatamente Nisso, onde tudo surge, aparece. O vazio, o espaço desse instante, desse momento presente, já contém aquilo que buscamos. Não temos encontrado porque temos criado uma ideia e uma projeção a respeito disso, e por isso somos empurrados pelo pensamento em direção a essa projeção. 

Todos nós sentimos a falta de paz, do descanso, da serenidade, de alegria e liberdade real em nossas vidas, bem como a falta deste calor, desta proteção, deste cuidado que o amor traz, que intuitivamente sentimos que existe no amor. O amor é esse abraço aquecido, de proteção, de conforto, de preenchimento profundo. Nós temos buscado esse preenchimento, essa liberdade, essa paz e esta felicidade psicologicamente, mentalmente. Tudo isso faz parte da lista de nossas projeções mentais, com a qual nós vamos ao mercado da ilusão - a ilusão dos desejos, dos sonhos, das ideias. Assim, estamos em busca de nos preenchermos com alguma coisa que nós acreditamos estar do lado de fora, estar em algum momento separado desse instante. Assim, o tempo se torna um fator importante nessa procura, nessa busca, e esse Espaço Real presente, que é o Vazio Real presente, onde tudo está acontecendo agora, continua sendo ignorado. 

Essa fala soa muito diferente, porque ela vem em uma nova direção, é uma nova direção, algo como um novo caminho, no sentido oposto, contrário, na contramão de tudo isso que tem sido o nosso comportamento, treinamento; o nosso padrão usual, essa maneira comum de conduta. Essa autoinvestigação que fazemos agora, aqui neste encontro, aponta exatamente para o descobrimento desse vazio, desse espaço, que, para a mente de vocês, está oculto nesse instante, porque a mente está perdida dentro desta lista ocupada, desse mercado de ilusões. O grande mercado da ilusão é o único mercado que se multiplica em muitos outros mercados, em novos pseudoespaços cheios, assim acreditamos, com tudo aquilo de que nós precisamos, e temos ido a esses mercados, dentro desse grande mercado da ilusão. Agora nós estamos em um novo caminho, em uma nova estrada, que é a estrada do autoconhecimento, da autoinvestigação, da meditação, da entrega a este instante do Vazio,  do momento presente, encontrando aqui, nesse momento, e abrindo mão desse movimento, que é o movimento do pensamento - o caminho comum do pensamento, que é a forma habitual dele nos seduzir, nos aprisionar, nos empurrar para longe Disso. Aqui, nesses encontros, abrimos mão completamente da antiga e habitual situação, para nos expormos a essa nova possibilidade, a possibilidade do encontro com o nosso Ser, com o que somos, com a nossa real natureza. Esse encontro que é algo que acontece naturalmente, de uma maneira muito simples, muito direta, quando descobrimos a importância dessa entrega, do envolvimento do coração com isso que está sendo apresentado aqui, nesta fala, neste encontro, neste momento. Por isso é realmente algo fascinante o fato de estarmos juntos...  é algo realmente encantador isso, pois estamos descobrindo a nossa Vida Real, nossa vida impessoal. 

Eu quero afirmar, aqui, que tudo o que tenho falado aqui está baseado na minha vivência, no experimentar direto. Não é preciso, você que nos escuta, que está neste encontro, de repente, apenas no intelecto, ficar tentando ajustar essa fala a sua experiência, dizendo para si mesmo: "eu não aceito isso! Isso não é real! Isso não é verdade!"... Como nesses dias, em que entrou alguém aqui,  nessa sala, e disse: "Essa fala é muito psicodélica!"... "O dono dessa fala parece que está drogado!"... Nós podemos intelectualmente tentar ajustar uma fala como essa, esse tipo de colocação, com alguma coisa que nós já trazemos, e é natural que isso não se ajuste, porque a sensação que temos é de que não estamos ouvindo alguma coisa prática, objetiva, real, funcional. Mas, o que eu quero lhe dizer hoje, aqui neste encontro, é que quando você descobre por si próprio, quando isso é a sua vivência, o desafio de estar presente neste encontro, o desafio que temos, é ter esse encontro direto com nós mesmos, com Aquilo que somos, Isso que somos, esta Coisa que somos. Por que nós colocamos assim? Porque Isso não tem nome, não há como descrever esse "Eu Sou", não há como descrever essa Realidade de cada um de nós. O descobrimento é direto, intransferível, e, o mais extraordinário, não  é um descobrimento pessoal... Nenhuma "pessoa" fica presente, mais, nesse descobrimento. Na realidade, o descobrimento Disso é a constatação da não existência da "pessoa"... de Algo, desta Coisa, de alguma coisa que sabe ser esse Espaço e este Vazio, onde tudo aparece e acontece. 

Assim sendo, é evidente que essa fala não é algo corriqueiro, um papo de botequim, ou uma conversa, um bate-papo num banco de praça, entre aqueles que já estão aposentados, jogando cartas, ali sentados. É evidente que esse tipo de fala não é algo que escutamos no Jornal Nacional, que lemos em tabloides ou  jornal. É evidente que esse tipo de fala, ou mensagem, ou comunicação, ou transmissão, ou abordagem,  como quisermos chamar isso, não encontramos em revistas que saem todos os meses e são distribuídas aos assinantes, ou compradas em bancas de jornais... Não estamos falando de autoconhecimento, amigo! Estamos falando de autorrealização, da compreensão de sua Real Natureza, desta revelação Daquilo que somos, Disto que somos, deste "Eu Sou", que é tudo, onde não sobram espaços. Estamos falando deste "Eu Sou", que é este vazio, que sabe ser plenitude... deste Espaço que sabe não ser espacial, também. 

Assim sendo, nós estamos em uma nova trilha, em uma nova direção e aqui nós temos estudado isso. Esse não é um estudo intelectual, de lógica; não é um estudo razoável, algo que pode ser alcançado pela razão, pelo intelecto, ou que possamos acumular, como todo tipo de estudos que já fizemos, mas que, até agora, continuamos sendo os mesmos, sem qualquer mudança ou transformação real. Reparem no que estamos dizendo: não importa nossa cultura, nossas habilidades adquiridas, tudo aquilo que conseguimos dentro dessa estrutura pessoal, que chamo de "eu"... "eu" continuo infeliz... "eu", apesar de tudo que adquiri, de todos os estudos que fiz, e aqui se incluem estudos filosóficos, místicos, religiosos e assim por diante, ainda continuo com os medos, comuns a todos a minha volta... continuo sofrendo, continuo ansioso... "eu" continuo me preocupando... "eu" continuo me estressando... "eu" continuo brigando, tentando segurar... "eu" continuo agarrado... "eu" continuo me sentindo proprietário, dono exclusivo de tudo o que toco com as mãos... "eu" continuo sendo uma "pessoa"... 
Assim sendo, nós estamos de fato em uma nova direção. Estamos, de fato, nos abrindo à realidade da investigação de toda essa falsidade, limitação e mediocridade, que tem sido esta "minha" vida. Nós temos frisado, colocado isso aqui: não existe "minha" vida, só existe a vida! A vida não é "minha", a vida é aquilo que acontece a todos os seres humanos. Esse "mim", esse "eu", se sente muito especial, muito importante e  no controle de tudo, e até diz ter uma "vida própria"... Esta vida ele chama de "minha" vida. Isso, senhores, é limitação, é prisão, é infelicidade, porque isso não é real. Isso é algo encontrado no mercado da ilusão. 

Eu sei o que essa fala implica. Repare que nós usamos o pronome "eu" aqui, neste instante. Para efeitos de conversações na língua portuguesa, ou em qualquer outro idioma, esse pronome pessoal tem um lugar, uma posição, e assim nós estamos fazendo uso dessa posição, desse lugar, quando empregamos na fala e na escrita o pronome. O ponto aqui é quando nós não deixamos que o seu lugar real esteja presente, que é apenas o lugar de pronome;  é apenas um modo de comunicarmos, falarmos uns com os outros; é apenas um modo de diferenciarmos "esse" "daquele", "eu" e "você", como organismos, seres, humanos. Mas, quando damos a esse pronome pessoal "eu" esse valor subjetivo, da subjetividade de uma "entidade", de um "alguém", de uma "pessoa", de um ser separado dos "outros", com uma vida "própria", "particular", "individual", "autocentrada", nós estamos nesta ilusão. 

Reparem no que estamos dizendo neste encontro, nos acompanhem com calma. De fato, isto não é nada psicodélico, e  talvez alguém não consiga compreender isto exatamente por estar preso nesse sentido de ser "alguém", de acreditar que é "alguém"... Isso sim é psicodélico, é uma grande viagem: a viagem dentro do mercado da ilusão! A beleza desse encontro é a beleza do encontro com a Vida, com a Vida Real, não com a vida pessoal, individual, particular; não com a vida deste "eu", esta, assim chamada, "minha" vida, que é limitada, estreita, e que está confinada, aprisionada. Nós não gostamos de ouvir nada disso, ficamos profundamente ofendidos. Eu sei bem isso! Todos nós sabemos muito bem o que isso causa. Alguns de vocês, se não todos vocês presentes, ou vocês que nos escutam nesse áudio, ou estão lendo esse texto, também já se sentiram assim em algum momento: perplexos, no mínimo, com esse tipo de fala, com esse tipo de abordagem ou de colocações — ou, profundamente ofendidos, porque isso mexe, exatamente, com essa estrutura e essa estrutura é tudo o que temos, que conhecemos. Esse padrão é a forma de conduta geral. Esse modo de pensar — que de pensar de modo real não tem nada — é apenas um modo de repetir o padrão do pensamento repetitivo e continuado a nossa volta; isto é algo muito comum, que encontramos em toda parte. Assim, estamos sendo confrontados, ou nos sentimos confrontados, em nosso conjunto de crenças, de valores, de ideias, de propósitos, de ideais e uma voz vem e nos diz: abra mão disso tudo, largue isso tudo, solte isso tudo, não se prenda a nada disso. Ora, ora, ora! Isso é tudo o que temos, conhecemos e recebemos, desde a infância! Isso é parte da nossa cultura, da nossa, assim chamada, educação, informação, e todos são assim. Todos dizem, sentem e  querem a mesma coisa, trabalham pela mesma coisa, buscam os mesmos sonhos. 

A estrada é comum, a direção foi sempre essa e vem uma fala, uma voz, palavras escritas e estão dizendo que há um novo caminho, uma nova direção. Existe sim algo novo, diferente, desconhecido, mas que é real, e para tocarmos nisso, ou sermos tocados por isso, é preciso nos aventurarmos nesse novo, neste vazio, neste espaço, nos abrirmos a essa Presença, agora, nossa essência, nossa real e Verdadeira Natureza. Como soa, parece, tudo isso? Isso pode não parecer nada prático para o homem ou a mulher que está lutando, tentando "matar um leão" a cada dia, porque nós aprendemos que a vida é luta renhida, viver é lutar; que temos que "correr atrás"; que "cobra que não anda não engole sapo". Tudo isso porque nós temos todos esses clichês e eles se ajustam, perfeitamente, ao que sentimos nesta, assim chamada, "minha vida". Então, isso justifica essa padronização, essa vida do esforço. Para nós, trabalho é sinônimo de esforço, de luta; a vida é sinônimo de luta, de esforço, de trabalho, nesse sentido. 

Aqui nós estamos convidando você a relaxar, a abrir mão desse espírito aquisitivo, possessivo, perseguidor, lutador, abrindo mão desse comportamento de domínio, de posse, de comando, de controle, e descobrindo que a Vida é plena em si própria, completa em si mesma e a própria existência física desse organismo que deram o nome quando nasceu, que você contempla no espelho toda manhã. A Vida é que faz isso acontecer, que mantém esse organismo acontecendo, e que o trouxe até aqui, neste instante... É ela que sustenta você durante o sono profundo e durante esse estado de vigília. Essa Vida é você, o Você Real, verdadeiro! Esta Natureza Verdadeira do Ser é você... Isto é Vida, Liberdade, Paz, Felicidade, Amor... Isto é compaixão, beleza,  ausência de conflitos, contradições, desejos  e medos, enfim, de qualquer forma de sofrimento. Isto é o que somos, o verdadeiro "Eu", um "Eu" que inclui tudo e não exclui nada... Isto é o "Eu", ou isto é o "Sou", o sublime, indescritível, autorrefulgente "Eu Sou", "Ser", vazio de plenitude e espaço não espacial! 

O que parece tudo isso? Onde estamos, agora, após aproximadamente 60 minutos de fala?  Precisamos ser sensíveis, estar abertos, a isso, afinal de contas é a "nossa" vida que é a Real Vida, acontecendo agora. Vocês que foram atraídos a esse encontro, você que está ouvindo essa fala, lendo esse transcrito: esse é o seu instante, o seu momento! Não há como descrevermos isso senhores: uma vida que é sua vida, quando o "eu" não está presente no sentido de posse, como  o "meu" se foi, também... Não há mais defesas de propriedades, quer elas sejam materiais, físicas ou psicológicas, mentais... Não precisamos mais defender territórios, então não há mais essa autodefesa, nem o esforço para o combate, para a luta, para o ataque, nem defesas, nem ataques. Estamos diante desta Ilimitada Presença de silêncio, de quietude, de serenidade, de paz, de bondade, de beleza, de verdade, de amor...  Isto é Realização, onde há a Totalidade, esta Presença... onde não há dois, três, sete, dez, vinte, cinquenta... Onde toda essa multiplicidade desapareceu nesta Unicidade não dual, nesta não dualidade. É Isso que chamam de Iluminação. A mente tem muita fantasia a respeito disso, e estamos dizendo que Isto está presente quando a mente não está presente. Fique aí! Relaxe aí. Você é isto! Vou repetir novamente, terminando essa fala: Você é isto! Você é esse encontro e ele é inevitável, porque você é isto!

*Transcrito a partir de um encontro online via Paltalk na noite do dia 16 de Setembro de 2011

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