segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quando a verdade predomina não há conflito




Esta é uma oportunidade real para olharmos diretamente para esses padrões, para essa programação, para essa crença básica, sobre a qual nós vamos falar um pouco agora.

Nós estamos nesse trabalho nos desvencilhando dessa crença que o sentido de “alguém” carrega. Ele é essa crença dualista, aquilo que parece – e somente parece – separar a experiência entre sujeito e objeto, entre aquele que percebe e aquilo que é percebido. Então, nós nomeamos essa experiência dentro dessa crença. Tem esse “eu” e o “outro”, eu e minhas escolhas, meus pensamentos, minhas ideias, meus desejos, meus planos, meus objetivos... O outro pode ser a namorada com suas ideias, planos, desejos, objetivos e pensamentos próprios. Pode ser o patrão, meu pai, minha mãe, meu irmão, meu amigo, meu inimigo. Nessa crença, essa experiência está aparecendo, aparentemente, separada. Não percebemos que é somente uma experiência e, nela, a ilusão ou a Verdade predomina. Quando a ilusão predomina, prevalece o conflito, o conflito entre eu e ela, entre eu e ele, entre eu e o mundo, entre eu e o outro. Quando a Verdade predomina não há conflito, porque essa separação é a ilusão, é a crença na dualidade.

Todo o seu conflito é esse: você e suas particularidades, você e seus segredos, você e suas decisões, você e suas escolhas. Claro, tudo isso contrastando com algo nessa experiência única, a qual é vista acontecendo para esse “mim”, para esse “eu”, com o “outro” do lado oposto, com esse “mundo” que parece antagônico, contrário a mim, diferente de mim, separado de mim, separado desse “eu” que acredito ser. Esse é o sentido de separatividade, e o que prevalece aí é o desejo, a escolha, a insatisfação. Tudo isso é medo. O ego sempre busca alguma coisa para se autopreencher, para se completar, para se realizar no outro, no mundo, nessa ilusão, na ilusão da separatividade nessa experiência. 

Aqui, o ponto é que você, enquanto permanecer nessa crença dualista, nunca será feliz, estará sempre dependendo do outro, do mundo, de algo do lado de fora. Sua Consciência é a sua Natureza Real, e nela não há separatividade, não há o outro. Nela, esse assim chamado “outro” é só uma aparição sem importância. Não pode preenchê-lo, satisfazê-lo, realizá-lo. Também não pode frustrá-lo, decepcioná-lo e torná-lo infeliz. Isso apenas acontece quando para você  prevalece a ilusão, essa crença dualista.

Todo seu sofrimento é inerente a essa ilusão da separatividade. Eu digo ilusão, mas isso parece ser realmente verdadeiro, algo muito real para esse sentido de ser "alguém". Em Satsang, nós estamos expondo isso, e, uma vez que isso fique claramente exposto, você começa a duvidar dos pensamentos, dos sentimentos, do poder de "alguém na ação", no “fazer”, no “realizar”, ou não, algo. Uma vez que essa crença fique exposta, ou comece a ser investigada, você começa a duvidar dessa dualidade da experiência, duvidar desse sentido de ser “alguém”. Quando isso começa a acontecer, esse sentido de separação começa a perder forças, o ego começa a perder forças, esse sentido de autossuficiência, de independência, de separatividade, pouco a pouco, começa a perder credibilidade.

A minha intenção aqui é fazer com que você fique completamente, totalmente, decepcionado com as suas próprias crenças, com essa autossuficiência de ser "alguém" dentro de uma dada experiência. Tudo o que você tem quando se depara com Satsang é exatamente isso. O meu trabalho com você é decepcioná-lo. Todos no mundo aí fora acreditam em você, toda a sociedade, e todos querem que você permaneça acreditando em si mesmo. Os livros de autoajuda trabalham nessa direção, bem como toda e qualquer forma de terapia. Os sacerdotes, terapeutas, palestrantes motivacionais, enfim, todos à sua volta querem que você acredite, confie, que tudo vai melhorar, que sua relação pessoal consigo mesmo, com o outro, com o mundo vai dar certo. Alguns de vocês já estão bastante frustrados. Eu tenho trabalhado forte nessa direção com você. Eu estou propondo algo completamente oposto ao que vocês têm aprendido, ao que vocês têm acreditado. Aqui, se trata de constatar a ilusão desse sentido de separatividade e, portanto, essa estúpida confiança de que tudo vai dar certo, de que tudo vai melhorar. No ego, nada vai melhorar, nada vai dar certo, tudo vai apenas se repetir, vez após vez, após vez, após vez, após vez… Você precisa desistir da ilusão da separatividade.

Participante: O que é o sofrimento e quem sofre, já que a pessoa é uma ilusão e a Consciência é bem-aventurança?

Mestre Gualberto: O que você chama de sofrimento?

Participante: Dor psicológica, psique.

Mestre Gualberto: Onde está essa psique para ter uma dor presente nela? Não há essa psique, como pode haver dor nela? Portanto, onde está o sofrimento?

Participante: Ele some na sua Presença.

Mestre Gualberto: Só pode aparecer ou desaparecer aquilo que não é real.

Participante: Mas ele volta.

Mestre Gualberto: É exatamente o que estou dizendo. Só pode chegar e partir aquilo que já não está ali, que é apenas uma ficção. O que você chama de sofrimento para uma psique, sofrimento para um “eu”, só é possível nessa ficção. É apenas uma ficção de uma suposta entidade presente, numa dada experiência, chamada “experiência de dor”. Apenas aí é possível esse, assim chamado, sofrimento. Livre-se da ilusão do sentido de separação, do sentido de alguém presente na experiência, e depois me faça essa pergunta de novo sobre o sofrimento.

O que estou dizendo é que o sofrimento só é possível com o sofredor. O sofredor só é possível nessa ficção, nessa ilusão de separatividade, de outra forma não há sofrimento. A dor física é outra coisa. Esse mecanismo físico, esse organismo, neurologicamente, está pronto, preparado, para o prazer e também para a dor, mas dor física, dor neural, não é sofrimento. O sofrimento entra quando há o pensamento sobre essa dor, quando atestamos essa dor em uma experiência pessoal, particular, individual. Quando há a separação entre um “eu” presente dentro do corpo e esse corpo, há dor. A dor está no corpo, não está em você. Você como essa psique, como esse “eu”, como esse “alguém”, é uma ilusão. Você como Consciência, como Presença, é uma Realidade, onde o corpo e o mundo, as formas, o outro, ele, ela, e tudo mais, surgem, mas apenas como uma aparição. Não há nenhuma separatividade e, portanto, nenhum conflito, nenhum sofrimento.

É fundamental que você desista disso, dessa ilusão do sofredor, dessa ilusão de alguém que acredita poder triunfar, vencer, realizar, se tornar pleno, completo. Esse “alguém” carrega, em si, a marca da incompletude, a marca do sofrimento, a marca da miséria, a marca da insatisfação.

Participante: É muito estranha a ação sem sujeito em parte alguma.

Mestre Gualberto: Na realidade, é muito estranha essa ação de um sujeito em alguma parte, realizando alguma ação. Isso sim é muito estranho! Só há uma ação acontecendo, que é a ação do Todo, é a ação de Deus, que podemos aqui chamar de Ação Soberana, Vontade Divina.

Participante: Guruji, quando você tira sua lente de contato e tenta ver o escrito de uma placa ao longe, é igual a esse suposto discípulo tentando ver diretamente a sua fala.

Mestre Gualberto: Então, desista de tentar. Faça isso. Desista da placa, ou desista dos olhos.

Participante: Como é que se desiste diante de tamanho condicionamento?

Mestre Gualberto: Se é impossível ler a placa quando você está sem a lente de contato, ou sem os óculos, será que é tão difícil desistir? Na realidade, quando a frustração for suficientemente grande, esse “desistir” vai ser simples. É que a maioria de vocês quer a Verdade e a ilusão. A maioria de vocês ainda não está “queimando” por isso pra valer, quer “Realizar Deus” e mais alguma outra coisa.

Participante: Eu não aguento mais a ilusão.

Mestre Gualberto: Isso não é totalmente verdade. Esse “eu” ainda gosta muito da ilusão que traz o sofrimento e, por isso, fica difícil desistir.

Participante: Por que buscamos a Verdade e ao mesmo tempo não conseguimos largar a ilusão?

Mestre Gualberto: Tudo que você conhece é a ilusão. Mesmo ela sendo tão miserável, há muita satisfação e prazer dentro dela, enquanto que a Verdade é algo inteiramente desconhecido. É simplesmente isso. Você não consegue largar a ilusão porque ela é ainda um porto seguro para você, e a Verdade é algo completamente desconhecido. A Verdade pode colocar sua vida de ponta-cabeça, pode virar sua vida completamente, e Ela certamente fará isso. Ela irá destruir tudo que a ilusão desse “mim, desse “alguém”, tem cultivado e está segurando. Essa Realização da Verdade, essa Realização de Deus, essa Realização, que é a constatação de sua Verdadeira Natureza, implica no fim do seu mundo, algo inteiramente novo e desconhecido.

Participante: Sinto-me à beira de um abismo.

Mestre Gualberto: À beira não é suficiente, tem que descer abismo abaixo.

Vamos ficar por aqui? Até o próximo encontro. Namastê!


*Transcrito a partir de uma fala em um encontro online em 13 de Janeiro de 2016


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