segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Uma nova direção




Olá, muito boa noite! Este é mais um encontro, um momento, uma oportunidade, onde nos encontramos com essa possibilidade, que é algo que se configura como uma perfeita, íntegra, completa resposta a tudo aquilo que nós buscamos como seres humanos. Nós estamos falando desta Realidade, da Verdade sobre nós. Isso é Satsang: o encontro com esta possibilidade. Assim, é realmente fascinante o fato de estarmos juntos. É com bastante alegria que temos feito esses encontros aqui, porque, a nosso modo de ver, isso é algo muito prático, funcional, real, para cada um de nós, e que precisamos ter, verdadeiramente, em nossas vidas. Precisamos ter o encontro com esta possibilidade, porque aqui nós temos o florescer desta potencialidade que trazemos: aquilo que está dormente, latente, aguardando exatamente esse encontro para que possa se manifestar, surgir, aparecer. Assim, é com alegria que, de fato, nós nos encontramos nesse instante, nesse momento, com essa possibilidade. 

Por muitos e muitos anos nós sentimos falta disso. O ser humano sente que algo está faltando na sua vida, só não sabe explicar o que falta. Aquilo de que sente falta, ele termina procurando pelos caminhos conhecidos, que são os caminhos de sua própria mente. Assim, empurrado pelo pensamento, ele termina se deslocando da sua real possibilidade de encontro, nesse encontro com a verdade dele próprio, porque  termina se afastando de si mesmo. É preciso compreendermos que aquilo que nós buscamos, procuramos, já está nesse instante, nesse espaço, nesse vazio, diante de cada um de nós, exatamente Nisso, onde tudo surge, aparece. O vazio, o espaço desse instante, desse momento presente, já contém aquilo que buscamos. Não temos encontrado porque temos criado uma ideia e uma projeção a respeito disso, e por isso somos empurrados pelo pensamento em direção a essa projeção. 

Todos nós sentimos a falta de paz, do descanso, da serenidade, de alegria e liberdade real em nossas vidas, bem como a falta deste calor, desta proteção, deste cuidado que o amor traz, que intuitivamente sentimos que existe no amor. O amor é esse abraço aquecido, de proteção, de conforto, de preenchimento profundo. Nós temos buscado esse preenchimento, essa liberdade, essa paz e esta felicidade psicologicamente, mentalmente. Tudo isso faz parte da lista de nossas projeções mentais, com a qual nós vamos ao mercado da ilusão - a ilusão dos desejos, dos sonhos, das ideias. Assim, estamos em busca de nos preenchermos com alguma coisa que nós acreditamos estar do lado de fora, estar em algum momento separado desse instante. Assim, o tempo se torna um fator importante nessa procura, nessa busca, e esse Espaço Real presente, que é o Vazio Real presente, onde tudo está acontecendo agora, continua sendo ignorado. 

Essa fala soa muito diferente, porque ela vem em uma nova direção, é uma nova direção, algo como um novo caminho, no sentido oposto, contrário, na contramão de tudo isso que tem sido o nosso comportamento, treinamento; o nosso padrão usual, essa maneira comum de conduta. Essa autoinvestigação que fazemos agora, aqui neste encontro, aponta exatamente para o descobrimento desse vazio, desse espaço, que, para a mente de vocês, está oculto nesse instante, porque a mente está perdida dentro desta lista ocupada, desse mercado de ilusões. O grande mercado da ilusão é o único mercado que se multiplica em muitos outros mercados, em novos pseudoespaços cheios, assim acreditamos, com tudo aquilo de que nós precisamos, e temos ido a esses mercados, dentro desse grande mercado da ilusão. Agora nós estamos em um novo caminho, em uma nova estrada, que é a estrada do autoconhecimento, da autoinvestigação, da meditação, da entrega a este instante do Vazio,  do momento presente, encontrando aqui, nesse momento, e abrindo mão desse movimento, que é o movimento do pensamento - o caminho comum do pensamento, que é a forma habitual dele nos seduzir, nos aprisionar, nos empurrar para longe Disso. Aqui, nesses encontros, abrimos mão completamente da antiga e habitual situação, para nos expormos a essa nova possibilidade, a possibilidade do encontro com o nosso Ser, com o que somos, com a nossa real natureza. Esse encontro que é algo que acontece naturalmente, de uma maneira muito simples, muito direta, quando descobrimos a importância dessa entrega, do envolvimento do coração com isso que está sendo apresentado aqui, nesta fala, neste encontro, neste momento. Por isso é realmente algo fascinante o fato de estarmos juntos...  é algo realmente encantador isso, pois estamos descobrindo a nossa Vida Real, nossa vida impessoal. 

Eu quero afirmar, aqui, que tudo o que tenho falado aqui está baseado na minha vivência, no experimentar direto. Não é preciso, você que nos escuta, que está neste encontro, de repente, apenas no intelecto, ficar tentando ajustar essa fala a sua experiência, dizendo para si mesmo: "eu não aceito isso! Isso não é real! Isso não é verdade!"... Como nesses dias, em que entrou alguém aqui,  nessa sala, e disse: "Essa fala é muito psicodélica!"... "O dono dessa fala parece que está drogado!"... Nós podemos intelectualmente tentar ajustar uma fala como essa, esse tipo de colocação, com alguma coisa que nós já trazemos, e é natural que isso não se ajuste, porque a sensação que temos é de que não estamos ouvindo alguma coisa prática, objetiva, real, funcional. Mas, o que eu quero lhe dizer hoje, aqui neste encontro, é que quando você descobre por si próprio, quando isso é a sua vivência, o desafio de estar presente neste encontro, o desafio que temos, é ter esse encontro direto com nós mesmos, com Aquilo que somos, Isso que somos, esta Coisa que somos. Por que nós colocamos assim? Porque Isso não tem nome, não há como descrever esse "Eu Sou", não há como descrever essa Realidade de cada um de nós. O descobrimento é direto, intransferível, e, o mais extraordinário, não  é um descobrimento pessoal... Nenhuma "pessoa" fica presente, mais, nesse descobrimento. Na realidade, o descobrimento Disso é a constatação da não existência da "pessoa"... de Algo, desta Coisa, de alguma coisa que sabe ser esse Espaço e este Vazio, onde tudo aparece e acontece. 

Assim sendo, é evidente que essa fala não é algo corriqueiro, um papo de botequim, ou uma conversa, um bate-papo num banco de praça, entre aqueles que já estão aposentados, jogando cartas, ali sentados. É evidente que esse tipo de fala não é algo que escutamos no Jornal Nacional, que lemos em tabloides ou  jornal. É evidente que esse tipo de fala, ou mensagem, ou comunicação, ou transmissão, ou abordagem,  como quisermos chamar isso, não encontramos em revistas que saem todos os meses e são distribuídas aos assinantes, ou compradas em bancas de jornais... Não estamos falando de autoconhecimento, amigo! Estamos falando de autorrealização, da compreensão de sua Real Natureza, desta revelação Daquilo que somos, Disto que somos, deste "Eu Sou", que é tudo, onde não sobram espaços. Estamos falando deste "Eu Sou", que é este vazio, que sabe ser plenitude... deste Espaço que sabe não ser espacial, também. 

Assim sendo, nós estamos em uma nova trilha, em uma nova direção e aqui nós temos estudado isso. Esse não é um estudo intelectual, de lógica; não é um estudo razoável, algo que pode ser alcançado pela razão, pelo intelecto, ou que possamos acumular, como todo tipo de estudos que já fizemos, mas que, até agora, continuamos sendo os mesmos, sem qualquer mudança ou transformação real. Reparem no que estamos dizendo: não importa nossa cultura, nossas habilidades adquiridas, tudo aquilo que conseguimos dentro dessa estrutura pessoal, que chamo de "eu"... "eu" continuo infeliz... "eu", apesar de tudo que adquiri, de todos os estudos que fiz, e aqui se incluem estudos filosóficos, místicos, religiosos e assim por diante, ainda continuo com os medos, comuns a todos a minha volta... continuo sofrendo, continuo ansioso... "eu" continuo me preocupando... "eu" continuo me estressando... "eu" continuo brigando, tentando segurar... "eu" continuo agarrado... "eu" continuo me sentindo proprietário, dono exclusivo de tudo o que toco com as mãos... "eu" continuo sendo uma "pessoa"... 
Assim sendo, nós estamos de fato em uma nova direção. Estamos, de fato, nos abrindo à realidade da investigação de toda essa falsidade, limitação e mediocridade, que tem sido esta "minha" vida. Nós temos frisado, colocado isso aqui: não existe "minha" vida, só existe a vida! A vida não é "minha", a vida é aquilo que acontece a todos os seres humanos. Esse "mim", esse "eu", se sente muito especial, muito importante e  no controle de tudo, e até diz ter uma "vida própria"... Esta vida ele chama de "minha" vida. Isso, senhores, é limitação, é prisão, é infelicidade, porque isso não é real. Isso é algo encontrado no mercado da ilusão. 

Eu sei o que essa fala implica. Repare que nós usamos o pronome "eu" aqui, neste instante. Para efeitos de conversações na língua portuguesa, ou em qualquer outro idioma, esse pronome pessoal tem um lugar, uma posição, e assim nós estamos fazendo uso dessa posição, desse lugar, quando empregamos na fala e na escrita o pronome. O ponto aqui é quando nós não deixamos que o seu lugar real esteja presente, que é apenas o lugar de pronome;  é apenas um modo de comunicarmos, falarmos uns com os outros; é apenas um modo de diferenciarmos "esse" "daquele", "eu" e "você", como organismos, seres, humanos. Mas, quando damos a esse pronome pessoal "eu" esse valor subjetivo, da subjetividade de uma "entidade", de um "alguém", de uma "pessoa", de um ser separado dos "outros", com uma vida "própria", "particular", "individual", "autocentrada", nós estamos nesta ilusão. 

Reparem no que estamos dizendo neste encontro, nos acompanhem com calma. De fato, isto não é nada psicodélico, e  talvez alguém não consiga compreender isto exatamente por estar preso nesse sentido de ser "alguém", de acreditar que é "alguém"... Isso sim é psicodélico, é uma grande viagem: a viagem dentro do mercado da ilusão! A beleza desse encontro é a beleza do encontro com a Vida, com a Vida Real, não com a vida pessoal, individual, particular; não com a vida deste "eu", esta, assim chamada, "minha" vida, que é limitada, estreita, e que está confinada, aprisionada. Nós não gostamos de ouvir nada disso, ficamos profundamente ofendidos. Eu sei bem isso! Todos nós sabemos muito bem o que isso causa. Alguns de vocês, se não todos vocês presentes, ou vocês que nos escutam nesse áudio, ou estão lendo esse texto, também já se sentiram assim em algum momento: perplexos, no mínimo, com esse tipo de fala, com esse tipo de abordagem ou de colocações — ou, profundamente ofendidos, porque isso mexe, exatamente, com essa estrutura e essa estrutura é tudo o que temos, que conhecemos. Esse padrão é a forma de conduta geral. Esse modo de pensar — que de pensar de modo real não tem nada — é apenas um modo de repetir o padrão do pensamento repetitivo e continuado a nossa volta; isto é algo muito comum, que encontramos em toda parte. Assim, estamos sendo confrontados, ou nos sentimos confrontados, em nosso conjunto de crenças, de valores, de ideias, de propósitos, de ideais e uma voz vem e nos diz: abra mão disso tudo, largue isso tudo, solte isso tudo, não se prenda a nada disso. Ora, ora, ora! Isso é tudo o que temos, conhecemos e recebemos, desde a infância! Isso é parte da nossa cultura, da nossa, assim chamada, educação, informação, e todos são assim. Todos dizem, sentem e  querem a mesma coisa, trabalham pela mesma coisa, buscam os mesmos sonhos. 

A estrada é comum, a direção foi sempre essa e vem uma fala, uma voz, palavras escritas e estão dizendo que há um novo caminho, uma nova direção. Existe sim algo novo, diferente, desconhecido, mas que é real, e para tocarmos nisso, ou sermos tocados por isso, é preciso nos aventurarmos nesse novo, neste vazio, neste espaço, nos abrirmos a essa Presença, agora, nossa essência, nossa real e Verdadeira Natureza. Como soa, parece, tudo isso? Isso pode não parecer nada prático para o homem ou a mulher que está lutando, tentando "matar um leão" a cada dia, porque nós aprendemos que a vida é luta renhida, viver é lutar; que temos que "correr atrás"; que "cobra que não anda não engole sapo". Tudo isso porque nós temos todos esses clichês e eles se ajustam, perfeitamente, ao que sentimos nesta, assim chamada, "minha vida". Então, isso justifica essa padronização, essa vida do esforço. Para nós, trabalho é sinônimo de esforço, de luta; a vida é sinônimo de luta, de esforço, de trabalho, nesse sentido. 

Aqui nós estamos convidando você a relaxar, a abrir mão desse espírito aquisitivo, possessivo, perseguidor, lutador, abrindo mão desse comportamento de domínio, de posse, de comando, de controle, e descobrindo que a Vida é plena em si própria, completa em si mesma e a própria existência física desse organismo que deram o nome quando nasceu, que você contempla no espelho toda manhã. A Vida é que faz isso acontecer, que mantém esse organismo acontecendo, e que o trouxe até aqui, neste instante... É ela que sustenta você durante o sono profundo e durante esse estado de vigília. Essa Vida é você, o Você Real, verdadeiro! Esta Natureza Verdadeira do Ser é você... Isto é Vida, Liberdade, Paz, Felicidade, Amor... Isto é compaixão, beleza,  ausência de conflitos, contradições, desejos  e medos, enfim, de qualquer forma de sofrimento. Isto é o que somos, o verdadeiro "Eu", um "Eu" que inclui tudo e não exclui nada... Isto é o "Eu", ou isto é o "Sou", o sublime, indescritível, autorrefulgente "Eu Sou", "Ser", vazio de plenitude e espaço não espacial! 

O que parece tudo isso? Onde estamos, agora, após aproximadamente 60 minutos de fala?  Precisamos ser sensíveis, estar abertos, a isso, afinal de contas é a "nossa" vida que é a Real Vida, acontecendo agora. Vocês que foram atraídos a esse encontro, você que está ouvindo essa fala, lendo esse transcrito: esse é o seu instante, o seu momento! Não há como descrevermos isso senhores: uma vida que é sua vida, quando o "eu" não está presente no sentido de posse, como  o "meu" se foi, também... Não há mais defesas de propriedades, quer elas sejam materiais, físicas ou psicológicas, mentais... Não precisamos mais defender territórios, então não há mais essa autodefesa, nem o esforço para o combate, para a luta, para o ataque, nem defesas, nem ataques. Estamos diante desta Ilimitada Presença de silêncio, de quietude, de serenidade, de paz, de bondade, de beleza, de verdade, de amor...  Isto é Realização, onde há a Totalidade, esta Presença... onde não há dois, três, sete, dez, vinte, cinquenta... Onde toda essa multiplicidade desapareceu nesta Unicidade não dual, nesta não dualidade. É Isso que chamam de Iluminação. A mente tem muita fantasia a respeito disso, e estamos dizendo que Isto está presente quando a mente não está presente. Fique aí! Relaxe aí. Você é isto! Vou repetir novamente, terminando essa fala: Você é isto! Você é esse encontro e ele é inevitável, porque você é isto!

*Transcrito a partir de um encontro online via Paltalk na noite do dia 16 de Setembro de 2011

sábado, 27 de fevereiro de 2016

A ilusão de todas as experiências de um eu




Neste Espaço Único, que é Liberdade, que é Consciência, que é Presença, nos deparamos com essa tentativa de comunicar, de colocar em palavras a importância do Silêncio. A natureza da mente egoica é estar na procura de uma experiência sempre mais ampla, mais profunda, mais significativa. Essa busca de preenchimento da mente, essa procura por uma experiência especial, é algo bastante comum. Então, a mente cria essa separação. Ela se separa como se fosse a consciência da experiência. Assim, nós temos duas coisas acontecendo para a mente: ela própria se separa em consciência e em experiência. Sua ampla, significativa, especial e profunda experiência, que ela tanto almeja, é essa ilusão de consciência e experiência. Essa é a ilusão da dualidade, da separatividade. Ela está sempre em busca de um pensamento elevado, profundo, sábio, inteligente, ou de um sentimento preenchedor, feliz, satisfatório. Termina que você vive sempre nessa procura de uma experiência objetiva, de uma experiência fora.

Você se considera aquele que pode capturar isso, chegar a isso. O detalhe é que, quando você faz isso, você termina obrigando a experiência a ser uma experiência pessoal, essa experiência ser a sua experiência. Isso é apenas a mente espelhando uma crença, fortalecendo esse sentido de separação. A mente, aí, tem criado essa separação, se dividindo entre consciência e objeto da consciência, entre esse que experimenta e aquilo que é experimentado, entre aquele que observa e aquilo que é observado, e tudo isso é apenas um jogo – o jogo da mente. Aí está a mente egoica, aí está a mente dualista, aí está a mente separatista, aí está o ego, esse forte sentido de ilusão (a crença da “pessoa”), sendo constantemente espelhado em toda e qualquer experiência, seja ela pensamento, emoção, sensação, sentimento, e assim por diante.

Colocando de uma forma bem simples: todo e qualquer pensamento agora, aí, passando dentro da sua cabeça, toda imagem, toda lembrança, trazem a ilusão de que existe essa experiência e aquele que observa, experimenta, sente essa experiência. É quando você, por exemplo, diz: “estou triste”, “estou deprimido”, “estou angustiado”, “estou chateado”, “estou aborrecido”. Então, a ilusão é que tem o aborrecimento para esse alguém aborrecido; tem a tristeza para esse alguém triste; tem a depressão para esse alguém deprimido. A ilusão é que há duas coisas distintas e separadas: o pensador e o pensamento; o experimentador e a experiência.

Espero não estar tornando isso complicado, porque isso é muito simples. A mente egoica se alimenta dessa ilusão. O sofrimento continua porque o pensador continua, o experimentador continua, a pessoa continua. E quando a mente alimenta essa ilusão de “ser alguém” – alguém sentindo, alguém pensando, alguém se lembrando, alguém imaginando, alguém planejando – ela confirma essa crença, mas isso não é Real

Não é possível o Amor, não é possível a Paz, não é possível a Liberdade, não é possível essa Alegria do Silêncio, essa Alegria que não é motivada, que não pode ser encontrada em experiências, enquanto essa ilusão estiver presente – essa ilusão da mente se separando como consciência e experiência da consciência – enquanto o ego estiver procurando uma experiência objetiva, enquanto a mente estiver se separando nessa procura de uma experiência abundante, plena, feliz, realizadora. Isso tudo é uma falácia, um grande movimento do ego. A Felicidade é algo presente quando o sentido de separação, o sentido do “eu”, do “ego”, esse sentido pessoal, termina. Essa Presença, essa Consciência, não é essa consciência da experiência, que é, na realidade, a mente se separando da experiência, se dividindo, mas essa Consciência Real, essa Consciência que não se divide, que não se separa, essa Consciência que é a Natureza do Ser, que é Você em seu Estado Real, em seu Estado Natural. É a própria Paz, é a própria Liberdade, é a própria Felicidade. 

Isso só é possível quando essa mente egoica não está se separando, não está se dividindo, não está agitada; quando há Silêncio na mente e no coração, esse Silêncio que é essa Consciência Real, que é essa Paz Real, que é essa Felicidade Real, quando Ela assume. 

Isso pode parecer um pouco confuso, a princípio. Quando tentamos capturar isso intelectualmente, fica muito confuso. É necessário estar quieto, é necessário ter essa Presença de constatação interna, essa harmonia interna, esse silêncio interno, essa não divisão. Não há duas coisas, não é possível que haja duas coisas como consciência e objeto presente nessa consciência. Tudo, na verdade, está aparecendo nessa única e Real Presença, nessa Real Consciência. Não é a consciência e este objeto da consciência. Não é a consciência do pensamento, não é a consciência do sentimento, não é a consciência da sensação. Temos apenas essa Presença, ou essa Real Consciência, na qual o pensamento aparece, a sensação aparece, o sentimento aparece e desaparece, enquanto a Consciência permanece imutável.

A natureza da Paz é imutável, a natureza da Liberdade é imutável, a natureza da Felicidade é imutável. Aquilo que você experimenta como felicidade, como paz, como liberdade, que vem e vai, é apenas uma experiência dual, uma experiência ainda da própria mente se separando. Então, a mente experimenta essa consciência da paz, essa consciência da felicidade, essa consciência da liberdade, assim como experimenta a consciência do pensamento, da emoção, da sensação, do sentimento, mas isso vem e vai. Isso ainda está dentro dessa dualidade, dessa ilusão, dessa separatividade. Estamos falando a você a respeito dessa Consciência Real, que é a Consciência Divina, que é a Consciência da Verdade, a Consciência de Deus. Estamos falando dessa Natureza Divina que você É, além da mente, além dessa separação, dessa separatividade, além dessa dualidade, fora dessa dualidade.

Todos juntos? Como você percebe isso? Como você sente isso? Ouvir uma fala como essa é como ouvir música; música sem letra. Quando você ouve uma música sem letra, você apenas fica com a música, com o som, não se preocupa com o significado. Música sem letra não tem significado. Ela transmite algo, mas é algo fora de qualquer significado intelectual. Essa é a minha recomendação, escutem dessa forma. Não se preocupem, a princípio, com esse entendimento. Deixem essa questão do entendimento de lado. Aqui, estamos em Satsang, nesse encontro, para sentir essa música e não para entender o seu significado. Sua Natureza Real, sua Natureza Divina, Aquilo que Você é aí dentro, não precisa aprender nada, adquirir nada, pois já traz Isso, já é Isso, já é essa Liberdade, já é essa Consciência Real , não dual, já é esse Amor, essa Paz, já é essa Verdade. É preciso parar de se confundir com o pensador; é preciso parar de se confundir com a mente. Quando eu digo “com a mente”, é com essa separatividade, com essa ideia de ser “alguém” vivendo essa ou aquela experiência.

Você não é o corpo, você não é a mente. Você é essa Consciência Real, essa Consciência Divina além do corpo, além da mente, além dessa consciência do objeto, além dessa consciência do pensamento, do sentimento, da sensação, da dor, da tristeza, da depressão, da ansiedade, do medo. 

Sua Natureza Real é esta Livre Presença, esta Presença Livre e de Paz.

Estamos chegando ao final desse encontro. Valeu pelo momento. Valeu pelo encontro. Namastê!

      
 *Fala transcrita a partir de um encontro online transmitido em 22 de Fevereiro de 2016 - 
Encontros todas às segundas, quartas e sextas às 22h gratuito no Paltalk - Participem!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Qual é a atitude correta para nos aproximarmos do Mestre?






Participante: Qual é a atitude correta para nos aproximarmos do Mestre?

Mestre: Se você for convidado para entrar no palácio real, na Inglaterra, para ver a rainha, você vai receber algumas aulas de etiqueta, de como se comportar diante da rainha. Qualquer comportamento fora disso pode ser considerado um insulto, e isso significa que, no mínimo, você pode ser expulso da sala diante dela.

Nesse encontro com a rainha, quem é a autoridade, quem está no poder, quem tem o reino, quem concede e quem recebe o favor? Me parece que vem tudo dela! É dela que vem o favor, a hospitalidade, a graça. Ela é a rainha! Você não vai tentar explicar para ela como governar o seu próprio reino. Você não faz parte do governo nem para opinar, nem para colocar seu voto acerca de decisões a serem tomadas. Você é só um visitante.

Então, como deve ser visitar o Guru, a Presença, a Consciência na forma? Você vai chamar essa Consciência na forma de mentirosa? Ou você vai discutir a forma como o Guru faz ou deixa de fazer o trabalho dele? Não! Vocês não podem vir ao meu reino e discutir como eu o governo. Se eu expulso alguém do reino, se eu maltrato um dos meus súditos... Vocês não têm o poder de fazer isso. Eu sou o dono do reino, eu sou o rei, eu governo do jeito que eu decido governar. Quando você faz isso, você para de fazer parte do reino. Essa é a forma arrogante de se comportar diante do Guru. O Guru aceita quem ele quer e expulsa quem ele quer! Ver justiça ou injustiça nisso é para quem está fora do reino. Se você faz parte do reino, você não discute sobre as decisões do rei.

Então, qual é a forma de estar diante de Deus, que é a Presença, que é a Consciência? Sem mente! Sem opiniões, sem julgamentos, sem comparações, sem conclusões... Porque você está diante da Graça! Vocês dependem dessa Graça! E vocês não podem esquecer isso: vocês estão vindo a mim, não sou eu que estou indo a vocês! Vocês estão vindo a mim para receber esse favor, essa Graça, que é a liberação dessa mentira, dessa arrogância. Então, a maneira real de estar aqui é sabendo o que significa estar diante de um Sábio, diante da Presença, diante da Graça!

Essa arrogância afasta vocês de si mesmos! Vocês têm que chegar aqui com lágrimas, não com gritos, e com uma tristeza interna no coração, por  estar vendo tudo com um fundo de medo, de frustração, de decepção, de raiva... Não é hora de gritar, é hora de chorar, de se arrepender. É hora de perguntar: “Mestre, o que está acontecendo? O medo está aqui, a dor está aqui, me ajude a sair disso!” Essa é a atitude que vocês devem ter quando estiverem comigo! Se é verdade que você só tem a mim para ajudá-lo a sair desse lamaçal de prepotência, de arrogância, de vaidade, de medo, então, aprenda a olhar para mim. Chegue aqui e diga: “Mestre me ajude a sair disso!” Faça isso aqui, fisicamente, e também quando estiver longe! Você não está falando com uma forma física, mas sim com a Consciência, com Deus!

Você não vai ao Guru para questioná-lo. Você vai ao Guru para desistir de ser "alguém" diante da sua graciosa Presença, dadivosa Presença, iluminada Presença. Servir ao Guru não é servir a outro, é se render à Verdade! Quando há essa rendição à Verdade, o Guru oculto no coração do discípulo se revela como o seu próprio Ser. Isso é Iluminação! Isso é Realização!

Não me cobrem realização, mereçam isso! Mereçam essa Graça – embora Graça não seja algo recebido por merecimento. Quando vocês estiverem “merecendo” essa Realização, a receberão por Graça, e não porque a mereceram. É assim que a iluminação acontece: tem que chegar ao fim, aí, então, não fica “alguém”, somente a iluminação.

Você pode ver a história daqueles que se realizaram pelo Zen: ouvindo coisas absurdas do Guru, recebendo puxão no nariz, sendo jogado pela janela, socos, bastonadas, sentados diante de uma parede, presenciando e ouvindo coisas absurdas, como os koans. Tudo isso durante muitos e muitos anos! E, aparentemente, como se nada estivesse acontecendo, nem um tapinha nas costas vindo do mestre dizendo: “você está bem, você está evoluindo”; nem reconhecimento, nem aplausos pelos feitos, pela obediência. Ao contrário, a "corda" fica cada vez mais curta, as exigências cada vez maiores, ano após ano. Questionar o Guru, nunca! Duvidar do Guru, jamais! Cogitar a deserção, nem pensar! Ano após ano! Aparentemente, não tem nada acontecendo, e um belo dia, como que em um tropeção – ou em um tropeção literal -, numa pequena pedra - e o ego vai ao chão!

O discípulo deixa de ser discípulo, quando se faz merecedor dessa Graça, por meio da entrega. Essa Graça vem, sem merecimento, para um discípulo que deixa de ser discípulo, somente porque o Guru interno aflorou, assumiu...   Porque o "rei" voltou ao trono e reconheceu sua realeza. Por Graça? Sim. Por merecimento? Sim. Por merecimento? Não. Por todos aqueles anos? Sim. Por todos aqueles anos? Não.

Não vá ao Guru pedindo-lhe o que você não pode receber, mesmo que ele tenha para lhe dar. Vá até ele e se renda, se entregue, mereça tocar em seus pés, se habilite a isso. Não é possível realizar Deus sendo alguém. Não é possível realizar Deus tendo muitos sonhos ainda, estando muito apegado a outras coisas ainda.

Seu lugar é nesse espaço: no espaço da meditação, da entrega, da renúncia, da liberação do mundo e das suas fantasias de paraíso, de felicidade, na terra. Esse é o caminho da Graça: a entrega. É a única forma de merecer o que você pode receber sem merecimento algum. Ou você acredita em você ou confia na Graça na forma do Guru.

Um dia, Cristo disse: “aquele que permanecer até o fim será livre, será salvo; se permanecerem verdadeiramente em minhas palavras, verdadeiramente serão meus discípulos, então conhecerão a Verdade, e a Verdade será essa Liberdade, e a Verdade vos libertará.”

Um dia, Buda disse, em seu último sermão: “sejam uma luz para si mesmos.” Isso é possível? No ego, não! Na Consciência, sim! E a Consciência está presente quando o Guru está presente, quando a Graça está presente, quando a Verdade está presente. Então, a Luz está aí.

É um grande erro ver o Guru somente como mais uma pessoa. O guru não é só mais uma pessoa, ele é Deus, é a Consciência, é infalível, é um caso acabado!

Quando você vai a um Mestre vivo, você está indo se deparar com a Liberdade. Você não pode roubar isso Dele. Você não vai compreendê-lo, não vai tirar um pedacinho Dele e levar com você; não vai aprender alguma coisa com Ele. Você não tem nada que possa tirar Dele, mas Ele é tão generoso quanto o mar para receber você em suas águas. Você não pode roubar nada Dele. Ou você desiste de fazer isso com a água do mar e se joga no mar, ou então você vai cair nessa ilusão de tentar levar uma parte, que vai terminar voltando para ela. Então, quando você for a um Mestre vivo, é melhor que se banhe nas águas de Sua Liberdade e seja livre com Ele.

Você tem que vir a mim para ser Um comigo, e não para tirar conclusões de quem eu sou, de quem você é, do que eu sei ou não sei, do que eu aprendi ou não, do que eu posso ou não... Isso é bobagem! Você tem que vir a mim para estar nesse Silêncio, para mergulhar em meus olhos, em meu coração, em minha ausência, em minha Presença. Mergulhar nessa Meditação que é onde estou, que é onde sou O que Sou.

Pare de pensar em sua vidinha pessoal, particular, de relacionamento, onde você tem coisas para esconder ou para dizer no privado, no particular. Quando você vier para estar comigo, venha para mergulhar nesse mar, venha para esquecer essa história de “alguém”. “Alguém” que tem que viajar, tem que se distrair... Para quê? Venha para esse mar, viaje para dentro desse oceano de Liberdade! Senão, você continua levando esse seu ego para viajar.

Viva sem ego! Viva sem o sentido de separação! Viva em Felicidade Suprema, em Liberdade! Viva sem medo, sem conflito, sem desejos, sem ansiedade quanto ao futuro, sem preocupação quanto ao passado, sem historinhas pessoais! Quando você vier, venha para mergulhar nesta minha arte, na arte de Ser, na arte de ser nada, de ser ninguém! Sem nascer e sem morrer! Ninguém nunca nasce e ninguém nunca morre! Ninguém nunca casa, ninguém nunca separa! Ninguém nunca é ou deixa de ser...

Isso é tão simples... Mas vocês complicam tudo...


*Transcrição do trecho da fala de um encontro na cidade de Fortaleza em Janeiro de 2016

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

A pessoa é uma máscara, uma fraude, uma ilusão...




Essa é a ilusão: a ilusão da valorização das aparições, que são os sentimentos, as emoções, os pensamentos,  as sensações, e assim por diante. Isso faz de você uma pessoa.

A palavra pessoa é uma palavra derivada de “persona”, que os antigos gregos usavam para denominar a máscara dos atores nos teatros. Aquela máscara, os gregos chamavam de "persona". 

Sendo uma "persona", sendo uma pessoa, você nada mais é do que uma máscara, é uma fraude, não é real. Assim como não é real o personagem na peça teatral. Aliás, vou corrigir isso: o personagem é real na peça teatral; real como um personagem, mas não há nenhuma realidade para esse personagem fora dessa peça. Você não pode esquecer que essa peça é só uma peça imaginária, é algo criado, produzido, ali colocado e assim representado como sendo real. 

A sua vida é isso! Sua vida tem sido isso, tem sido assim, só porque o silêncio, a calma, a Consciência, a Presença de sua Real Natureza tem sido esquecida, tem sido desprezada. 

Aproximar-se de Satsang é se aproximar dessa Vida Real, fora dessa peça teatral que você chama de sua vida, na qual a ilusão está presente: a ilusão de se confundir com uma máscara.

*transcrito a partir de um trecho de um Satsang na cidade de Campos do Jordão no Ramanashram Gualberto em Dezembro de 2015

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