terça-feira, 26 de janeiro de 2016

O fim do sofrimento



A ignorância representa um papel importante em sua vida, ela assumiu um papel muito importante em sua vida. Ignorância, não no sentido da ausência do conhecimento. Ignorância, para mim, é ausência do natural, ausência do real, é ilusão. E a ignorância representa, hoje, um papel importante na sua vida. Isso é algo que precisa ficar claro para você. Quando isso fica claro para você, isso desaparece, porque é uma ilusão.

Que papel importante é esse? O papel do sofrimento. O sofrimento só é possível para a mente estúpida, a mente que representa essa inconsciência, essa alienação do Real, essa alienação da Verdade. Então, a ignorância representa esse papel importante que é o sofrimento – sofrimento presente em razão dessa ignorância, possível somente nessa mente inconsciente, nessa mente estúpida, nessa não visão clara de pura inteligência.

O fim dessa ilusão, o fim dessa ignorância, o fim dessa mente que é inconsciência, o fim dessa estupidez, é o fim do sofrimento. E eu vou colocar, para você, agora, um pouquinho sobre isso. Vou mostrar a vocês, dentro dessa fala, a impossibilidade de ser natural e sofrer.

Olhem em volta de vocês, e vocês irão perceber que o prazer e a dor são algo presente, que toda a natureza conhece o prazer e a dor, e isso tem uma finalidade natural. Há, por detrás da dor e do prazer, uma finalidade natural. Sem isso, a existência no planeta, a existência de seres sencientes, seres vivos, seria impossível. A natureza do corpo animal, assim como do corpo vegetal, do corpo humano, toda a vida na terra está acontecendo com dor e prazer.

A natureza, por exemplo, está dotada do prazer sexual. A finalidade da natureza é a continuidade das espécies. Mesmo as flores se reproduzem nessa brincadeira prazerosa desse encontro. E tudo se move contribuindo para o prazer.

Quando pequenos insetos, como a borboleta, levam o pólen de uma flor para a outra... Quando os pássaros disseminam as sementes viajando de um lugar para outro... Eles se alimentam, há um prazer em comer, há um prazer nessa saciedade em comer ou beber, e depois os animaizinhos levam essa semente... defecam... cai sobre a terra... Ou seja, há todo um ciclo natural de expressão de vida no planeta acontecendo porque o prazer é possível.

E essa coisa natural, que é a dor, é a busca natural do corpo em tentar se proteger de ser destruído, para continuar por mais tempo, para poder se multiplicar, se duplicar em outros novos corpos através do sexo. Então, é natural na Vida, é natural na Existência, é natural nessa manifestação, a expressão de prazer e dor.

A gente poderia falar muito tempo sobre isso, e eu não sou especialista nessa área. Todos os mecanismos de defesa do corpo estão ligados a essa procura de afastar a dor. Porque a dor representa perigo para essa máquina.

A natureza toda sofre dor e desfruta do prazer. Dormir é um prazer, comer é um prazer, fazer sexo é um prazer, beber é um prazer. Afagos, carícias, massagens... tudo isso representa prazer para o corpo. Para todos os corpos! Os animais adoram isso! As plantas também! Independente das espécies, todos adoram afago, carinho, massagem, comida, bebida, dormida e sexo. Isso é prazer, é algo natural. E todas as espécies também estão se protegendo biologicamente, fisiologicamente e neurologicamente da dor. Isso é natural: evitar a dor e buscar o prazer.

Mas o que acontece com você é um outro movimento. Não é esse movimento natural que, por natureza, é inteligente e verdadeiro. Essa mente inconsciente, egoica – que eu chamei, agora há pouco, de estúpida – está em busca de transformar isso para os seus próprios fins. Então, aquilo que é natural passa a ser artificial, complexo demais para poder ser Real.

Eu quero que você perceba isso comigo: perceba a sua disposição de sofrer, a sua indisposição de aceitar o que é natural e deixar lá como algo natural; perceba o seu desejo de transformar o que é natural em algo para uma finalidade pessoal, individual, particular, para um centro ilusório, para uma entidade ilusória. Essa entidade ilusória, esse centro ilusório é esse sentido de alguém que você acreditar ser.

Tudo o que acontece naturalmente, de forma natural, acontece dentro dessa vontade divina, com uma finalidade na qual a pessoa não tem nenhuma realidade. Ela não é considerada como um ser presente em todo esse fenômeno chamado natureza.

O que eu estou dizendo é que todo o seu sofrimento é uma produção independente de uma suposta entidade imaginária que está criando um mundo à parte. Ninguém nem nada o obriga a sofrer. Todo o seu sofrimento está na ilusão de que você é alguém. Alguém que pode sustentar o prazer e fazer do prazer algo para um preenchimento pessoal.

Sua resistência à dor e sua busca por prazer são o seu sofrimento, e esse sofrimento é uma ilusão só sua. Essa ilusão é só sua, esse sofrimento é só seu. Você está sofrendo porque você criou esse sofrimento. E é somente nesse sentido que Deus tem algo a ver com esse seu sofrimento: no sentido de que o aparecimento desse sofrimento – sustentado por essa autoilusão de ser alguém – é uma graça divina para o sacudir dessa ilusão.

Se você puder aceitar a Vida como ela É –  com dor e prazer, sem qualquer resistência à dor e sem qualquer busca por prazer – então, nesse momento, você deixa de se autoafirmar como uma entidade separada e o sofrimento termina. A vida vai continuar se revelando como prazer e dor, ela vai continuar te ofertando prazer e dor, porque esse é o movimento natural da Existência, esse é o movimento natural da Vida, está na natureza dos corpos desfrutar prazer e vivenciar a dor. No entanto, quando há o fim dessa ilusão de estar presente, configurando para si mesmo um mundo ideal, onde só o prazer é possível – e um prazer que representa um autopreenchimento, que deve ser constante, não falhar nunca – quando há o fim desse mundo, existe o fim dessa estupidez da mente egoica. Quando existe o fim dessa estupidez da mente egoica, existe o fim desse mundo, desse mundo ilusório no qual você acredita ser alguém dentro dele.

Então, sofrer é algo muito estúpido porque é algo muito pessoal!

É isso!


*fala transcrita a partir de um trecho de um Satsang Presencial no Ramanashram Gualberto em Campos do Jordão em dezembro de 2015
 

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