quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Nada jamais aconteceu




É maravilhoso estarmos juntos, neste momento, mais uma vez conversando sobre isso. É uma oportunidade de você ouvir, mais uma vez, essa fala. É bastante estranho, para a mente, ouvir essas falas, porque estamos falando de algo fora de sua investigação. A mente não consegue investigar a mente. Primeiro, essa palavra mente não significa alguma coisa sólida, tal qual você consegue pegar com as mãos, apalpar. Esse assunto, que trabalhamos em Satsang, é algo bastante estranho a esse movimento, ao reconhecimento desse movimento interno, que nós chamamos de mente.

Aqui estamos sempre falando de algumas coisas que criam certo desconforto e desconsertam esse padrão comum sobre o qual temos de pensar, ou seja, o nosso padrão comum, em que nós temos de fazer uso do pensamento e vê-lo acontecendo no processo de análise e de entendimento. Vocês ouvem aqui, por exemplo, que nada jamais aconteceu, como nada jamais foi criado e que toda essa noção de tempo e espaço é somente uma aparência. Isso, por exemplo, é o que soa muito estranho para a mente, para esse movimento do pensamento analisando coisas.

Depois que esse movimento acontece, o pensamento mesmo cria uma conclusão e diz que compreendeu aquele assunto, no entanto, esse assunto, aqui se tratando em Satsang, não é de compreensão, nesse sentido. Quando, aqui, nós usamos a palavra “compreensão”, estamos colocando num sentido completamente diferente do sentido comum, de um mero entendimento intelectual de palavras, algo puramente verbal. Assim, quando, por exemplo, falamos que nada jamais aconteceu, nada jamais foi criado, além da noção de tempo e espaço, tudo isso é somente uma aparência, que significa somente uma aparição.

Estamos, dentro desses encontros, tendo uma aproximação num nível inteiramente diferente da mente. Estamos fazendo uso de algo diferente da mente, para investigar esses assuntos. O problema com a espiritualidade, com os ensinamentos espirituais, é exatamente esse: a tentativa de adquirir um resultado através do entendimento verbal, de palavras. Assim, existe essa coisa constante de errar, sempre o erro de cair nesses, assim chamados, ensinamentos espirituais. Para a mente, não traz qualquer resultado real, mas aí nos deparamos com algo bastante curioso, que é essa crença de um progresso espiritual, é claro, um progresso totalmente imaginário.

Quero que você acompanhe isso com calma, escute e "dê o seu coração" a essa fala, a esse encontro dessa noite, e perceba o que estamos colocando. Estamos lhe trazendo uma fala que nasce de uma dimensão inteiramente diferente e que requer um elemento inteiramente diferente da mente, para apreendermos o significado não verbal, é claro, o significado Real de tudo isso que está sendo aqui investigado. Esses ensinamentos espirituais podem lhe trazer um progresso totalmente imaginário para sua autoimagem e, assim, poder "progredir", "evoluir", bastante. Assim, depois de certo tempo, nós veremos uma bela autoimagem de um "ser muito espiritual". A mente adora isso, mas, no fundo, todos sabem, ou sentem interiormente, que tudo isso é só uma aparência, uma grande fraude. No entanto, todos ignoram isso, isso é completamente ignorado,  e essa hipocrisia termina sendo aceita de forma generalizada. Então, todos admiram, aplaudem, seguram e sustentam essa autoimagem ilustre de ser "alguém espiritual", "evoluído"; de ser alguém que alcançou um degrau elevado de compreensão da Verdade, certo conhecimento, algumas experiências místicas ou espirituais, um modo de falar sereno e calmo. A aparência externa é de uma crença muito forte em tudo isso.

A dificuldade é que, aqui, nós não estamos interessados em nada disso; estamos abrindo mão de toda essa coisa, não queremos nada disso. Não queremos ignorar isso, não queremos nos agarrar a mais essa ilusão. Aquele que está, verdadeiramente, "queimando" pela Verdade, que está, realmente, queimando pela Realidade, não quer nada menos que Isto. Assim, Satsang é esse momento, é o momento de investigarmos isso.

Aqui, Este que vos fala, não se sente um mensageiro – isso é uma grande bobagem. A ideia de um "mensageiro, que tem uma mensagem ou carrega uma mensagem”, está ligada, exatamente, a essa autoimagem, algo puramente egocêntrico. Aqui estamos, apenas, sem qualquer escolha, nessa pura alegria, compartilhando com vocês. O sol não tem uma escolha de realizar um extraordinário trabalho, quando ele brilha e aquece o planeta Terra. Portanto, este momento é algo, também, acontecendo dessa forma. Estamos compartilhando, com você, esta Presença, este Silêncio, esta Consciência e esse experimentar direto, sem um experimentador, um autor, por trás disso. A Vida é algo espontâneo, é algo que está sempre presente, que acontece sem passado, sem presente, sem futuro; algo sem uma causa, que não tem começo, nem fim. É evidente que estamos falando dessa Vida Natural, assim como é natural o sol brilhar e aquecer, realizando o seu trabalho, e Você, em sua Natureza Real, em sua Natureza Verdadeira. Quando Você assume Isso, esse compartilhar se torna muito natural.

Aqui, nesse momento, estou falando com você sobre algo muito claro, muito óbvio, muito Real, não de algo imaginário, pois a imaginação não tem qualquer realidade para um Ser. Essa realidade da imaginação não é Real. Aquilo que nós chamamos de mente é somente o movimento de pensamentos, que são imagens se movendo – aí está a imaginação. Você se perde nessa imaginação, confunde-se com ela, perdendo-se de si mesma, de si mesmo, e , assim, você se perde na ilusão de "ser alguém". Não importa se alguém evolui, se amplia, cresce, realiza um grande resultado de progresso espiritual, pois isto é algo imaginário, é uma autoimagem espiritual, porque é uma fraude.

Estamos falando, nesses encontros, de “Ser Natural”, como o sol faz, sem escolhas, ao brilhar e aquecer, realizando o seu trabalho. Essa é a Vida espontânea, é a Vida Natural, é a Vida do seu Ser, de sua Natureza Divina, algo sem nascimento, sem morte, sem passado e sem futuro. Esse “eu”, essa “pessoa”, esse sentido de "ser alguém", é uma ficção completa, pura resistência à Vida, como ela se apresenta, e isso é ignorância; a ilusão é essa ignorância. Na ilusão está o medo, o sofrimento, e está presente todo esse tipo de coisas, que esse suposto "alguém" está fazendo, enquanto que a Verdade está livre de tudo isso. Se isto não for reconhecido, não for apreendido no coração, e se não vier esse reconhecimento como Consciência, como Presença, então é imperativo que todos os conflitos,  todo o sofrimento e medo continuem. Não há como deixar de ser imperativo, nenhuma dessas coisas, enquanto a ilusão estiver reinando, essa ilusão da ignorância estiver prevalecendo.

Assim, dentro dessa ilusão, a insistência de que deve haver algo para se fazer permanece, de que esse “eu” possa fazer algo, nessa crença de causa e efeito, para determinada ação produzir um efeito, e isso está dentro do sentido de estar separado, dessa ilusão de se sentir separado.

Participante: Qual o elemento predominante nessa percepção?

Mestre Gualberto: É a ilusão da ignorância e essa ilusão da separatividade. O elemento que predomina é essa identificação equivocada com os pensamentos, com as histórias que o pensamento conta. Mas, quando você pergunta qual é o elemento que predomina nessa percepção do “Acordar”, se é essa sua pergunta, a resposta é: não há um elemento aí. O Acordar é a Consciência dessa Presença, e isso não é "o" elemento; isso é "um" elemento de percepção. A Consciência dessa Presença é a realidade na qual todos os elementos, objetos e estados aparecem, como o estado de sonho, de sono e de vigília, os pensamentos, as emoções, as sensações, os sentimentos. A Consciência não é um elemento separado. Agora mesmo, essa Consciência torna possível essa fala, esse ouvir, esse escrever, e qualquer pensamento, sensação ou sentimento. Se você não se identifica com essa experiência, se abandona a ilusão de uma identidade presente nessa experiência, Você já É a própria Consciência, que não muda. Você, em seu Ser, não está "dormindo"! Você, em sua Natureza Real, em sua Natureza Verdadeira, é essa Consciência e Ela não dorme.

Tudo isso fica muito teórico aqui, muito verbal. Venham ao Satsang presencial. Ok?

Vamos ficar por aqui, essa noite. Namastê!


*Transcrito a partir de um encontro online via Paltalk no dia 16 de Dezembro de 2015 

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