segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

O Silêncio é o mais alto ensino


Aqueles que se aproximam destes encontros pela primeira, segunda vez, isto pode durar algum tempo ainda. Para alguns, é fácil a possibilidade de se desapontarem com o que, a princípio, escutam nessas falas, porque elas não servem para confirmar nossas crenças. A natureza da mente é carregar suas crenças, uma quantidade enorme de ideias sobre tudo, inclusive sobre a questão do despertar, ou iluminação, e por isso é muito fácil vocês logo se desapontarem, sentirem-se bastante estranhos quando escutam essas falas pela primeira vez. Isto acontece porque é necessário que você, que aqui está, neste encontro, permaneça em silêncio, pois sem um certo silêncio você não consegue nos ouvir, e a natureza da mente é fazer barulho; ela faz barulho o tempo todo. 

A Verdade é algo que sempre se revela ao Silêncio! O Silêncio é algo presente na Verdade, que está presente neste Silêncio. A princípio, quando a mente "se aproxima" desses encontros, aproxima-se com todo o seu barulho, com todas as suas opiniões, ideias e crenças, então é natural que você veja isso de forma muito confusa. Isso pode lhe decepcionar a princípio. Na verdade, essa fala irá lhe parecer algo bastante confuso, então, sua decepção, frustração, já começa a acontecer aí. A natureza da Verdade, a natureza do que aqui nós chamamos de Consciência, ou Presença, ou Realidade, é aquilo que pode ser ouvido, percebido e vivenciado no silêncio. O Silêncio é o mais alto ensino, e poucos são aqueles que têm uma certa facilidade, já em um encontro como este, de acompanhar não intelectualmente. O fato é que não dá para acompanhar intelectualmente essa fala, que não está dizendo nada para o intelecto, então poucos são aqueles que conseguem acompanhar uma fala como essa, nesse silêncio, porque essa é a forma de a acompanharmos; intelectualmente é impossível.  

Nós estamos falando da natureza da Consciência, da Realidade, da Verdade, não dizendo exatamente o que Ela é. Nessas falas nós investigamos aquilo que nos impede de reconhecer Isso, essa Realidade, essa Verdade, a Natureza Real de cada um de nós. Portanto, precisamos de um certo silêncio para termos uma aproximação disso, e poucos de nós estão prontos para aprender o significado não verbal, não intelectual, disso. Assim, quando falamos sobre Consciência, Presença, Verdade, não estamos procurando encontrar uma definição para Isso, porque Isso, de fato, não pode ser definido, e, por não poder ser definido, não pode ser entendido ou explicado verbalmente.  O que eu posso dizer sobre a Verdade, a Consciência, a Presença, sobre esta realidade, para termos alguma aproximação disso, é compreender que essa Consciência é Aquilo no qual tudo está aparecendo - essa é a única aproximação que podemos ter disso. Tudo aquilo que você experimenta, vivencia, percebe, tudo o que lhe acontece, com pensamentos, emoções ou sensações, é algo presente nessa Consciência, nessa Verdade, nessa Realidade, nesta Presença. 

Outra coisa mais complicada ainda é compreender que isso aparece nessa Presença, nessa Consciência, mas tudo isso é da natureza da Presença, da Consciência, não é algo que aparece e desaparece sem ter uma Natureza Real por trás disso, pois essa natureza real ainda é a Presença, a Consciência. É o Espaço onde essas aparições acontecem que, aqui, nós chamamos de Presença, de Consciência. Mas, ao mesmo tempo, essas aparições também fazem parte da Consciência, e não estão separadas desse Espaço. Porém, há a ilusão presente de um "alguém" que se separa dessa experiência; a ilusão de que tem "alguém" por detrás do pensamento e sentimento aparecendo. Assim, todas  as nossas experiência, nessa ilusão, assumem um caráter pessoal, nós nos confundimos com isso, enquanto que, na verdade, tudo está acontecendo nessa Presença, nessa Consciência, nessa Verdade, nessa Realidade, e Isso é impessoal;  Isso é você em sua Natureza Real, em sua natureza verdadeira. 

O seu nome e a sua história, tudo isso ligado à memória, a um conjunto de pensamentos que podem ser relatados, descritos, escritos, falados, nada disso é você, porque você permanece em seu Ser, como Presença, Consciência, Realidade... essa única realidade. Seu Estado Natural é o estado livre dessa "pessoa", que você acredita ser, com todos os seus conflitos, dilemas e problemas; com todo o sofrimento e medo, presentes nessa identidade, nessa suposta e ilusória identidade. Isto, também, é só uma aparição, com a qual você se confunde, por uma questão de condicionamento, programação, e pela falta de um trabalho real em si mesmo, naturalmente, diante de um Mestre vivo. 

Não dá para realizar Isso, ouvindo falas como essas, ou mesmo lendo textos de falas, pois assim só fica a nível intelectual e verbal,  e isto não constitui um trabalho, que significa uma destruição completa dessa programação. É preciso investigar a ilusão, e investigar a ilusão é chegar à natureza da Consciência, da Verdade... É chegar a essa Natureza Real. Reparem, por exemplo, um pensamento quando aparece: ele fica por um tempo, vai embora e dá lugar a outro pensamento, mas há algo em você que não muda. Reaparece um sentimento, ele está presente, vai embora e outro sentimento aparece, mas há algo em você que não muda, que fica como um espaço presente. Esse Espaço presente pode ser para um pensamento, sentimento, ou uma série de sentimentos em sequência, também; todos eles aparecendo nesse Espaço, nessa dimensão. 

Se você fecha os seus olhos, agora, percebe essa voz chegando até você. É possível que um pensamento apareça, também, nesse instante, mas tanto essa voz quanto este pensamento chegando até você estão acontecendo nesse mesmo Espaço. A voz para, o pensamento vai embora e este Espaço aí permanece. A questão é que você, há muito tempo, vem se confundindo com essas aparições e se esqueceu desse imutável Espaço, desse imutável terreno, desse lugar aí que não muda; está adormecido, identificado com o corpo e com a mente. Nesses momentos de Satsang, você é convidado ao reconhecimento desse Espaço, à não-identificação com essas aparições, para permanecer Naquilo onde as aparições surgem, vem e vão. Reparem que essa atenção, enquanto você me escuta nesse momento, está agora aqui, mas ela logo se perde, quando se agarra a um pensamento; ela viaja com esse pensamento e abandona essa fala; e então, sua atenção se dispersa.

A atenção funciona assim:  uma vez identificado com o pensamento, você "desaparece" nele; toda a sua atenção fica perdida, identificada com esse pensamento.  O que está acontecendo aqui, nesse instante, neste presente momento, não é percebido, porque lá vai você, viajando nessa atenção, com esse pensamento e com essa memória, que, algumas vezes, está carregada de sentimentos, de emoções. É aí que está o sentido de uma identidade presente, como uma identidade separada, que se confunde com pensamentos e sentimentos, sem nenhuma atenção a esse instante presente, aquilo que aqui está, agora. O que está aqui, agora, é sempre esse Espaço, e você se perde Dele para se confundir com o passado, que é memória, ou com o futuro, que é pensamento, nesse formato de sonho, de imaginação.

Em Satsang, eu convido você a abandonar toda essa limitação de ser fulana de tal, fulano de tal, seu nome e a sua história, e só então você, com um nome e uma história, entra em colapso, desaparece, como agora mesmo, que só tem o ouvir, não é "alguém" ouvindo; se um pensamento acontece agora aí, é só um pensamento, não tem "alguém"  pensando.  Se não se confunde com este ouvir, ou com este pensamento, você permanece, agora, presente, como Consciência, como pura atenção, e isto é um colapso para essa identidade separada, é um castelo de cartas que desaba, desaparece. Assim, você tem por alguns segundos, ou poucos minutos, o sabor do seu Estado Natural, um estado livre do medo, do sofrimento, de conflitos, porque você está livre do tempo - essa é a sua Natureza Real. 

Quando você vai ao Guru, quando está diante de um Mestre vivo, o poder de Sua Presença, a Graça de Sua Presença, lhe traz essa Consciência, também essa Presença,  essa real constatação do que de fato Você É, quando essa "pessoa" não está mais aí; não está mais presente o Carlos, ou o João, ou a Maria, ou o Roberto... esse nome que deram a você. Isso explica essa misteriosa atração, que você tem, pela Presença da Graça na forma do Guru, porque, diante da Presença do Guru, você desaparece. Curiosamente, o Guru, também, desaparece, e fica essa única Presença, sem nome, sem forma, sem história, sem passado, sem futuro. Também, fica claro que a Paz, a Liberdade, a Felicidade, está presente quando você não está presente, quando o "mim", o "eu", essa "pessoa", com um nome e uma história, não está presente. 

Repare que você é o conflito. Sem você, está tudo bem, sempre esteve tudo bem, mas quando você aparece o mundo é duro, é complicado, hostil, pesado, e é este mundo pesado, hostil e difícil que você chama de "minha vida". Você deveria antes dizer: minha ilusão, minha crença, minha limitada e definida experiência de "pessoa", egoica e separatista, que na verdade é uma ilusão, uma autocriação, um "eu" imaginário em um mundo imaginário, em um medo imaginário e em um conflito imaginário. 

Nós não podemos verbalizar muito Isso, não há como. É necessário que você esteja em silêncio para perceber isso que estamos dizendo, não existe nenhuma outra liberdade, nenhuma outra paz, nenhum outro amor, nenhuma outra felicidade, além desta Presença, desta Consciência e desta Verdade, que é Você em sua Natureza Real. Assim, não está fora este amor e esta paz que você procura, e todo o seu desejo por isso, ou qualquer outra coisa, é só mais uma ilusão desse sentido de "alguém", que você acredita ser. É isso que nós chamamos de "estado de sono"; por isso criaram essa expressão "acordado", "fulano é acordado", e não é assim. "Acordar" é possível, mas fulano não acorda; até hoje ninguém acordou em toda a história humana, ninguém foi capaz de acordar. "Acordar"  é possível, mas ninguém nunca acordou, e quando "o acordar" acontece aí a Maria desaparece, o Roberto desaparece, o Robson desaparece; não tem "alguém".

Eu sei que ouvir isto é estranho, porque vocês estão aqui para ser salvos, querem se livrar do sofrimento, e eu estou dizendo que isso é impossível. O seu problema não é o sofrimento, mas sim acreditar que você é "alguém" que sofre, e quando a ilusão de "ser alguém" que sofre desaparece, este "alguém" desaparece, junto. Então, o sofrimento não é o problema, e sim a ilusão de "ser alguém" nessa ilusão da procura de paz, liberdade, felicidade, e assim por diante. 

*transcrito a partir de uma fala em um encontro online no dia 02 de Dezembro de 2015


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