quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Deus, a Mãe Divina.




Qual é a primeira palavra que vem à mente da criança quando ela está em perigo ou com alguma necessidade, por menor que seja? “Mamãe!” E por que mamãe? Porque “mãe” lembra proteção. Quando você é adulto e está em perigo, não importa quanto você tenha de altura, ou sua idade, você acaba clamando pela mãe, e não pelo pai. Pai não é uma figura muito boa, mas a mãe é a figura da bondade, da proteção. Aqui, no Ocidente, Deus é o Pai; no Oriente, Deus é a Mãe Divina. Para nós, a figura da mãe é mais amada do que a figura do pai, e eu tenho para mim que a imagem da mãe simboliza mais essa Presença Divina.

O Guru é a mãe, não é o pai. No Guru – que é Deus, que é a figura de mãe – você vê proteção e origem. A criança nasce da mãe. Dizem que é desconfortável o útero, aquele espaço apertado no qual você já esteve, no qual esse corpo aí já esteve. Mas, embora desconfortável, tudo que você busca ainda é essa escuridão, essa proteção, esse acolhimento, na figura da mãe. Parece que você quer voltar para a sua origem, para o lugar de onde você veio, para a fonte, para casa. Deus, mãe, útero... É isso!

Numa relação sexual, um quer entrar no outro, se dissolver, se diluir, se fundir no outro, voltar de novo para a Fonte. E no orgasmo acontece isso: ambos desaparecem no vazio, na escuridão. Na natureza, você vê isso em toda parte – esse desejo de se fundir, de se unificar, de se tornar um. Na ciência, você também vê isso. Em todo processo químico existe esse casamento, essa busca de fundição, de diluição, de totalidade, desse “um” desaparecer no “outro”, que é o Todo.

Todo símbolo masculino é agressivo; toda imagem feminina é receptiva, é não violenta, é não agressiva, é a imagem divina! Quando você olha para uma flor, você lembra de um menino ou de uma menina? Quando você olha para uma rosa, uma orquídea, ou um jasmim, lembra do lado feminino da existência ou do masculino? A delicadeza, a não violência, a não força, a vulnerabilidade, a entrega, toda ela é feminina. Na parábola de Jesus, ele fala de dez virgens. Dez! Numa receptividade total para um noivo. O sentido do “eu” encontra na visão do Todo, diante do Todo, a sua pequenez, sua insuficiência, sua incapacidade. O Todo é tão receptivo! E esse “um”, esse “eu”, perdido em todo esse oceano, nesse movimento inquieto, agressivo e violento, sem descanso! Quando você olha para uma rosa, uma margarida, uma orquídea, você se sente inquieto ou descansa? Quando esse movimento inquieto desaparece, esse movimento do “um” desaparece no Todo, estamos diante do descanso. Por isso que o maior símbolo ainda é o feminino, porque é aquele que recebe, que acolhe, que abraça, que está aberto. É o colo da mãe, é o útero da mulher, é a Fonte, é o encontro, e, com esse encontro, a fundição, a diluição no Todo, o descanso.

O masculino é agressivo, é violento. Todos os símbolos que a civilização construiu do masculino são assim, porque retratam muito bem esse movimento de atingir, de tocar, de ferir. A ponta da lança é fina, é um objeto perfurante; uma bala de revólver tem uma ponta fina, é um objeto perfurante; um prego tem uma ponta fina, é um objeto perfurante. Tudo isso são símbolos masculinos, aquilo que lembra furar, penetrar, como o pênis, como um foguete que vai para o espaço, como o avião que corta o ar; ele precisa daquele formato. O carro de corrida também precisa de um formato para não se perder, para se manter junto ao solo. Ele tem que ter uma aerodinâmica capaz de mantê-lo junto ao solo porque ele está furando o ar, senão ele perde a direção. No Ego, você é agressivo, é violento, é a imagem da procura pelo Todo, desse “um” procurando o Todo.
 
Consciência termina com “a”; ego com “o”. Consciência é feminino; ego é masculino. Ego quer atingir algum objetivo; Consciência está quieta, não quer atingir nada, não quer alcançar nada. Ego é invasivo como um objeto cirúrgico, agressivo como um objeto usado numa cirurgia, que tem que invadir, que tem que cortar. Em Satsang, o masculino desaparece no feminino, a parte desaparece no Todo, o individual desaparece no não individual. O olhar que se dirige descansa quando encontra a flor. Toda essa inquietude da mente desaparece quando a Consciência é contemplada. Definitivamente, Ser é o que há de mais feminino, e vocês não compreenderam a importância da entrega, da não resistência, da não luta, da não busca, do ficar quieto... Não compreenderam ainda. Enquanto isso, a resistência continua, a busca continua, o movimento continua. Eu falo muito sobre isso, mas vocês ainda não compreenderam a importância de parar, de não resistir, de não lutar, de se render. Quando há uma rendição, nesta rendição o Todo está presente. Quando não há movimento, a Consciência está presente. Quando não há busca, tudo fica quieto.

O desejo é masculino, o poder é masculino, a força é masculina, esse movimento do pensamento é masculino. Quando não há pensamento, de olhos abertos ou de olhos fechados, você percebe que está na escuridão, na Fonte, que o masculino voltou para casa, está no útero, na Consciência, na Presença, que termina com “a” também. Deus é feminino! Por isso, as escrituras de todos os tempos, em toda a história humana, que nasceram no coração dos Sábios, falam deste encontro com o Divino como um caso de fundição, de amor, de romance, onde dois não são dois, onde o masculino desaparece no feminino, e o feminino é o símbolo dessa Fonte, dessa origem, desse útero, do qual todas as aparições são filhas e filhos. Nessas aparições, o movimento dual continua, o movimento masculino e feminino continua. É a forma dessa Consciência, dessa Presença, brincar de ser mãe, mãe de filhos. Mãe: origem de aparições.

Presença termina com “a”, Consciência, vimos agora, termina com “a”, e a Verdade também é feminina.

O coração do devoto clama por Deus como uma criança grita pela sua mãe. O discípulo confia em seu Guru como o devoto confia em Deus e a criança confia na mãe. O devoto não quer discutir com Deus e a criança não quer discutir com a mãe; o discípulo não pode discutir com o Guru – a “parte” não pode brigar com o Todo. Toda essa agressão, toda essa resistência, toda essa violência, todo esse movimento precisa cair, desaparecer. A mãe sabe disso, Deus sabe disso, o Guru sabe disso.

Participante: Mestre, quando você diz “nessa escuridão, de olhos fechados ou abertos, nesse útero”, e diz que é Consciência, isso é só uma figura de linguagem ou é de fato isso?

Mestre: A origem, a Fonte, a base de todas as aparições não aparece. Chame isso de escuridão ou luz. O objeto, para ser visto, precisa de um observador e de uma luz incidente sobre ele, uma separação.  A dor, para ser sentida, precisa daquele que dói e da dor: uma separação. A escuridão precisa da luz para poder ser escuridão.

Fora da dualidade está a Fonte, o Indizível, o Incomparável, o Inominável, o não contrastável. 

Participante: Aqueles que estudam os corpos humanos e da maioria dos animais dizem que o elemento masculino e o elemento feminino são muito característicos, que essa dualidade é muito característica. Então, tem uma parte do sistema nervoso que está envolvido com essa parte do furar, do fazer, do agir, que é o Sistema Simpático, e uma outra parte que está envolvida com o absorver, refazer, descansar, que é o Sistema Parassimpático. E há o seu correspondente no cérebro: o hemisfério direito é de um jeito e o esquerdo é de outro; um é mais intuitivo, não racional, e o outro é mais racional, agressivo, e tal... Bate muito com essa fala que você fez agora. E você sempre fala que o trabalho é no corpo, porque o Ser já é o Ser. Então, a minha pergunta é: por que esses que estudam tanto isso, que ficam trabalhando tanto essa integração do direito com o esquerdo, do feminino com o masculino, trabalhando mantra, fazendo pranayama, e etc., não têm resultado algum, enquanto que, através de você, que não faz nada disso, essa Consciência faz tudo e opera? O que se passa aqui, na concepção desse médico, é que é como se isso fosse de dentro para fora; que, na verdade, não precisa saber nada sobre isso que todos ficam querendo operar, fazendo esse casamento do feminino com o masculino, pois você, mesmo sem saber nada disso, faz isso acontecer de uma maneira muito natural.

Mestre: A chave para isso tudo, a minha chave, é ser cego, surdo e mudo diante do Inalcançável, do Inatingível. A minha chave – e eu lhe recomendo fazer uso dela – é a fé. Isso o faz cego, surdo e mudo, também, diante do Inominável, do Desconhecido. Fica muito mais rápido abrir esse cofre assim, do que procurar explosivos, ir atrás deles, aprender a manuseá-los... Vocês querem abrir esse cofre com explosivos, mas precisam se tornar especialistas antes, estudar muito, durante muito tempo. Precisam primeiro encontrar o cofre, em seguida encontrar a porta do cofre, e depois saber como posicionar esses explosivos; conhecer o tipo e a quantidade específica para destruir só o cofre ou a porta dele, para não destruir o que está dentro. Enfim, demora muito tempo!

Vocês passam muito tempo estudando a receita, mas comer o bolo preenche muito mais, e é muito mais rápido! Comer o bolo alimenta, nutre, e isso não requer nenhum estudo. Nem de talheres especiais você precisa, bastam a mão e a boca. Até sem faca você come um bolo! Reparem na criança: ela dispensa a faca e o garfo! É instintivo colocar a mão no bolo e o bolo na boca. Contudo, depois que você está muito educado, você tem que usar guardanapo, tem que colocar o garfo do lado do prato, a faca do outro, tem que fazer o corte certo... Essas coisas da civilização, essas coisas civilizadas das quais a mente se orgulha. 

Você quer ter acesso a esse cofre fazendo tudo isso, dando todo tipo de jeito, se especializando de todas as formas, para explodi-lo. Relaxe, porque a porta desse cofre já está aberta e o conteúdo dele já está exposto quando você tem fé, quando você sabe que está lidando com algo maior, quando você sente isso aí dentro, que basta se entregar, se render, e dizer: “eu não sei”; como a criança que grita pela mãe; como o devoto que olha para Deus e diz: “Tu és tudo para mim”; como o discípulo que olha para o Guru e não pergunta: “você é verdadeiro ou é falso? Posso confiar em você ou não?”

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*Trecho de uma fala ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em Setembro de 2015

 

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