quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Bem-aventurados os simples de coração




Você fica nesta permanente procura pela felicidade em coisas do lado de fora, enquanto há uma coisa tão natural presente... Basta ficar quieto... Há esse insondável Oceano, perene de felicidade – que é o seu coração – e você está afastado disto, ao afastar-se para o mundo dos pensamentos, das imagens, das sensações, da experiência e/ou do conhecimento, dos sentimentos. Querer sentir-se bem e prazerosamente preenchido com uma sensação, ou intelectualmente à vontade com um conjunto de ideias, de conclusões, neste saber, conhecer, seja a satisfação prazerosa no conhecimento ou do sentimento, é o velho afastamento desse Oceano de sondagem, de Graça e silêncio, de verdade e quietude, de amor e paz, que é o coração.  

É como na história da centopeia e do sapo: a centopeia caminha e o sapo pula, salta. O sapo salta, pula e não pensa sobre isso. Mas, no caso da centopeia, ela se preocupa em saber qual é a primeira perna que move, quando caminha, e fica paralisada. Parar para pensar sobre a vida paralisa você no medo, nesse afastamento da beatitude e desta liberdade, que é ser natural. Saltar ou caminhar, e correr ou andar não é o ponto; até o rastejar não é o ponto. Parar não é o ponto, mas sim estar paralisado no medo, nesse afastamento de si mesmo, da verdade sobre si mesmo. Penso que isso tudo é bem a exigência da mente egoica.

Cristo um dia disse: bem-aventurados os simples do coração, que eles verão a Deus. Deixamos esta simplicidade do coração para viver nesta complexidade da cabeça. E aí tudo que vemos é o susto, o terror, o pavor, o medo, o sentido de uma existência separada: eu, Deus e o mundo. Então, se eu estou aqui, o mundo tem que estar do lado de fora. Se eu estou aqui eu tenho que desvendar o mistério da vida do lado de fora, tenho que saber o porquê das coisas, e tem que haver uma explicação para tudo isso. Tudo porque "eu estou aqui", como a centopeia pensando qual é a primeira perna que usa, quando começa a caminhar, e não dá um só passo, fica paralisada. Como está isso que digo para vocês, aí?

Participante: Mestre estava aqui comentando que, quando estamos perto de você, parece que as coisas que acontecem com a Sangha são uma brincadeira muito divertida. E, quando estou longe daqui, ainda parece uma brincadeira; o sofrimento aparece, mas é menos real.

Mestre: Por que o sofrimento aparece?

Participante: Porque tem "alguém" sofrendo.

Mestre: E por que tem alguém sofrendo? E o que faz esse "alguém" aparecer?

Participante: A importância que se dá a esse "alguém".

Mestre: A importância que você dá a esse "alguém" faz com que o sofrimento continue aparecendo para você.

Participante: ­"Alguém" que insiste muito em existir.

Mestre: Sim, amor! "Alguém" que insiste muito em existir. Como é que esse "alguém", que insiste tanto em existir, que é esse senso de autoimportância, aparece? Como é que a gente faz isso na prática? Ajudem-me, ou vocês não sabem? Deem-me um exemplo?

Participantes: Querer coisas, sentir que está no controle, resistir ao que está acontecendo...

Mestre: E como se resiste ao que está acontecendo?

Participante: Quando a gente quer mudar.

Mestre: E onde aparece essa ideia de possibilidade de mudar?

Participante: No pensamento.

Mestre: E o pensamento está fazendo o que, aí?

Participante: Criando, imaginando possibilidades de alterar o que é.

Mestre: Sei. Alterar o que é não é isso? Viu como surgiu o sentido de separação? A gente fala assim de ego como se fosse uma coisa abstrata. O ego é só uma invenção, realmente – uma invenção social. A sociedade criou o ego. A sociedade é o ego criado pelo pensamento, essa imaginação de ser mais do que Deus, ser mais do que aquilo que se apresenta, exigir mais do que a vida é; pura arrogância.

Participante: Negar o Todo...

Mestre: Isso! Negar o Todo. Você nega o Todo, que se derrama como uma explosão e você não aceita. Quando não aceita, você conflita. Quando conflita, você sofre. Você está fazendo isso tudo porque "você é muito importante", "é maior do que Deus"; é o satã, o diabo; é aquele que subiu as mais altas nuvens e disse: serei semelhante ao altíssimo – é o satanás. O ego é a figura do satã. Resistência, pura resistência! Resistência ao que está acontecendo. O vento está soprando agora, e isso é assim, não importa o volume de pensamentos que você tenha sobre isso. O fato é esse: o vento está soprando, e isso é impensável, indizível, indescritível. O fato do vento está soprando é o que é.

Por que surge o conflito de quando sou eu e quando é a Consciência? Por que esse conflito surge? Não tem necessidade desse conflito. Se o vento está soprando, está frio, e tem uma porta, abra-a e passe. Não pense sobre, pois, se você pensou sobre, já alterou todo o natural. Aí você diz: "mas eu quero acertar". Então, eu digo: você não tem que acertar, não tem que errar, porque  a ação não é sua. A porta foi fechada, mas quem disse que foi você? Volto ao ponto que falei de manhã: o sentir é real e o pensamento é uma ilusão. O sentir é real, porém o que a mente vai fazer com esse sentir é outra história. Ele é real para aquele instante e para aquela situação, mas, em última instância, não é real. Isso é só uma aparição, também; uma aparição fisiológica, biológica, neural. O pensamento é que fica, depois, construindo uma identidade sobre aquela experiência!

*Transcrito de uma fala de um encontro na cidade de Recife em Agosto de 2015 

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