quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A meditação é a arte de olhar para o coração


Satsang significa encontro com o que É; se encontrar, momento a momento, com o que É. Satsang é ficar com o que É, momento a momento, com nenhuma distração; não se ocupar com nenhuma ilusão, com nenhuma crença, com nenhum conceito, com nenhum pensamento, com nenhuma imagem, com nenhum apego, com nenhuma aversão, com nenhum movimento do desejo, por mais brando, leve e sutil que seja. Isso é Satsang. Esse é o trabalho... Esse é o trabalho. É preciso essa alerteza, essa prontidão, essa devoção à Verdade, para não se perder nos caprichos do pensamento, nos caprichos da imaginação, nos caprichos dessas flutuações mentais. É preciso estar sempre acordado, nunca dormir, e, quando dormir, dormir acordado; quando sonhar, sonhar acordado; quando caminhar, caminhar acordado; quando falar, falar acordado; quando comer, comer acordado. Nunca dormir! Aí, então, a sua estabilidade será maior que a estabilidade daquela rocha na montanha!  

Aí, você me pergunta: Onde entra a história da minha vida? Eu respondo: Entra só no lugar que precisa estar; ela está no lugar que precisa estar ou está assumindo a sua Vida, assumindo o centro do seu Ser, da Consciência que, por natureza, é inabalável; que, por natureza, está além da história, dessa história da "sua" vida... Todos terão uma história, até mesmo Buda teve uma história, Jesus teve uma história, Ramana Marashi teve uma história, mas é uma história que outros contaram sobre eles, o que outros contam sobre ele! Seu pai pode ter uma história sua para contar, bem como sua mãe, sua esposa, seu filho, mas eu lhe pergunto: - Você, tem uma história sua para contar? Ou a sua história para contar é a história que está no lugar em que essa história deve estar para você? A história da sua vida tem que estar no lugar em que ela deve estar, então, termina que você não tem nenhuma história para contar, porque você está além da história da sua vida. 

Daqui a um tempo, outros contarão, também, a história de Marcos Gualberto, e cada um terá a sua versão, pois a história é sempre assim. Quando você se confunde com a história, você tira a história do lugar dela, a traz para o centro do seu Ser, da sua Consciência, da sua Real Vida. Você era criança, tornou-se adolescente, jovem e agora é adulto, caminhando para a velhice, mas em todos esses períodos nenhuma dessas fases de história, que podem ser contadas por outros, em nenhum momento, modificou aquilo que você É, além da história. Repare que você carrega um sentimento aí dentro que não mudou. Mesmo passando por todas essas fases, lá no fundo, você sente que permanece sendo a mesma, mas o pensamento tem histórias sobre essa "mesma". Eu não falo dessa história, eu falo desse Sentimento, que não é um sentimento, é um sentir interno, bem claro, de que algo aí não mudou. Algo não mudou, nunca muda, jamais mudará, e Isso que não muda é Satsang! 

Isso é como o fio de um colar de pérolas, que tem que juntar as pérolas, para você ter uma sequência nessa forma de colar. Porém, se elas se espalham a forma de colar se perde, ficando como cartas embaralhadas; são pérolas espaçadas, mas o fio continua único

Há algo, que olha através desses olhos, que permanece imutável, como o fio inabalável, inatingível, intocável, que não pode ser ferido; algo como aquela rocha sobre a montanha, até mais inabalável que ela! Vá para esse lugar! O lugar além da história, não o lugar em que a história está acontecendo, que vem acontecendo. Isso é curioso, também, porque, quando você olha para alguém com o colar, você não atenta para aquilo que importa, pois nunca vê o fio, vê as pérolas. Quando você olha para uma mulher de brinco, olha para a forma do brinco, se é grande, ou pequeno, mas não se importa do que ele é feito. O ladrão, porém, não está preocupado com a forma do seu brinco, mas com o material com que ele é feito; para o ladrão o que importa é se o brinco é de ouro e não a forma que ele tem! Mas você está preocupado com a forma e não com o material com que ele é feito. Enquanto o Sábio está olhando para a essência das coisas, você está olhando para a aparência das coisas. O olhar do Sábio está treinado para o coração, para o cerne das aparições. O olhar do tolo está voltado para a exterioridade, para as aparições, para as formas; não vê o coração, só vê o corpo.  

Sabem o que é meditação? É a arte de olhar para o coração, para o cerne de todas as aparições. Meditação é a arte de estar encantado com a Fonte; não com o riacho, mas com a fonte!
Eu sei que o riacho é bonito, quando ele desce da montanha, sob a luz do sol, entre os seixos, deslizando, desviando-se das pedras pequenas e das rochas maiores.  Eu sei que é bonito, mas vá para a fonte daquele riacho, porque lá está o começo de tudo. Na fonte começa tudo, todas as formas podem ser possíveis, tudo é possível, desde o pequeno veio até o amplo e caudaloso rio chegando no mar! Lá na fonte está o começo de tudo! Quando você vem ver-me, está diante da Fonte! Eu trago você para esse ponto; pego em suas mãos e o trago para esse lugar, para esse Espaço, e lhe digo: “olhe para isso, menino, olhe para a Fonte!”

A Fonte é o coração de todas as coisas, de todas as aparições, de todas as formas que logo se deformam, para se transformarem em novas formas, que logo vão se deformar também, mas o coração, cego de tudo, permanece como a Fonte.

O Silêncio é a Fonte do som, da música, do sussurro, da fala alta! Tudo isso está mudando, mas o Silêncio não! O Silêncio permanece em silêncio! O som pode ser musical, estridente; pode ser a voz humana, o gorjear de pássaros, gritos, sussurros, mas o Silêncio não muda! É nesse Silêncio que aparecem os sons variados, diversos, imutáveis. A Fonte é sempre uma, mas os riachos, os rios e os mares podem ser inúmeros. A água é a Fonte, e as formas são rios, lagos, riachos, mares. Esses dias comigo, são dias de olhar para a Fonte! Eu só falo da Fonte! Eu só compartilho a Fonte! Eu só trato da Fonte, Daquilo que sustenta as aparições. 

Eu não sei para você, mas para mim, desde criança, a palavra Deus é uma palavra muito doce de se ouvir: Deus! Deus sempre foi uma Coisa muito doce, Cristo sempre foi uma palavra muito doce, e é Disso que eu trato. Quando Deus apareceu a Moisés na montanha disse: “Vai lá e fale”! Moisés questionou: “Como eu posso sair daqui, chegar diante de Faraó? Eu vou falar o que, vou dizer o que para ele? Imagine... enfrentar Faraó... Vou dizer o que para o Faraó?” Então, Deus lhe disse: "Moisés, quando você chegar diante de Faraó, diga ‘Eu Sou me enviou a vós! Eu Sou me enviou a vós’, diga só isso!”

*Transcrito a partir de uma fala na cidade de Recife em Agosto de 2015
 

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