sábado, 3 de outubro de 2015

Estar morto é estar vivo no ego



Há algo presente que não muda: este Algo presente que É você, que não está no tempo. O corpo é algo presente naquilo que chamamos de tempo, mas que é apenas pensamento.  O pensamento é tempo e o substrato de toda a manifestação, de tudo aquilo que tem forma, e, naturalmente, o corpo aparece, também, com uma forma, que, também, é pensamento.  Ramana costumava dizer que o corpo é a doença, enquanto que você, como Consciência, Verdade, Presença e única Realidade, não pode ser tocado pelo pensamento. O corpo presente aí, como uma expressão, aparição do pensamento é algo destinado a desaparecer, portanto, é melhor ir além disso, além da ideia “eu estou aqui”, tendo como referência o corpo. Não é a natureza do corpo estar saudável, e ele sempre terá alguma coisa, essa ou aquela outra forma de mudança, porque tudo está mudando; tudo está aparecendo e desaparecendo. 

Portanto, aqui em Satsang, em seu viver, em seu dia a dia, eu recomendo a não identificar-se com o pensamento, não importa a forma que ele assuma. O corpo, para cada um de nós, é a forma mais íntima do pensamento... o pensamento que mais nos ocupa, atrai, chama a atenção e valorizamos; assim, o corpo é algo muito íntimo. O medo da morte é algo muito real no pensamento, para o "mim", o "eu", e sentimos que qualquer coisa que venha a oferecer perigo a este "pensamento mais íntimo" é muito assustador; por isso temos muito medo da doença e de sermos assassinados. Perder o corpo, para nós, é como perder a nós mesmos, é como desaparecer no nada. Então, jamais aceitamos com naturalidade aquilo que é tão natural. A morte é algo muito natural. Tudo o que está vivo morrerá. Tudo o que aparece desaparecerá. Tudo o que está aqui logo não estará mais; não na forma, não na expressão, não como mais uma aparição fenomênica, do pensamento.  

Eu lhe recomendo morrer, antes de ser morto: morrer para o pensamento, para toda essa sua história pessoal, que está ligada à ideia "eu sou alguém", e este "eu sou alguém" é, basicamente, a ideia "eu sou o corpo".

A real morte não é essa morte, que é a morte da identificação com o pensamento, desta ideia "eu sou alguém", "eu estou no corpo", e sim aquela morte que a grande maioria experimenta por 30, 40, 70 e, às vezes, até 100 anos: uma vida inteira baseada na crença de "ser alguém" ganhando e perdendo, saudável e doente, feliz e infeliz, pobre ou rico, amado ou odiado, por amigos e inimigos... A vida no ego - isto é estar morto. Quando a Vida é Real, quando você é Real, você não precisa viver 100 anos - basta um minuto. Basta a Consciência desta realidade presente num minuto - um minuto além do pensamento, um minuto cronológico além do tempo psicológico... um minuto. É isso mesmo que vocês ouviram: a Verdade da Vida está além do tempo, além da forma, além do pensamento, além do mundo. O corpo, a mente e o mundo são aparições para os sentidos, uma experiência sensorial, enquanto que a Vida, a Verdade, a Liberdade e a Consciência se mantêm, e, também, você, em sua Natureza Real, se mantém além do corpo, da mente e do mundo. 

Não se separe da experiência dessa aparição, que é a aparição do corpo, da mente e do mundo. Não se separe disto, mas não se identifique com isto! Acolha e abrace isto, reconhecendo a limitação dessa aparição. Quando isto está claro não há mais medo, o que lamentar, do que se queixar, pois é somente o corpo, em seus desconfortos, em sua dor, desaparecendo. 

Participante: Mestre, todo senso de autopreservação é egoico? Toda preocupação consigo mesmo é da mente egoica?
Mestre Gualberto: Todo senso de autopreservação é algo puramente fisiológico, biológico.  Algo puramente funcional não é egoico. Tudo aquilo que está vivo está desfrutando, de uma forma ou de outra, da vida, e assim quer continuar desfrutando. Portanto, esse medo biológico, que faz o corpo se autoproteger, é uma forma da inteligência Divina brincar. Isto é algo muito inteligente, mas de uma inteligência brincalhona de Deus, e,  no entanto, percebemos um medo completamente diferente em nós, baseado no desejo de continuidade, a continuidade do "eu", desse "alguém" que acreditamos ser, identificados com o corpo, e essa autopreocupação é puramente egoica. Esta autopreocupação nos faz desejar ter filhos, para mantermos nossa continuidade, para continuarmos vivos - vivos como "alguém". Percebem o que estamos colocando? 

A vida na forma desfruta da vida na forma, mas a vida na forma é essa Presença Real, imutável. Enquanto a forma desfruta dessa Presença, ela quer essa continuidade, mas, quando o sentido do "eu" aparece aí, aquilo que é inteligente, natural, se torna uma grande dor. Há esse medo, e o ego é puro medo, o medo de "deixar de ser" e de "não ser", identificados com a mente. Enquanto "você" se mantém identificado com o sentido de "ser alguém", isto está muito embolado aí, porque este "você", que você acredita ser, está se identificando com o corpo, tentando preservar a si mesmo, como sendo "alguém", como sendo este "pensamento mais íntimo", que é o corpo. Ramana recomendava a pergunta “quem sou eu?”  Percebem a diferença?

Se o corpo está respirando, ele estará sempre buscando a próxima respiração; a graça, a alegria, o desfrutar da próxima respiração, e é natural que seja assim. No entanto, a mente egoica não está ocupada com a próxima respiração, pois ela está ideologicamente na imaginação, como uma crença, buscando a continuidade de "ser alguém". Para a mente, não é próximo passo, é o futuro. Não é o simples e natural próximo passo, é o futuro, são milhões de respirações que nunca terminam, uma vida eterna na egoidade, nessa ilusão de "ser" e de "vir a ser". Muito claro isso. Como é que parece isso para você? Que impressão você tem do que está ouvindo? Louco? Estranho? 

Vamos ficar por aqui. Namastê!

*Transcrito de uma fala de um encontro online no dia 25 de Setembro de 2015
Encontros online via Paltalk todas as segundas, quartas e sextas às 22h - Particpe! 

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