segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Ser alguém é uma crença


O que o sentimento representa? Não dê importância ao pensamento. Todos são mentirosos, são suspeitos, trazendo um sentimento falso. O sentimento só é real quando ele não tem pensamento. Se ele tiver pensamento, é o pensamento produzindo isso. Quando eu digo “ele é real”, é real só no sentido de que ele está passando. Então, na verdade, ele não é real, apenas uma coisa passando pela máquina, pelo mecanismo. 
É que vocês, durante muito tempo, têm valorizado muito o sentimento, sobretudo como uma história - a história que o pensamento conta sobre ele. Isso é uma mentira, é o ego. Se o sentimento está aí, ok, ele tem que se revelar. Essa é a mecânica do sentimento: a revelação do que ele tem que mostrar, mas não dê história a isso. Se você der história, será capturado de novo no ego. Não capture o sentimento, apenas constate sua presença e permita que ele se revele. Quanto ao pensamento sobre ele, este é dispensável. O sentimento é real, o pensamento é uma fraude... o pensamento sobre o que estou sentindo. Quando digo “eu sentindo”, não tem o “eu”, somente o sentir. Por isso o sentir é real, e é real somente como algo passando. O pensamento não; ele é completamente uma fraude, uma mentira. 
A valorização do pensamento tem sido muito forte por vocês. Valorizam o pensamento e se apoiam no sentimento para ser alguém: “Alguém disse algo que me aborreceu”, ou “disse algo que me preocupou”, ou “disse algo que me entristeceu”. Isso vai trazer um sentimento específico, mas esse “alguém” é só pensamento agora, é só imaginação. Se você não valorizar o pensamento, o sentimento desaparece - esse sentimento que é uma fraude. Ele vai mais rápido do que esse sentimento sem pensamento que se apresenta aí, que também desaparece. 
Participante: Mestre, já aconteceu várias vezes comigo, aqui em Satsang, de começar a chorar sem parar, mas nem tinha história, eu nem sabia o porquê. Só havia o choro.
Mestre: Então, esse choro, esse sentimento, é bem natural. É a máquina se organizando de novo. Ela está desequilibrada, mas está se organizando.
Participante: Como o riso também. Quando a pessoa fica rindo, rindo, rindo sem saber o porquê está rindo.
Mestre: Sim, o riso também. Agora, se o pensamento entra e começa a contar uma história, essa história é a mente egoica se apavorando com o medo, falando o que é o medo, explicando o que ele é, querendo mudar isso. É claro, a história quer mudar o quadro. Quando a história quer mudar o quadro e você está capturado por isso, você é uma pessoa. Quando você não está capturado pelo pensamento, ele não tem como ser alimentado. 
Quero que você permaneça comigo nesse "lugar" que é imutável, que não escuta histórias, que não sustenta sentimentos, nem emoções, nem sensações. Permaneça comigo nesse "lugar". Eu Sou esse Espaço... Esse espaço que você É aí, nesse "lugar". Este é o Espaço, este é o lugar, mas a mente adora contar histórias.
Participante: A gente sente uma angústia, e pensa que ela não pode ter vindo do nada. Aí já começa a querer se livrar dela...
Mestre: A mente diz que não veio do nada, mas tudo está vindo do Nada, inclusive o próprio pensamento. E quando digo “do nada” é do Nada mesmo! Não tem significado nenhum, é só algo passando pela máquina. O sentimento e o pensamento estão vindo do Nada, voltando para o Nada, mas o pensamento quer dar um significado: "estou angustiada", ou "estou triste", ou "estou deprimida porque"... aí conta uma história. E, para essa história, a pessoa precisa do tempo, precisa do pensamento, então ela precisa do passado ou do futuro. É aí que você aparece como um ego, como uma pessoa. Você quem?
Não segure o pensamento, não se apoie no pensamento, não se apoie no tempo, não se apoie nesse sentido de ser alguém. Pare de contar histórias! Viva sem a mente. Viva sem o futuro e sem o passado. Viva sem amigos, sem inimigos, sem pessoas das quais você gosta e não gosta. Viva sem isso! Tudo é pensamento! São histórias que o pensamento conta sobre alguém que você acredita ser, sobre outros que você acredita que existem. É tudo uma questão de trabalho, de ficar somente no ouvir, no escutar, no sentir, mas não ser importante, não se dar essa autoimportância: “alguém está falando mal de mim”; “alguém não me compreendeu”; “alguém está me rejeitando”; “alguém não gosta de mim e eu gosto tanto de alguém..." É tudo a mesma história - a história que o pensamento conta sobre o "alguém" que você acredita ser. O sentimento, em si, é muito belo, quando é só sentimento, mas é muito feio, quando ele tem uma história.
Participante: Essa é a lição de casa, não é? Isso é algo que todos podemos fazer, que é trazer a atenção para esse presente momento, observar esses vícios, esses hábitos, certo? Eu percebo o hábito do pensamento de querer sempre justificar o porquê daquilo, seja o sentimento ou outra coisa, para si mesmo, em primeiro lugar, e depois para os outros.
Mestre: É... faça isso. Não alimente isso. Não alimente a história de "alguém", de ser "alguém". Não alimente a oportunidade que a mente egoica tem de se manter nessa continuidade. Então, o dever de casa, como foi colocado, é este: faça isso lá, faça isso aqui, faça isso em toda parte!
Não adianta você olhar hoje, que é um dia de sol, e ficar reclamando a falta de chuva. Isso não vai trazer a chuva! Não adianta você exigir que o sol vá embora e as nuvens cubram o céu e a chuva desça sobre você. Isso é uma exigência injusta, descabida, inútil. É você tentando mudar o que É. A vida carrega toda essa beleza porque ela é o que é. Nada pode ser acrescentado a ela, nem tirado dela, porque você quer.
Diga sempre isso para si mesmo: “Eu não me importo”; “eu não me importo com o que penso, com o que pensam, com o que sinto, com o que não estou sentindo”. Diga sempre para si mesmo: “Eu não me importo”; “eu permaneço intocável”.
A vida de muitos é uma vida de dependência de sensações, de sentimentos, de emoções e de pensamentos. A vida de muitos, que são a maioria, é assim porque eles se importam. Importam-se com o que pensam sobre si mesmos, com o que outros pensam sobre eles... Se é dia de sol, se é dia de chuva... Querem que o sol se abra porque está chovendo, e eles não estão felizes com a chuva, ou se importam porque querem que o sol se esconda, as nuvens cubram o céu e a chuva venha. Importam-se porque é frio, porque é calor... Porque não deu certo, ou porque deu certo, mas não tão certo como eles esperavam...
Você jamais estará feliz sendo "alguém", porque ser alguém, aqui, é uma crença - uma crença que distorce tudo, anula tudo, falsifica tudo. Você para de ver a beleza do mundo como ele é, da vida como ela é, quando “você” está aí. Fique atento a isso! Aplique seu coração inteiramente nisto que É:  quando é inverno, é inverno; quando é verão, é verão; quando é primavera, também, é primavera... Quando é dia de sol, é dia de sol; e quando é dia de chuva, é dia de chuva. Quando há uma emoção de alegria, é alegria... Quando é de tristeza, é tristeza. Quando há prazer, há prazer, e quando há dor, há dor. Diga: “Eu não me importo”; “isso ainda não é um problema para mim”. Quando houver pensamento, tem pensamento; quando não tiver pensamento, não tem pensamento. Há uma ilusão comum entre os buscadores: eles querem cessar o pensar.
Não crie história, não interprete, não crie conflito com o que É. Não seja tão pessoal. Não seja nada pessoal! A vida não está girando em torno de você. Não é verão para você ser feliz, não é inverno para você se sentir deprimido no frio. Não é um dia de sol para você ficar alegre e ir para a praia. Não é dia de chuva para você ficar em casa vendo “Netflix”. Não tem nada acontecendo para fazer a sua vida ser como ela é. Ela é o que ela É! Não tem nada acontecendo para ela ser assim. Ela é assim, porque é assim! Você não tem importância nenhuma nisso.
Então, não diga: “Eu preciso me defender desse medo”; “Preciso me defender desse sentimento”; “Preciso ser amado por alguém”; “Preciso ter alguém para amar”. O que significa isso?  “Eu preciso ter alguém”; “Ninguém me quer”. Tudo fantasia! Acolha o que É! Fique com o que se apresenta e pare de dar importância a si mesmo. Então, diga: “Eu não me importo”, ou: “Vou acolher, estou acolhendo... ok, não me importo. Estou acolhendo...”
Eu quero contrariar o seu ego. Eu quero que você abandone as suas escolhas. Eu preciso que você confie em mim. Quem está falando? Alguém? Não. Quem está falando? Essa mesma Consciência que brinca o tempo todo com a pessoa que você acredita ser.
Então, diga: “Seja feita a Tua vontade!”

*Extraído de uma fala ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em Setembro de 2015


Um comentário:

Deixe aqui o seu comentário

Compartilhe com outros corações