quarta-feira, 16 de setembro de 2015

O problema não é o pensamento



Participante: Mestre, como é essa história que a gente ouve por aí, de místicos dizendo que é preciso calar a mente e o pensamento? Porque, segundo eles, calar a mente não é suficiente para parar o processo de pensar, e é esse processo interno de pensar que tem que calar.

Mestre: Não, não é que tenha que calar. Isso simplesmente desaparece! Não é que “tem que". O problema com o místico, e com os que praticam a meditação, é tentar aquietar a mente. A mente não se aquieta! A mente egoica desaparece! Percebem a diferença? O que desaparece é a mente egoica, não a mente funcional. O único problema do homem é a mente egoica. É isso que o faz falar sozinho, viver esse monólogo ou diálogo interno que não para. 

Talvez você não conheça isso que estou falando, esse monólogo, diálogo interno... Isto é o que desaparece, porque é completa loucura, e não tem lugar aí. Isto é prova de insanidade. É pura insanidade você falar consigo mesmo: “por que eu fiz isso?”, “eu não devia ter feito aquilo”, “como eu falei aquela coisa?” Isto é pura insanidade, e é considerado algo normal. E é "normal" mesmo, porque ser insano é normal. O que não seria normal é a ausência disto,  que não seria "normal", mas seria natural! 

O que desaparece, então, é esse diálogo interno, o monólogo interno. Isso é a mente egoica no movimento dela de se autoafirmar, autorreconhecer, autoproteger e autoposicionar. Assim, ela mantém esse diálogo, e isso é "normal". Como não é natural, então é isso que desaparece. Eu disse desaparece! E é por isso que eu não falo em "aquietar a mente".

No entanto, é possível, também, aquietar a mente, mas uma mente aquietada é como uma fera amarrada. É possível amarrar uma fera com bastante treino, e é possível você aquietar a mente. As técnicas de meditação e de respiração são todas nessa direção: ajudá-lo a ter uma mente silenciosa. Na verdade, é uma mente aquietada, porque mente silenciosa é contradição de termos. Não é possível haver mente e silêncio. Ou você tem a mente, ou tem o silêncio. Ou há silêncio ou há mente. 

Então, a mente não pode ser aquietada, embora isso seja possível - assim como é possível amarrar uma fera - através de práticas místicas, esotéricas, meditação, disciplina... Tem algumas escolas que ensinam você a fazer isso. Ensinam você a aquietar o desejo sexual, por exemplo. Portanto, dá para aquietar o desejo sexual, mas é uma fera amarrada; dá para aquietar o pensamento, mas é uma fera amarrada. 

O pensamento não é o problema; a desordem do pensamento sim! A desordem do pensamento é o pensamento se passando por você. Isto é o ego, e isto não tem cura. Essa fera, esse pensador, esse pensamento em desordem pode apenas ser aquietado, mas lá ainda continua uma fera amarrada. Por isso que nenhuma prática é de real ajuda. Não é possível ordenar o pensamento; é possível aquietá-lo. Porém, o pensamento, em si, não é o problema. A ilusão é que a perturbação que você sente, e é criada pelo pensamento. Eu estou dizendo que a perturbação que você sente é a confiança de que esse pensamento é você! Essa é a desordem do pensamento!

Percebem o que quero dizer?

Pensamento é uma aparição, uma aparição em desordem, e você lida com essa desordem como você lida com o fogo. Quando você vê o fogo, mete a mão dentro dele, ou só o olha de longe? Você vai lá meter a mão dentro do fogo? Não! O pensamento é algo assim. A desordem que o pensamento assume aí é porque você "mete a mão lá dentro", mas se você deixa o pensamento em paz, ele o deixa em paz também; se você não se embola com o pensamento, ele não se embola com você. Isso não vai silenciar a mente, vai exterminar a mente egoica, porque você não dará nada a ela, se não se embolar com ela. 

A questão é que o ego é assim: “eu não posso pensar dessa forma”, “é errado pensar assim”, “eu não quero pensar desse jeito”, “esse pensamento não é meu”, e por aí vai... Isso já é a mente egoica. Ela funciona assim mesmo: “esse pensamento é bom”, “esse é ruim”, “eu estou pensando”, “eu tenho certeza”, “não, isso não é um pensamento”, “eu tenho certeza, eu estou vendo isso”. Isso é o ego, é a mente egoica. Ela funciona assim, se passando por você. Ela diz: “eu estou pensando”. Só que isso é a mente egoica! Ela se separa do pensamento e diz: “eu estou aqui e esse pensamento está ali”. Isso já é ela fazendo! Isso é estar identificado, embolado, confundido com o pensamento.

Há algo ciente disso, desse movimento, fora dele. É a Consciência dessa consciência! E Isto não é o ego, não é você. Isto é Deus, sua Natureza Verdadeira, a Consciência desse pensador pensando! Esse pensador pensando é como a consciência desse objeto. Você está consciente desse objeto? Todo mundo está consciente desse objeto? Sim? Agora, há a Consciência de estar consciente desse objeto. Então, “estou pensando”, mas há uma Consciência desse “estou pensando”, e ela é anterior a esse “estou pensando”. Isso é Ser, é Silêncio, é Presença, é sua Natureza Divina, é a sua Natureza Real. 

Tomar consciência desse objeto é como tomar consciência desse pensamento: uma coisa inofensiva. No entanto, acreditar que Você é o pensamento quando ele surge é insanidade; acreditar que Você é o sentimento quando ele surge é insanidade.

Participante: Mestre, é possível ficar nessa Consciência?

Mestre: Essa é a sua Natureza.

Participante: É o nosso trabalho, é isso?

Mestre: É a sua Natureza Real!

Participante: Olhar de fora? Apenas ser Consciência daquilo.

Mestre: Ser Consciência daquilo que está sendo consciente! Ser Consciência desse pensador pensando, ser Consciência desse observador observando, ser Consciência desse ouvinte ouvindo. Consciência! Quem ouve esse som? Você diz: “eu”. Ok! Mas dê um passo atrás, e eu pergunto: quem ouve esse som? 

Participante: é o próprio ouvir.

Mestre: Esse próprio ouvir é esse Real Você, é essa Real Consciência! Ele não ouve o som, Ele é o som! Ele não se separa da experiência como: “eu sou um e o som é outro”, ou “eu estou ouvindo”, “eu estou pensando”, “eu estou sentindo”.

Participante: Então, é esse o ponto? Tem só o ouvir, mas não tem ninguém ouvindo, e acaba esse sentido de separação. É isso?

Mestre: Isso! Exatamente! Se o "sentir” está presente, é o "sentir” que está presente, mas não para você! Se estiver presente para você, já é esse “você" experimentando o "sentir”. O pensamento está presente? Ok, o pensamento está presente. Eu não vou brigar com ele. Quem iria brigar com ele? 

Percebe a sua pergunta? "Ah, então o pensamento silencia?" Não. O pensamento não tem que silenciar, porque o problema não é o pensamento! O problema é a ideia do pensador!

Vocês estão ouvindo, gente? Estão acompanhando? 

Isso é muito delicado. Você acha que está ouvindo, mas não está ouvindo. Eu estou perguntando se você está ouvindo nesse sentido. É possível somente ver, sem o observador? Porque se o "ver” estiver presente sem o observador, então não há desejo, não há comparação. É possível só ouvir, sem o ouvinte? Porque esse “ouvir sem o ouvinte” pode ouvir sem ficar ofendido, sem ficar magoado, quando uma voz diz: estúpido, idiota, arrogante, cretino... Se houver só o "ouvir”, não tem problema algum! Percebem como isso é muito delicado?

Você acha que não tem “alguém” ouvindo, mas basta eu dizer “Cretina!”, ou “Estúpido!”, que você para e diz: “Epa! Como é?” “Como ele pode falar assim comigo?” Você acha que não tem “alguém” vendo, mas aí você diz: “Por que ele está fazendo essa careta para mim?” Se ficar só o "ver”, não será uma careta para você, será apenas uma careta. Mas se você se pergunta: “Por que ele fez isso para mim?”, é porque não há só “o ver”, “você” está aí vendo.

Então, na verdade, você nunca vê as coisas, nunca as escuta, nunca olha sem o observador, nunca escuta sem o ouvinte, e, por isso, se ofende, se defende, se entristece, se aborrece quando vê as coisas. É sempre pessoal: “eu não vou aguentar, Mestre!”, “eu não vou suportar, Mestre!”, “me ajuda nessa hora, Mestre!” É sempre a mesma história: “entendi, agora entendi”, ou, “eu não estou entendendo nada”, “o que você disse é comigo, Mestre?”, “mas logo eu que sou, que faço, que ajudo tanto, que participo, que estou em uma entrega tão profunda?"; ou "eu que estou entregando toda minha vida a Você?”, “Eu? Se fosse fulano... mas eu?” Acompanham isso?

Participante: A gente está o tempo todo identificado com isso. Nunca está na Consciência da mente.

Mestre: Bela sacada. “O Mestre não sorriu para mim hoje”, “hoje ele está tão mal-humorado”, “ele é menos do que Deus hoje, muito menos do que Deus”, “hoje o Satsang está muito bom”, “não, está horrível, não estou entendo nada".

*Fala transcrita de um encontro na cidade do Rio de Janeiro em Agosto de 2015


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe aqui o seu comentário

Compartilhe com outros corações